Alêm desta prova sujeitei tambêm os alunos da Casa Pia, que examinei, a

uma outra, que consistia no aproveitamento de um outro lôto de côres da

colecção do Dr. Decroly e M.^{lle} Mochamp. Nesse lôto há quatro

cartões, em cada um dos quais figuram quatro homens jogando a bola. Cada

um deles figura vestido de certa côr, e cada uma das bolas com que está

jogando tem a sua côr tambêm, mas diferente daquela. Alêm dos quatro

cartões grandes, há uma série de cartões pequenos com figuras

correspondentes à do primeiro.

A criança tem que colocar um pequeno cartão no lugar do cartão grande,

que lhe corresponder. Como se vê, tem de fazer simultâneamente a

identificação de duas côres. É um verdadeiro _test_ de atenção.

Estes lôtos ou lôtos semelhantes podem fabricar-se na própria escola, e

constituem meios, muito interessantes para a criança, de lhe testificar

a visão das côres e, como se verá mais para diante, de lhe educar a

atenção e de a instruir.

Ao médico interessam principalmente as discromatopsias adquiridas, não

só porque algumas são curáveis, visto serem de natureza tóxica, mas

sobretudo porque são muitas vezes um sinal importante e precoce de

graves lesões ópticas.

Ao educador, porêm, importam particularmente as discromatopsias

resultantes da falta de atenção. Tive já ocasião de vos dizer que a

instrução supre muitas vezes, até certo ponto, a cegueira das côres, o

que faz com que o daltónico não só ignore a sua cegueira, mas até engane

os outros, por distinguir objectos de côres diferentes e apropriadamente

denominar diferentes côres que aliás não vê.

Mas é principalmente nos falsos daltónicos, naqueles que trocam os nomes

às côres, por ignorância, e nos que as não distinguem por falta de

atenção e exercício, que o educador tem muito a lucrar, ensinando a

denominar apropriadamente as côres e sobretudo a discriminar-lhes as

nuances. Os exercícios que se empregam na chamada educação dos sentidos

e que mais própriamente a meu vêr se deve chamar a educação da atenção

dos sentidos, porque o que se educa e aperfeiçoa principalmente não é o

sentido em si, mas a maneira de o aplicar, êsses exercícios têm tambêm,

áparte a sua acção sôbre a atenção, esta faculdade que é a base do que

vulgarmente se chama inteligência escolar, a faculdade de aprender,

êsses exercícios, repito, têm tambêm uma acção notável na educação do

poder discriminativo, que é o que regula, e torna mais seguros e

exactos, os juízos. Mas mais ainda. Como as côres têm um poder

emocional, umas excitando e outras deprimindo, o que até em terapêutica

se utiliza, elas podem servir para a educação do sentimento estético,

preparando a criança para a emoção pelas obras da Arte e pelas da

Natureza, o que tudo tem um grande valor moral. A criança é muito

sensível a êste poder emocionante das côres e nele afinal está a razão

da aplicação dos velhos estimulantes escolares: as condecorações e os

cromos, e do útil aproveitamento no ensino das estampas coloridas. E a

propósito vos chamarei a atenção para um livrinho muito interessante,

intitulado: _O nosso Portugal_, trabalho do distinto professor da Casa

Pia e meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor Fernando Palyart

Pinto Ferreira, de mais a mais discípulo desta Escola, livrinho que tive

o prazer de prefaciar, e que é, entre nós, assim o julgo, a primeira

aplicação consciente dos princípios fundamentais da psicologia visual

infantil.

No _Método Montessóri_, de que agora tanto se fala, e que, vai para um

ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou dois dos seus mais distintos

professores, um discípulo desta Escola, o Sr. professor Rosa y Alberty,

da Casa Pia, e sua esposa a Ex.^{ma} Sr.^a D. Pulcena Estrela da Costa,

antiga aluna da Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar êsse

método com a sua própria autora, que se encontrava em Barcelona, no

_Método Montessóri_, a educação da visão das côres tem um lugar

importantíssimo. Nêle se faz uma inteligente aplicação pedagógica do

processo de diagnóstico de que vos falei, o processo das lãs de

Holmgren. Dá-se uma amostra de lã ou de retrós, de uma certa côr e tom,

e manda-se a criança procurar uma igual, entre muitas outras de diversas

côres e tons; mostra-se-lhe duas ou três côres e manda-se depois a

criança ir procurá-las, de cor, de memória; ensina-se a criança a nomear

as côres e os tons; a própria professora mostra-lhas, nomeando-as,

dizendo-lhes os nomes por fórma a atrair a sua atenção, usando de tom e

maneiras que seduzam a criança, e por vezes finalmente se organiza com

as crianças da escola um jôgo em que cada uma por sua vez é encarregada

de ir fornecendo às outras as côres e os tons que estas lhe vão pedindo,

e que depois cada uma tem de agrupar e seriar.

Êste _Método **Montessóri**_, de que tanto agora se fala e que vai

avassalando os jardins de infância e as escolas primárias de todo o

mundo, não é bem uma novidade pedagógica, nem, como alguns supõem, uma

simples moda, uma fantasia. Nem novidade porque nele se encontra a

aplicação e por vezes a reprodução, pura e simples, de métodos de

outros, nem simples e inútil moda ou fantasia, porque assenta nas mais

sólidas bases da psicologia da criança.

A Sr.^a Montessóri teve o condão de com estranha eloqùência fazer a

propaganda do método de educação dos sentidos de Froebel e

principalmente das variantes adoptadas pelos médicos e professores dos

asilos de crianças anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda da

aplicação dos métodos adoptados na educação dos que sofrem de

insuficiência mental de origem patológica, àqueles em que apenas existe

a insuficiência fisio-psicológica, própria da sua idade, aqueles em que

por assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.^a Montessóri, médica e

antropologista como é, encontrou meios excelentes de fazer essa

aplicação. É sobretudo o notável aproveitamento que faz do _instinto

dramático_ da criança, procurando educá-la pela emoção e por isso, ou

deixando-a representar, e guiando-a na representação, ou tornando-a um

espectador interessado, atento e entusiasta, que ouve bem o que

propositadamente diante dêle se faz, e que depois reproduz por imitação.

Há porêm, na escola Montessóri, e principalmente na exposição dos

métodos da Sr.^a Montessóri, misticismo a mais e froebelianismo a mais

tambêm. E quando digo froebelianismo, quero referir-me ao êrro

pedagógico do método froebeliano: à confusão da simplicidade lógica com

a simplicidade pedagógica. Aos olhos da criança as formas que nós

chamamos simples, as fórmas abstractas, não são as fórmas mais simples;

no concreto e no complexo está muitas vezes o que parece mais simples à

criança, porque a interessa mais.

Em português têm as senhoras e os senhores um livrinho interessante e

bom para fazer uma idea do método Montessóri; é o livrinho da Sr.^a D.

Luiza Sérgio, intitulado _Método Montessóri_; e se quizerem conhecer,

alêm de uma apologia, uma severa censura e crítica à Sr.^a Montessóri e

ao chamado seu método, leiam um artigo de Guido della Valle no n.^o 6 de

Janeiro de 1911, da _Rivista pedagogica_, revista italiana.

Nos jogos educativos do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, a educação do

sentido cromático tem tambêm um lugar importante. Alêm dos lôtos de que

falei a propósito do exame do sentido cromático em rapazes da Casa Pia,

há outros lôtos, e um dominó curioso, que muito interessa os pequeninos

(já o tenho experimentado em meus filhos), um jôgo de dominó constituido

por uma série de pequenos cartões, aproximadamente do tamanho das pedras

do dominó vulgar, cartões a cada um dos quais estão, num dos lados,

colados, lado a lado, dois papéis, cada um de sua côr. Joga-se como se

joga o dominó. O aspecto, que a série dos cartões toma no fim do jôgo,

interessa muito as crianças. E já que de novo falei nos jogos educativos

do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, dir-vos hei que cada um de vós

terá muito que lucrar, lendo o pequeno folheto que acompanha a colecção

daqueles jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau, de Genebra,

costuma vender, folheto intitulado _Jeux educatifs_, e onde todos

encontrarão compendiadas excelentes sugestões, úteis não só para

improvisar processos de educação dos sentidos e de instrução tambêm, mas

até material de ensino, que, pode-se dizer, qualquer pode fabricar.

Inspirados naqueles jogos se pode dizer que são os processos e o

material que se empregam na classe de anormais que no Instituto

médico-pedagógico da Casa Pia de Lisboa, à Travessa das Terras de Santa

Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direcção do professor Fernando

Palyart Pinto Ferreira e de sua esposa a Sr.^a D. Lucila Carmina Lopes

de Santa Clara, distinta professora oficial, antiga aluna tambêm da

Escola Normal de Lisboa, que com o Sr. professor Cruz Filipe, da classe

de ortofonia, e o Sr. Joaquim Almada, da classe de dizer, comigo ali

trabalham.

Minhas Senhoras e meus Senhores

Meus Alunos

Agora mais do que nunca é preciso organizar os serviços de instrução por

fórma que na educação se vise o aproveitamento de todos, a valorização

de cada um, ao máximo, aumentando o mais possível o rendimento de suas

faculdades. A guerra pede-nos os mais fortes e os melhores. Na paz só

nos poderemos salvar, compensando o sacrifício que fizemos, valorizando

ao máximo os que restarem, os que escaparem, e os novos. Temos

infelizmente não só que suprir as faltas de todos os dias, as faltas

triviais, mas alêm destas as formidáveis perdas que por certo resultarão

dêste monstruoso acidente da vida do mundo: a actual guerra. Por isso há

que tratar cada um dêstes homens embrionários, dêstes cidadãos _in

herbis_, que nos confiam, há que tratá-los por fórma a bem medirmos o

valor das suas faculdades e préstimos incipientes, e por meio da

sciência, e com tôda a arte, aproveitar-lhas e desenvolvê-las e

encaminhá-las o melhor possível. Não. Não podemos nem devemos como até

aqui limitar-nos a aprender métodos de ensino, quási na ignorância e

desprendimento do conhecimento da natureza e características da criança.

¿Que se diria de um alfaiate que nos quizesse fazer um fato, sem medida?

¿E sobretudo que se diria ao ver que o fato que nos destinava não nos

servia, não se ajustava ao nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos ou

nos cobria de ridículo? ¿E com mais razão, que se diria do educador, que

no desconhecimento da natureza da criança, a educasse, deformando-lhe a

mente, prejudicando-lhe o carácter, e obstinando-se em adoptar processos

os menos conformes com o seu temperamento, os menos convenientes para um

inteligente aproveitamento da sua personalidade, e os menos conducentes

à sua felicidade e afinal à nossa própria, porque são as crianças de

hoje quem amanhã nos há-de governar e julgar? Vós respondereis.

Para vos ensinar a conhecer a criança e para vos ensinar a pelo seu

conhecimento melhor aplicar e escolher os métodos que os vossos

professores de pedagogia e de prática vos ensinam, para isso aqui estou.

Ajudai-me com a vossa atenção e eu vos ajudarei com a minha experiência,

com o meu modesto saber e com a minha dedicação a mais sincera.

Está aberto o nosso curso dêste ano.

Belêm, 3 de Dezembro de 1916.

SÔBRE UMAS PROVAS DE EXAME DA ATENÇÃO VOLUNTÁRIA VISUAL[10]

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Havia eu prometido ocupar-me na série de _conferências pedagógicas_

organizada na última gerência ministerial do senhor professor Ferreira

de Simas, havia eu prometido, ocupar-me, dizia, do ponto: _A pedologia

prática e a prática do ensino na escola primária_, e prometera tambêm

que essa minha conferência serviria êste ano de lição de encerramento do

curso de Pedologia que tenho tido a honra de reger na Escola Normal de

Lisboa. Sucede, porêm, que o meu último trabalho dêste ano foi

industriar os meus alunos na prática da medida da atenção voluntária

visual, e sendo assim pareceu-me poder conciliar o compromisso tomado

com a necessidade de comentar as observações que, sôbre aquela fórma de

atenção periférica, fizemos na escola anexa à Normal Primária de Lisboa,

pareceu-me poder conciliar o compromisso com a necessidade do

comentário, aproveitando as observações feitas para, por uma maneira

mais concreta, dizer o que tencionava dizer sôbre o ponto que escolhera

e a que a princípio pensára dar uma fórma mais teórica e geral.

O assunto: _a atenção e a sua medida_ é um ponto capital de pedologia

psíquica aplicada à educação.

A atenção é a base do que Binet chamou a _faculdade escolar_, a

faculdade de aprender na escola, a faculdade de assimilar o ensino nela

ministrado, pelos métodos mais usuais. Para ser bem sucedido nos estudos

são precisas, diz com razão ainda Binet, qualidades que dependem

sobretudo da atenção, da vontade e do carácter. E «saber manter a

atenção dos escolares, apropriar o grau de atenção à dificuldade e à

importância do trabalho a realizar é quási tôda a arte do professor»,

diz Van Biervliet. Portanto, debaixo do ponto de vista da importância,

creio ter escolhido um ponto excelente. E quanto ao que queria

principalmente demonstrar na minha conferência: a possibilidade de

praticar estudos pedológicos, sem perturbação nem prejuízo das funções e

obrigações didácticas, nenhum melhor assunto serviria para defender esta

tese do que êste: a atenção e a sua medida. Alunos meus tiveram ocasião

de ver que, em alguns minutos, se poderia sem perturbar a classe, nem

alterar o ensino, fazer importantes experiências que entre outras coisas

podem ser aproveitadas para conhecer os alunos debaixo do ponto de vista

da atenção, descobrir anormais, medir a fadiga, julgar horários,

programas, métodos de ensino, e até ensinar a estar atento.

Tem sido sempre minha principal preocupação o professar pedologia que

possa directamente aproveitar ao ensino primário, não aconselhando senão

processos de observação e experiência, fáceis, compatíveis com a

preparação dos alunos da Escola Normal Primária, e que não distraíam os

mestres das obrigações didácticas, e antes pelo contrário contribuam

para que melhor as cumpram, fazendo sempre lembrar-lhes que, mais do que

ministrar noções, lhes compete preparar o espírito dos alunos para as

receber, e para isso é indispensável saber conhecer os alunos, saber o

que são, conhecer a personalidade de cada um, e saber-lhes aproveitar o

feitio. Esta tem sido de facto a preocupação principal e a orientação

com que tenho preparado as minhas lições e elas claramente se notam nas

três lições que já publiquei:--_O ensino da pedologia, na Escola Normal

Primária_, _O pêso do corpo da criança_, e _A agudeza visual_ _e a

auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_.

Minhas Senhoras e meus Senhores:

No ensino ordinário da escola primária utiliza-se e treina-se muito a

atenção voluntária visual verbal, isto é, utiliza-se e exige-se um

estado de espírito em que o aluno voluntáriamente toma a atitude que

mais convêm para receber as estimulações visuais determinadas pelas

palavras escritas. Não será a fórma de atenção mais útil para a vida,

porque no mundo ambiente, como diz Van Biervliet, a atenção não tem que

dirigir-se, orientar-se, concentrar-se sôbre as fórmas verbais das

cousas, sôbre a descrição dos factos, sôbre os resumos dos

acontecimentos, mas sim sôbre as próprias cousas, sôbre os próprios

factos, sôbre os próprios acontecimentos; não será portanto a fórma mais

útil para a vida, mas é uma das mais úteis para o sucesso na escola.

Alêm disso, por meio da sua medida, se podem resolver vários problemas

escolares, principalmente porque por meio dela se pode medir a fadiga

escolar. Aqui têm, pois, V. Ex.^{as} mais uma razão, e afinal a

principal, da escolha que fiz do tema da minha lição de encerramento,

que vai versar: _sôbre umas provas de exame da atenção voluntária

visual,_ _colhidas em alunos da, escola anexa, à Normal Primária de

Lisboa_.

Mediu-se a atenção pelo método da _correcção de provas_ (método de

Bourdon), utilizando umas vezes o _test_ de Toulouse e Vaschide, uma

fôlha impressa com 1.600 sinais, figurando cada um deles um pequeno

quadrado com um traço do mesmo tamanho, dirigido para fora, e orientado

segundo 8 direcções, o que dá lugar a 8 sinais diferentes, fôlha que

obtivemos mandando reproduzir a que acompanha o vol. II da _Técnica de

psicologia experimental_ de Toulouse e Piéron (edição de 1911), outras

vezes utilizando trechos do livro de leitura habitual dos alunos da 4.^a

classe da escola anexa, mandando nele riscar determinadas letras, uma ou

duas, num tempo determinado (cinco minutos em regra) ou riscá-las,

cortando-as numa certa porção de trecho, em que de antemão tinhamos

verificado qual o número de letras escolhidas que nela havia, número que

a criança, riscando as letras, deveria verificar, recomeçando o trabalho

tantas vezes quantas fôssem precisas para alcançar o número de letras

que no trecho existiam e que nós lhe haviamos préviamente indicado

(processo de Van Biervliet). Mediamos assim a atenção pela correcção ou

pela velocidade ou pela correcção e velocidade com que as crianças

suprimiam sinais do _test_ de Toulouse e Vaschide ou letras dum trecho

do seu livro de leitura.

O método que empregámos é aquele que permitiu a Binet verificar, numa

escola primária de Paris, a coincidência da classificação dos alunos,

debaixo do ponto de vista da atenção, feita por meio dos _tests_

colhidos em alguns minutos de experiência, com a classificação dos

mesmos alunos feita pelas notas do professor, notas resultantes duma

apreciação longa e demorada. E a propósito vale a pena lembrar que,

citando estes factos, Binet acentuou que o êxito escolar resulta mais da

atenção do que da inteligência, que o aluno mais atento pode não ser o

mais inteligente e que por isso não é de estranhar que as crianças, que

os _tests_ levam a considerar como inteligentes, não sejam sempre as

mais adiantadas, as que mais aproveitam, as que dão melhores _tests_ da

atenção.

O mesmo método de medida da atenção que pratiquei e fiz praticar aos

meus alunos é um dos que permitiu a Ley demonstrar que os movimentos

respiratórios lentos e amplos, dilatando vagarosamente e largamente o

torax, com as espáduas bem aproximadas, sem elevação dos braços nem

elevação do corpo sôbre as pontas dos pés, são um excitante da atenção

voluntária, e foi êle que com o método dos _tempos de reacção_ tambêm

permitiu a Ley verificar que um repouso de quatro minutos, sem execução

dêsses exercícios respiratórios, actua muito menos benéficamente sôbre a

atenção do que quando durante o mesmo tempo se executam movimentos

respiratórios pela fórma que acima precisei.

Foi tambêm empregando êste método da _correcção de provas_ que eu obtive

_tests_ da atenção em alunos da escola primária oficial de Belêm, sem

classe de trabalhos manuais, e em alunos do mesmo grau escolar, da Casa

Pia, com bastante prática de trabalhos manuais, _tests_ que me

permitiram sustentar e demonstrar no meu discurso: _Da influência dos

trabalhos manuais no desenvolvimento do espírito_, que os trabalhos

manuais treinam a atenção, melhoram a atenção.

As primeiras experiências que fizemos na escola anexa foram praticadas

utilizando o _test_ de Toulouse e Vaschide.

A medida da atenção por meio da supressão de letras ou sinais

equivalentes funda-se no facto de numa série de percepções análogas,

monótonas, tenderem essas percepções a alterar-se, a enfraquecer, a

apagar-se, sendo necessário para evitar essa alteração e fazer com que

as percepções continuem a efectuar-se correctamente, que a atenção

voluntária intervenha, procurando assim fazer manter a intensidade

inicial dos fenómenos sensoriais. Se a atenção voluntária tende a

enfraquecer, a baixar, as percepções deixam de se efectuar uma ou outra

vez, ou efectuam-se incorrectamente, e nós podemos medir essa baixa, o

gráu de atenção, examinando os erros e a variação da velocidade do

exame, durante um certo lapso de tempo, em que o examinando colhe uma

série de percepções da mesma espécie e gráu (percepções monótonas).

Mandando riscar as letras num trecho em língua conhecida, o exame pode

ser perturbado pela influência da leitura do texto, pela compreensão do

texto, pelo sentido das palavras, sendo muito difícil, se não

impossível, a quem não está habituado a abstrair, fazer com que só se

procurem letras e não se leiam as palavras.

Tem-se procurado evitar êste inconveniente ou dando trechos em língua

estranha ou empregando _tests_ como o de Henrotin (_Contribution à

l'étude de l'atention visuelle chez les enfants_, in _Rév. de

Pédotechnie_, n.^{os} 2 e 3, 1914), em que a prova é constitùida por uma

fôlha com 832 letras, repartidas em 26 linhas de 82 caracteres de

imprensa bem separados e muito nítidos, de maneira a evitar confusões,

letras que, como por exemplo o _a_, o _e_ e o _u_, se encontram

repartidas duma maneira irregular e por fórma tal que nada há que possa

indicar ao examinando nem o lugar, nem o número das letras cuja

supressão ou indicação se pede. Sucede, porêm, que nem tôdas as letras

do alfabeto são igualmente visíveis, nem tôdas chamam igualmente a

atenção, como o faz notar Van Biervliet; umas, como êle diz, o _x_ por

exemplo, atraem pela sua raridade, outras como o _f_ e o _b_, letras ao

alto, extensas, chamam mais a atenção do que as letras baixas _e_ e _r_,

por exemplo. Entre estas, umas há bastante largas como o _m_, que nos

impressionam mais, outras mais altas do que largas, outras tão largas

como altas, etc. Para evitar estas diferenças que podem perturbar o

exame, a medida da atenção, é que Toulouse e Vaschide propuzeram a sua

prova, uma prova de sinais igualmente interessantes, que podem servir

mesmo para os que não sabem ler; tem alêm disso a vantagem de evitar a

influência do hábito da leitura e revisão de provas.

O emprêgo da prova de Toulouse e Vaschide na escola anexa revelou-nos

factos interessantes para que chamo a vossa atenção. Em primeiro

lugar:--examinando a atitude dos alunos da 4.^a classe durante o tempo

em que riscavam sinais, alguns vimos que pelo cuidado com que examinavam

pareciam prestar grande atenção, mas cujas provas vinham cheias de

erros. Sucede isso muitas vezes. São criaturas apáticas, cuja lentidão

habitual os faz confundir com aqueles que, não sendo apáticos, se

imobilizam, ou tornam lentos, pelo esfôrço da atenção. Os primeiros não

são atentos, assemelham-se aos atentos.

Pode suceder tambêm que apareçam alunos que não compreendam a prova, que

cortem a êsmo, que cometam muitos erros, riscando sinais e letras ao

acaso. Sucede isso com atardados profundos, e essa prova serve-me muitas

vezes no _Instituto Pedagógico da Casa Pia_, como meio de reconhecer o

gráu de anormalidade dos anormais que ali vão.

Anormal que não compreende o _test_, é anormal médico, é anormal

profundo, é, em regra, o idiota. Para mim êste sinal vale como o de

Demoor.

Outro facto curioso que observámos é o de na primeira experiência termos

chegado pelos _tests_ a considerar como atentos alunos que a Sr.^a

professora da escola anexa indicava como desatentos e grandes

desatentos. Um facto semelhante sucedeu a Binet, que, com grande

surpresa, verificou uma vez, examinando alunos de uma classe de anormais

pedagógicos, que êsses anormais afinal riscavam tantas letras como os

normais. O facto resultava das condições em que primeiro experimentára:

os alunos tinham sido observados isoladamente e na sua presença. A acção

da presença do observador foi uma verdadeira acção estimulante. Postos

os alunos à vontade, trabalhando sem estar sujeitos a vigilância,

diferenças, e grandes, logo se mostraram.

O resultado das discordâncias que observámos no nosso primeiro exame

deve provir, em primeiro lugar, da acção da curiosidade despertada por

aquele exercício completamente novo; em segundo lugar da minha presença

e do ar solene que a prova tomou; em terceiro lugar talvez de nesta

altura do ano se encontrarem mais fatigados os bons alunos, os alunos

aplicados, que mais trabalharam, do que os desatentos habituais,

preguiçosos, menos aplicados, que menos se esforçaram.

A lição a tirar é de que não devemos procurar formar um juízo sôbre a

atenção por um só exame por meio de _tests_. É necessário repetir e

sempre ter o aluno à vontade, sem estar sujeito a uma vigilância severa,

nem às nossas estimulações por acção intimidante ou reconfortante, como

diz Binet.

Algumas lições de psicologia e pedologia · 第 4 / 8 段