D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal
portuense _Diario do Commercio_, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda
sobre a tilia:
«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam
n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das
Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de
pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é
verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam,
dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra
o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o
Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um
sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases,
sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades
da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura
salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de
flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.
Ah! como são bellas as tilias portuenses!
Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D.
Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e--confessem!
confessem!--nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de
folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma
elegante toilette _pompadour_, na Praça de D. Pedro--é o cumulo da
audacia e do protesto contra o _meio_, mesmo em face do _domus
municipalis_, que é o grande laboratorio das coisas sujas.
Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda,
pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de
crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D.
Pedro.
Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella
arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na
terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente
assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts
pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais
longe.
Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que
tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no
regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que
era então rei de Portugal.
Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste,
depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo,
beijando uma gotta de sangue.
Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer,
florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de
lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra
vida, em noites de luar.
Ah! como eu amo as tilias».