Na _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_ o que há, o que a

caracteriza é uma adaptação imediata de movimentos e sensações de

ocasião. Estes actos não se manifestam, não se repetem senão quando

estímulos da mesma natureza actuam em circunstâncias semelhantes.

Por exemplo certos movimentos que se executam no decurso do jôgo do

_foot-ball_, movimentos de equilíbrio, de ataque, de defesa ou melhor os

movimentos que, quando tropeçamos e vamos a cair, fazemos para nos

equilibrarmos.

São as próprias sensações que experimentamos, que _directamente_

provocam e regulam os actos de adaptação. De factos em relação com esta

espécie de inteligência tratei eu num artigo sôbre mutilados da mão, que

publiquei na _Medicina Moderna_ do Pôrto, com o título _Inteligência

motriz_.

Na _Inteligência representativa_ os actos da adaptação podem ser

provocados e regulados apenas por símbolos que se tenham associado a

sensações anteriores. O acto pode executar-se em virtude duma

experiência anterior regulada por acções semelhantes que víssemos

executar ou que nos fôssem descritas. É a experiência anterior de outros

a regular a nossa.

Na _conceptual_ ou _conceptiva_ o acto de adaptação revela-se não só na

ausência de uma experiência _do mesmo tipo_, feita pelo próprio ou por

outrem, vista ou descrita, como se dando nas mesmas circunstâncias, mas

em resultado de experiências _várias e diferentes_, do próprio e de

outros.

Uma pessoa quando salta dum carro em movimento, pode fazê-lo com sucesso

ou porque já o tenha feito outras vezes, e portanto associe as acções

sensoriais de momento às reacções anteriores (_inteligência

senso-motriz_), ou porque já tenha visto saltar outrem ou lhe tenham

dito como se deve saltar (_inteligência representativa_), ou porque

reacções diferentes que tenha por si mesmo experimentado, observado ou

visto descritas por outros, se tenham associado e combinado por forma a

gerar o conhecimento das leis dos corpos em movimento, o que associado

às acções do momento regula o acto de adaptação (_inteligência

conceptual_).

Em tôdas estas formas de inteligência se verifica a associação dos

resultados das experiências anteriores aos das experiências do momento,

da mesma natureza ou não. O acto intelectual é um acto de adaptação e de

revelação da memória associativa.

Na escola, onde se governa e conduz a experiência do indivíduo, em

atenção ao futuro, se utilizam ou devem utilizar e cultivar todos os

três tipos de inteligência, e, para a instrução, principalmente os dois

últimos.

Mas nem tôdas as idades, nem em todos os indivíduos da mesma idade a

_inteligência_ tem o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem o

interesse que para o professor tem o saber e o poder analisar os actos

intelectuais, por forma a, se assim se pode dizer, obter a _fórmula

qualitativa e quantitativa_ da inteligência de cada um.

Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se a inteligência? Pode

esta avaliar-se? Pode ser medida? Pode.

A inteligência é, se quizerem empregar os termos de Saffiotti: «_a

capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e

as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações

interpretação adequada e conformar com ela a sua reacção_».

A inteligência, perante isto e perante o que lhes tenho dito, deve

depender da estrutura do indivíduo, das propriedades inatas, do momento

do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza e valor da sua experiência

anterior, da sua cultura, regulada ou não intencionalmente por outrem.

Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se sôbre a inteligência,

estudando a estrutura, as características biológicas do indivíduo, como

se pode até certo ponto julgar do valor de um motor, das suas

capacidades, pelo estudo do maquinismo, da sua organização, da sua

anatomia, da sua estrutura, como se podem prever certas propriedades

químicas, certas reacções, observando caracteres organo-nolépticos e

físicos de certos corpos. É esta a base da avaliação da inteligência nos

métodos que assentam no estudo das correlações psico-somáticas e

psico-fisiológicas.

A inteligência pode ser avaliada tambêm analisando a forma, o mecanismo

de certas reacções psíquicas elementares, sujeitando o indivíduo a

_provas_ psíquicas de diferente tipo e natureza em que sobretudo influi

a maneira da actividade intelectual, o tipo ou a espécie da

inteligência.

Pode mesmo usar-se provas experimentadas em muitos, usando o que se

chamam _tests_, que não são outra cousa do que verdadeiros _reagentes

mentais titulados_, ou, se quizerem tambêm verdadeiros _padrões, tipos

de reacção_, em que a forma desta e a sua velocidade, foi préviamente

_observada e medida em muitos_.

É um tipo de avaliação em que se estuda ou analisa principalmente o

mecanismo do acto intelectual, decomposto em elementos. É a base dos

métodos de avaliação fundados no estudo das correlações

psico-analíticas. Mas assim como na apreciação ou na classificação de um

tipo de vinho não basta a analise própriamente dita; há que proceder a

uma apreciação global, tendo em vista o fim comercial, por exemplo, a

que visa a apreciação, assim tambêm no exame de inteligência é por vezes

necessário recorrer a um exame global, em que não se atende apenas ao

mecanismo do acto, mas tambêm à sua finalidade e à finalidade da sua

avaliação.

Ora o educador não deve apenas preocupar-se com o mecanismo do acto

intelectual do aluno, para o caracterizar e escolher o método de ensino

que mais convenha. O educador não toma o aluno _em branco_, se assim se

pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem de regular, a experiência

intelectual que êle tem de conduzir, tem um passado que influi e está em

estreitas relações com os fins educativos. A experiência anterior do

aluno tem uma grande importância e valor, e está dependente da sua idade

e do meio em que viveu e vive.

Ao professor, no exame escolar da inteligência, convêm-lhe _reagentes_,

_tests_, que precipitem em globo, em massa, se assim se pode dizer, a

inteligência e dêem a forma e a natureza desta, e tambêm a da sua

experiência anterior.

Se há questão pedagógica em que se possa falar de criança portuguesa, e

duma maneira geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, é a

proposito da inteligência.

O momento histórico regula a inteligência e deve regular a sua formação.

A psicologia de que carece o educador não pode nem deve viver afastada

da ética. E se há questão psicológica em que há que atender aos fins da

educação, é a da inteligência.

Recordo-me da profunda emoção que me causou a leitura das palavras de um

formoso livro, um dos que mais podem contribuir para a cultura do

entusiasmo pela carreira de professor, o livro de Münsterberg: _A

psicologia e o mestre_. Recordo-me. Diz êle e eu repito:

«_Agora é evidente que o estudo dos meios psicológicos póde ser útil

sómente quando as aspirações do mestre tenham sido determinadas pela

investigação ética independente do filósofo. Porêm tão prontamente com

estes fins, os resultados cada, vez mais ricos da psicologia

experimental, devem ser levados ao mestre de tal modo que êste possa

conhecer e escolher os meios úteis para a satisfação das suas

aspirações._»

A Educação é uma das artes em que a Psicologia serve a Ética.

Está aberto o curso de Psicologia.

INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO[12]

/#

«Notre réprésentation de la matiére est la mesure de notre action

possible sur les corps; ele résulte de l'élimination de ce qui

n'interesse pas nos besoins et plus géneralemente nos fonctions».

Bergson: _Matiére et mémoire_

«Il faut respecter en nous les lois de la nature, acepter les

devoires nés de l'organisme, acomplir les fonctions pour lesquelles

on est fait, avec le pouvoir énergétique que l'on posséde. Le but

de la vie c'est tout le _perfectionement_ possible, physique ou

psychique, par la méthode et la discipline».

Albert Deschamps: _Les maladies de l'esprit et les asthénies_.

«Non seulement une conception mécanique de la vie est compatible

avec l'ethique; ele semble être la seule conception de la vie, qui

puisse amener á comprendre oú est la source de l'éthique».

L[oe]b: _La conception mécanique de la vie_(tradução francesa).

#/

Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta pela adaptação, é o esfôrço

para o ajustamento do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a êle, ou

ajustando-o a si próprio. Educar é favorecer, conduzir intencionalmente,

metódicamente êsse ajustamento, essa adaptação.

Ora o indivíduo possui em si faculdades, capacidades de adaptação, de

ajustamento, de assimilação, de utilização do meio em que vive. Essas

possibilidades revelam-se na sua actividade, na maneira porque procede,

e desta actividade uma parte, uma forma há que é herdada, que nasce com

o indivíduo, que é inata, que não é determinada pela experiência

individual, que não é aprendida e outra que é adquirida, que resulta da

experiência de cada um, dirigida ou não por outrem.

Por vezes, quási sempre, a forma da actividade inata é favorável ao

ajustamento do indivíduo ao meio, à adaptação, às condições em que nasce

e ordináriamente se encontra, e a maior parte das vezes tambêm a forma

de actividade adquirida é como esta favorável ao ajustamento.

As condições mantendo-se as mesmas, a adaptação verifica-se, as

necessidades são conformes à capacidade de utilização dos recursos. O

indivíduo está adaptado ou adapta-se por instinto ou por hábito. Se,

porêm, as circunstâncias em que vive o indivíduo são muito variáveis, se

se rompe o ajustamento, se há conflito entre o instinto ou o hábito e as

circunstâncias, o indivíduo pode ou não readaptar-se, pode ou não

assimilar o meio, utilizando-o, adaptando-o ou adaptando-se.

Concebe-se que haja seres que se adaptem, independentemente da

experiência, seres que nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, e

só neles e em precisas circunstâncias podem viver: seres instintivos,

ineducaveis, mas sôbre que o educador pode ainda assim influir,

colocando-os em meios os mais conformes com os seus instintos, e pela

forma mais conveniente à sociedade.

Concebe-se que haja seres que, alêm de se ajustarem por instinto a

certas circunstâncias possam em virtude da experiência, conduzida ou não

intencionalmente, adaptarem-se a ela, adquirindo estas formas de

actividade que se chamam hábitos, seres educáveis sôbre que o educador

pode actuar criando os hábitos que mais convenha, e que, como tive

ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o ano passado, deve fazer-se

segundo certas leis induzidas de experiências scientíficas que se têm

realizado.

Concebe-se finalmente que haja seres que não só se adaptem por instinto,

ou por hábito, que não só se adaptem a precisas circunstâncias, mas se

adaptem tambêm fácilmente a novas circunstâncias, encontrando nelas

sempre maneiras de se ajustar, de com elas viver em concordância, sêres

inteligentes, sôbre que o educador deve actuar variando o mais possível

as condições da experiência educativa, para que o mais possível tambêm

se apure este dom sublime da inteligência, do poder de utilizar o meio,

que é a base da felicidade e do progresso.

Só é verdadeiramente livre, quem é suficientemente inteligente.

Na lição da abertura do curso de aperfeiçoamento do ano passado, lição

que intitulei _Da inteligência do escolar e da sua avaliação_, lição que

devem ler, citei e adoptei, para certos casos, a definição de

inteligência do Professor Saffiotti:

«Inteligência é a capacidade de estabelecer novas relações entre a

própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar

destas relações, _interpretação_ adequada e conformar com elas a sua

reacção».

A inteligência é função portanto da interpretação e só se revela quando

a interpretação é adequada e a reacção a que a interpretação conduz por

sua vez se revela em actos de adaptação.

Ora é êste poder de _interpretação_ que se chama a apercepção. A

inteligência depende da apercepção, da maneira porque se interpreta.

Quem interpreta por uma maneira inadequada às conveniências da sua

adaptação, não se adapta, reage por forma desfavorável, não procede com

inteligência.

Vêem já portanto quanto interessa o estudo da apercepção. Leiam

particularmente sôbre esta o que vem da pág. 430 à 434 da tradução

francêsa do compêndio de Psicologia, de William James, 4.^a edição.

* * * * *

A interpretação ou apercepção depende de uma série de condições que,

como verão em James, Lewes denominou _a soma das condições

psicoestáticas_: a natureza do indivíduo, o seu carácter, a sua

experiência, a sua educação, os seus hábitos, o seu humor, etc. A

apercepção é uma faculdade intelectual contingente, que depende dos mais

variados factores, desde, os mais materiais aos mais espirituais, desde

as necessidades do corpo às necessidades do espírito (usando a linguagem

corrente), e sôbre que, tanto pode actuar o médico como o professor,

tanto o gimnasta como o filósofo.

O aspecto físico, a forma do corpo por si indicam tendências, certas

aptidões psicológicas, certas necessidades, certos interêsses que

conduzem a experiência do indivíduo por forma a ele entrar em contacto

com o meio em que vive, e que por sua vez conduz a determinada

interpretação dele, e portanto o leva a reagir e proceder e adaptar-se

por determinada forma. O psicólogo se quere descobrir a alma tem muito a

ganhar em conhecer o corpo. Se quere prever a fórma de reacção do

indivíduo tem que estudar os orgãos dessa reacção; se quere ser

psicólogo a valer tem que ser antropólogo. O que tudo quere dizer que:

psicólogo e antropólogo, psicologia da criança e pedologia física, se

devem entrelaçar, se podem e se devem estudar conjuntamente.

As anomalias mentais da criança explicam-se por vezes fácilmente se se

estudar a forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar do grau do seu

desenvolvimento físico, se se vê se o crescimento nela é normal ou não.

Há caracteres mentais que são sintomas de alterações orgânicas, e

perturbações do crescimento que o médico pode corrigir para o professor

depois aproveitar.

Há no nosso corpo um órgão até cuja influência sôbre a inteligência é

tal que alguem já o chamou _a glândula da inteligência_ (Pende).

É tal a importância que o estudo da anatomia e da psicologia tem para o

psicólogo que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, defeitos ou

insuficiências da energia orgânica, vícios de funcionamento orgânico, se

se caracterizam êsses defeitos pela insuficiência revelada nos actos de

adaptação social, e se vai até a explicar a moral e a filosofia de

muitos por essa insuficiência de origem fisiológica, aparecendo-nos a

moral como um ramo da biologia e a filosofia como uma arte dos

psicasténicos.

Pierre Janet, um dos maiores psicólogos da nossa época, foi até a

afirmar que talvez a filosofia não passasse duma doença do espírito. A

filosofia, de facto, parece a consequência, a revelação duma actividade

interpretativa filha de uma atitude mental, duma tendência anciosa para

a procura de relações entre as cousas e os factos que nos cercam e se

passam no meio que nos circunda, e que as dificuldades de adaptação, e a

insuficiência da adaptação em certos gera.

Seja como fôr, o que lhes quero acentuar é que o estudo da psicologia e

em particular o da _apercepção_, que será o objecto principal do nosso

curso dêste ano, tem muito a ganhar iniciando-se pelo estudo da

influência das condições orgânicas neste fenómeno, e mais

particularmente ainda pelo estudo da influência que tanto na forma do

processo aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, como na

natureza dos conhecimentos que se utilizam, influi o tipo fisiológico da

criança, as suas tendências inatas, a sua constituição, o seu

temperamento, e a fase do crescimento em que se encontra.

* * * * *

Esta influência do organismo na apercepção, de que lhes tenho estado a

falar, esta influência do condicionalismo fisiológico na interpretação

das circunstâncias e na adaptação a elas, é já uma influência do passado

no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, é, pode dizer-se a

tradução fisiológica do mote que tantos têm já glosado: _os mortos

mandam_.

Mas não é só por esta forma que o passado se mistura com o presente e

nos governa, nos impõe até certo ponto uma interpretação do presente, e

nos regula, a nossa adaptação às novas condições. É tambêm, e talvez

ainda mais, pelo resultado da nossa própria experiência, regulada,

intencionalmente ou não, pelos outros, resultado das modificações que

nas nossas reacções vai introduzindo o contacto diário com o meio em que

se vive, com a natureza e com a sociedade, resultado da interferência

das acções desta com as nossas reacções.

Dia a dia as nossas tendências, os nossos interêsses, o nosso saber, o

nosso carácter, a nossa experiência, são postos à prova, e dia a dia nos

vamos consumindo na emprêsa do ajustamento das nossas reacções às

circunstâncias.

Impressiona-nos mais não o que é própriamente mais forte ou mais novo,

mais estranho, mas o que é mais forte e estranho para nós, aquilo que é

novo para o ponto de vista dos nossos interêsses, que cahe na zona do

nosso saber e das nossas necessidades e que nós nos esforçamos

naturalmente por assimilar na tendência vital, orgânica, da nossa

adaptação. O que não sabemos, não vêmos; o que não experimentamos não

sabemos.

Palavras estranhas ou letras associadas mesmo ao acaso, tendemos a

interpretá-las e a lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, nuvens

que o acaso amontuou, manchas que o acaso estampa, borrões de tinta,

tudo tendemos a interpretar como se fossem formas conhecidas e segundo

os nossos conhecimentos e até certo ponto os nossos interêsses. Sempre o

passado a mandar; sempre segundo a nossa mentalidade e a nossa

experiência!

O mundo, a interpretação do que nos cerca, é função do nosso organismo e

da nossa experiência ou saber.

A realidade é uma interpretação, consoante os nossos interêsses, e os

nossos interêsses expressão da nossa organização e da nossa experiência,

experiência livre, ou intencionalmente condicionada, como sucede na

educação.

Meditem as palavras de Bergson que, livremente mas fielmente, julgo,

assim poder traduzir:

«...O nosso carácter, sempre presente a tôdas as nossas decisões é bem a

síntese actual de todos os estados por que já passámos. Sob esta forma

condensada, a nossa vida psicológica anterior existe para nós mesmo mais

do que o próprio mundo externo, porque dêste apercebemos apenas uma

muito pequena parte, enquanto que pelo contrário utilizámos a totalidade

da nossa experiência vivida já, experimentada e feita.»

Como que há, como Bergson tambêm diz, uma tendência constante do passado

a reconquistar a sua influência, actualizando-se.

Dir-se-ia que só o génio não tem passado.

Vejam quão longe nos leva, e interessante e vasto é êste tema da

inteligência e da apercepção.

* * * * *

Não imaginem, porêm, que apesar da _linguagem de subjectivo_ que venho

empregando, se não pode tambêm em _linguagem de objectivo_, ia dizer em

linguagem scientífica, em termos das sciências experimentais, não

imaginem que se não podem tambêm interpretar, adoptando uma concepção

mecânica da vida, estes fenómenos da apercepção e da inteligência,

própriamente dita.

Reportando-nos a um notável trabalho de Bohn sôbre a _dinâmica,

cerebral_, (_Rev. Philosophique_, março-abril de 1919) adoptemos a

concepção que êle defende de que nos fenómenos psíquicos se verifica uma

das grandes leis da sciência física, _a lei dos fenómenos recíprocos_.

Quando se comprime um cristal de turmalina o cristal por êste facto

electriza-se e a electrização desenvolve fôrças que se opõem ao

encurtamento do cristal.

Quando se aquece um cristal de turmalina o cristal electriza-se tambêm;

a electrização traz consigo um arrefecimento do cristal.

Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe a variação das

circunstâncias e tende a reagir de acôrdo com a interpretação adequada.

Afinal é um sistema de fôrças, orientado segundo um certo plano, que

caracteriza o cristal e que reage contra as acções que tendem a

perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe o plano.

Pode conceber-se tambêm o indivíduo como um sistema de fôrças organizado

segundo um plano hereditário, tendendo a reagir às acções externas ou

internas por maneira a opôr-se ao desiquilíbrio do plano da sua

organização, caracterizado por certas propriedades vectoriais, isto é

que se manifestam em determinadas direcções ou segundo certos vectores

(instintos, tendências, interêsses).

A cada acção vectorial ou polarizante corresponde, segundo Bohn, uma

acção recíproca inversa, despolarizante.

Quando se excitam os sentidos, a excitação que é transmitida ao cérebro

e dirigida depois aos músculos, às glândulas e às diferentes vísceras

provoca excitações em sentido contrário, que provêm de todos estes

domínios e vem por sua vez depois a reagir sôbre os primeiros

receptores. Os centros nervosos são excitados pelos sentidos e estes

excitados pelos centros nervosos. A interferência destas duas espécies

de ondas nervosas, daria a memória associativa, revelando-se na

apercepção e nos actos que a exteriorizam.

Estas concepções mecânicas têm a vantagem de lhes mostrar que afinal os

fenómenos que estudamos são fenómenos naturais que podem condicionar-se

e utilizar-se como os outros.

Quando o professor conheça bem esta mecânica poderá ser tão seguramente

útil como o engenheiro que lida com as outras máquinas.

Vêem tambêm como com estas concepções mecânicas se pode fácilmente

compreender como cuidando do corpo e educando-o se pode influir na

educação intelectual e moral, na maneira de interpretar o mundo e a

sociedade e de com êles harmonizar o indivíduo e fazê-lo viver em

inteligência.

Não imaginem que como muitos supõem se despreza, nestas concepções, o

valor das ideas, não. Simplesmente intrepretamos a acção destas e

utilizamo-las como no estudo dos tropismos se interpreta a acção e se

utilizam as substâncias sensibilizadoras.

Tudo que impressiona os nossos sentidos tem repercussão sôbre as nossas

vísceras, tem um coeficiente emocional que muito influi na interpretação

das circunstâncias e na nossa maneira de proceder, na nossa actividade

ou reactividade.

Os orgãos da circulação são fortemente impressionados e influem no

_tonus_ nervoso, na energia nervosa de que muito depende a nossa

inteligência. Glândulas há que, segundo a impressão ou excitação que

sofrem, segregam mais ou menos substâncias (_hormonas_) que muito

influem no _tonus_ nervoso e nos fenómenos gerais da nutrição, o que se

pode vir a observar em alterações ou certa orientação dos fenómenos de

apercepção e inteligência.

O problema do educador é essencialmente um problema psicológico: tornar

o real aceitável, e, conforme a natureza do indivíduo, pôr esta em

equilíbrio com a sociedade. Para isso carece de saber de que depende a

apercepção e como nela se pode influir; como afinal dar ao indivíduo a

noção mais conforme com a natureza do meio social. O problema do

educador é o problema da felicidade, que como diz Deschamps se pode

chamar uma «harmonia psico-social, uma adaptação completa dos desejos

aos poderes e dos poderes ao meio.»

É afinal um problema de conciliação, e esta deve ser o fim de tudo.

Está aberto o nosso curso de psicologia experimental em que este ano

particularmente me ocuparei dos fenómenos e estudo experimental da

apercepção, sobretudo debaixo do ponto de vista da genética.

Lisbôa, 8-10-920.

SÔBRE PSICOLOGIA, ESTÉTICA E PEDAGOGIA DO GESTO[13]

«qu'il soit permis à l'école d'insister sur ce qui nous rapproche.»

Buisson.

«O fim da arte é unir as almas, associando-as num mesmo

sentimento...»

Tolstoi.

«A simples cortezia de palavra, de expressão e de maneiras é já uma

revelação de delicadeza estética.»

Bernardino Machado.

«...si le geste est à la base de tous les arts, le principe de

toute éducation esthétique (et même de toute éducation intégrale)

ne sera-t-il pas la culture et le développement du sens créateur

des attitudes?»

Lalo.

«Deve pois ser a mímica a base de todo o ensino.»

Júlio Dantas.

Algumas lições de psicologia e pedologia · 第 6 / 8 段