_REMATE_
O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D.
Leonor de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria
a realizar-se. Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de
timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na
Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber não
apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração, amortece-la-ia
ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no
conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.
Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo
do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não
tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o esperava Maria Thereza,
e tinha para isso fundamento.
D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança
tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas
devoções, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa
rainha era dotada de um espirito não só eminentemente religioso e
caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os
primores de educação, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo
nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma
docilidade encantadora!
Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares
qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a
fazia já sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca
do seu vasto plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o
qual havia traçado com o fim de collaborar, no desenvolvimento da
prosperidade nacional, e na exaltação da fé catholica.
No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha
não olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a
si propria impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve
sempre em vista eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os
recursos intellectuaes, para associa-la na execução das obras
meritorias, que projectava.
Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto
d'elle uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua
memoria da sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento
do necessario para a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia
Borgia, o papa Alexandre VI, indulgencia plenaria para os enfermos, que
lá fallecessem, muito embóra não houvessem contemplado o hospital em
seus testamentos.
Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos
que fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.
Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para
Lisboa, antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,[9]
a qual occupava as casas, de que lhe havia feito doação o
infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé, contra o muro
velho da cidade.
O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes,
conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem
suppunha fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza
do seu pórte, era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas
Geraes. As raparigas do sitio sabiam já a hora, a que _elle_ passava
para as aulas, ou saía a passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e,
ao vê-lo, iam-se-lhe os olhos no galante _moço_. Maria Thereza
ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava a
despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de
acompanhar a sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez
sorria-se maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.
Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam
a Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no
saber, e até na graça da palestra.
Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no
acto para licenciado, causou assombro aos mestres.
Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito
canonico.
Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo
docente foi logo convida-la, para reger a cadeira,[10] que
ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o convite, respondeu: «Sem
approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não pósso acceitar
encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de que a
não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
se façam».
Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e
Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com
que, durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade,
saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas,
onde residia então sua real ama.
D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da
Abyssinia por creados seus;[11] como, porém, estivesse em
preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus
padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua saída,
as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.
Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á
rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.
Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua
doença, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se
cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo
tempo tenção de communicar a este, que em testamento o declarava por só
e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo
seu, D. Jorge de Alencastro--que era o filho D. João II e de D. Anna de
Mendoça.
Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver
assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para
Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal, d'aqui atravessaria
por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e
pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para
si traçára o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda
convalescente da grave doença, que a pozéra ás portas da morte.
Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou
D. João II, ou _morreu o homem_, como sentenciosamente disse Isabel, a
Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque,
nova certa do fallecimento.
Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade
de vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos
a crêr, que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal
era a paixão, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado
principe D. Affonso--quem sabe se nas festas de Evora!...
No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e
satisfez uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que
D. João II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu
cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Préste João,
conforme as informações e documentos, que deixára e houvera d'aquellas
partes o Principe Perfeito.
Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem
duvida os de maior transcendencia, que seu irmão praticou no começo
do seu reinado.
Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da
importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega
d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso
explorador, mas apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma
embaixada, que o acreditasse junto do Préste, confirmando as cartas, que
lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.
Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo,
nem gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal
sem novas nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por
fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso
predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relações com o
abexim, e até este as buscaria.
A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a
conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan,
porque já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não
perdia o ensejo, agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio
uma grande idéa de Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que
o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma
solemne embaixada.
Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e
experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre
VI, do imperador Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma
qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o
mandamento, por haver fallecido na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.
Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis
mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.
Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham
baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag
Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso,
durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.
As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só
pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre
as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os
turcos, que sustentados por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos
tudo, desde as cumiadas do Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua
frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao
imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah,
Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições de
janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses
paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus
effeitos rapidos.
Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão
terrivel vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu
povo, a protecção de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto
exaltava, e de cujas victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas
contra os mahometanos, já se ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada
sempre, como todos os da sua raça, tratou de procurar pessoa, que
podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas
que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.
Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por
fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais
proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com
effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com
cartas da imperatriz em nome do Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz,
como signal da fé professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei
D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever demorar o delegado da
imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes
de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando
conduzisse Matheus á ilha de Massuah.
A esquadra, composta de dez náus, largou do porto de Lisboa no dia
27 de março de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á
Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as
pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero
contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do rei.
Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao
Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a
embaixada portugueza.
Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu
Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao
seu destino, depois de longas e arduas jornadas.
Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que
exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao
lembrar-se da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que
tinha tomado.
Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de
muito lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e
honradamente sacrificou a vida pelo seu paiz.
Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo
de Lima, dizia:
«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára,
até ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a
elle, e sabe como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito
desejo».
Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar
Massuah e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o
desbaratariam e aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que
necessario fôsse emfim, lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar
Zeila, porque d'este porto iriam as mercadorias para Aden, Djiddah e
toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.
Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...
Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo XVI, sem comtudo irmos
mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.
Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a
seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:
_Maria Thereza_
Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e
comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu
desejava, ou--porque não direi?--como nós ambos desejavamos.
Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha
Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei
meu Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez,
para de longe conversar comvosco, condemnado, como estou a não mais
vos vêr, nem ouvir.
A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro,
ao lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação
precisa, e a minha alma se fortaleça com tão duras provações!...
De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje,
tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me
unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre,
em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.
Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando,
estudei o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os
principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia
vir de Portugal á India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão
Cairo para aquella cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras
indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas náus com grande
trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus
proprios olhos o centro d'este mercado.
Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o
rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca
no mar Vermelho.
Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir
visitar a _cidade santa_, como elles fanaticamente chamavam a Mecca,
encorporei-me na sua caravana.
Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella,
senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual
decerto moveram mais as vossas orações do que as minhas.
Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar
pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.
Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os
seus lugares santos...
Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que
tive de tomar parte--perdôe-me Deus!--na terra natal de Mohammed.
Sómente vos direi, que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira
humana!
É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais
variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam
nos bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do
_propheta_, e fazem-se negocios importantes.
De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do _sancarrão_. Atravessei
igualmente uma região immensa, adusta e maninha.
Terminada a peregrinação, retirei para Yambo, que é no mar Vermelho
o porto, que abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no
qual me dirigi a Tor.
Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé.
O Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por
onde vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até
entrarem na Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés
dictou a lei aos hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez
brotar um jôrro de agua com o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na
caverna do monte Horeb, onde o propheta Elias se escondeu, para escapar
á vingança da rainha Jesabel. Percorri emfim toda essa região pedragosa
e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz biblico, um dos mais
celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de Petrea, que
fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, bem
como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os
aromas, recebendo em troca os productos da Phenicia.
Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui
desembarcar em Zeila.
Tinha chegado ás portas da Abyssinia.
A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e
situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.
Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma
altissima serra, como se fôra inexpugnavel fortaleza. Por cima
d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual no espaço de um tiro de
bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens a cavallo, indo
emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á qual
conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se
alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo
com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e
perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis
despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte
e da outra umas como portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que
por lá passam com tamanho risco de suas vidas.
Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E
sabeis vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?
--Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar
por fiador, me mandaria a Portugal!
Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!
A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.
Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas
perder-se-ia tudo quanto tenho feito. Se eu me retirasse, esta
gente sempre desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me
na conta de um embusteiro; no que não perigava a minha consciencia, mas
o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim tomariam por
grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome de meu
Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se
com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere,
respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não
resolver o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.
De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio
a natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria
comsigo muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder
conquistar e conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que
ficaria este sem as necessarias para a sua conservação. Prefere decerto
Sua Alteza crear e manter as mais pacificas relações de amisade com o
Préste.
Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como
El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.
Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de
lisonjear-lhes a vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque
depois será menos difficil admittirem o meu conselho. Como prouve a
Deus, que eu viesse acabar meus dias a este exilio, empregal-os-ei
todos no serviço d'El-Rei, e da patria.
Fui constrangido a constituir familia, e todavia--crêde-me,
Thereza!--vivo em uma solidão immensa!...
Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas
as suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o
verdadeiro lugar do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente
o meu coração. E, emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas
orações e os nossos votos juntar-se-hão no caminho do céo...
Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não
ser visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de
abatimento, que repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta
separação nos não custe, experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu
amar-vos menos...
Não nos é dado realizar o impossivel!
O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára,
acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...
Adeus.
_Pero da Covilhan._
Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a
candida cecem das matutinas lagrimas rociada»; mas tinha ao pé de
si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as
entrecortavam.
Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e
exclamou:
--Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as
coisas d'esta vida!...
--Tambem as ha certas--interrompeu D. Leonor com muito carinho--e uma
d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...
--Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza
me permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da
Covilhan: «de outro jámais serei!»
--Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes--tornou a
rainha--; mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em
galanteios!... Emfim é necessario, que penses no teu futuro...
--Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a
vêr Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle
voltasse já não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.
--Não póde haver união mais santa--retorquiu com jubilo a rainha--; mas
sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...
--Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu
proposito; anima-me, pelo contrario, a esperança, de que, servindo
melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan,
orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha fraqueza de o
não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois corações...
--Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o
teu coração de ouro!...
Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos,
regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa
cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...
Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do
mesmo affecto finissimo.
Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta
patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que
passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros
d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa
regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir
esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é
infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e
profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime
virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.
Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da
Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna,
sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois
á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa
typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.
Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso
mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D.
Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades
artisticas possuia.
N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte
as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a
que se votou.
Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás
mãos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito,
portador o P. Francisco Alvarez:
_Pero da Covilhan_
Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos
sacrificios.
Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus,
fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na
minha clausura, onde espéro servir melhor a Deus, do que se ficára
no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o Eterno
Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção
pura, com que lh'as dirijo.
Elle vos acompanhe sempre!
Adeus.
_Maria Thereza._
Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em
Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do
mosteiro, á porta da casa do capitulo, foram cobertos seus
venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;