No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psico

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Rita Farinha (Abril 2010)

ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA

Professor de Psicologia experimental e Pedologia

na Escola Normal Primária de Lisboa

ALGUMAS LIÇÕES

DE

PSICOLOGIA E PEDOLOGIA

LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL

EDITORA

LISBOA PORTO--RIO

COIMBRA DE JANEIRO

SÉDE

132, Rua Aurea, 138, Lisboa

PSICOLOGIA E PEDOLOGIA

ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA

Professor de Psicologia experimental e Pedologia

na Escola Normal Primária de Lisboa

ALGUMAS LIÇÕES

DE

PSICOLOGIA E PEDOLOGIA

LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL

EDITORA

LISBOA PORTO--RIO

COIMBRA DE JANEIRO

SÉDE

132, Rua Aurea, 138, Lisboa

Comp. e impr. na Typ. Costa Carregal--Porto

AOS MEUS COLEGAS E AOS MEUS ALUNOS

DA

ANTIGA E DA NOVA

ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA DE LISBOA

ÍNDICE

Pág.

Prefácio 5

O ensino da pedologia na escola normal primária 7

A arte de educar e a psicologia experimental 17

O pêso do corpo da criança 29

A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto

de vista pedagógico 47

A visão das côres 61

Sôbre umas provas de exame da atenção voluntária

visual 89

Da inteligência do escolar e da sua avaliação 111

Inteligência e apercepção 123

Sôbre psicologia, estética e pedagogia do gesto 135

PREFÁCIO

_Com o título_ Algumas lições de Psicologia e Pedologia _publíco neste

pequeno volume as principais lições que li e comentei, como professor da

antiga Escola Normal do Calvário, e da actual Escola Normal de Bemfica,

às quais acrescento a conferência que realizei no Conservatório, por

ocasião da Exposição de Arte na Escola.

Algumas das lições são verdadeiros planos e resumos dos meus cursos.

A matéria vai exposta com a maior clareza de que fui capaz e pela forma

que me pareceu melhor, em atenção à preparação habitual dos alunos das

Escolas Normais e ao fim que essas escolas têm ou devem ter em vista.

Busquei principalmente interessar e orientar os meus alunos,

habituando-os a confiar na prática dos métodos scientíficos em

pedagogia.

O livrinho vai ilustrado com uma gravura, reprodução duma cópia feita

pelo professor Eduardo Romero, da Casa Pia, cópia de um curioso desenho

de R. Gudden, de Francfort s. M., excelente exemplo de um fenómeno de

apercepção, que encontrei publicado no manual de Starch:_ Experiments in

Educational psychology, _e que me pareceu ser uma ilustração muito

apropriada para acompanhar as minhas lições de Psicologia e Pedologia, e

particularmente a lição:_ Inteligencia e apercepção.

_Estou certo de que a leitura dêste livrinho, e a dos livros que nele

cito, será de muita, utilidade para os alunos das Escolas Normais e para

os candidatos aos concursos de Inspectores primários.

Belem--25--XII--920._

A. Aurélio da Costa Ferreira.

O ENSINO DA PEDOLOGIA NA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA[1]

Minhas Senhoras e meus Senhores:

Parafraseando o emérito Claparède, direi:--como se consideraria uma

escola de horticultura onde se não ensinasse a botânica?!

Que se poderia dizer de uma escola que preparasse professores para a

infância, seus educadores, e em que se não professasse a pedologia?!

Como se chamaria aquele que hoje, no estado em que se encontra a

sciência, quizesse como outrora tratar de doenças, empíricamente, sem

saber, sem nunca ter estudado a anatomia e a fisiologia e as suas

aplicações ao diagnóstico e não soubesse examinar convenientemente,

scientíficamente, um doente, e procurar as indicações? Seria, hoje,

porventura, um médico? Não. Nem mereceria confiança, nem mereceria

consideração e as penalidades da lei até sôbre êle recaìriam.

Como se poderiam considerar aqueles que hoje se obstinassem a pretender

desenvolver a inteligência, formar caractéres, corrigir os instintos da

criança, sem nunca ter aprendido a estudá-la, a medir-lhe a inteligência

e a examinar-lhe o feitio mental, as suas tendências e as suas aptidões?

Pois se a psicologia tem progredido tanto que hoje há processos quási

tam seguros para fazer tudo isto, como há na clínica para estudar o

pulso ou a respiração, desconhecê-los não será, pelo menos, ser um

professor incompleto, atrazado, fóra do seu tempo? Sem dúvida que sim.

Bem posso dizer como eu mesmo dizia no último Congresso Pedagógico de

Lisboa: «querer e crer que sem conhecimentos de pedologia, de higiene

escolar, de metodologia dos trabalhos manuais e da ginástica, possam

saír das nossas escolas normais professores dignos da nossa época, a

quem os governos possam confiar a educação das novas gerações, capazes,

como dizia, parece-me, numa das suas célebres lições de pedagogia, o meu

querido mestre, Dr. Bernardino Machado, capazes não só de

transmitir--_«em tôda a sua pureza o património da civilização dos

antepassados, a hercúlea fôrça atávica que nos pode permitir

reabilitar-nos perante a história»_--mas tambêm capazes de fazer tudo o

que fôr possível fazer-se para fomentar o progresso, melhorar a raça,

melhorar o solo, melhorar o país; querer que aqueles a quem compete

fazer e refazer a pátria, a façam e refaçam como noutros tempos, como no

nosso tempo já não deve fazer-se, é tão estulto como querer confiar hoje

a defeza da nossa terra aos heróis de outrora, a valentes de cota e

malha, ou os progressos do nosso comércio, às antigas e gloriosas

caravelas!»

Van Bierveliet, da Universidade de Gand, numa das suas magistrais lições

de pedagogia scientífica, feitas para professores de instrução primária,

exprime-se assim:

«Consideremos uma classe qualquer e interroguemos o professor; saberemos

logo que num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo, se encontram

dois ou três que demostram uma grande diligência, e aceitam com prazer

tôdas as tarefas que se lhe impõem. Constituem os primeiros da classe, o

que pode chamar-se a _cabeça da classe_. Na grande massa dos alunos,

dominam aquêles em que o zêlo é moderado; cometem erros e sabem as suas

lições mais ou menos bem. Finalmente, um número mais ou menos

considerável da classe acha que a tarefa que se lhe impõe é demasiado

pesada e aborrecida; constitui o grupo dos _preguiçosos_, dos mandriões.

Estes, fazem os seus exercícios mal, ou nada fazem, e aprendem muito

pouco, uma ou outra pequena cousa, um ou outro fragmento de lição. As

classes apresentam uma cabeça, um corpo e uma cauda; geralmente a cabeça

é composta por dois ou três indivíduos e a cauda, pelo contrário, é

muitas vezes notavelmente desenvolvida; as classes são organismos por

vezes _microcéfalos_ (de cabeça pequena) e _macrures_ (de cauda grande).

«A simples constatação dêste facto, basta para demonstrar que o regimen

escolar é pouco atraente para as inteligências em formação.

«Se num jantar de cincoenta talheres se constatasse que três pessoas

sómente mostravam bom apetite, trinta comiam com repugnância e o resto

nada comia, concluir-se-ia, com alguma razão, que ou o _menú_ era

medíocre ou que os convivas tinham o estomago caprichoso e que por isso

lhes não convinham os pratos que lhes eram oferecidos ou destinados. O

mesmo se pode dizer das classes. Há inteligências excepcionalmente vivas

que assimilam tudo, como sucede com as pessoas que têm o que se usa

chamar estomago de avestruz, que tudo digerem. Há outras, pelo

contrário, que perante os conhecimentos apresentados, pelos métodos mais

correntes, se comportam como dispépticos da inteligência. Que se faz em

regra a estas? Castigam-se. Melhor fôra curá-las.»

Melhor fôra, acrescento eu, saber conhecer o feitio mental dos alunos,

agrupá-los consoante as suas semelhanças e diferenças, e saber

administrar-lhes os mesmos conhecimentos por métodos diferentes, aqueles

que melhor se acomodem e mais convenham ao seu feitio.

As mesmas doenças não se tratam sempre do mesmo modo; tem que se atender

ao doente. No ensino sucede a mesma coisa. Não se ensinam todos pelo

mesmo modo; tem que se atender ao aluno.

Um professor de instrução primária não pode, não deve desconhecer, ao

entrar no exercício da sua profissão, a psicologia infantil e os

processos de a estudar e de a observar. Não basta conhecer a

_metodologia_, é necessário a _psicologia_.

A metodologia deverá, de resto, ajustar-se à psicologia da classe e à do

aluno.

Diz Claparède num livro, cuja leitura muito lhes aconselho (_Psychologie

de l'enfant_):«Muitas pessoas supõem que só a prática do ensino pode

formar o professor e dar-lhe a verdadeira experiência. Seguramente, a

importância da prática é capital para formar um especialista numa

determinada arte. Mas é preciso esforçar-se por reduzir ao mínimo as

experiências, as tentativas, sobretudo quando se trata de seres humanos.

O professor que entra na prática da sua profissão, sem ter o menor

conhecimento de psicologia, vê-se naturalmente reduzido a tentar, a

fazer experiências com que os alunos podem sofrer; é obrigado a

experimentar _in anima vili_, e algumas vezes essas experiências são

demasiado longas e peníveis para as gerações de alunos que as têm de

sofrer. Sem dúvida, a prática pode, dentro de certos limites, compensar

a insuficiência dos conhecimentos teóricos, mas à custa de quantos

rodeios e de quantos erros! Á força de construir pontes que abatem, ou

máquinas que estoiram e se escangalham, pode um técnico sem instrução

teórica acabar por ser um bom construtor e encontrar empíricamente as

fórmulas que êle é incapaz de calcular. Mas quem quereria semelhante

engenheiro?

«Um professor sem educação psicológica está precisamente no mesmo caso,

com esta diferença, contudo: que, quando uma ponte tende a abater, no

decurso da sua construção, pode ser reparada imediatamente ou pode ser

refeita. Enquanto que se se trata de uma inteligência ou de um carácter

que erradamente se forçou ou tratou na sua evolução, só tarde se dá pelo

mal, quando êle já se não pode remediar, e nunca em nenhum caso se pode

refazer, reconstruir, fazer de novo outra inteligência ou outro

carácter.»

Estas parábolas devem convencer as senhoras e os senhores normalistas da

utilidade do estudo da psicologia, do estudo das faculdades mentais, na

preparação dos professores de instrução primária.

Mas que psicologia?

Será a psicologia clássica dos compêndios de filosofia? Será a

psicologia especulativa? Será a psicologia, o conhecimento das

faculdades mentais pelo exame introspectivo de indivíduos excepcionais,

supra-normais quási sempre, filósofos que se deram ao trabalho de se

estudar a si mesmo? Não.

A psicologia do adulto é diferente da da criança e o estudo desta não se

pode fundar no exame feito por ela própria. O estudo da psicologia da

criança é quási como o da dos animais. A criança não é um homem e é

quási tam diferente do homem como a lagarta da borboleta. Que se diria

de quem quizesse alimentar ou tratar a lagarta do bicho da sêda como a

sua borboleta, como êle na sua fase de insecto perfeito? E no entanto

lagarta e borboleta, tam diferentes na fórma e nos hábitos, são o mesmo

indivíduo. Assim sucede com cada um de nós, na sua fase infantil e na

sua fase adulta.

A propósito da psicologia clássica, talvez com mais razão do que dizia

Binet da antiga pedagogia, se pudesse dizer: «deve ser completamente

suprimida», no ensino das escolas normais, acrescento eu.

Eu sei com que razão se tem apresentado contra o ensino da pedologia, ou

estudo da criança, aos professores de instrução primária, o argumento de

que êle tem levado êstes a distrair-se das suas funções docentes, para

se dedicarem a estudos e experiências que não só prejudicam, porque

afastam o professor da sua principal missão: instruir e educar, como

tambêm porque o levam a fornecer dados que por insuficiência ou carência

de preparação scientífica, que só em cursos superiores e especiais se

pode adquirir, são em regra dados perdidos, cheios de erros, falseados,

quási inúteis para a sciência.

Mas o que eu pretendo fazer não é preparar psicólogos, antropologistas,

filósofos; nem eu, nem ninguem deveria pretender fazê-los numa escola

normal primária, principalmente com as habilitações que os senhores

podem e devem ter. O que eu pretendo fazer é ensinar os principais

elementos de pedologia, que a sua preparação literária consente e que os

professores devem conhecer para melhor ensinar.

Procurarei, em suma, ensinar _rudimentos de pedologia e as suas

aplicações ao ensino na escola primária_.

Seria estulto que eu, médico antropologista, embora director de um

instituto de educação, eu que não fiz estudos regulares de metodologia

do ensino primário, nem nunca professei êsse ensino, viesse ensinar-lhes

todo o programa actual da pedagogia, sciência e arte de ensinar, como

seria igualmente estulto e injustificado que se exigisse a um professor

de instrução primária, que não tivesse feito estudos especiais de

antropologia, e não tivesse suficientes conhecimentos de

técnica-pedométrica, que ensinasse a pedologia, sciência que é

conveniente e, mais do que conveniente, indispensável ensinar ao futuro

professor.

Não é preciso exagerar como Chaillou e Mac-Auliffe, quando na sua

_Morfologia médica_, dizem: «A educação é e continua a ser puramente

pedagógica. _Escapa ao único homem que deve dirigi-la, ao médico._» Não.

Mas é preciso dizer-se, porque é fácil provar que o é, que é necessário

que parte da preparação do professor primário seja feita por médico

especializado nas aplicações das sciências médicas à pedagogia, e que o

professor seja um auxiliar do médico.

Os exercícios que habitualmente passarei, serão exercícios de educação

scientífica e neles terei em vista não só ensinar como se estuda e

desenvolve as faculdades da criança, mas tambem o ensinar a estudar e a

desenvolver as faculdades dos que a têm de educar.

A S. Ex.^a o actual Ministro de Instrução Pública caberá a honra de ter

introduzido no quadro dos estudos do curso normal, o ensino regular da

pedologia.

Por minha parte, procurarei corresponder aos desejos de S. Ex.^a o

Ministro, repartindo com todos os meus alunos o que da matéria souber e

com êles estudando o que fôr preciso estudar, pondo ao seu dispôr os

meus hábitos, os meus recursos e o meu método de trabalho.

Que a dedicação e a lialdade com que sempre uso servir nos lugares para

que me nomeiam, possam compensar outras minhas faltas, que eu possa

provar ao digno director e ao ilustre corpo docente dêste

estabelecimento de instrução, a que agora muito me honro de pertencer,

quanto desejo contribuir para o bom nome e reputação desta Escola, e

finalmente que eu possa ter o maior e melhor pago que desejo ter: o

poder ouvir dizer aos meus alunos que na vida prática de bastante lhes

serviu o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos que lhes transmiti,

os hábitos que lhes criei e as prelecções que lhes fiz.

A ARTE DE EDUCAR E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL[2]

«To educate is to bring out all the powers that are in the child

and to traim him to use them to the best advantage of himself and

indirectly of the nation of which he is a part».

(Miss C. Aguther, _Child Study_, June, 1917).

Minhas Senhoras e meus Senhores:

A arte de educar é fundamentalmente a arte de regular a conduta presente

e futura dos que se têm de educar. Implica forçosamente o conhecimento

da conduta, das causas dela, do seu mecanismo e das possibilidades que o

indivíduo oferece. A arte de educar assenta como a arte de curar, na

anatomia e na fisiologia e assim como o médico, médico que tenha de

exercer a profissão, tem não só de conhecer as doenças e os remédios,

mas tambêm conhecer os doentes e encontrar as indicações, assim tambêm o

educador, que tenha de educar, tem não só de conhecer os fins da

educação e os meios da educação, a pedagogia e a metodologia, mas tambêm

de saber conhecer o educando e encontrar a fórma de educação que mais

lhe convenha e se adapte ao seu feitio. E assim como para o estudo do

doente não basta conhecer os sintomas das doenças, porque é necessário

sabê-los observar, assim tambêm não basta ao educador conhecer os

fenómenos da educação, a psicologia, mesmo que esta tenha a feição

moderna e scientífica, e se chame psico-fisiologia ou psicologia

experimental, é necessário tambêm principalmente possuir a técnica da

observação e da experimentação. Saber psicologia pode não ser saber

fazer psicologia, como saber quais os sintomas das doenças pode não ser

saber observá-los e fazer diagnóstico.

Ensinar num curso prático de psicologia experimental, que é como

oficialmente se chama o curso que tive a honra de ser chamado a reger,

ensinar nesse curso numa Escola Normal, é fundamentalmente ensinar o que

fôr preciso para habilitar os futuros professores a conhecer e praticar

os meios scientíficos de estudar práticamente os fenómenos mentais, isto

é, possuir as regras e os meios de condicionar êsses fenómenos, por

fórma a que outros os possam observar nas mesmas condições, e

verificá-los.

Educar não é hoje, como noutros tempos se supunha, criar, é

essencialmente orientar. Não é lutar contra a natureza. O educador dos

homens como o educador dos animais, tem que aproveitar as boas

tendências, os talentos, para os enriquecer e desenvolver, como dos

instintos diz o educador e moralista Foerster, falando do ensino dos

animais. E quanto às más tendências, tem que saber inibi-las, ou

sublimá-las. Talvez que nesta altura, para lhes dar uma exacta idea

acêrca do valor e possibilidades do ensino e quebrar-lhes preconceitos

que a todos os professores desta Escola pertence o combater, e isto, por

minha parte, na intenção de aproveitar o pretexto de demonstrar que a

arte de educar hoje assenta e quási se confunde com a arte de estudar os

fenómenos psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para isso, não

lhes pudesse de momento aconselhar melhor leitura, como leitura prévia,

do que a do livrinho _Criminalidade e Educação_, do Sr. Padre António de

Oliveira que não é só, como todos sabem, uma admirável figura de

filântropo, mas, mais do que isso, uma figura notável de educador, com

vocação e larga e valiosíssima experiência.

É preciso que a arte de educar seja como a arte de curar.

É necessário ouvir tambêm o prático, ouvir o que educa, ouvir o que

cura, sobretudo quando sucede como deve ser, que a arte que praticam

seja arte esclarecida pela sciência, e não simples empirismo.

Educar é condicionar intencionalmente as reacções do indivíduo. Educar,

portanto, implica, primeiro do que tudo, o saber estudar as causas e

mecanismo das reacções individuais. E o estudo dessas reacções feito

experimentalmente tem o maior interêsse e importância para o educador.

Muitas dessas reacções são de ordem interna e só o próprio indivíduo as

pode observar directamente, mas essas mesmas são acompanhadas doutras

reacções, acessíveis ao estudo directo dos outros e portanto podem ser

estudadas objectivamente, sem intervenção do exame dos próprios em que

elas se dão. O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo das

reacções individuais e a maneira scientífica de as condicionar.

De acôrdo com estas ideas, já a dentro da velha Escola Normal, onde tive

a honra de reger durante alguns anos o _Curso de Pedologia_, o meu

distinto colega naquela e nesta Escola Sr. Professor Dr. Alberto

Pimentel, cujo livrinho de lições lhes aconselho, procurou orientar o

ensino teórico da Psicologia. Eu, por minha parte, completarei êsse

trabalho ensinando-lhes a técnica dos estudos psicológicos, segundo essa

orientação.

Disse eu que a psicologia experimental se prende tanto com a arte de

educar, que por vezes até quási se confunde com ela. Não é quási se

confunde, confunde-se até. Em psicologia animal, ramo da psicologia

quási desconhecido entre nós, a psicologia experimental funda-se na

_educabilidade_, é o proprio exame da educabilidade, é a propria arte da

educação exercida com o fim de estudar os fenómenos e os recursos

mentais do animal.

Vejam por exemplo, para fácilmente e sob uma fórma agradável apreenderem

melhor o assunto, o excelente livrinho de Hache-Souplet, director do

Instituto de Psicologia Zoológica, intitulado _De l'animal à l'enfant_

(Bibl. de ph. contemporaine) e que se pode considerar um pequeno manual

adoptável na preparação dos professores de ensino infantil.

Não se surpreendam com êste atrevido conselho de lhes indicar um livro

de psicologia zoológica, como meio de preparação pedagógica. Há grandes

afinidades entre a psicologia dos animais superiores e a das crianças e

sobretudo é a estas duas psicologias, a zoológica e a infantil, que é,

quando não indispensável, pelo menos mais necessária a prática dos

métodos da psicologia objectiva. Num dos melhores e mais modernos livros

de _psicologia pedagógica_, o de Thorndike, notável professor de

psicologia pedagógica numa escola de mestres, têm um livro cheio de

estudos interessantes de psicologia zoológica sôbre a inteligência dos

animais, estudada pelos meios da psicologia experimental; e o afamado e

emérito psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo banal citar entre nós,

o Professor Claparède disse, ao publicar o programa do Instituto de

Sciências da Educação de Genebra: «Para ser completa uma escola de

sciências da educação deveria possuir um serviço anexo..., quero dizer,

um laboratório de psicologia animal...»

Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, é aprender muitas vezes a

ensinar uma criança. Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as

circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios de psicologia animal,

para lhes esclarecer uma ou outra questão psicotécnica pedagógica.

O exame objectivo das reacções será o escopo principal do meu curso.

Curso prático de psicologia objectiva podia bem ser o título a dar-lhe.

Psicologia objectiva não quere porêm dizer, que seja exclusivamente um

curso de psico-fisiologia, como muitos podem supor. A psico-fisiologia é

apenas uma parte da psicologia objectiva, aquela em que se estudam as

variações fisiológicas, própriamente ditas, que acompanham ou

condicionam os fenómenos mentais. As reacções exteriorizam-se tambêm por

outras fórmas, que não podem sómente ser estudadas pelos métodos da

fisiologia. O estudo das reacções provocadas por certos reagentes

mentais é um verdadeiro estudo pedagógico. Outra cousa não é a maior

parte das vezes o estudo dos chamados _tests_, como é por exemplo o dos

_tests_ para a medida da inteligência, de que por certo já têm ouvido

falar e talvez tenham já visto descritos.

A psicologia experimental será talvez ainda preferível à psicologia

objectiva, porque a psicologia experimental atinge tambêm o estudo

introspectivo dos fenómenos mentais, o seu estudo directo, e êste

há-de-nos ser preciso quando se tratar do estudo da psicologia do

professor, da psicologia de quem ensina, porque o ensino não depende só

da psicologia do educando, mas tambêm da do educador, e bom é que êste

aprenda a saber examinar-se, a estudar as reacções que o aluno e a

escola nele determinam para examinar a sua aptidão, e a corrigir vícios

de reacção, que são por vezes causa de graves perturbações escolares.

Não é só o aluno anormal que perturba a classe, é o professor anormal, é

o que não se adapta à profissão, é o que não a sabe praticar, por falta

de cultura ou por falta de intuìção.

No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psicologia

experimental subjectiva. A psicologia experimental não é apenas a

psicologia objectiva, repito. E a propósito lembrarei as palavras do

fisiologista francês Prof. Ch. Richet: «A observação interior constitui

uma psicologia de observação tam fecunda, tam legítima, como a

psicologia a mais experimental que se possa imaginar. Os factos assim

adquiridos pelo estudo do _eu_ têm tanto valor como os fenómenos

fisiológicos registados nos laboratórios pelos métodos mais

aperfeiçoados da técnica contemporânea.»

Apesar de tudo, porém, o nosso curso será principalmente um curso de

técnica objectiva, porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo

psicológico do educando e porque é minha tenção, mesmo quando se trate

da prática da psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas como um

auxiliar da psicologia objectiva. A propósito recordo os dizeres do

grande Binet: «Em nossa opinião, diz êle, não é preciso procurar limitar

e simplificar as respostas do indivíduo em experiência, é preciso, pelo

contrário, deixar-lhe a plena liberdade de exprimir o que sente, e mesmo

convidá-lo a expressamente se observar de perto durante o decurso da

experiência; esta maneira de proceder tem a vantagem de não restringir a

investigação ao círculo da idea preconcebida: podem-se constatar muitas

vezes factos novos e não previstos, que muitas vezes tambêm permitem

compreender o mecanismo dum certo estado de consciência.»

Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático de psicologia

experimental» ao curso de técnica psicológica desta Escola, criado pelo

Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. Alfredo de Magalhães, cujo nome

deve merecer sempre a todos nós, desta Escola Normal, uma grata

homenagem, pela atenção que lhe merecemos e pelo entusiasmo, apaixonado

entusiasmo e energia, com que procurou instalar e proteger a nova

Escola. O curso prático, e acentuo a palavra prático, de psicologia

experimental será uma maneira de logo, desde o início da freqùência da

Escola Normal, habituar o futuro professor, a sentir-se professor, a

despertar-lhe e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto real, directo,

concreto com a massa que tem de trabalhar, com a sublime argila que tem

de moldar: a alma tal qual ela é.

Trabalhar a alma da criança com alma e com arte, com arte e com acêrto,

com acêrto e com sciência, tal é o nosso escopo.

A psicologia que havemos de praticar, será, mais uma vez o digo, de

carácter principalmente objectivo, não só pela dificuldade, se não

impossibilidade, do exame subjectivo no meio e com os indivíduos que

temos de trabalhar, não só porque o exame objectivo constitúi uma fórma

excelente de fazer a educação scientífica do aluno professor, de dar-lhe

hábitos de observação e experiência extrospectivos ou melhor exteriores,

essenciais à arte de educar, mas tambêm porque em psicologia, pode-se

dizer, que o que mais importa ao educador são os actos psíquicos, os

fenómenos mentais de que introspectivamente se tem menos conhecimento.

Em psicologia pedagógica o sub-consciente vale mais que o consciente. E

mesmo quando ao educador compete regular o comportamento do adulto,

quando ao educador compete fazer reeducação, compete-lhe principalmente

examinar o sub-consciente, porque é nele que se guarda a fôrça que a

experiência anterior gerou e que regula e influi, por vezes, mais do que

nenhuma, no comportamento do indivíduo.

A conduta é principalmente governada pelo sub-consciente e neste tem

tanta influência a infância, o que ela foi em cada um, que quando a

fadiga ou a doença perturba o exame introspectivo e a fiscalização,

censura e govêrno, que por meio dele podemos exercer nos nossos actos, é

a mentalidade infantil que aparece, se exterioriza e nos revela, tal

como fomos e no íntimo somos.

Uma escola de psicologia há até, que hoje já invadiu a filosofia, a

medicina e a pedagogia, que assenta tôda no estudo do sub-consciente e

particularmente na pesquisa das impressões que nele gravou a vida

sexual. Refiro-me à _psico-análise_, de Freud e seus sequazes, que,

apesar dos ataques violentos que tem sofrido, mormente depois da

declaração da última guerra (mais talvez por xenofobia do que por outra

cousa), contém muito de verdade. Tirado o que há de místico, de

escabroso e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise pode e

deve ser conhecida pelo educador. E, para terminar com estas referências

à questão da importância do consciente e do sub-consciente em educação,

lembrarei a já banalizada definição de Gustavo Le Bon: _A educação é a

arte de fazer passar do consciente para o inconsciente_. A reeducação,

essa é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o de trazer do

inconsciente ao consciente, para transformar e depois voltar a tornar

inconsciente.

A educação, na idea de Bacon, é o conjunto dos hábitos adquiridos na

infância. A reeducação é muitas vezes a correcção dêsses hábitos; mas

tanto em educação como em reeducação há que aproveitar a Natureza,

porque ela, ainda segundo Bacon, não se governa, senão deixando-a

governar, conhecendo-a, aproveitando-a, seguindo-a.

Meus Alunos:

A arte de educar, como logo no princípio eu disse, é a arte de regular a

conduta presente e futura do educando, e a psicologia experimental, de

escôpo pedagógico, é a psicologia que pela experiência ensina a conhecer

as causas, o mecanismo da conduta do indivíduo ou da classe a educar.

Psicologia experimental é quási pedagogia experimental. E não imaginem

que esta pedagogia experimental é menos do que a outra, porque não tem

em conta os ideais, a parte política, religiosa, social, a finalidade da

educação. Não.

O Ideal quando não é factor da acção, é produto da acção, ou as duas

cousas ao mesmo tempo, factor e produto da experiência pessoal, e o que

nós vamos aprender é a arte de estudar práticamente, experimentalmente,

os factores e o mecanismo da acção, ou melhor das reacções do indivíduo

sujeito à influência dos meios, isto é, ainda a parte prática,

experimental, utilitária, debaixo do ponto de vista educativo, que

talvez melhor do que psicologia, se poderia chamar, à maneira de

Bechterew, a _reflexologia pedagógica_, e nela bem podemos estudar o

valor, a acção e a formação dos ideais.

Com isto declaro aberto o «Curso prático de psicologia experimental»,

que neste semestre será essencialmente um curso de propedêutica,

destinado ao estudo das noções preliminares e fundamentais de anatomia,

fisiologia e psicologia, que mais importam à _psico-técnica_...

Disse.

15-III-919.

O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA[3]

Meus Alunos

Senhoras e Senhores

Quiz um pouco o acaso que o _pêso do corpo da criança_ fôsse o tema da

minha última lição. O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender num

ponto ainda atrasado do programa a que me obrigára: o estudo dos métodos

da pedologia somática, particularmente da pedometria e com ela o dos

principais caractéres métricos da criança. O pêso do corpo da criança

terá que ser o tema da lição de encerramento do meu curso dêste ano. E,

embora pareça o contrário, talvez não pudesse encontrar melhor tema para

encerrar o concurso.

A lição de abertura que vos li foi, como devia ser, uma lição-programa e

uma lição-promessa. Na lição de encerramento que vou ler-vos tambêm,

procurarei fazer com que ela seja o que deve ser uma lição de

encerramento: uma lição em que até certo ponto se recapitulem as noções

principais expostas durante o curso, uma lição-conclusão, e uma lição em

que se procure provar a realização de algumas das promessas que se

haviam feito na lição inicial.

A criança é fundamentalmente um ser humano em via de crescimento; é um

homem ou uma mulher em via de formação. A sua principal função é

crescer, procurando atingir a grandeza que a hereditariedade lhe

destinou e alcançar o equilíbrio morfológico e fisiológico do adulto,

que constitui a perfeição do ser. Respeitar o crescimento, a lei natural

do crescimento, é o principal dever do educador, e tôda a educação se

tem de subordinar a esta questão de medida: _não perturbar a lei natural

do crescimento_.

O pêso não cresce como deve ser? Diminui, pára, aumenta de mais ou de

menos? Um problema se põe. O regimen de vida ou de educação

provavelmente não é o que convêm. Modifique-se e observe-se, por exemplo

por meio da balança, a influência das modificações. A balança guia a

higiene, e na higiene assenta a educação. Por isso, com razão dizia eu

no Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, em 1907, e o repetia

no Congresso Pedagógico do ano passado: «O problema escolar é

essencialmente um problema métrico.»

Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo a da sua evolução não

servisse, como serve, para julgar da saúde e do estado da nutrição da

criança e por êle aferir o valor do meio em que a criança vive e dos

meios educativos de que se serve quem dela cuida, mesmo que o estudo das

variações do pêso não tivesse grande significação para os educadores,

ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, valeria a pena ensinar o

professor a pesar a criança. Mais do que uma vez, na realidade, vos

tenho afirmado que uma das vantagens do ensino da pedologia aos futuros

professores está em ela servir excelentemente para fazer a sua educação

scientífica, para os ensinar a observar, a descrever, a medir, a

experimentar, a analisar e a criticar, para aperfeiçoar o _bom senso_,

que é a mesma cousa que o espírito scientífico, que permite sentir e

descobrir a realidade e medir a possibilidade. O _bom senso_ é a

principal qualidade de carácter de qualquer e principalmente do

professor.

Aprender a pesar é aprender a julgar, e com razão, por isso, um médico

francês, o Dr. Baudrand, numa tese extensa e notável sôbre o

crescimento, diz: «Um médico que regista o pêso assemelha-se ao

magistrado que aprecia o valor de um prejuízo e calcula o valor da

indemnização.»

A pesagem tem ainda sôbre outras muitas medidas pedométricas a vantagem

de ser a mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos especiais, nem

técnica muito diferente da das pesagens mais comuns e, porque está

sujeita a menos erros, permite ao professor ou ao médico não ser tão

fácilmente logrado, como sucede com muitas outras medidas pedométricas,

que praticadas mesmo às vezes por quem tenha cultura especial levam a

conclusões falsas, a listas de números que outra cousa não são mais do

que números, vistosos na aparência, mas vazios na significação.

_Meçam sim, mas meçam só aquilo que fôr fácil de medir, menos sujeito a

erros e que sirva para julgar da saúde do educando, e das influências

que sôbre êle tem o regimen de vida e os métodos de ensino._

Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção para a obrigação que

têm--quando medirem e quizerem apresentar os resultados de suas

medições--de exporem minuciosamente o _modus faciendi_ que adoptaram e

se darem ao trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, repeti-las

algumas vezes, no mesmo sujeito e na mesma sessão, para verificar a

técnica. O observador não tem só que conquistar a confiança dos outros,

precisa tambêm de conquistar a sua própria.

O pêso do corpo do escolar, não obstante haver balanças especiais, pode

tomar-se com uma balança décimal ordinária, aferida, e convêm que

quando, por qualquer razão, se não possa despir completamente a criança,

ela tenha sôbre si o menor número possível de peças de vestuário: um

leve calção nos rapazes, uma simples saia ou uma saia e um corpete nas

raparigas. A pesagem deve fazer-se no mesmo indivíduo, sempre à mesma

hora, de preferência de manhã, e nas condições o mais idênticas que fôr

possível. Convêm tambêm repetir a pesagem em cada ano, com intervalo de

semestre, por exemplo.

Podem parecer exageradas as precauções que acabo de aconselhar, mas não

o são por que é bom saber-se que as variações do pêso não são sempre

sinal de crescimento, e porque tambêm está provado que o pêso da criança

como o do adulto oscila durante o dia, e de época para época do ano.

_Há oscilações regulares diárias do pêso_. De manhã, ao levantar da

cama, todos pesam menos do que à noite. Esta diferença de pêso chega a

ser, numa criança de dez anos, de setecentos gramas, e num adulto pode

chegar a um quilo (Camerer), quilo e meio (Ammon). Parece resultar êste

facto de que durante o dia, as perdas que se sofrem por saída de

substâncias do organismo são compensadas pela entrada de substâncias

reparadoras, enquanto que durante a noite as perdas não são compensadas.

Nos adultos a diminuição do pêso durante a noite é em média igual à

elevação do pêso durante o dia, mas nas crianças a diminuição do pêso

durante a noite é menor do que a elevação durante o dia, o que

corresponde ao crescimento.

Pode algumas vezes observar-se uma diferença de gramas a mais,

simplesmente porque o intestino ainda não se esvaziou.

As estações influem tambêm e produzem oscilações no pêso. Está provado

que êste aumenta mais de agosto a dezembro do que de abril a junho. O

aumento máximo verifica-se no primeiro período apresentado e o mínimo no

segundo. De dezembro a abril o valor do aumento é intermédio. Estas

oscilações podem depender ou resultar de desarranjos que o organismo

experimenta com as mudanças de estação e tambêm com mudança de hábitos

que podem levar a aumentar ou a diminuir as perdas. A sudação e os

jogos, por exemplo, tudo que modifica a função dos emuntórios ou a

desassimilação, tudo pode influir. Aos factores metereológicos devem

juntar-se os da _metereologia do ensino_, os exames por exemplo, que

desarranjam e consomem. O conhecimento dêstes factos levou-me a

determinar, de acordo com o distinto médico-inspector da Casa Pia e seu

professor, Dr. Jorge Cid, que a medida e observação periódica de todos

os alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros meses do ano

lectivo, a começar em outubro, e naqueles que imediatamente precedem as

férias grandes, nos três últimos.

Ás vezes, com a melhoria da alimentação, com a mudança de ares, com a

liberdade, a criança aumenta extraordináriamente de pêso, como por ex.

observei na _colónia de férias_, instalada na Figueira da Foz, por

iniciativa e sob a protecção do meu mestre Dr. Bernardino

Machado,--colónia em que vi crianças aumentarem _cinco vezes mais_ do

que em igual período aumentaram alunos da mesma idade, dum colégio

excelente, como é o Colégio Militar (vidè medidas do Dr. Mascarenhas de

Melo, apresentadas no Congresso Internacional de Medicina de 1906, e o

meu artigo, _Uma_ _colónia de férias_, publicado no _Boletim da

Assistência Nacional aos Tuberculosos_, em 1908).

Êste facto, que tem sido observado por vários, dos grandes aumentos de

pêso que, às vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam nas _colónias

de férias_ das crianças pobres das cidades, dessas que eu chamei em

tempos pobres _exilados da Natureza_, mostra bem a importância destas

instituições peri-escolares: as _colónias_, para que me não canso de vos

chamar a atenção, instigando-vos a promover sempre que vos fôr possível

a sua organização, mas sempre com o auxílio do médico, a quem cabe a

selecção dos casos e a indicação daqueles a quem convêm a praia e

daqueloutros a quem o campo mais convêm.

Na apreciação do pêso do aluno deve ter-se em vista mais a fórma porque

êle cresce do que a diferença do seu pêso para a média dos da sua idade.

Muito seria para desejar que à semelhança do que se faz, por ex. em

Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões quadriculados onde

apontasse o pêso do corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando a

curva da sua variação ao lado da curva média normal, que convinha se

tratasse de obter com dados colhidos entre nós. Muito convinha, direi de

passagem, que se generalizasse o uso da _Caderneta da mocidade, da

Instrução militar preparatória_, tal como está, ou melhor,

_simplificada_.

Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: há crianças leves e crianças

pesadas, como há indivíduos altos e indivíduos baixos, indivíduos loiros

e indivíduos morenos. A inferioridade do pêso, por isso, nem sempre

significa que a criança sofre. Mas acresce a isto o não termos ainda,

nós portugueses, médias nossas, pelas quais nos possâmos seguramente

guiar. A raça influi no pêso, e a composição étnica de cada povo deve

influir na média do pêso absoluto da sua população, em cada idade. Para

as raparigas portuguesas não conheço tabela alguma; para os rapazes

costumo guiar-me, enquanto não organizo uma tabela com os pêsos

observados nos rapazes da Casa Pia, costumo guiar-me, dizia, pelas

observações do Dr. Mascarenhas de Melo, publicadas nos _Anuários do

Colégio Militar_ e de que aquele meu distinto colega fez um apanhado na

sua comunicação ao Congresso Internacional de Medicina, realizado em

Lisboa em 1906, comunicação intitulada: _Sur l'Antropométrie médicale_.

As tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo servem, porêm, apenas para o

estudo do pêso dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas observações e

sôbre pedometria escolar podem vêr um pequeno relatório que com o

título--_Antropometria escolar_--escrevi para o Congresso da Liga contra

a Tuberculose de 1907 e que com poucas modificações foi reimpresso o ano

passado, por ocasião do Congresso Pedagógico de Lisboa[4].

A título de curiosidade porei em face umas das outras algumas médias das

tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo (observações portuguesas) e algumas

extraídas dum trabalho de Camerer, de Stuttgart:

+---------+-------------+-------------+-------------+

| | Rapazes | | |

| Idades | (Masc.^{as} | Rapazes | Raparigas |

| | de Melo) | (Camerer) | (Camerer) |

+---------+-------------+-------------+-------------+

| 10 anos | 29 kg. | 30 kg. | 27 kg. |

| 11 » | 30,5 » | 32,5 » | 29 » |

| 12 » | 33 » | 35 » | 32 » |

| 13 » | 36,5 » | 37,5 » | 37 » |

| 14 » | 42 » | 41 » | 43 » |

| 15 » | 47 » | 45 » | 48 » |

+---------+-------------+-------------+-------------+

Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze anos, mais do que uma

portuguesa da mesma idade.

Estas médias são às vezes assombrosamente excedidas, nos casos de

obesidade. Neste momento estou tratando na minha clínica particular de

um rapaz de quinze anos, um obeso com gigantismo, obeso

hipófiso-genital, que pesa bastante mais de cem quilos!

O primeiro ano da vida é aquele em que o pêso aumenta mais. Em média,

segundo Camerer, por ex. ao nascer, um rapaz pesa três quilos e

quatrocentos gramas e uma rapariga três quilos e duzentos gramas. Na

Maternidade de Lisboa, no tempo do Prof. Alfredo da Costa (1899-1904), a

média do pêso dos rapazes foi de 3^{kg},236 e a do das raparigas

3^{kg},103.

Nos dois primeiros dias a criança perde uns duzentos gramas, mas ao

oitavo ou ao nono recupera o pêso da nascença. O aumento diário das

crianças criadas ao peito, ainda por ex. segundo Camerer, anda por uns

30 gr. até à quarta semana, de 26-28 da quinta à décima segunda, de

20-24 da décima terceira à vigésima, de 16-18 da vigésima primeira à

trigésima sexta, e de 10-15 da trigésima sétima à quinquagésima segunda.

_No quinto mês da vida, em regra, a criança dobra de pêso, e ao fim do

primeiro ano costuma tê-lo triplicado._ Pode dizer-se que nos cinco

primeiros meses o aumento é de cêrca de setecentos gramas por mês; nos

cinco meses seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada por Terrien

para calcular o pêso de uma criança de peito durante o primeiro ano:

para os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo número de meses que

a criança tem e juntar ao produto o pêso que ela tinha à nascença; para

os cinco meses seguintes, multiplicar 350 pelo número de meses que ela

tem _alêm do 5.^o_, e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto é, o dôbro

do pêso à nascença.

«No segundo ano de vida o aumento de pêso é notavelmente menor que no

primeiro e chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, a cêrca

de dois quilos e meio; dos três aos cinco anos o crescimento diminui um

pouco mais, não passando de um a dois quilos por ano. Finalmente, ao fim

do quinto ano os rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas 17. A

partir desta idade, até aos catorze anos, os _rapazes_ aumentam de 2 a 3

quilos; segue-se depois dos _quinze aos dezóito_ um período de maior

crescimento, com aumento anual que pode chegar a oito quilos. Nas

_raparigas_ o acréscimo anual pode manter-se até aos doze anos à volta

de dois quilos, e dos _13 aos 16_ o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A

partir dos _16 nas raparigas_ e dos _19 nos rapazes_, o acréscimo pode

cessar. Em regra, porêm, poucos são os indivíduos nos quais permanece

estacionário o pêso adquirido aos 16 ou aos 19.» (Camerer).

Duma longa série de observações feitas em crianças portuguesas de

escolas primárias oficiais do Alentejo e de escolas primárias não

oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco homogénea e insuficiente

para algumas idades, dessa longa série de observações feitas pelo Dr.

Moraes Manchego e pelo Sr. Major Desidério Beça, tirou o Dr. Manchego os

elementos com que construiu uma curva de crescimento do pêso em

portugueses de 6 a 19 anos de idade, curva que conjuntamente com algumas

tabelas interessantes, foi apresentada num trabalho daquele distinto

médico:--_Contribuição ao estudo do crescimento da criança portuguesa_

(Trabalhos do 3.^o Congresso Pedagógico, realizado em abril de 1912, por

iniciativa da Liga Nacional de Instrução[5]. Por ser interessante e

dizer respeito a observações portuguesas, transcrevo dêsse trabalho,

digno de apreço, as seguintes linhas:--«Na curva portuguesa há

primeiramente um pequeno acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga

perfeitamente com o acidente similar já apontado no mesmo trôço da curva

homóloga da estatura, depois vem um crescimento quási insensível até aos

12 anos; a seguir apresenta-se uma depressão, e aos 13 anos começa o

crescimento muito intensivo com o máximo absoluto aos 16 (êste acréscimo

é de 6^{k},8); depois desta idade a curva desce muito de ano para ano,

sendo o acréscimo para os 19 anos apenas de 1^{k},5. O aumento de pêso

dos 6 aos 19 anos é de 36^{k},8, isto é, o pêso que aos 14 anos já

duplicou é aos 19 superior ao triplo do que corresponde aos 6 anos.»

O que convêm, porêm, principalmente fixar é que durante o crescimento se

observam dois períodos de crescimento máximo: o primeiro período

corresponde ao primeiro ano da vida, e o segundo nas _raparigas_ ao que

vai dos _doze aos dezasseis anos_ e nos _rapazes_ dos _quinze aos

dezóito_. O primeiro dêstes períodos é, como diz Camerer, uma

continuação da excessiva energia fetal do crescimento (lembremo-nos,

como faz notar Variot, que em nove meses se passa de um óvulo de duas

décimas de milímetro a um féto que mede meio metro e pesa cêrca de três

quilos!)

O segundo período de crescimento máximo corresponde, tanto nos rapazes

como nas raparigas, à puberdade.

As condições de vida das mães influem no pêso dos filhos. Sem ir buscar

exemplos lá de fóra, basta dizer-lhes, para documentar a afirmação, que

o falecido e ilustre professor da Escola Médica de Lisboa, Alfredo da

Costa, encontrou notáveis diferenças entre os pesos à nascença dos

filhos de mulheres que passaram os últimos tempos da gravidez em repouso

e tranquilidade moral e os daquelas que pelo contrário até ao último

momento trabalharam e viveram na miséria. As crianças destas últimas

pesavam sempre menos.

Niceforo, no seu afamado volume--_Les Classes Pauvres_,--publica um

quadro comparativo do pêso médio de umas séries de rapazes e raparigas,

por onde se vê que o pêso médio é mais baixo nas crianças pobres do que

nas ricas, da mesma idade.

Ley e outros verificaram que em regra as crianças atardadas são

inferiores em pêso aos normais que em idade lhes correspondem. E Sluys,

o antigo e illustre director da Escola Normal de Bruxelas, num

interessante opúsculo que muito vos recomendo--_Loi de

Croissance_,--chama a atenção para o emmagrecimento dos sobreexcitados e

sobrecarregados pelos trabalhos de preparação dos exames[6]. E já que

acidentalmente vos recomendei a leitura dêste livro sôbre as variações

do pêso do corpo da criança, não quero deixar de vos aconselhar tambêm a

leitura do que escreveu e das tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas

_Lições de Pedologia_ o nosso distinto conterrâneo Dr. Faria e

Vasconcelos, professor em Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido

o prazer de vos falar.

Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede a marcha da nutrição e

permite apreciar as condições de vida e os regimens de trabalho.

Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é afrouxar os meios de

defesa, é predispor para a doença, é inferiorisar o indivíduo.

Foi minha tenção ler-vos esta lição de encerramento do curso, no

_Lactário de Lisboa_, instituição que eu muito desejava que visitasseis

em minha companhia.

Algumas lições de psicologia e pedologia · 第 1 / 8 段