Em regra, fizemos cortar um só sinal. Há vantagem, quando se quer

acentuar as diferenças individuais, em empregar dois. Toulouse e Piéron,

na sua _Técnica_, dizem obter-se por esta fórma, em condições normais,

um óptimo de diferença individual. Outro facto importante e interessante

que observámos, no dia da primeira experiência, foi o de, ao contrário

do que era de esperar, ver que as provas da tarde foram, em geral,

superiores em velocidade e correcção às provas da manhã. Nos mesmos

cinco minutos, os alunos, na sua maioria, percorreram uma maior extensão

de _test_, e cometeram menos erros. Ora era de esperar que, depois de

quatro horas de trabalho, a atenção tivesse baixado, em virtude de

fadiga, que era natural que houvesse. Êste paradoxo resulta em primeiro

lugar da surprêsa, da emoção que deve ter causado a experiência da

manhã. Os alunos nunca tinham sido sujeitos a ela; nunca tinham visto o

_test_. Deviam estar em estado emocional semelhante àquele em que nos

coloca um exame, de que nos arreceamos. Á tarde estavam mais calmos, e

de mais a mais vim a saber que se lhes tinha explicado o fim da

experiência e se os tinha animado. Alêm disso, nestes exames, o aluno

treina-se, aperfeiçoa-se, aprende a fazer o _test_.

E esta influência do treino deve entrar em linha de conta na

interpretação dos resultados das experiências. Para anular a influência

do exercício, aconselha-se a prática do _método das repetições_, que

consiste em «fazer um grande número de experiências preliminares até que

o exercício tenha produzido todo o seu efeito», até que o examinando

tenha adquirido todo o treino. Podem tomar um conhecimento suficiente

dêste método lendo o que sôbre êle diz Claparède no livro _Psychologie

de l'enfant_, que conjuntamente com o livro de Binet, _Les idées

modernes sur les enfants_, não me canso de aconselhar, e a que por mais

de uma vez tenho com razão chamado _breviários do educador_.

Para terminar o que desejava dizer sôbre as nossas primeiras

experiências, apontarei o facto curioso de termos observado duas alunas

da 4.^a classe da escola anexa, que percorreram o _test_, não deslocando

o olhar horizontalmente, seguindo as linhas, mas sim verticalmente,

seguindo as colunas. A propósito lembra-me dizer-lhes que há quem tenha

recomendado, como convindo mais à leitura, o dispor as palavras em

linhas verticais e não em horizontais, como fazem os japoneses, por

exemplo. Com o esfôrço e o movimento dos olhos que se executam

percorrendo uma palavra horizontalmente, pode-se, com a disposição em

linhas verticais, atravessar umas poucas de palavras e abreviar a

leitura.

O facto que se deu mostra que antes de iniciar a experiência com a prova

de Toulouse e Vaschide se deve explicar a maneira de proceder.

Habitualmente costumo destinar cinco minutos para a experiência e contar

no fim o número total de sinais existentes no trecho do _test_ que cada

um observou, contando depois o número de erros, conjuntamente os erros

de omissão ou falta de supressão, e os de troca de sinal, ou erros de

reconhecimento.

O número total de sinais existentes no trecho _visto em cinco minutos_

indica-nos, para cada um, a velocidade; a percentagem dos erros

indica-nos o grau de correcção.

Como os futuros professores, na sua escola, não vão ter naturalmente à

sua disposição fôlhas com os sinais de Toulouse e Vaschide, fiz praticar

alguns exames da atenção, pelo método de correcção de provas, utilizando

trechos do próprio livro de leitura dos alunos, fazendo-os cortar duas

letras igualmente visíveis, e atraindo igualmente a atenção, _b_ e _d_,

_b_ e _t_ por exemplo, mudando de letras de experiência para

experiência, para evitar a influência do treino. Fazia tambêm com que

todos os alunos cortassem letras no mesmo tempo (cinco minutos, em

regra, como já disse) e no fim recolhia os livros de leitura para tomar

nota do número total de letras escolhidas existentes no trecho examinado

em cinco minutos, e estabelecia a proporção por cento das faltas que

tivessem cometido.

Dos processos que praticámos aquele que particularmente aconselharei é o

de Van Biervliet, que já descrevi, e em que se mede a atenção visual

pela velocidade da correcção de provas, indicando para isso ao aluno um

trecho com um determinado número de uma ou duas letras escolhidas (todos

os _b_ e _d_ por exemplo) e fazendo-o verificar êsse número, devendo

recomeçar tantas vezes o trabalho quantas as necessárias para encontrar

o número indicado. A velocidade é expressa pelo tempo de duração da

prova, para cada um. Êste _test_ obtêm-se em regra em dois ou três

minutos, e os meus alunos que assistiram às experiências viram como êle

com facilidade permite comparar a atenção visual dos alunos de uma

classe, e agrupá-los debaixo do ponto de vista da atenção. As

experiências em que praticámos êste processo mostram-nos bem a

influência que a fadiga tem sôbre a atenção. Comparando os resultados

obtidos nas experiências da manhã, antes de começarem as aulas, com os

obtidos à tarde, ao fim delas, verificou-se com facilidade que o número

de alunos do primeiro grupo, o dos que realizaram a prova com mais

rapidez, diminuiu: e mais se viu que, naqueles que na segunda vez ainda

figuravam entre os primeiros, a velocidade era menor à tarde do que de

manhã; a prova durava mais. O processo que Van Biervliet recomenda, e

que é aquele de que estou falando, tem o inconveniente de exigir para

uma fácil verificação da duração da prova, e evitar que nos enganem,

exigir, dizia, o exame dos alunos por pequenos grupos, de quatro a

cinco. Para tirar conclusões é, como em todos os de que falei,

necessário repetir as experiências. Como questão capital, mais uma vez

direi que estas experiências psicométricas que se aconselham aos

professores, não têm em vista, como muitos supõem, distraindo-os das

suas funções de professores, pô-los na situação de investigadores ao

serviço da sciência, a perscrutar leis, ou descobrir novos factos, ou

verificar observações daqueles que com uma preparação, profunda e

especial, se consagram a estudos pedológicos. O professor deve fazer a

pedologia necessária para praticar o ensino que lhe pertence e

praticá-lo nas melhores condições, e no maior acôrdo possível com o

feitio do seu educando, e com as regras pedagógicas induzidas pelos

pedologistas de profissão, por aqueles que especialmente se preparam

para investigações scientíficas na criança, tendo em vista as suas

aplicações pedagógicas.

Os processos de medida da atenção visual de que falei podem ser

praticados pelo professor, sem que lhe tomem muito tempo, e podem

servir-lhe, desde que se não esqueça de certas precauções, tendo em

vista evitar a influência de factores que perturbam os resultados ou a

interpretação dos resultados destas experiências fáceis, mas não

simples, podem servir-lhe, dizia, para orientar convenientemente o seu

ensino, e verificar, como por exemplo Van Biervliet diz a propósito da

medida da fadiga escolar, verificar o valor, o interêsse da sua própria

maneira de ensinar.

* * * * *

Os _tests_ não servem só para julgar, por exemplo no nosso caso, do

valor da atenção e do gráu da fadiga; servem tambêm como meios

excelentes para educar, para treinar a própria atenção do aluno. Demais

êles têm para o aluno o caracter, que mais lhes prende e chama a

atenção, de verdadeiros jogos, e como tal podem ser aproveitados. Com o

fim de treinar a atenção podereis, sem inconveniente nem perturbação do

ensino, mandar de vez em quando, durante alguns minutos, mesmo no

decurso da própria lição, mandar cortar certas letras, uma, duas, três,

etc, e estimular os alunos para ver quem mais correctamente e

rápidamente as corta. Ensinareis assim os vossos alunos a orientar a sua

atenção, e a fixá-la. É uma verdadeira lição de vontade. E o exame dos

_tests_ e a sua apreciação contribuem tambêm muito para a educação do

professor; experimenta-lhe e disciplina-lhe a sua própria atenção e

paciência e dá-lhe, pelas conclusões a que leva, ensinamentos muito

úteis à pratica do ensino. Cria-lhes, alêm disso, um utilíssimo hábito

scientífico: o hábito de experimentar.

* * * * *

É das Universidades e dos seus cursos de psicologia e de pedologia, dos

seus laboratórios especiais, e da sciência livre e desinteressada e pura

que muitas vezes nelas exclusivamente se professa, que têm saído os

ensinamentos que transformam dia a dia a arte de ensinar e revolucionam

a sciência pedagógica.

Se não se quere ir até fazer com que a preparação do professor primário

se faça na própria Universidade, como nalgumas partes sucede, é

indispensável aproximar o mais possível a _escola dos mestres_ da

Universidade, para que ela sofra a benéfica influência desta _alma

mater_, onde se deve professar com todo o desenvolvimento a sciência da

criança, a antropologia da criança, a pedologia, a base da pedagogia

nova, da pedagogia scientífica, da pedagogia natural, da pedagogia

moderna, da verdadeira pedagogia.

Que ao menos, como Credaro fez em Itália, se crie junto às Universidades

_escolas pedagógicas_, cursos de aperfeiçoamento para os futuros

professores, e mesmo para os actuais.

Senhores:

Na Universidade é que se deve apurar no maior gráu possível o espírito

scientífico, o espírito de investigação e de crítica tolerante, o bom

senso, aquele que permite descobrir a realidade e as possibilidades. E

em nenhuma arte, mais do que na do mestre-escola, é necessário êsse

bom-senso, o excelente hábito de observar e experimentar, que leva ao

tacto e à paciência, indispensáveis para proveitosamente se lidar com

crianças e saber conhecê-las para saber ensiná-las.

A aproximação do mestre primário da Universidade tem ainda outras

vantagens. O espírito da Universidade deve ser o verdadeiro espírito

democrático; difundir a cultura por todos, criar uma atmosfera em que se

encontrem misturadas tôdas as ideas, todos os sentimentos que irradiam

de todos os ramos da cultura e que contribuem, como diz Lanson, «para

abrir no espírito dos novos, antes da hora da especialização inevitável,

o espectáculo total da sciência, a fim de fazer com que cada um seja

mais do que um simples artífice intelectual, para que todos compreendam

a dignidade da tarefa que a cada um pertence, sabendo que laços a

prendem ao todo.»

Á Universidade compete (e é nela que é mais fácil isso fazer-se),

compete formar a própria nacionalidade e a própria democracia.

Juntando-se todos dentro dela e sofrendo-lhe a influência, poderá mais

fácilmente fazer-se, do que nas escolas especiais se faz, fazer-se,

dizia, com que desapareçam os preconceitos de origem, de classe e de

profissão. «De certo, como diz o Dr. Bernardino Machado, na sua célebre

oração de sapiência, _A Universidade e a nação_, de certo que entre os

diversos ramos da actividade humana há classificação, mas reversível, à

semelhança do que acontece com a própria árvore natural, onde até os

ramos se podem transmudar em raízes e as raízes em ramos. O que não há é

subordinação deprimente, do maior para o menor; como a não há, de um

para outro ramo, entre os profissionais que os cultivam. São todos

homólogos, todos irmãos». Êste espírito de fraternidade ninguem melhor o

pode incutir do que o ensino universitário.

Meus senhores e particularmente meus alunos: não sofram da ilusão do

diploma, a mais perigosa de tôdas as ilusões das escolas da nossa terra.

Não imaginem que o número de valores com que no fim do seu curso a

Escola Normal os brinda, e lhes premeia o seu esfôrço, significa que são

professores, aptos e prontos, cujo _valor profissional_, profissional

repito, se pode medir exclusivamente, ou principalmente, olhando para um

papel e para uma cifra.

Um diploma distinto de uma das nossas escolas normais significa apenas

que o aluno estudou e se apresentou distintamente na freqùência das

disciplinas dessas escolas. As nossas escolas normais são, como me

parece que disse Guex, o autorizado professor suiço, simples escolas

primárias superiores com a cadeira de pedagogia. Nos valores da carta do

normalista não influi ainda o curso de pedologia, nem a pedagogia tem um

maior coeficiente do que o das disciplinas de cultura geral. Está-me a

lembrar o que há dois anos me sucedeu com um candidato a professor da

Casa Pia, que calorosamente defendia a sua pretensão, insistindo em que

devia ser preferido só porque tinha 20 valores; muito simplesmente lhe

retorqui:--_Imagine o senhor que não tem paciência, nem calma. ¿Dizem os

seus valores alguma cousa sôbre isso? ¿Quem o quererá para professor de

seus filhos, se não tiver_ _aquelas qualidades? Professe, ensine

primeiro; depois se verá se é professor_. E, a propósito ainda, me

lembro de uma outra anedota que uma vez ouvi contar, na aula de

obstetrícia da Universidade de Coimbra, ao querido e sábio professor Dr.

Daniel de Matos. Contava êle que um parteiro notável com quem uma vez

conversára, falando-lhe dum grande êrro profissional cometido por um

médico, começou assim a sua narrativa:--_Un jour, un collégue, pardon,

un médecin_...» Há na realidade muitas vezes uma grande distância entre

um diplomado distinto e um distinto profissional.

O professor primário precisa de ter uma sólida cultura geral, e conhecer

bem os métodos de ensinar, e o ser que tem a ensinar, mas não menos do

que da erudição, deve tratar da sua educação scientífica, do hábito de

investigação, adestrar a paciência, apurar o bom senso, e criar e

fortalecer e desenvolver a fé e o entusiásmo pela sua profissão.

Aproximá-lo da Universidade e nela pô-lo em contacto com aqueles que

mais provávelmente subirão e alcançarão os mais elevados lugares, os de

dirigentes da sociedade, é contribuir não só para lhe ampliar a cultura

e para lhe desenvolver o espírito scientífico, mas tambêm para o

dignificar, e fazer estimar mais a sua profissão, a sua nobilíssima e

importantíssima missão de educador primário, primário em todos os

sentidos da palavra.

Bem haja quem organizou esta série de conferências, de que a minha é

êste ano a última em número e em mérito e bem haja a nobre Universidade

de Lisboa por não ter duvidado abrir as suas salas aos professores

primários e permitir-lhes até que das suas cátedras falassem.

_Escolas, escolas, construí escolas_, se grita à maneira de Sarmiento,

na crença de que elas por si transformarão e melhorarão a sociedade.

_Professores, professores, bons professores_, exclamarei eu, _porque

êles são indispensáveis para fazer as boas escolas_. E antes talvez de

melhorar os processos da sua formação, talvez que antes disso seja

preferível fazer o que estamos aqui a fazer: dignificar a profissão,

fomentar a consideração por ela, atrair os mais aptos e criar o

entusiásmo e a fé, que nesta modesta mas fundamental profissão ou,

melhor, sacerdócio do professor primário, mais do que em nenhuma são

precisos.

Proteger o professor, honrar o professor, e fazer com que êle seja o que

deve ser e saiba honrar a sua profissão é contribuir para a valorização

da nossa terra. Êles tudo têm em suas mãos, porque, como já uma vez eu

mesmo disse, nelas têm a Patria e os seus soldados.

A vitalidade de uma nação pode julgar-se pela maneira por que ela

prepara e considera e paga os seus professores.

¡Senhoras e senhores! ¡Honrai o professor!

Disse.

DA INTELIGÊNCIA DO ESCOLAR E DA SUA AVALIAÇÃO[11]

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«_Vuota di sentimento e di azione l'intelligenza è una forma

inconcepibile._»

Prof. Saffiotti.

#/

Á semelhança do que têm feito outros paises em que a politica da

Educação é politica dominante e onde, portanto, a arte de governar os

homens se prende íntimamente e depende intencionalmente da de governar

as crianças, à semelhança de algum dêstes países onde a felicidade da

Nação se trabalha e fórma principalmente na escola, abriu-se êste ano

entre nós um curso de aperfeiçoamento para professores primários, em que

eu tenho a honra de inaugurar o curso de Psicologia experimental. Em bôa

hora o seja.

Longe de me poder considerar à altura dos Mestres, a quem lá fóra se tem

confiado êsse ensino de aperfeiçoamento, extensivo até aos professores

de escolas normais e aos inspectores primários, esforçar-me hei no

entanto por me pôr ao par deles no desejo de, segundo os seus

ensinamentos, fazer com que as senhoras e os senhores adquiram o mais

rápidamente possível noções e hábitos que se possam traduzir num

imediato melhoramento do ensino pelo melhoramento dos mestres. Não

pretendo tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo aperfeiçoar a

arte de aproveitar a cultura e as aptidões que já têm, em grande parte

até, graças à sua experiência profissional.

Não farei o que costumo fazer no meu curso regular, agora de dois anos

completos e onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente

procuro: 1.^o _Arreigar a convicção de que os fenómenos psíquicos são

fenómenos de reação nervosa, susceptíveis de serem estudados por métodos

objectivos, e portanto de que a Psicologia é uma sciência biológica, uma

sciência do quadro das sciências naturais_; 2.^o _de que a educabilidade

é uma propriedade do sistema nervoso_; 3.^o _de que essa, propriedade se

pode estudar e cultivar segundo as normas habituais das experiências

scientíficas_; 4.^o _de que a avaliação da educabilidade é o problêma,

psicológico fundamental do professor_.

Quási saltarei sôbre os três primeiros números do meu programa habitual

e caírei sôbre o quarto, e estudarei, em sua companhia, aquilo para que

os julgo mais habilitados e que mais rápidamente se poderá traduzir num

melhoramento pedagógico, de origem puramente psicológica: _A

inteligência do escolar e a sua avaliação_; tanto mais que para êsse

estudo se encontram prontos a serem utilizados pelos mestres dois

pequenos volumes ao alcance de todos: _La medida del desarollo de la

intelligencia en los niños_ de Binet e Simon, tradução espanhola do

professor do Instituto nacional de surdos mudos, cégos e anormais, de

Madrid, sr. Orellana, publicado em 1918, e a _Contribuição para o

estabelecimento de uma escala de pontos dos níveis mentais das crianças

portuguêsas_, publicada por dois ilustres compatriotas nossos, a quem a

bibliografia pedagógica moderna portuguêsa já bastante deve: o sr.

Antonio Sergio e sua esposa a sr.^a D. Luiza Sergio, contribuição

publicada em volume, em junho de 1919.

* * * * *

Num curso de psicologia objectiva, os fenómenos psíquicos são

considerados como _reflexos cerebrais_, como lhe chama Bechterew,

reacções exteriores que dependem da experiência de cada indivíduo,

durante a sua vida. Estudam-se as reacções do indivíduo em relação com o

meio ambiente, incluindo nêste o meio social e a própria escola.

As reacções que particularmente estudamos, os fenómenos que constituem o

objecto da Psicologia objectiva, e que nela os procuramos estudar como

se estudam os outros fenómenos da Natureza, dependem não só da estrutura

do indivíduo e da acção da ocasião, mas tambêm de acções e reacções

anteriores a essa ocasião.

A acção de ocasião junta-se, _associa-se_ nos seus efeitos aos efeitos

das acções anteriores, de maneira que a reacção é influída e regulada

por estas. Eis a essência do fenómeno mental.

A educação não é mais do que o aproveitamento desta propriedade do

sistema nervoso, ou mais precisamente dos hemisférios cerebrais, desta

_memória associativa_ (Loeb), com o fim de, por meio dela, regular a

actividade, o procedimento, a acção do indivíduo.

A educação é a utilização da _memória associativa_, é o regulamento

intencional da experiência do indivíduo, é a formação, a cultura, em

obediência a certos princípios e interêsses, do poder da sua _memória

associativa_.

Será esta a _Inteligência_?

Variadas e, por vezes, discordes são as definições que se dão, e as

significações que se atribuem a esta palavra.

A inteligência talvez se possa definir, em psicologia objectiva, como

uma manifestação externa da memória associativa, que se caracteriza por

actos de adaptação às variações das circunstâncias. É, até certo ponto

isto, se assim se pode dizer, uma tradução em linguagem fisiológica da

concepção que Bergson exprime quando diz que a «função essencial da

inteligência consiste em encontrar em quaisquer circunstâncias os meios

de se tirar de dificuldades.»

É a inteligência uma utilização da memória associativa. É a propriedade

de ajustar os traços das reacções anteriores, isto é, a experiência

individual anterior, à experiência da ocasião, para uma adaptação a

novas circunstâncias, por meio de reacções reguladas pela experiência

anterior do indivíduo, repito.

A inteligência sob este ponto de vista, é uma manifestação externa,

global, da memória associativa, e que se avalia pela sua finalidade,

pelo valor do ajustamento, em rapidez e perfeição, às variações

quantitativas e qualitativas das circunstâncias.

Ora esta fórma de actividade mental deve depender não só dos

conhecimentos própriamente ditos, das ideas, mas tambêm do sentimento de

prazer ou de dôr que acompanhou as experiências anteriores e acompanha

as actuais, isto é, da _afecção_, se se quizer adoptar o termo que o sr.

Antonio Sergio emprega para designar o _elemento sentimental_ (_Da

Natureza da afecção_, separata da «Revista Americana», 1913, pág. 8.)

A inteligência revela-se, portanto, em actos em que as ideas e os

sentimentos influem, como nos _tropismos_ influem certas substâncias.

A inteligência depende do interêsse, das tendências, que, por sua vez,

são funções da estrutura do indivíduo, da natureza da sua experiência

anterior e da natureza da experiência de ocasião.

Sendo assim, fácil é compreender porque é que se podem considerar como

não inteligentes, certos indivíduos cuja fórma de reacção mental de

adaptação se revela dificiente em determinadas circunstâncias, em certos

meios.

Percebe-se que, com Binet, se distinga a inteligência escolar da

inteligência extra-escolar, se porventura as circunstâncias da escola

são muito diferentes das de fóra da escola e os interêsses que a escola

desperta são diferentes do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar

despertam.

Há inteligências que se não revelam na escola.

Verdadeiramente, completamente inteligente, porêm, é o que se ajusta a

quaisquer circunstâncias, é o que se mostra inteligente em qualquer

meio.

A inteligência não é apenas a inteligência que consiste em adaptar

respostas a preguntas, na escola, falando, escrevendo ou calculando, mas

tambêm a que se revela por actos e gestos de outra ordem, em

circunstâncias de tôda a ordem.

A inteligência julga-se pelo valor adaptivo do gesto ou do acto

considerado debaixo do ponto de vista da sua prontidão, rapidez,

exactidão e perfeição.

A inteligência não tem um significado cognoscitivo apenas, revelação e

utilização de conhecimentos; tem tambêm um significado moral e um

significado estético, que se revelam na reacção às variações das

condições morais e estéticas do meio, no condicionalismo ético e

estético da experiência.

Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, que por exemplo, como faz Van

Biervliet, se classifique a inteligência em espécies: _inteligência

clássica_, isto é, inteligência que se revela principalmente nos

trabalhos da classe, _inteligência prática e inteligência estética_.

Compreende-se tambêm que com propriedade se possa dizer que há uma

imbecilidade intelectual, uma imbecilidade estética e uma imbecilidade

moral.

Kirckpatrick considerando a inteligência, ou melhor a actividade

intelectual, não própriamente sob o ponto de vista da sua finalidade,

mas no do seu mecanismo, descreve, quatro tipos de inteligência, tendo

como inteligência tudo aquilo que constitui acto de adaptação

individual, e assim descreve: um tipo de _inteligência fisiológica_, um

tipo de _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_, um tipo de

_inteligência representativa_ e um tipo de _inteligência conceptual_ ou

_conceptiva_.

A primeira excluo-a eu aqui, porque não depende de fenómenos da _memória

associativa_. São fenómenos de adaptação de outra ordem, pura adaptação

fisiológica, em que a própria imunização tem o seu lugar.

Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma noção.

Algumas lições de psicologia e pedologia · 第 5 / 8 段