pêso nas crianças. Nos lactários, nessas benemeritas instituições
destinadas a distribuir leite para alimentação artificial das crianças,
cujas mães, por doença, e as mais das vezes apenas por imposição do
trabalho, não podem amamentar, a balança não é apenas um meio de estudar
o crescimento, é um meio de salvar a vida. A aleitação artificial
desregrada é uma espécie de infanticídio que vitíma muitas crianças.
Graças à balança, o médico pode dirigir a alimentação por fórma a evitar
muitos e danosos males.
Mas, meus alunos, os lactários e as consultas para recemnascidos não são
apenas laboratórios de pesagem e agências de alimentação láctea. São
verdadeiras escolas que em muita parte com êxito freqùentam normalistas
como vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar de crianças.
Para o ano, se me fôr permitido e se se me oferecer, como espero,
ocasião e facilidade, procurarei fazer com que o _Lactário_ e o
_Instituto de Puericultura_, da rua Alexandre Herculano, para que agora
chamo a vossa atenção, se relacionem com esta Escola Normal.
A preparação do professor deve ser uma espécie de preparação materna.
Professoras ou professores só têm a ganhar com se habituarem a lidar
desde muito cedo com crianças, e a estudá-las, estimá-las como pais. E
êste deve ser a meu vêr o principal fim da co-educação na Escola Normal.
De resto, eu quereria que desde o primeiro ano do curso, alunos e alunas
estudassem Pedologia para se habituarem a viver com as crianças, para se
habituarem a vê-las não só no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes
necessário, das aulas, onde se lhes estanha a fisionomia, se lhes
paralisam os movimentos, se lhes esconde a graça, se lhes abafam os
sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm para se habituarem a
vê-las, e lidar com elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência da
sua mímica, com a alacridade dos seus gritos, esfusiando alegria,
irradiando afectividade, nos prendem, nos alegram, nos comovem, nos
enternecem, nos interessam e nos fazem estimá-las, compreendê-las,
protejê-las, e educá-las.
Meditai as palavras de Waynbaum, com que terminarei a minha lição e que
se referem à fisionomia da criança:
«A voz do sangue, o amor da progenitura, o instinto natural pouco entram
na constituição dêste sentimento sólido e orgânico que fórma o amor do
pai pelo seu filho. Estes laços naturais, hereditários, existem
certamente, mas não valem o laço que a própria criança cria e faz
aparecer no nosso coração, êsse laço que é uma arma poderosa que a
natureza lhe deu e de que ela largamente usa para se prender a nós, para
se tornar uma parte de nós mesmos.»
Meus alunos, senhoras e senhores, que em breve todos sejais professores.
Futuros pais, sêde bons professores: _futuros professores, sêde como
pais_[7].
Lisboa, 19-IV-915.
A AGUDEZA VISUAL E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO DE VISTA PEDAGÓGICO[8]
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Meus Alunos
Sejam as minhas primeiras palavras, no dia de hoje, de saúdação e
agradecimento e principalmente de agradecimento para com S. Ex.^a o
actual Ministro da Instrução Sr. Prof. Ferreira de Simas, e para com o
Conselho desta Escola a quem sobretudo devo a honra de poder novamente
retomar êste logar, grato para mim como nenhum outro, e onde poderei
continuar a série de lições que o ano passado iniciei, desejando e
esperando que elas, pelo menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam
proveitosas como o ano passado tenho a certeza que foram.
Meus Alunos
Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, embora seja a lição de
abertura do meu curso dêste ano, não é no entanto a primeira lição que
êste ano vos dou. A primeira foi aquela que cada um de vós recebeu,
quando eu, acedendo ao criterioso convite do Sr. prof. Tiago da Fonseca,
secretário desta Escola, procedi à medida da agudeza visual e da
auditiva de cada um dos que pretendiam matricular-se, a fim de que na
sua distribuição pelas turmas e pelas salas se atendesse às indicações
tiradas daquele utilíssimo exame.
Procedi a êsse exame não como médico, mas como professor, e procedi por
fórma a dar-lhes uma norma de inspecção, segundo a qual todos, no
exercício das suas funções, em qualquer escola que seja, poderão
proceder a ela, e por meio dela classificar, segundo a visão e a
audição, os seus alunos em um dos três grupos:--_supra-normais_,
_normais_, _infra-normais_, distribuindo-os nas salas das classes pela
maneira que mais convêm ao ensino: adiante os que ouvem e vêem pouco, ao
meio os que vêem e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem e vêem
melhor. Tive sempre tambem o cuidado de, quando verificava a existência
de anormalidade, ou melhor, quando encontrava candidato que via ou ouvia
a uma distância notávelmente inferior àquela a que a maioria costuma vêr
e ouvir, tive sempre o cuidado, dizia, de lhes aconselhar a que se
dirigissem a médico competente para que se julgasse da causa da
inferioridade e se corrigisse esta, se porventura isso fôsse possível;
enfim, para que se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer com que
cuidassem da saúde de órgãos importantíssimos para todos e
principalmente para quem aprende e para quem ensina, mas tambêm quiz
assim indirectamente aconselhar-lhes ou apontar-lhes a maneira de
proceder que convêm que adoptem quando tiverem como eu, na sua qualidade
de professores, de examinar e medir a agudeza visual e auditiva dos seus
alunos.
A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas escolas sobretudo à custa de
excitações visuais e auditivas. O professor dirige-se principalmente à
vista e ao ouvido do aluno. Se vista e ouvido não estiverem em condições
de aprender nítidamente, de serem clara, forte, profunda e
agradávelmente impressionados, a instrução não se fará ou far-se há
defeituosa e deficiêntemente; a falta de aproveitamento com facilidade
se fará notar.
Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba por deixar de prestar atenção; não
se aplica, não se instrui e não se educa tambêm, como deve ser, porque a
experiência é pouca e má, porque não excita convenientemente os
sentidos, porque não enriquece convenientemente o cérebro em imagens,
precisas e nítidas. Não tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não
desenvolve a inteligência.
Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento dum grande número de
propriedades e tal é o papel que as imagens visuais representam na
_cerebralidade_, na compreensão das cousas, que Gaston Gaillard, num
artigo notável sôbre as _condições ópticas e fórma visual da
inteligência_, disse: «a inteligência parece ser uma espécie de
faculdade óptica.» Fisiologistas e histologistas têm demonstrado que a
visão tem uma influência importantíssima no desenvolvimento dos centros
cerebrais, e vários médicos têm demonstrado tambêm que muitas vezes o
atraso intelectual nas crianças, que os franceses chamam _arriérés_, nos
débeis mentais ou _atardados_ como se vai dizendo em português, o
atraso, a inferioridade resulta muitas vezes dum defeito de visão.
Vários casos se apontam tambêm de perfeita normalização de crianças
anormais-inferiores, por simples tratamento ou correcção conveniente do
seu defeito visual. Êstes anormais são verdadeiros _anormais de ocasião_
ou anormais por _deficit sensorial_, como os chama Ley. E já que vos
estou falando das relações da visão com o desenvolvimento intelectual,
com muito prazer e com muita utilidade para vós vos chamarei a atenção,
convidando a lê-la, para a conferência realizada em 20 de Maio de 1914,
na Sociedade Portuguesa de Estudos Pedagógicos, pelo nosso distinto
Inspector Geral de Sanidade Escolar e meu muito presado amigo Dr. Costa
Sacadura, conferência intitulada: _Influência do estado da visão sôbre o
desenvolvimento intelectual e físico das crianças_.
Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer a propósito da inferioridade
da agudeza visual, poderei dizer tambêm a propósito da baixa ou redução
da agudeza auditiva. A criança que ouve mal, compreende mal, acaba por
desinteressar-se, distrai-se, deixando de escutar e aprender,
atrasando-se na instrução por falta de noções que lhe ministram
oralmente e que ela não aprende, atrasando-se na educação, por _deficit_
de excitações sensoriais auditivas. O professor Bezold, de Munich, notou
que quanto maior fôr a dureza do ouvido, tanto menor é o desenvolvimento
intelectual. E Rouma no seu importante livro: _La parole et les troubles
de la parole_, conta que numa classe de crianças semi-surdas, em Berlim,
classe composta por 12 alunos, entre os quais havia 4 que tinham sido
apontados como intelectualmente inferiores, êstes se mostraram como
perfeitamente aptos para o trabalho escolar e provaram ter uma
inteligência perfeitamente normal, logo que foram colocados num meio em
que se os educou tendo em vista a sua inferioridade física.
A dureza do ouvido deforma as imagens auditivas e a criança procurando
reproduzir os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia palavras
deformadas, adulteradas, sofrendo assim dum defeito de pronúncia por
simples defeito da audição.
A redução da agudeza visual e da auditiva veem a ter tambêm uma
influência importante no feitio moral daqueles que delas sofrem. A má
compreensão dos factos que se passam em redor e de que tomam
conhecimento por intermédio de órgãos insuficientes e a dificuldade de
comunicar com as outras pessoas, acarretam muitas vezes conseqùências
mais ou menos emocionantes que podem perturbar o carácter. Lembrem-se
das diferenças psicológicas, de ordem moral, que todos sabem que existem
entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o que vê. E neste momento,
ao tratar-se dêste assunto, eu relembro a transformação que se operou no
meu espírito, e a alegria que experimentei, quando pela primeira vez eu,
que era um _míope inconsciente_, olhei para o que me cercava, através de
umas lunetas de vidros divergentes. Corrigi a minha vista e então
comecei a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas vezes não seguia
o que se expunha no quadro preto, por supôr que isso era só para os que
junto dêle estavam, e comecei então tambêm a usufruir uma maior soma de
prazer, o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha concepção do mundo
modificou-se, melhorou. Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo
e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, se me permitem o
termo.
E lembrar-me eu que entre vós, segundo as minhas recentes observações,
há, de 43% de inferiores ou defeituosos da visão, apenas uns 10% com a
vista corrigida! Correi já, por vosso interêsse, aos médicos oculistas;
eis o meu conselho.
Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de infra-normais que a observação me
levou a encontrar, na população desta Escola, que não se descuidem
tambêm, porque é possível que nalguns se trate de defeito corrigível,
talvez apenas de uma obstrução ocasional, que simples lavagens ou duches
auriculares farão desaparecer. Devo dizer-lhes que as percentagens que
acabo de apontar dizem apenas respeito a alunos com inferioridade
bilateral dos olhos ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos simples,
que todos viram praticar, e dos quais lhes vou agora dar mais minuciosa
conta.
Numa sala desta Escola que me pareceu ser daquelas onde menos se ouve o
barulho da rua, que neste sítio infelizmente não é pequeno, coloquei em
face de uma das janelas, a seis metros aproximadamente dela, e a uma
altura que correspondesse aproximadamente à dos olhos da maior parte dos
alunos, coloquei, dizia, um cartão em que colocara o _quadro
optométrico_ dos Drs. Mario Moutinho e Costa Sacadura, quadro que
suponho se encontra espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma larga e
útil distribuição.
Marquei a giz sôbre o chão um traço indicando a distância de 5 metros
para àquem da parede onde pendurava o quadro optométrico.
Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei a uma altura correspondente à
dos ouvidos na maioria dos alunos, um traço horizontal, a giz, sôbre o
qual a partir aproximadamente de 1 metro de uma das extremidades marquei
um zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais indicando os
decímetros e os metros (4 metros aproximadamente).
Quando ia proceder aos meus exames, procurava obter o maior silêncio
possível, na proximidade da sala, e fazia entrar os alunos um a um ou
dois a dois, e de maneira a evitar que se distraíssem. Uma empregada
tomava-lhes à entrada o nome e eu logo começava o meu exame, em que fui
várias vezes auxiliado pelo meu venerando colega Sr. prof. Pedro
Ferreira. Para a medida da agudeza visual, mandava colocar o aluno em
frente do quadro optométrico a uma distância aproximadamente de 6
metros. As letras do quadro estão dispostas em 3 linhas paralelas e tais
que para uma visão normal devem respectivamente ser lidas a 20, 10 e 5
metros de distância. Mandava procurar ler a 6 metros as letras da linha
inferior, aquelas que se devem lêr, quando a visão seja mediana, à
distância de 5 metros. Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas à
distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos _supra-normais da visão_,
se não, mandava-o tentar ler as letras da mesma linha à distância de 5
metros. Se as lia, colocava-o no grupo dos _normais_: finalmente se o
aluno nem à distância de 5 metros lia sequer dois terços das letras que
a essa distância devia ler se a visão fôsse normal, colocava-o no grupo
dos _infra-normais_, e procurava então vêr quais as letras que conseguia
ler a essa distância de 5 metros. Se lia as da linha média, que um
normal devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a
1/2 do normal, se lia a 5 metros só aquelas que um normal lê à distância
de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1/4 do normal.
Se nem estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual inferior a 1/4 do
normal.
O exame era feito em separado, para cada um dos olhos, tendo o cuidado
de evitar que com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza visual se
não estava medindo. Em regra, e esta parece ser a melhor fórma, mandava
colocar um cartão de visita diante do ôlho a encobrir, mas um pouco
afastado dele.
Esta técnica, que é uma técnica de confiança para determinar com
precisão a agudeza visual, pode ser empregada por qualquer professor, e
praticada em todos os escolares, mesmo naqueles que não sabem ler, visto
que junto às letras e com dimensões respectivamente iguais às delas se
encontram no quadro optométrico linhas com sinais (_optotipos_ se
chamam) que um analfabeto pode perfeitamente apontar (zonas circulares
incompletas, com abertura voltada segundo quatro direcções).
Para o exame do ouvido, mandava colocar o aluno em frente da linha que
traçara na parede, voltado para ela, junto dela e com o ouvido direito à
altura do zero. O aluno, com um dedo, sem carregar, tapava o ouvido
esquerdo e olhando em frente, prestava atenção a vêr se ouvia o
_tic-tac_ de um relógio de algibeira, que eu lhe aproximava do ouvido.
Logo que o aluno dava sinais de o ouvir, começava eu a afastar o
relógio, fazendo deslocar êste sôbre uma linha, não perpendicular à
face, mas sim dirigida para diante, perpendicularmente ao pavilhão da
orelha. E deslocando o relógio procurava determinar a maior distância a
que o aluno conseguia ouvir o bater dêsse relógio.
Fiz uma série de observações e verifiquei que _com o meu relógio_ a
maioria ouvia o _tic-tac_ a uma distância de 2 a 3 metros. Em vista
disto considerei como _infra-normais_, na audição, francamente
infra-normais, os que ouviam o máximo a 1 metro e _supra-normais_, na
audição, francamente **supra-normais**, os que ouviam a 3 metros e mais.
Para o exame do ouvido esquerdo, mandava voltar o aluno, colocava-o com
o ouvido esquerdo à altura do zero, pedia-lhe para tapar o ouvido
direito e olhar bem em frente, ou fechar os olhos, e procedia depois por
uma fórma semelhante à que adoptei para o exame da agudeza auditiva do
ouvido direito.
Quando a redução da agudeza auditiva era notável (menos de 1 metro),
mandava sentar o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, e
colocando-me atrás dele, no lado oposto, falava-lhe em tom ordinário por
fórma a ver se me ouvia e para isso o mandava repetir a frase que eu
pronunciava ou executar movimentos que lhe ordenava.
Êste processo, da medida da agudeza auditiva, ao contrário do que
adoptara para medida de agudeza visual, não é exacto, não é preciso, não
é seguro, mas serve, e isso basta, para comparar os alunos debaixo do
ponto de vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas aulas, de acôrdo
com ela.
Nas crianças é necessário talvez tomar mais precauções do que aquelas
que com os senhores tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: os olhos
e de vez em quando _fingir_ que se aproxima ou afasta o relógio, para
assim julgar do valor das suas respostas.
Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que levava, em regra, dois a três
minutos com o exame da agudeza visual e da auditiva.
Na Casa Pia, onde eu e o Dr. Jorge Cid temos feito várias observações,
usando de processos semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei há
dias a existência de alguns factos curiosos para que não quero deixar de
chamar-vos a atenção. Considerando apenas os alunos que neste momento
freqùentam a 4.^a classe de instrução primária, e com êles os que em
Julho a freqùentaram e distribuindo-os por ordem crescente das idades
verifica-se: que à medida que se avança na escala das idades, e aumenta
o número de anos de internato, diminui a percentagem de alunos que
fizeram exame do 2.^o grau, e _diminui a percentagem dos que têm audição
normal_. Quere isto dizer que é provável que o atraso de alguns alunos
provenha de inferioridade auditiva. Por outro lado encontram-se dois
máximos de freqùência da visão inferior à normal um (30%) coincidindo
com o máximo de freqùência de exames do 2.^o grau (61%) e outro (40%)
coincidindo com o máximo da idade (16 anos e mais) e o mínimo da
freqùência de exames (40%), factos estes que interpreto por esta fórma:
a anormalidade visual nos rapazes de 16 anos e mais (máximo de idade),
que ainda não fizeram exame do 2.^o grau, coincide e deve estar
relacionada com inferioridade mental e a grande freqùência da visão
inferior à normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a que na sua maior
parte pertencem os que fizeram exame do 2.^o grau, é naturalmente devida
à _miopía_ que o trabalho das aulas agrava, quando não determina. Quando
um dia me ocupar particularmente dêste importante defeito da visão, a
miopía, procurarei obter alguns dados especiais recorrendo,
provávelmente, para isso, ao registo das observações oftalmológicas e às
estatísticas do distinto médico-oftalmologista da Casa Pia Dr. Xavier da
Costa.
A miopía é uma verdadeira doença profissional da escola; é em grande
parte um produto do trabalho escolar. A sua freqùência aumenta à medida
que se avança no grau do ensino. E já que levantei êste incidente, não
deixarei de vos recomendar a leitura de uma interessante e utilíssima
conferência feita na Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, pelo Dr.
Sebastião da Costa Santos, tambêm distinto médico-oftalmologista, e em
que por fórma muito clara e completa se trata da miopía e doutros
assuntos de oculística que se prendem com a higiene escolar.
O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se tambêm a permitir
julgar até certo ponto de certas qualidades de ordem psíquica que ao
educador muito interessa conhecer. A maneira por que o aluno se
apresenta, a rapidez ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez ou a
lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira agitada ou, pelo
contrário, lenta e dócil por que se comporta, a precisão ou a indecisão
na compreensão e execução das nossas ordens, tudo permite, com grande
probabilidade de acêrto, formar um juízo útil e necessário para o
educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a _potencialidade
nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os dois tipos
extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_, tardo nas
suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos importantes
para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações muito úteis
para a escolha dos meios educativos a empregar.
O exame da agudeza visual e da auditiva feito à luz dos conhecimentos
que vos procurei transmitir permitir-vos há convencer-vos, desta verdade
fundamental: _de que os escolares são diferentes uns dos outros_. E
convencidos disso, o vosso espírito estará preparado para a adquisição
desta outra verdade: _de que o ensino se deve individualizar o mais
possível_.
A pedologia, estudo da criança, vos ensinará a conhecer os vossos
alunos, e a encontrar o caminho educativo que mais convêm seguir.
Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e conseguisse que em tôdas as
escolas o professor determinasse a agudeza visual e a auditiva e eu, e
todos os que tivessem contribuído para isso, teríamos alcançado a não
pequena glória de ter promovido na escola o que o grande professor
Biervliet, a propósito do mesmo assunto, não duvidou chamar um
_progresso imenso_.
Disse.
A VISÃO DAS CORES[9]
Minhas Senhoras e meus Senhores:
Foi objecto da minha lição de abertura, no ano findo: _A agudeza visual
e a auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_, tendo-me servido de
pretexto para a lição o exame da agudeza visual e da auditiva por mim
praticado, nos alunos desta Escola, com o fim de se regular a sua
distribuìção nas aulas. Será êste ano objecto da minha primeira lição um
assunto que se prende tambêm com a fisiologia dos sentidos, servindo-me
de pretexto para ela o exame que êste ano tambêm fiz a alunos desta
Escola, mas não só com o fim de julgar da sua agudeza visual e da sua
agudeza auditiva, mas tambêm para julgar até certo ponto do seu sentido
cromático, do grau da sua visão, na visão das côres.
Deu origem a esta ampliação do exame fisio-pedagógico que se começou a
praticar o ano passado por iniciativa do Sr. Secretário desta Escola, e
seu distinto professor sr. Tiago da Fonseca, deu origem a essa
ampliação, um simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao noticiar que
eu ia proceder ao exame dos alunos, falou em _daltonismo_, e isso
fazendo-me suspeitar uma confusão entre o exame da agudeza visual e o do
sentido cromático e recordando-me da importância que êste pode ter na
escolha dos candidatos a professores, resolveu-me a fazer a minha
primeira lição dêste ano sôbre o _sentido cromático e os seus defeitos_,
e proceder, como procedi, a um _exame elementar_ dêsse sentido.
M.^{elle} Yoteyko, a ilustre professora belga, considera como
indispensável na escola normal a prática de um exame do sentido
cromático, por causa da importância que a diferenciação das côres tem no
ensino. É sua opinião tambêm que a êsse exame devem ser obrigatóriamente
sujeitas tôdas as professoras dos jardins de infância e, mais ainda,
atribúi-lhe, e com razão, grande valor no exame pedagógico dos alunos da
escola primária.
E isto lembra-me as palavras do professor americano Rowe, quando num dos
seus livros, diz: «na cegueira das côres está muitas vezes a explicação
da aparente estupidez que revelam certas crianças das nossas escolas,
diante dos mapas».
O exame fisio-pedagógico que o ano passado se começou a praticar nesta
Escola, deve ser ainda mais ampliado do que foi êste ano, e quando êste
assunto, a _visão das côres_, não fôsse julgado como de maior
importância, para servir de mais a mais de tema a uma lição de abertura
de curso, bastaria para justificar-me e dar-lhe o valor que lhe
contestassem, o tomá-lo como pretexto para chamar a atenção para êste
capítulo importante e quási virgem entre nós, do exame das aptidões.