estético; deve principalmente ter em vista o aumentar a apetência
escolar, o gôsto pela escola, não só para chamar para ela, mas sobretudo
para facilitar a assimilação dos conhecimentos, o aproveitamento
escolar, tal como sucede com a arte na mesa, que visa principalmente a
facilitar a digestão dos vários e complicados cozinhados que nela se
servem.
Decorar a escola, por decorá-la, cobrir as paredes das salas da classe
com quadros vistosos, embora dos melhores, enfeitar essas salas levando
para elas flores, peixes, avezinhas, etc., será útil para a cultura
estética, mas contribui para distrair do fim principal da escola, a não
ser que as lições versem sôbre ou a propósito das decorações, o que nem
sempre é possível, nem prático. Van Biervliet, a propósito da atenção
visual, dizia, numa das suas lições, que as salas das classes deveriam
ser como a sala do teatro de Bayreuth: não distrair do palco, da scena,
do principal; os alunos não deveriam ver mais do que os _tests_
utilizados na lição. Nada os deveria distrair das estimulações que o
professor procura directamente praticar, para ensinar-lhes o que lhes
quere ensinar.
Mas, minhas senhoras e meus senhores, embora mesmo que na arquitectura,
na decoração interior, no mobiliário, nos livros, a arte que em tudo
isso se ponha vise não só a educação artística, mas principalmente o
atraír o aluno, o prender-lhe a atenção, o tornar-lhe agradável a
escola, sem o distrair das lições, mesmo que assim seja, se uma vez nela
o aluno se defronta com um professor, que por seus gestos e atitudes se
torna ridículo, antipático ou temido, um professor que não saiba nem
ritmar convenientemente a sua voz, nem compor agradávelmente a sua
fisionomia, nem servir-se das expressões, dos gestos e das atitudes que
mais atraem e prendem a criança e tornam mais clara e interessante a
lição, se êsse professor desconhece a influência que a mímica tem nos
alunos, a importância que as atitudes e a maneira de tratar e de falar
têm na educação, se êsse professor não tiver por intùição nem por
cultura o conhecimento do valor pedagógico das estimulações motrizes
atraentes, não será só o professor que será mau, a própria escola,
apesar de tôda a sua arte, passará a ser uma escola má, porque deixará
de atrair e a falta de senso e de estética do professor tornará assim
essa escola, a que me refiro, pior do que uma outra, cuja arquitectura,
cuja decoração, cujo mobiliário seja menos artístico, seja mesmo
inferior.
A atitude, o gesto, a expressão fisionómica do professor actua directa e
fortemente sôbre o aluno, levando-o a tomar atitudes, a esboçar gestos e
a usar de uma expressão fisionómica que são o reflexo da atitude e da
mímica do professor. Mas não deve o professor apenas lembrar-se disto, e
por isso cuidar da sua atitude e expressão, deve lembrar-se tambêm que,
como diz Baldwin, deve lembrar-se que o ver expressões emotivas noutrem
não só provoca directamente aquele que as vê a colocar-se em atitudes
semelhantes, levando-o a reproduzir essas expressões, mas tambêm faz com
que, uma vez esboçados os movimentos provocados e assim iniciada a
imitação muscular, faz com que, dizia, os movimentos esboçados despertem
ou levem aos estados de consciência que ordináriamente precedem essas
reacções emocionais. É por isso, e ainda mais do que por meu feitio
afectivo, que eu, na casa de educação, cuja direcção me está confiada,
tanto uso da cortezia, procurando nunca esquecer-me de cumprimentar e de
pôr na minha expressão e nos meus gestos uma grande afabilidade.
Há-de sempre lembrar-me o que comigo se passou, quando eu tinha quinze
anos e havia pouco tempo que freqùentava a minha Universidade: a
Universidade de Coimbra. Encontrei-me uma vez com um cavalheiro de
figura grave, todo êle de preto, longas barbas brancas, que eu nunca
tinha visto, que completamente desconhecia e que com grande espanto e
comoção minha, sendo eu a única pessoa que na ocasião com êle na rua se
cruzava, se descobriu, cumprimentando-me grave e afectuosamente, logo me
obrigando a mim a curvar num grande gesto e com um grande sentimento de
respeito. Era o Reitor da Universidade, o ilustre e venerando professor
Dr. Costa Simões, cuja figura vim depois a conhecer e que hoje ainda, ao
falar nela, me desperta uma emoção fortíssima. Era o Reitor que me
ensinava a respeitá-lo.
Ás vezes, minhas senhoras e meus senhores, me sorrio, me sorrio sim, mas
com pezar, quando vejo por exemplo, alguns dos meus prefeitos virem
procurar-me, pálidos com um ar de cólera mal contida, queixar-se de
alunos que lhes faltaram ao respeito e satisfeito comigo fico, quando
consigo logo, mostrando-me aos alunos com expressão um pouco diferente
da habitual, consigo, dizia, levá-los imediatamente a mudar a sua
atitude de cólera tambêm, como a do prefeito, e a tomarem uma atitude
antagónica, de obediência, de pezar e de desgôsto. Há, por vezes, na
vida escolar, alguns episódios, que se passam entre educadores e
educandos, que me lembram a scena dum animal investindo furioso contra
um espelho, por nele ver reproduzida uma atitude de hostilidade que
cresce e aumenta à maneira que êle mais se encoleriza. Enfurece-se, sem
o saber, contra si mesmo.
Estou certo de que o facto de freqùentemente se verem professores,
pessoas aliás de fino trato, tomarem nas aulas atitudes grosseiras e
hostis, como o de políticos ostentarem no govêrno atitudes completamente
opostas aos sentimentos que mostravam fora dele, resulta da imitação
inconsciente de atitudes que viram na sua infância, ou na sua mocidade,
nos que ensinavam e governavam.
O professor é como o actor. O estado emocional do público é um reflexo
do seu próprio estado emocional, é uma reacção simpática, provocada pela
sua atitude, pelo seu gesto, pela sua expressão. E se o actor tem de
cuidar e tem de estudar a estética da expressão, o professor quási tanto
como êle a deveria estudar. Compreende-se bem porque é que Van Biervliet
diz, como disse: «_todo o mestre, e principalmente todo o professor
primário, deveria passar por um curso semelhante, aos dos
conservatórios, a fim de aprender a falar belamente (califasia) e
expressivamente, ou melhor, direi, esculturalmente_.»
Minhas Senhoras e meus Senhores:
A atenção, como V. Ex.^{as} sabem, é a faculdade base, é a faculdade
mãe, é a mãe do que vulgarmente se chama a inteligência. Quem ensina,
quem educa deve ter antes de mais nada em vista provocar a atenção,
prender a atenção. Ora a atenção depende intimamente do interêsse. É
indispensável que o professor saiba estimular agradávelmente os sentidos
que tem de utilizar no ensino. Se a sua atitude, se os seus gestos, se a
sua expressão são de molde a repelir, o aluno não presta atenção, desvia
a atenção. Mas não é ainda só por isto que o professor se deve preocupar
com a sua atitude, com os seus gestos, com a sua maneira de falar; não é
só para chamar a atenção e para a prender. É que o gesto, a expressão
fisionómica, a maneira de nos apresentarmos aos alunos durante a lição,
quando falamos ou quando mostramos, ajudam a compreender o que dizemos e
o que mostramos. Sabem V. Ex.^{as} muito bem que se se fechar os olhos,
emquanto se ouve um discurso, se tem de fazer um maior esfôrço para
segui-lo, para o ouvir, para o interpretar. Os míopes que assistam a um
espectáculo sem as suas lunetas, e verão como parece que ouvem menos, e
como o espectáculo se lhes torna inferior, menos interessante, menos
agradável, mais difícil de seguir. O gesto auxilia imensamente a
expressão verbal, e tanto que um gesto mal adequado, ao que se diz, pode
transtornar completamente o sentido da palavra.
A mímica auxilia tambêm a memória. Inconscientemente está provado isto),
quando se ouve ou se vê alguem, tendemos a imitar-lhe, quando mais não
seja, _interiormente_, a expressão. As palavras que ouvimos articulam-se
na nossa linguagem interior e tanto mais fácilmente as compreendemos,
quanto melhor elas forem articuladas. É mais fácil reter o que se diz
lentamente e rítmicamente, do que aquilo que se diz rápidamente e com má
expressão. O ver esboçar um gesto é por vezes bastante para antever um
pensamento, e para nos recordarmos.
E tanto a mímica influi na memória que hoje, em pedagogia moderna, se
aconselha muito o emprêgo da mímica como auxiliar importantíssimo do
ensino. Está demonstrado que é mais fácil fazer fixar a um aluno o que
se disse, gesticulando nós e fazendo-o gesticular a êle, quando repete,
por forma apropriada, é claro, do que dizendo monótonamente e sem gesto
e fazendo-o repetir sem gesto e sem expressão, papagueando.
Estou cêrto (a minha experiência que já não é pequena me autoriza a
dizê-lo), que os gagos até certo ponto não gaguejam quando cantam,
porque as imagens motrizes, no canto, são mais bem desenhadas, mais
perfeitas, fixam-se melhor, esquecem-se menos, deformam-se menos. De
resto o canto tem hoje um papel importante no ensino da articulação, no
ensino das línguas, mesmo nos normais. O gago, estou convencido, diga-se
de passagem, é um doente da atenção, por excesso de emotividade.
E agora, para resumir: _um professor que gesticule com propriedade, que
fale com correcção, que articule perfeitamente, que diga com arte, que
gesticule com arte, que se exprima com arte, não é só agradável, não é
apenas um artista, é um excelente professor_.
Minhas Senhoras e meus Senhores:
O estudo do gesto, da atitude, da expressão tem ainda uma outra
importância, uma outra vantagem pedagógica de que ainda não falei: é a
de servir excelentemente para conhecermos o aluno.
Deixem-me assistir, sem ser visto, ao recreio, numa escola, e eu
poderei, sem errar muito, fazer alguns juízos sôbre o feitio mental dos
alunos. A criança até aos onze anos é, como diz Waynbaum, uma espécie de
alienado sem freio social, ou um grande actor. As suas atitudes, os seus
gestos são francamente a expressão do seu estado afectivo. A vontade, a
astúcia, o cálculo, o interêsse, as conveniências, os hábitos não são
ainda freios tão poderosos que lhe dominem, que lhe mutilem ou deformem
o estado afectivo, que no-lo ocultem ou o tornem difícil de descobrir: a
expressão é sincera, é a tradução exacta do seu estado e, até certo
ponto, do seu carácter habitual.
A mímica é duma eloqùência impressionante. Examinai-a bem, examinai os
gestos, as atitudes, a expressão fisionómica e podereis com facilidade
fazer um juízo sôbre o feitio mental, e principalmente sôbre o estado
afectivo na ocasião. Mandai, por exemplo, abrir a boca a uma criança de
menos de onze anos, para lhe examinar a garganta, e notai bem a
expressão, a atitude, os gestos, a maneira de reagir: fácilmente vereis
qual é o grau de eloqùência da fisionomia na criança, e em grande parte
verificareis a verdade do que digo.
Dos onze anos para diante e mais tarde na puberdade, o gesto, a
expressão, a atitude já enganam mais; o exame é mais sujeito a erros.
Nessa idade recorro muitas vezes ao exame do olhar, emquanto falo, e
sobretudo ao do apêrto de mão, dêsse gesto de quem Vaschide, num
monumental trabalho de psicologia, disse ser um gesto em aparência
banal, mas revelador de tôda a nossa vida mental sub-consciente e a
propósito do qual disse mais: «há tôda uma psicologia e da maior
importância neste contacto musculo-táctil que eu chamarei mental.» O
mesmo ilustre psicólogo francês, que a morte tão cedo roubou, examinando
alienados do Asilo Villejuif, chegou à conclusão de que aquele gesto tão
trivial pode fornecer importantes elementos para julgar da mentalidade
dos internados, o que, até certo ponto, confirma a opinião do velho
médico da Salpetrière, Falret, que pelo exame da mão pretendia apreciar
o estado mental dos seus doentes.
Mas não querendo em pedologia utilizar o exame do apêrto de mão, o
professor pode recorrer com facilidade e êxito ao exame de outros
gestos, com o fim de colher alguns elementos de ordem psíquica.
Na lição de abertura do meu curso de Pedologia dêste ano, a propósito da
medida da agudeza visual e da auditiva, debaixo do ponto de vista
pedagógico, disse eu: «O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se
tambêm a permitir-nos julgar até certo ponto de certas qualidades de
ordem psíquica, que ao educador muito interessam conhecer. A maneira por
que o aluno se apresenta, a rapidez, a lentidão dos seus movimentos, a
rapidez ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira
agitada ou, pelo contrário, lenta e dócil por que se comporta, a
precisão ou a decisão na compreensão e execução das nossas ordens, tudo
permite, com grande probabilidade de acêrto, formar um juízo, útil e
necessário para o educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a
_potencialidade nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os
dois tipos extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_,
tardo nas suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos
importantes para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações
muito úteis para a escolha dos meios educativos a empregar».
E, como o exame da agudeza visual e da auditiva, há outros que se podem
praticar na escola e que permittem examinar com rigor os gestos, e por
estes com certo êxito julgar da mentalidade do aluno.
Ley, a propósito de um estudo dinamométrico dos alunos atardados da
escola especial de Antuérpia, fez notar que a observação das atitudes
durante o exame da fôrça de pressão, lhe permitiram verificar: 1.^o--que
os nervosos e indisciplinados, habitualmente atingem o máximo, dum
jacto, bruscamente; 2.^o--que nos apáticos a agulha do dinamómetro
caminha para o máximo, com regularidade e lentidão; e finalmente,
3.^o--que nos apáticos mais acentuados, nos apáticos profundos, o máximo
ordináriamente era atingido depois de uma contracção lenta, seguida de
uma pausa, a que por sua vez se seguiam algumas outras lentas e mais
pequenas contracções.
Mas mais ainda. A título de exemplo, apresentarei a V. Ex.^{as}, sob
forma resumida, a parte mais interessante do resultado dum exame a que
procedi, a fim de surpreender as características do apêrto de mão em
rapazes da Casa Pia, de 16 anos para cima, tomados ao acaso, e chamados
à minha presença, sem saber para quê. Á medida que chegavam, e entravam
isoladamente no meu gabinete, cumprimentava-os naturalmente
estendendo-lhes a minha mão; depois fazia-lhes algumas perguntas de
pouca importância para êles, como era por exemplo, _qual o curso em que
estavam? se tinham frequentado a oficina?_ etc, inspeccionava-lhes a
mão, e media-lhes finalmente com um dinamómetro Mathieu a fôrça à
pressão da mão direita, procurando assim sugerir-lhes a idea de que eu o
que desejava era estabelecer alguma relação entre a profissão e as
características das mãos. Terminando êste exame, despedia-os
naturalmente, estendendo-lhes, como no principio, a minha mão. Várias
_nuances_ surpreendi na maneira por que as mãos dos alunos se
comportavam durante o cumprimento, mas fácilmente as pude agrupar,
distribuindo-as por três tipos característicos:--1.^o--o dos que
cumprimentam _entregando_ a mão, _sem apertar, abandonando-a_; 2.^o--o
dos que apertam a mão, mais ou menos fortemente, sem tentar rápidamente
fugir com ela; 3.^o--o dos que quási que não _apertam_, e que
rápidamente a procuram retirar após o contacto (_mãos que fogem, mãos
furtivas_).
Dias depois de feita a minha observação, inesperadamente e sem dizer
para que queria informações, apenas dizendo que era para um estudo,
consultei separadamente o chefe dos prefeitos e o professor de curso
freqùentado pelos alunos, que mais em contacto e durante mais tempo está
com êles. Foram tambêm consultados alguns mestres de oficinas, daqueles
poucos alunos entre os que eu examinei, que nelas andavam.
O pedido da minha informação visava sobretudo saber se na opinião das
pessoas que eu consultava, os alunos eram ou não disciplinados, se se
acomodavam ou não fácilmente ao regimen habitual da Casa, e tambêm se
eram considerados sinceros ou pelo contrário dissimulados. Ora, coisa
interessante: no grupo dos que mal apertam a mão, que rápidamente a
procuram furtar ao contacto da nossa, figuram os alunos que na lista das
informações do professor e do prefeito têm as notas de dificeis de
disciplinar, dissimulados, reservados, pouco sinceros; os que tem a nota
firme de disciplinados, exemplares, sinceros, aparentando o que são, não
dissimulando, estão no grupo dos que cumprimentam apertando a mão, e não
fugindo; finalmente no grupo dos que não apertam e abandonam a mão, dos
que têm um aperto de mão insignificativo, figura a maioria daqueles
sôbre que professor e prefeito tiveram dúvida em informar e traduziram o
seu juízo por um ponto de interrogação.
Isto a meu ver basta para acabar de ilustrar e documentar a tese de que
a _simples observação dum gesto tão trivial, como é por exemplo um
apêrto de mão, pode servir ao educador para fazer um rápido e útil exame
psicológico_.
Minhas Senhoras e meus Senhores:
Mas na escola, o gesto, a atitude, a fisionomia servem ainda para alguma
cousa mais.
Séguin, no seu afamado livro sôbre o _tratamento moral dos idiotas_,
consagra _páginas_ ao estudo e à preparação, no professor, do gesto,
«desta forma oratória, como êle diz, que tôda a gente usa mais ou menos,
mas muito mal e sem o saber», e do olhar e da fisionomia, «meios, como
êle diz tambêm, de dirigir e possuir o aluno».
A criança compreende mais a nossa fisionomia e os nossos gestos do que a
nossa palavra. De resto, a palavra é mais para mentir. O olhar e as mãos
é que são as verdadeiras janelas da alma. É difícil dissimular com o
olhar e com o gesto, e estes melhores do que nada se prestam a traduzir
com tôda a verdade o estado do nosso espírito.
Fixai o olhar do vosso educando, aprendei a usar de gestos apropriados,
a traduzir pela expressão do olhar e pela maneira de gesticular a vossa
intenção e com facilidade podereis socegar o agitado, disciplinar o
indisciplinado, tornar atento o distraído, despertar o apático,
imobilizar quando quizerdes imobilizar, agir quando quizerdes que se
movam, castigar quando quizerdes castigar, premiar quando quizerdes
premiar, e por êles mais fácilmente do que com os vossos discursos
podereis conseguir o que constitui, tanto no ensino de anormais como de
normais, o principal segredo da arte do educador: saber fazer do
educando um amigo, saber apossar-se do aluno.
Educai não só com a alma; educai com alma.
Minhas Senhoras e meus Senhores:
O gesto, a atitude, não são apenas a expressão do estado afectivo, são
por vezes a própria causa do estado afectivo. Segundo William James, o
grande psicólogo americano, o estado emocional não é que determina a
expressão emocional. A percepção dum objecto, ou dum acto capaz de nos
emocionar, provoca, como por reflexo, reacções corporais, reacções
nervosas, que geram atitudes, expressões, gestos, perturbações orgânicas
e são estas reacções corporais que, impressionando-nos, geram os estados
afectivos. Como corolário desta tese, James sustenta que tôda a
produção, voluntária e a sangue frio, das chamadas manifestações duma
emoção determina essa emoção. Para comover-nos basta colocarmo-nos em
atitude de comoção. Entristecereis se persistirdes em tomar atitudes de
tristeza; cultivai as atitudes recolhidas, em flexão, próprias dos
humildes e tornar-vos heis humildes; curvai-vos em adoração e acabareis
por adorar; preparai-vos para admirar e admirareis. Se, pelo contrário,
cuidardes principalmente de atitudes abertas, em extensão, próprias para
exprimir a alegria ou a fôrça, tornar-vos heis alegres, fortes,
destemidos, senhores de vós, e, se exagerardes, revoltados.
Antes de James, pode-se dizer que os educadores haviam descoberto a
teoria; pelo menos a experiência os levara a proceder de acôrdo com ela.
A importância que muitos dão ao ensino da civilidade demonstra-o, e
demonstra-o sobretudo o cuidado com que nos manuais de civilidade, nos
livros que muitos chamam de educação, própriamente dita, e
principalmente nos das casas de educação religiosa, demonstra-o
sobretudo, dizia, o cuidado com que neles se prescrevem as regras que
devem pautar o gesto, o tratamento, a atitude, a expressão do olhar,
etc., tôdas visando, nas casas de educação religiosa, a modéstia, o ar
humilde, recolhido, obediente, por vezes servil, que leva ao estado de
espírito que principalmente se tem em vista criar. Vale a pena ler, por
exemplo, para verificar o que digo, vale a pena ler por exemplo o
_Regulamento para as casas da Pia Sociedade de S. Francisco de Sales_.
Compreende-se bem agora porque é que eu tanto me preocupo, quando falo
com os meus alunos, ou quando êles falam comigo, em aconselhar-lhes ou
sugestionar-lhes uma atitude recta, firme, simples, afectuosa,
forçando-os a fitarem-me naturalmente, serenamente, modestamente, e a
falar sem cochichar, mas tambêm sem levantar demasiado a voz, procurando
sempre regular-lhes a palavra e o gesto, e dar-lhes um ar disciplinado e
simpático. E se tanto me dá prazer ver a harmonia no andar, no falar, no
gesticular, se tanto às vezes me comovo, quando vejo desfilar
ordenadamente e nobremente os rapazes da nossa Casa Pia, não é só por
simples emoção estética, é porque por aqueles sinais externos eu julgo
do estado interno da nossa Casa. Vai bem.
_Educadores, educai o corpo, que educareis o espírito_.
Minhas Senhoras e meus Senhores:
Os nossos gestos, as nossas expressões, constituem um dinamismo afectivo
que não só actua sôbre os nossos próprios sentimentos, e exprimem o que
nós sentimos, mas tambêm actua sôbre os sentimentos dos outros,
inflùindo fortemente neles. Os gestos, as atitudes, as expressões
fisionómicas são factores sociais importantíssimos. A sociedade é um
verdadeiro campo de fôrças afectivas. E a maneira de ser de cada um de
nós, e a maneira de nos exprimirmos, e de nos comportarmos actuam no
meio em que vivemos como fôrças orientadoras ou perturbadoras da ordem
social.
Habituar os nossos educandos às atitudes e gestos de respeito, gestos de
uma cortezia simples, mas atraente, é trabalhar pela _tolerância_, pela
«aceitação serena das diferenças que existem entre os homens», como diz
Lanson. Procedendo assim aumentar-se há a fôrça da solidariedade,
criar-se há a atmosfera mais favorável à descoberta da verdade, ao amor
do belo e à prática do bem, e vencer-se há um dos nossos maiores
inimigos internos:--«a intolerância, que, como a ignorância, ainda na
expressão de Lanson, é um instrumento de despotismo», e de divisão,
acrescentarei eu.
Como vêdes, a educação do gesto até tem um alcance político. Como vêdes
até pode contribuir para a solução do nosso maior problema: o problema
da _unidade nacional_.
Mais uma vez me convenço de que os nossos maiores problemas são
problemas pedagógicos. Mais uma vez me convenço de que a educação é a
maior das fôrças políticas. Mais uma vez compreendo o sublime paradoxo,
a que nos momentos mais difíceis da sua vida histórica com êxito
recorreram as duas grandes nações europeias, centros dos dois
poderosíssimos sistemas de civilização, que neste grandioso e aflitivo
momento da vida da Europa, se batem e formidávelmente lutam; sim, mais
uma vez compreendo porque «se foi pedir a salvação da Pátria à força em
aparéncia a menos feita para isso, aquela cuja acção é, por definição
mesma, a mais modesta, a mais doce, a mais longínqua--a educação»[14].
Recorramos tambêm nós a ela. _Eduquemo-nos e eduquemos_.
Que a arte entre na escola e que o fim da escola seja como o da própria
arte no dizer de Tolstoi:--«unir as almas, associando-as num mesmo
sentimento». E que nesta ocasião de perigo, e sempre, todos os meios,
todos os pretextos sirvam, como me está servindo esta minha leitura,
sirvam para cultivar o sentimento supremo e utilíssimo do amor da
Pátria.
Disse.
ALGUMAS PUBLICAÇÕES DO AUTOR, SÔBRE ASSUNTOS PEDAGÓGICOS[15]
_Antropometria escolar_--Relatório apresentado ao IV Congresso Nacional
da Liga Contra a Tuberculose, 1907.