são apenas sciências de gabinete, simples curiosidades, domínios de
investigação scientífica desinteressada, ramos de conhecimentos sem
maior aplicação e utilidade. Não. O fisiologista e o psicólogo têm hoje
o seu lugar até na oficina, até na fábrica. A êles se recorre não só
para julgar das aptidões do operário, mas até para regular a própria
técnica. Opera-se neste momento uma profunda reforma nas indústrias,
visando a levar ao máximo o rendimento de cada operário, recorrendo-se
para isso à fisiologia e à psicologia. É o _tailorismo_ que avança, é a
organisação scientífica do trabalho.
A fisiologia e a psicologia são tam úteis, mesmo fora dos domínios da
Medicina, que neste momento, até em plena guerra elas figuram, sendo os
seus processos de análise regular e obrigatóriamente praticados no exame
dos candidatos a aviadores, êsses heróicos soldados, que nesta guerra,
formidável pela sciência e pela barbaría, tanto influem na estratégia.
Na nossa legislação militar, a propósito da inspecção médica dos
candidatos a aviadores, já se fala do exame das reacções psico-motrizes.
Mas mais ainda. A _psico-fisiologia_, de que em suas proveitosas lições
muitas vezes vos fala o Sr. professor Dr. Alberto Pimentel, logrou até
encontrar aplicação em pleno campo da refrega, onde por exemplo, M.
Lahy, chefe dos trabalhos práticos de psicologia experimental na Escola
de Altos Estudos de Paris, e actualmente mobilizado como oficial, teve
ocasião de com notável utilidade aplicar os seus métodos de estudo a
gloriosos soldados da Argonne, durante a tremenda campanha de Verdun.
E, minhas senhoras e meus senhores, se a psico-fisiologia presta já
tantos serviços na escolha dos candidatos a operários e em soldados,
porque não há-de ela ter tambêm o seu lugar no exame dos candidatos à
profissão de professor?! Pensai nisto, que é nesta arte que andais a
aprender: a arte de educar, que é mais necessário rigorosamente escolher
os mesteirais, porque são êles que lidam com a mais preciosa e delicada
das nossas matérias primas: a criança, e se ocupam da mais importante de
tôdas as indústrias: a indústria da formação de cidadãos úteis,
prestimosos na sua profissão, excelentes nas suas virtudes físicas e
morais, e no seu amor à Pátria!
Meus Alunos:
A visão das côres e a aptidão a discriminá-las não se revela logo após a
nascença, nos primeiros dias. Factos que a sciência regista levam a
supor que essa faculdade visual se manifesta _claramente_ e
_indiscutívelmente_ só ao fim de alguns meses. Ao poder de discriminação
das côres, segue-se o de nomeá-las. É interessante fazer notar o facto
de que a criança aprende mais fácilmente os nomes das cousas do que os
das côres. Citam-se casos em que crianças de dois anos e mais,
conhecendo perfeitamente os nomes de certos frutos bem característicos,
pela sua fórma e pela sua côr, uvas, morangos e laranjas, não sabem no
entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes das côres que ostentam.
Trace, professor da Universidade de Toronto, que examinou vários
vocabulários infantis, da língua inglesa, chama a atenção para o facto
de ter encontrado apenas perto de trinta nomes de côres num vocabulário
de mil e cem palavras. E várias vezes, diz êle, não encontrou, em
vocabulários de crianças de dois anos, um só nome de côr, não obstante
essas crianças possuirem já de trezentos a quinhentos vocábulos.
Um outro facto a pôr em destaque é o de que a criança pode discriminar
as côres, possuir vocábulos para as nomear, mas não associar
correctamente a côr ao seu nome. Parece que é esta a principal
dificuldade que a criança tem no reconhecimento das côres.
Creio que foi o professor Monroe, professor de Psicologia em Westfield,
quem realizou o maior número de experiências sôbre o sentido cromático
de crianças, de três a sete anos de idade. São curiosas as conclusões a
que chegou. As meninas distinguem, em geral, mais fácilmente, as côres,
e reteem mais fácilmente tambêm os nomes destas. Esta superioridade no
sentido cromático é mais acentuada dos cinco aos sete anos do que antes,
e está de acôrdo com a superioridade do sentido cromático que as
estatísticas dos defeitos de visão das côres levam a atribuir à mulher,
onde êles são menos freqùentes. E como essa superioridade se revela
mesmo nas idades em que as crianças dos diversos sexos têm as mesmas
ocupações, pode-se atribui-la a uma diferença sexual inata, em que
talvez se possa tambêm, como alguns fazem, encontrar a causa do
coquetismo, da garridice das côres dos trajos da mulher.
As experiências sôbre a visão das cores nas crianças, são muito
delicadas, por serem difíceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem,
ou se lhes mostram côres e se lhes perguntam os nomes, determinando a
percentagem dos erros cometidos, ou se nomeiam côres e se pede à criança
que as vá indicando ou escolhendo numa colecção de objectos, iguais ou
diferentes, diversamente coloridos, ou se lhes mostra uma côr e se pede
para dentre muitas diferentes escolher uma igual, ou, e êste é o
processo de escolha na criancinha de tenra idade, se observa a sua
expressão fisionómica e a sua mímica, vendo se ella sorri ou chora, ou
se assusta, ou se aproxima, ou se afasta ou, mais precisamente, medindo,
contando como faz Baldwin, que considera como a melhor maneira de julgar
do valor dos estímulos sensoriais na criança, o estudo das reacções
motrizes que êles provocam, e principalmente os movimentos da mão,
contando, como eu dizia, o número de movimentos de aproximação ou
atracção, e o dos de recúo ou repulsa, que as diferentes côres provocam,
quando mostradas a distâncias diferentes.
Para terminar esta parte da minha lição, dar-lhes hei conta ainda de
dois factos mais, que interessam muito ao estudo da visão das côres na
criança.
Lehman notou que as côres que a criança reconhece mais fácilmente são
aquelas cujos nomes melhor sabe, e notou mais ainda que os tons que não
têm nomes especiais não são por elas reconhecidos.
Outro facto tambêm de que vale a pena tomar conhecimento e fixar é de
que experiências de diversos levam a considerar como côres de maior
predilecção na criança, o vermelho e o azul.
Assim como há diferenças individuais na sensibilidade à luz, que
permitem discriminar diferentes graus de intensidade luminosa, assim
como há diferenças individuais na sensibilidade visual que permitem
discriminar, pela fórma, os objectos a distância, assim há diferenças
individuais na sensibilidade visual que permitem discriminar as côres e
perceber as variações de tonalidade de cada uma delas. E do mesmo modo
que há cégos que sentem a luz mas não vêem os objectos, há cégos que
vêem os objectos mas não lhes vêem as côres. Há de facto indivíduos,
raros é verdade, que vêem os quadros mesmo os mais ricos em colorido, os
mais variegados, como se fôssem pintados em cinzento, de vários tons.
Há tambêm indivíduos, e estes na percentagem aproximada de 3 a 4% no
homem e 1 a 2% na mulher, que discriminando algumas côres como o azul e
o amarelo, não distinguem o verde do vermelho e vice-versa.
Para alguns dêstes indivíduos, como dizia Arago, as cerejas nunca estão
maduras. E neles compreende-se que possa suceder, como diz M.^{elle}
Yoteyko, que não vejam os morangos, num morangueiro carregado dêles, ou
não descubram um lápis de lacre, em cima de um relvado. É a êste grupo
de cegos cromáticos ou indivíduos daltónicos, que pertencia aquele de
que Fuchs por exemplo fala no seu _Manual de Oftalmologia_, que queria
remendar um fato preto com um pedaço de pano encarnado, julgando que
êste era preto!
A cegueira total para as côres ou _acromatopsia total_, a cegueira
parcial para as côres ou _acromatopsia parcial_, a cegueira especial
para o vermelho, ou _aneritropsia_, e outros defeitos cromáticos de
menor vulto ou _discromatopsias_, denominam-se muitas vezes, em globo,
_daltonismo_, termo que mais própriamente se deve empregar nos casos de
_aneritropsia_, ou cegueira para o vermelho.
A palavra _daltonismo_ deriva de Dalton, nome do célebre físico inglês,
que vendo que confundia as côres das flôres, examinou o espectro solar e
constatou que a parte do espectro que se chama vermelha, lhe parecia
apenas quási uma sombra, quási um feixe sem luz (vid. sôbre êste assunto
da visão das côres um livrinho excelente que muito vos recomendo: o
livrinho de M.^{elle} Dr.^a Yoteyko, _Aide-mémoire de psychologie
expérimentale et de pédologie_, vol. 1, _Les sensations_, pág. 309).
Há indivíduos que confundem os nomes das côres e que no entanto não
sofrem de discromatopsia, pois discriminam bem as côres e os seus tons;
são apenas ignorantes. Assim, por exemplo, sucedia a um doente do
Hospital de S. José, examinado pelo meu prezado amigo e distinto
oftalmologista Dr. Costa Santos, hoje director daquele Hospital, que lhe
falava de um «azulinho côr de alface», não obstante distinguir bem os
tons azuis e verdes.
Em contraposição há _daltónicos_ que com tôda a propriedade chamam
vermelhas as cerejas e verdes as fôlhas, mas que não distinguem o
vermelho do verde; empregam os qualificativos verde e vermelho, por os
ouvirem empregar aos outros. Há mesmo mais: há _daltónicos_, que
distinguem um objecto verde de outro igual, mas em vermelho, não
própriamente porque a _qualidade_ da côr os impressione, mas sim pela
_quantidade_ da côr, pelo seu pêso, pela quantidade de pigmento que
contêem. Se êsses objectos fôssem um vermelho e outro verde, mas de tons
da mesma quantidade, igualmente leves ou igualmente carregados, então
não os distinguiriam, confundi-los-iam, achá-los-iam perfeitamente
iguais.
Está-me lembrando neste momento um dos nossos mais notáveis
oftalmologistas e até por sinal grande apreciador de quadros, que me
confessou e por fórma bem sincera e brilhante, que sentia mais ou menos
o vermelho, mas quási não via o verde; para êle o verde e o vermelho são
tão distintos como o azul e o amarelo. E na mesma ocasião em que isto
ouvia, um colega que assistia à conversa, informou-me de que um dos
nossos melhores paisagistas não distingue fácilmente os tons de certos
objectos que vê e está pintando. Sofre da dúvida das côres.
As discromatopsias ou defeitos da visão cromática, passam por vezes
desapercebidas aos indivíduos que deles sofrem. Assim como há _míopes
inconscientes_, de que o ano passado por exemplo falei na minha lição de
abertura sôbre a _agudeza visual e auditiva, sob o ponto de vista
pedagógico_, há _daltónicos inconscientes_. E um dos mais notáveis
exemplos que dêles se pode apresentar é o que Fuchs menciona no seu
_Manual_: um médico de uma companhia de caminhos de ferro, médico
encarregado de examinar o sentido cromático dos candidatos a empregados
da companhia, que o procurou para lhe pedir algumas instruções sôbre os
métodos dêsse exame, e que Fuchs no decurso da conversa e em vista dos
erros que notou que êle cometia no exame das provas, verificou ser um
daltónico, e nem mais nem menos do que cego para o vermelho!
A cegueira ou a simples diminuìção da agudeza cromática pode ser
congénita ou adquirida. Há lesões oculares que a determinam e
discromatopsias há que são atribuíveis a intoxicações, pelo álcool ou
pelo tabaco.
Van Biervliet atribui certas discromatopsias congénitas a uma acção
resultante de hereditariedade por falta de treino do sentido cromático
nos ascendentes.
Interpretando, como em regra se interpreta, a diferença séxual notável
que existe entre a percentagem das discromatopsias no homem e na mulher,
com vantagem para esta, ao maior uso que esta faz do seu sentido
cromático, notávelmente aplicado em certos trabalhos como os trabalhos
de bordadora e de modista, profissões muito espalhadas entre os
indivíduos do sexo feminino, generaliza e diz que os visuais, cujos pais
eram pintores, iluminadores, mosaístas, etc., nascem, graças ao treino
realizado pelos seus ascendentes, com uma retina e centros visuais mais
sensíveis às côres. É uma opinião, de resto discutível.
Tendo examinado todos os candidatos à matrícula no 1.^o ano desta Escola
Normal, pela fórma que adiante descreverei, àparte uma ou outra
hesitação, discromatopsias própriamente ditas só em dois candidatos,
senhoras, encontrei, verificando uma confusão notável de tons do
amarelo, com que experimentámos, amarelo canário claro, e amarelo gema
de ôvo.
A visão das côres tem sido particularmente estudada nos escolares
anormais. Zihen cita casos de atardados de doze a quinze anos, com
suficientes conhecimentos escolares, podendo sustentar uma conversa
sôbre assunto simples, mas incapazes de reconhecer as côres. Ley, cujo
trabalho sôbre o _atraso mental_, em escolares é o mais bem documentado
que conheço, e que observou 110 crianças da escola especial para
atardados, de Antuérpia, que tive o prazer de com o maior proveito e na
companhia do seu director o Sr. professor Yack, tive o prazer, dizia, de
visitar, por sinal um mês antes de rebentar a guerra, Ley encontrou 23
crianças com graves defeitos da visão das côres, e 45 reagindo
normalmente, correctamente, seriando de cinco a seis tons de oito côres
diferentes. Pode haver, portanto, em face de tudo o que dissemos,
crianças inteligentes com fraca visão das côres ou mesmo cegueira, e
inferiores mentais com boa visão cromática.
Vale a pena citar tambêm, nesta altura, o facto mencionado por vários e
verificado por M.^{lle} Descoeudres, de Genebra, de que as côres mais
vulgarmente confundidas pelos anormais são o azul e o violeta. M.^{lle}
Descoeudres cita tambêm no seu _Manual_ para a educação de anormais,
como notável, o caso de um rapaz epiléptico, que desde os oito aos treze
anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar uma série de fichas ou
tentos, de côr azul ferrete com uma ficha de côr violeta, de permeio,
pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha que não era como as outras,
êle não a encontrava, não obstante compreender bem a pergunta. Êste
rapaz confundia tambêm o verde-malva com o azul claro.
Há na visão das côres um elemento que importa muito considerar: é a
atenção. A falta de atenção explica muitas vezes erros da visão das
côres, que à primeira vista se poderiam ter como sinais de daltonismo.
Ao lado do daltonismo verdadeiro, há um falso daltonismo, uma cegueira
de distracção, que não própriamente cegueira ou incapacidade de visão
das côres.
Numa série de rapazes da Casa Pia, principalmente entre aqueles
atardados, que com onze, doze e treze anos de idade, ainda freqùentam a
primeira classe de instrução primária, tendo dois a três anos de casa,
observei eu que alguns, quási todos, cometiam erros graves na visão das
côres, mas erros que variavam com a natureza do _test_ e com a hora do
exame. O aluno 4.337 que de manhã, antes de começar as aulas, apenas
confundia o verde claro com o azul claro, e alguns tons de verde, entre
si, à tarde, logo em seguida à quarta hora da aula, confundia alguns
_tons verdes com tons vermelhos_, como se se tivesse tornado daltónico
de manhã para a tarde. Era a fadiga que lhe diminuia a atenção, e o
levava a cometer erros dêstes. O aluno 305, êsse ainda mais claramente
mostrava que os erros que cometia na visão das côres resultavam de falta
de atenção, pois que quási não cometendo erros no exame discriminativo
de vários tons do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma sessão
cometeu erros tais que confundia roxo com vermelho, alaranjado com
amarelo claro e azul com verde, simplesmente porque tinha de atender de
cada vez a duas côres, que se mostravam ao mesmo tempo. Olhava só para
uma, a que cobria uma maior extensão, e que êle distinguia
perfeitamente, não se importando no entanto com a outra, para que aliás
se lhe chamava tambêm a atenção. Bem diz M.^{lle} Descoeudres a
propósito da visão das côres nos anormais: «é preciso sempre entrar em
linha de conta com o factor atenção, por causa da qual se torna difícil
o pronunciarmo-nos sôbre as noções de côr nos anormais.»
Não basta para explicar as anomalias da visão das côres invocar por
exemplo uma das duas teorias clássicas da visão cromática: a de
Yung-helmholtz ou a de Hering. Não basta explicar, como se faz na
primeira destas teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para o
vermelho, pela ausência, na estrutura da retina, de uns elementos que
são mais particularmente sensíveis ao vermelho e nos dão esta sensação,
e dizer que, faltando êles, a luz vermelha impressiona os elementos
principalmente sensíveis à luz verde, e que nos dão a sensação do verde,
fazendo assim com que o vermelho nos impressione como se fôsse apenas um
tom daquela côr. Não basta explicar, como se faz na teoria de Hering, a
cegueira para o vermelho e para o verde, pela falta de uma substância
foto-química, alterável pela acção da luz vermelha e da luz verde, e que
conforme o sentido da alteração origina a sensação do verde ou do
vermelho. Não. É necessário lembrarmo-nos que a atenção é elemento muito
importante, a considerar tambêm na visão das côres, podendo só por si
dar origem à confusão delas, sem que haja própriamente incapacidade
orgânica para a visão.
Há uma concepção filosófica da visão, devida a Tscherning (vid. _Année
psichologique,_ 1914, pág. 43), que permite compreender bem a influência
que a atenção pode ter na visão. Tscherning compára a sensibilidade
visual à sensibilidade táctil e diz que se pode considerar os raios
luminosos, que dimanam do exterior para a retina, como uma espécie de
antenas invisíveis, presas ao fundo dos olhos e que com êles se movem,
antenas com que nós examinamos os objectos. São o que êle chama os
_fotóforos_. Se tivessemos um só fotóforo estariamos nas condições de um
cego, que se guia com a ponteira da bengala; como, porêm, temos vários
fotóforos, quando olhamos para os objectos, como que passeamos sôbre
êles esta espécie de retina aparente, como que os apalpamos,
examinando-os atentamente, tal como sucede quando julgamos do paladar de
uma substância, saboreando-a com atenção. É uma concepção interessante,
que me parece permitir muito bem fazer uma idea da influência que a
atenção pode e deve ter na apreciação das qualidades dos corpos pela
vista, e entre elas a côr.
O exame da visão das côres na escola pode permitir explicar insucessos
que se dão no ensino por meio dos mapas e das estampas nas lições de
cousas, e nos lavores, mas, àparte êste préstimo, tem tambêm o de por
vezes servir para orientar o aluno na escolha da profissão. O professor
deve sempre preocupar-se com o futuro do aluno. Ao daltónico são vedadas
certas profissões, principalmente nas carreiras marítima e militar e na
de maquinista, onde se é obrigado a guiar-se, como sucede nos caminhos
de ferro e nas embarcações, interpretando sinais de côres diferentes.
Esta questão tem tanta importância que num excelente manual inglês de
higiene escolar se consagram, no capítulo que trata dos olhos e da
vista, bastantes linhas à questão do exame da visão das côres nos que
deixam a escola, por terem terminado o seu ensino (_the leavers_).
São muitos os processos adoptados no exame da visão das côres, e pode-se
dizer que não são de mais, visto que muitas vezes é necessário sujeitar
o indivíduo a vários exames, para descobrir-lhes os defeitos ou melhor
para verificar o defeito. Aquele que pretende ingressar em carreira em
que se liga grande importância à visão das côres, serve-se de vários
meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira que se lhe põe do exame
rigoroso a que são sujeitos; chegam a estudar os _tests_, a
habilitarem-se para o exame médico. Aprendem a ser observados, e a
enganar. E compreende-se que possam chegar a fazê-lo, visto que, como já
tive ocasião de dizer nesta lição, o daltónico pode distinguir as côres,
sem as vêr, atendendo únicamente à quantidade e não à qualidade da côr,
e pode apropriadamente aplicar-lhes os nomes. Na criança é preciso
contar sobretudo com os erros que comete por ignorância e falta de
atenção. Uns e outros podem levar a considerar como daltónico, quem o
não seja. Não é bom o processo de perguntar os nomes das côres à
criança, para julgar da sua visão. O melhor é mostrar, sem nomear, um
tom de uma certa côr e mandar escolher entre muitas uma côr e tom igual.
Os processos mais comummente empregados são os das lãs de Holmgren, os
dos quadros pseudo-isocromáticos, como os de Stilling, e os das luzes de
lanterna, como o de Edridge Green, por exemplo.
Com as lãs, escolhe-se no meio de muitas meadas, de várias côres e tons,
uma de certa côr e tom, e manda-se procurar uma meada que lhe seja
perfeitamente igual. Pode-se tambêm escolher, por exemplo, meadas de
três côres diferentes, mostrá-las, misturá-las depois com as outras, e
mandá-las procurar, ou ainda mandar separar as meadas por côres, e
seriá-las para cada côr, segundo os tons. Nos quadros
pseudo-isocromáticos há letras ou outros sinais de côres diferentes
sôbre fundos coloridos por tal fórma que um daltónico não os possa
distinguir.
Com a lanterna mostra-se, a distâncias diferentes, luzes cuja côr e tom
se faz variar por meio de vidros apropriados. Etc.
A agudeza da sensibilidade cromática mede-se por fórma semelhante àquela
por que se mede a agudeza visual própriamente dita. Empregam-se, para
isso, quadros especiais, com sinais de diferentes côres, e de
determinado tamanho, e escolhidos por maneira a que se saiba de antemão
as distâncias a que são ordináriamente vistos por normais. No exame da
agudeza cromática vê-se a que distância são vistos pelo examinando e
compára-se esta com aquela a que normalmente elas se vêem.
No exame dos escolares da classe especial de Antuérpia, a que no decurso
desta lição já tive ocasião de me referir, Ley empregou uma colecção de
meadas de lã, de oito côres diferentes e cinco a seis tons por cada côr.
Examinou _isoladamente_ cada um dos escolares (e esta precaução é
importante porque evita os erros por imitação), e para examiná-los
apresentava-lhes uma meada de lã verde-pálido, e _sem lhes nomear a
côr_, mandava-lhes escolher, entre as meadas, todas as que fossem da
mesma côr, tanto as de tom mais leve, como as de tom mais carregado.
Esta prova era seguida de uma outra semelhante em que em vez de uma
meada verde-pálido, se lhe dava uma côr de rosa, muito clara.
No exame sumário que pratiquei em alunos desta Escola, empreguei, em vez
de meadas, carrinhos de retrós, de quatro côres: vermelho, verde, azul e
amarelo, e para cada uma destas côres escolhi dois tons, um muito
carregado e outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos, e os
tons das diferentes côres foram escolhidos por fórma que a quantidade da
côr fôsse a mesma para os tons correspondentes, carregados ou leves, de
cada uma delas.
O _test_ consistia em agrupar dois a dois os carrinhos do mesmo tom e
côr. Não foi só a falta de material, mas tambêm o desejo de lhes indicar
um processo muito simples e económico, que me levou a improvisar êste
processo, em que as côres se sujam menos e se pode fácilmente renovar.
Fora de uso, é preciso conservar as côres ao abrigo da luz.
Nas experiências que fiz na Casa Pia utilizei um dos _jogos educativos_
do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp. Êste jôgo é formado por quatro
cartões, como os cartões do lôto, cada um dêles tendo pintado sôbre
papel, que lhe está colado, uma série de figuras todas do mesmo tamanho,
representando bandeiras de côres e tons diferentes, cada uma delas de
seu tom e côr. As bandeiras são quatro por cartão, tôdas da mesma côr,
no mesmo cartão, e em cada um dêstes dispostas pela ordem de quantidade
de côr, sendo a primeira a mais carregada e a última a mais leve. Num
dos cartões as bandeiras são de côr azul, noutro de côr verde, noutro de
côr vermelha e noutro de côr amarela. Alêm dêstes cartões há uma série
de cartões pequenos, cada um com sua bandeira, de sua côr e tom, a que
corresponde uma igual nos cartões grandes. Utilizei êste jôgo, dando a
cada aluno, e de cada vez, um cartão grande, sôbre o qual deviam colocar
os cartões pequenos correspondentes. Após o exame de cada cartão grande,
misturavam-se os cartões pequenos, os cartões já aplicados e os que
restava aplicar. É um verdadeiro lôto.
Numerando nas costas os cartões pequenos, pode exprimir-se o êrro, por
confusão, indicando-o por meio de uma expressão semelhante a um
quebrado, em cujo numerador se escreva abreviadamente a côr e indique o
número do tom do cartão grande, e em cujo denominador se escreva
abreviadamente tambêm a côr e se indique o número do tom do cartão
pequeno, que erradamente sôbre o primeiro se colocou.