XII

_NA ABYSSINIA_

Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava

finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste

João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas

regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe

mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao

passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota,

que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem

levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da

Abyssinia.

Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade

credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo

christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia

contra o islamismo.

Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?--Ninguem sabia responder;

pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido,

talvez por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.

Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto,

elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao

Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão

africano oriental, a Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas

distinctas: a inferior, ou o _Kolla_, em que a temperatura varia de 20 a

40° centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical,

a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o

solo sem cultura; a media, ou o _Onaïna Déga_, com a temperatura de 15 a

30°, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a

superior, ou o _Déga_, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo

de zero nas mais altas montanhas.

As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece

formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O

numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens

condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a

quem as vê, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em

que não haja necessidade impreterivel de as collear e transpôr; por

isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem

abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios caminhos,

voltassem para traz.

Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe

afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para

escalar o Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com

agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os

diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. Lá do cume as

torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos

valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que

serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.

Então o Tacazé ou _Nilo negro_, que na bacia hydrographica septentrional

recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem banha, vae,

sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado impeto.

E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande

lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou _Nilo azul_,

atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo

extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume,

que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se

igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.

Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.

Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos

purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se

fôra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o

sussurro das florestas proximas é um fundo de concerto, que faz

sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura é o fundo da côr,

sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.

Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido,

aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto

varía, determinada pelas grandes differenças de nivel!

A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune

todas as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar,

terrenos contrarios no mesmo solo.

O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil

apanhar insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo

vê massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie,

para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante

observar a formação das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se

acima d'ellas.

Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua

accusa as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.

Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma

extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções

extraordinarias, bem como o _teff_, coberto de flôres purpurinas, e cujo

grão oblongo dá uma farinha saborosa.

O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do

Sudão, devastam as ceáras, o _enséte_, que é uma especie de bananeira,

cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não

esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.

Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero

infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos,

obrigam a vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua

invasão unicamente de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.

O agigantado _baobah_, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira

excelsa, o _kuara_ com as suas bellas flôres coralinas, a _mimosa_, o

_cusco_, o _wansey_, cujas flôres alvissimas abrem todas a um tempo, o

_daro_, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os

sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente

frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massiços de

folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais singulares

e formosos cambiantes.

No mesmo solo humedecido, e alcatifado de flôres odoriferas,

crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó

flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraçam ao tronco

das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo até se

suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.

E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu

retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos

passos do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico

quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle,

vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela

frescura de suas pennas, graça de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia

de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas fórmas. O

esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são apagados

ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente

da do _sonis-manga_, ou _cynnirus splendidus_, conforme a denominação

scientifica moderna.

Nas regiões mais aridas, o _cactus_, a especie de euphorbio, denominada

_kolquall_, a palmeira anã, o _kautuffa_ coberto de espinhos, dão signal

de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das

perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e

outros antilopes, como o _beni-israil_, igualmente elegantes, que logram

escapar, por causa da ligeireza dos movimentos e rapidez da

carreira, a esses crueis inimigos.

Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem

de asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos

girátacácheus, a todos esses monstros ferozes, de que é como que patria

o continente negro.

Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto,

garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas

hastes elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do

rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os

crocodilos infestam os rios, em cujas margens vôam innumeras aves

aquaticas.

No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes

musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e

muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam

deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas

maiores altitudes sobresáem o _Kousso-Brayera anthelmintica_, e o

_Gibarra_--Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.

Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira

de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique

entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim,

apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste

João.

Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era

amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe

edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas

armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E

convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas

abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.

Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa

distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e

separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga

rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos

quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e

rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos,

russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça,

com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito

leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas

fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro

d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes

colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens

com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se

agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma

grande tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos

milhares de outras, todas brancas.

Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan,

surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a

mais desusada sensação no ajuntamento.

Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que

vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João

II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico--já

n'esse tempo a lingua da côrte--que fôra encarregado pelo rei de

Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua

alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso

ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta

mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da

Covilhan.

Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas,

sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se

pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o

imperador, rodeado da sua côrte.

Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até

ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe

fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois,

ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as

quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o levantar, fez-lhe

algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de

D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse

descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.

Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os

grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto

das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a

sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a

magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna

de visitar.

A côrte compunha-se do _Bellátimoche goytá_, mordomo-mór; do _Tecácase

Bellátimoche-goytá_, pequeno mordomo-mór; dos dois _Betendet_, os

validos do imperador; do _Titaurári_, que fazia o officio de marechal; e

outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava

diariamente a tenda imperial o _Abima_, que quer dizer páe, e era o

metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da

Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas

tinha grande auctoridade, o _étch'égé_, prelado do numeroso clero

regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa,

fundado pelo _abima_ Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do

_abima_, havia o _Labeata_, padre de nomeação imperial. Junto do

soberano funccionavam os _Azages_ e _Umbares_, dezembargadores e

ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem

verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas

demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as

papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.

O livro da lei, _Fitha Negoust_, compunha-se de textos mal traduzidos do

codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de

serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar

juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas.

A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos

dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a

presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o

trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos

diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja

queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua

vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os

bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que

jurava: amen.

O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o

juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da

excommunhão, que sobre tudo temia.

As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias

festivos e para as grandes recepções, eram brancas e cercadas por

umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam

como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.

Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de

bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com

gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente

quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis

homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de

modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o

antecediam.

Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com

a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte

estalido, que fazia afastar a gente.

Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros

de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado

por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros

uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo

engastada muita pedraria falsa.

O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados

por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.

O _Titaurári_ escolhia o lugar do arraial, assignalando com uma

lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas

imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um

tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas

e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por

pagens, e tudo debaixo de um pallio.

Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente

d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da

côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se

mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero

superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não

faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.

As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o

poente.

As pessoas pobres dormiam sobre o seu _Neté_, que era um coiro de boi,

extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como

cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou

simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.

Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava

voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por

haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do

juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar

á sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa,

reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso,

puniam-n'o sem julgamento prévio.

Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre

as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de

seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada

_bercutá_, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas

o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito

enfeitados.

Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais

sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma

redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás _ápas_,

espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a do _teraux_ e a do

_cousio_, e que tambem lhes servia de alimento.

Sobre as _ápas_ collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo

estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas

de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina,

chamadas _escambiás_.

Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca,

embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam _berindó_ a este amargo

manjar, um dos mais delicados da sua mesa.

Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições,

o hydromel; que constava de cinco ou seis partes de agua, uma de

mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura,

lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado _sardó_, que em

cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.

Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das

mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma,

tapadas com barro e selladas, e denominavam-se _gombos_. Os portadores

d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.

Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com

que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente

se serviam da canna para alimento.

Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte

alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes

conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.

Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria

a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas,

os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas

do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da

mesma côr e feição das nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos;

outras, corpulentas como gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as

restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas sómente na côr

pardacenta dos bicos e pés.

Appareciam tambem coelhos e lebres.

Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de

cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral

abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam

fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com

perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.

Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de

refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o

nome de _gueddam_ e seus governadores o de _alikas_.

A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes

de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as

paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com

açoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por

terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto

ser de aguieiros de cedro tão unidos, que serviam de forro,

effectuando-se essa união por meio de cordões de varias côres, que

produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra ensôssa

até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito

bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres

muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda

muito aprazivel dos senhores.

Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os

orientaes lhes chamam _hobesch_. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de

rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente

guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou

menos aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes

nas veias sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato

d'esta palavra, do _foulah_ ou _peulh_--raça vermelha, do arabe e do

africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as

regiões, os typos secundarios mais proximos, _bedjas_, _somali_, _galla_

e o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito,

encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém,

exangue e sem graça.

Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e

curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que

se não occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam

de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção

leve, e pouco largo, de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno

enrolada á cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre

ella uma pelle de panthéra negra ou de leão. Calçavam alparcatas, e

andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal cobria estas até ao

joelho.

Em geral a plebe não usava calçado, e o seu vestuario reduzia-se a

umas bragas de algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo

panno tambem de algodão.

Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao

artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para

baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya,

faziam-n'os de teada. Os calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás

pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas até á cinta, eram

abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas

estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás de

Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a

camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos

por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou

de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino

da terra ou de bofetá.

Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste,

emquanto andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os

hombros, _ainda não estava na graça do Senhor_; mas logo que fallasse

com o Préste, e saisse da sua tenda vestido, _já estava na graça do

Senhor_.

Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados

caprichosos. As mulheres encaracolavam algum, com o qual

emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe

cahia fartamente sobre os hombros.

O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo;

dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros,

outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado,

denominadas _bolotás_; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso;

e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros

com zargunchos estreitos, como se foram dardos.

Os mais nobres cingiam espada--de que raras vezes se serviam--com

empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda.

Alguns traziam tambem adaga.

Os cavalleiros com sáia de malha--que poucos eram--não se curavam de

rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.

Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no

primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.

Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas,

grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como

não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços

mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.

Além da gente de armas, era muita mais a que seguia o arraial e a

bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas

mulheres, para fazerem as _ápas_ e o hydromel. Muitos não levavam

matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles

mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam

estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.

Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras

effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados _amalé_,

cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.

Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e

estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e

aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas

regueiras com a corrente das aguas.

A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da

metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal

gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para

trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não

sentiam falta da moeda.

A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em

Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais

adeantada.

Junto de um immenso _daro_ elevava-se o templo christão, que era de

formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas

abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e

denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.

Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam

hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro

faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.

N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a

christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem

os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira

a prophecia de David.

Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros

da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente

impregnada de judaismo, com traços de budhismo.

Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia

numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.

Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de

harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de

copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a

fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes.

Reconhecia-se facilmente, que não deixaram discipulos os artistas,

que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares,

sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.

Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para

dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo,

limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem

de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo

era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir

missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que

todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber,

senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a

lingua lithurgica.

O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser

admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do

ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não

como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De

sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz

alçada, como erradamente se affirmava.

Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos

conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.

O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o

contrahia com o tacito ou expresso consentimento de se poderem

apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim

evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso,

das causas de divorcio.

As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam

indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo

a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas

de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias,

enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a

celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes

camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não

usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades

celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada,

deixando, porém, crescer as barbas.

Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a

cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a

montar, quando iam já distantes.

A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para

ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso

o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.

E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:

arcyprestes--_komosats_; conegos--_debterats_; curas--_kasis_;

vigarios--_nefk-kasis_; diaconos--_diakons_; e

sub-diaconos--_nefk-diakons_.

Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do

nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver,

tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se

succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador

Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II;

mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita

honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não

podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da

Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas,

cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso

emfim.

A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o

soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande

senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.

Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se

obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los.

Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a

importante administração da sua casa.

Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se perder na

obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do

espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...

Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um

povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande

cidade tambem distante!...

E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do

rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos

reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida

ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados

companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria

Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...

Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...

A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via

a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos,

tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.

Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em

gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem

desenho quasi e sem perspectiva.

Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o

alfabeto ethiopico do das inscripções himyariticas, ás quaes os

missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para

indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á

intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda,

ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a

direcção da grega, da esquerda para a direita.

O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e

o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande

parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a

grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.

Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos

litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas

não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos

pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a

sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis

e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia

no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam

conhecer e servir o _novo senhor_. O seu procedimento, porém, tão

regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados

concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um

dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou

filha, que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a

Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se

retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em

nós um amigo.»

Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu

profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:

«Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa

presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á

vossa amisade.»

Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse

passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava,

tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que

havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens

seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e

d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II

umas cartas, que lhes entregou.

Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o

queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada

Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do

imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de

cavallos.

Helena considerava-se a mais ditosa filha da Ethiopia. Sentada ao

lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia,

disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que

suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre

ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os corações no amor de

Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que eu já quero

á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do _daro_,

que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que vou

viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o

buscava!... Amo-te muito!... muito!...»

Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face

duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...

Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...

--E porque chorava?!...

Pobre coração humano!...

Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV · 第 20 / 32 题