_PEREGRINAÇÃO_
Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi
desembarcar em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e
profundamente catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz
dirigiu-se a Mecca, incorporando-se em uma numerosa caravana de
peregrinos, e, affectando o recolhimento de um crente da religião de
Mafoma, sem mostrar, todavia, como os musulmanos seus companheiros, o
semblante macerado e consumido pelo ardor fanatico.
Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se
considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico;
realisa-la, porém, mórmente no seculo XV, embóra se tivesse envergado o
_ihram_ do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.
Os raros europeus, que no seculo actual lográram vêr Mecca, dão
testemunho do perigo, a que se expõem os christãos, que se afoitam a
violar a lei que lhes prohibe, com pena de morte, o seu ingresso no
velho santuario arabe.
Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o
Oceano indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e
costumes, nada havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um
dever, a cujo cumprimento sacrificava a propria vida.
É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos
labores improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e,
no seu resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e
robustecia cada vez mais a confiança, que em si proprio depositava.
Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.
O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia,
tem importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela
influencia, que recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A
sua aridez, quasi geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha.
Cortam a immensa solidão das suas planicies arenosas, que se extendem
para a margem do mar Vermelho, pouquissimos valles cultivados e
montanhas cobertas de rochedos, que se vão tornando cada vez mais
abruptas á medida que os viandantes se internam no paiz. As
estradas são regueiras enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se
transformam em rios caudalosos. Caminha-se por esses _uâdis_, e na falta
d'elles seguem-se as direcções rigorosamente determinadas pela situação
de póços e cisternas, sem cuja agua a vida seria impossivel no deserto.
Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que
percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o
_simoun_.
Para combater o primeiro, iam os açacaes--_sakka_--encarregados de
conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam
novas provisões da dos depositos, que encontravam.
Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em
armas. Os nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes,
pois que taes bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma
caravana, como um general europeu de ter bombardeado e conquistado uma
praça de guerra; e, se não erguiam uma estatua ao scheick, por elles
muito venerado, e que os conduzia á victoria, é porque na Arabia, a
ninguem se fazia essa consagração.
O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.
Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois
todo o Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então
um aspecto sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia
finissima, arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar
embravecido, era preciso fugir a toda a pressa!
Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!
O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais
turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos
sangrentos, os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos,
esses pacientes _navios do deserto_, desarvoravam, partiam á desfilada,
zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo
instincto de conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo
das areias movediças.
Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia
abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com
segurança a calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e
ficasse entregue á mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a
sua energia, toda a esperança de sobreviver os abandonava!
Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope,
desfalleciam, caíam inanimes n'aquelle oceano de areia, que logo lhes
servia de mortalha e tumulo, até que novo temporal viesse descobrir as
ossádas d'essas victimas numerosissimas do implacavel e deshumano
simoun!
De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle
proprio fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.
Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a
distancia, que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé
de um dos montes, que cercavam a _mãe das cidades_, a Om-el-Kora dos
arabes.
A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada
pelo _propheta_ a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca,
para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.
Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar
Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se
extendia á roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado
Beled-el-Haram.
N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que
corre de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus
cachos de tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas,
como sendo o caracteristico predominante das paizagens orientaes, os
homens da caravana fizeram uma ablução geral, chamada _ghort_,
substituiram os seus trajos de viagem pelo _ihram_, o calçado pelas
chinelas--_besmak_--, e perfumaram-se. As musulmanas tambem purificadas,
cobriram-se com o seu grande véo, branco como o _ihram_, e denominado
_yaschmak_.
Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de _hadji_, depois
d'ella era tratado pelo de _mohrim_; e as suas vestes ficavam
santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta,
cuidadosamente guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.
A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo
caminho--os homens em voz alta e as mulheres em voz baixa--muitas
orações, terminando pelo _Tebiya_ ou _Lebbeika_.
Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita,
continuando as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e
depois de deixarem atraz de si uma espessa floresta de columnas, que
sustentavam arcadas numerosas, pronunciaram o _tekbir_ e o _tehlil_,
que consistem em dizer: _Allah Akbar_--Deus é grande; _Lá lla illá
lla_--não ha outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos
pregoeiros--_almuadens_ ou _muezzinos_, voltado para a _kaaba: observai,
observai a casa de Deus, a prohibida!_ E logo irromperam descalços,
foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, approximaram-se
da _pedra-negra_--_Hadjar elaswad_, para fazer o _touaf_, isto é, para
dar sete giros em volta da _kaaba_, offerecendo sempre o lado esquerdo a
este santuario, que se elevava no meio do atrio, e, conforme a crença
arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.
A mesquita--_mesgid_, _guma'a_, lugar de reunião, e tambem _Beïttallah_,
casa de Deus, reduzia-se a um claustro--_sakhn-el-gama_, ou pateo
aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de
porticos levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de
granito outras de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas,
destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua
construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta
inteira.
As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam,
eram cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se
elevavam sete minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do
edificio, e tres de um modo irregular no comprimento das galerias
formadas pelas arcadas.
A fórma e architectura da notabilissima _kaaba_ não desmentiam, com
effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de
altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada
para o Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a
cima do sólo. Este templo apenas estava patente ao publico na
sexta-feira de cada semana, dia guardado pelo muslim, ou de
reunião--_iom el guma'a_, e tambem quando se celebrava o
anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos anciãos, ou
_xaibins_, pertencia abrir a porta. Para isto subia a uma especie de
pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que terminavam os seus pés
de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, chamada _Albarcá_,
especie de véo de purpura, que se extendia sobre a porta, e esta era,
como a soleira, forrada de laminas de prata.
O povo, ao invadir a _kaaba_, rompia, de braços abertos e mãos erguidas
ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua
misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»
O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois
pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e
pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo
por ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um
tom negro bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a
illuminação. O exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta,
chamado _Kesoua_, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante
os primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma
de grinalda por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da
altura de todo o véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga
fita igualmente preta, nas quaes se liam inscripções piedosas e
textos do Corão.
Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas
dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das
azas dos anjos, que voavam em torno da _kaaba_, e que levarão um dia o
sagrado véo deante do throno de Allah.
A _pedra-negra_ era o unico ponto da _kaaba_, permanentemente offerecido
á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para nórdéste,
achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em
chapas de prata.
Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de
Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as
tribus arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos
anjos, e collocada junto de Abraham, para servir-lhe de escabello,
quando o velho _páe dos crentes_ estava construindo a _kaaba_. A Pero da
Covilhan, porém, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma
substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular
de um vermelho carregado, que podia passar por negro.
Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no
momento, em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais
brilhante e de mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos
de tantos homens maculados de iniquidades de toda a especie a
tinham assim metamorphoseado.
No páteo da mesquita, e pérto da _kaaba_, elevava-se outra construcção
quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que o
santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e
afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia
a tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e
denominado pôço de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta
com suave murmurio. A sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida
de marmore branco, e de todos os lados recebia ar e luz por oito
janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte, d'onde se tirava a agua
santa para a purificação.
Junto da _pedra-negra_ começavam e terminavam os giros, durante os quaes
os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a
pedra, se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois
no caso contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios.
Seguia-se beijar o nobre _Alcamamo_ ou _maquam d'Ibrahim_, o qual
consistia em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e,
por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.
Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina
d'este nome, voltavam-se para a _kaaba_ e recomeçavam as suas orações.
Desciam depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre
aquella collina e a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada
_saï_, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados
para a _kaaba_: «Ó meu Deus, sê misericordioso; perdôa os meus peccados,
ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes direcções, para
recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.
Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a
festa, com que terminava a peregrinação.
Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença
de Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as
orações quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e
chamava-se _Sabah Namazy_; a segunda, _Oilah Namazy_, ao meio-dia; a
terceira, _Akindy Namazy_, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta,
_Acham Namazy_, ao sol posto; e a quinta _Yatzu Namazy_, ao serrar da
noite.
Precedia sempre as orações uma ablução parcial--_woudou'_, que consistia
em lavar a cara, as mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o
artelho. Antes de começar a reza, o crente extendia no chão o seu tapete
quadrado, collocava-se de pé sobre elle, voltava-se para a _kaaba_,
estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a _quebla_
estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de perdão--_istigfar_,
elevava depois as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e quasi
em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar
chamada _tekbir_. Passava ao _fatihah_, e pronunciava ao menos tres
versiculos, ou _ayat_, d'esta oração, que é a primeira sura do Corão,
collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda,
e cravando os olhos no chão. Declamava o _tesbihk_, inclinando o corpo e
a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a
posição do _fatihah_, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma
prosternação--_soudjoud_, durante a qual repetia o _tekbir_ e tres vezes
o _tesbihk_, tendo a face voltada para a terra, os dedos das mãos e pés
muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava um
momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos,
e repetia o _tekbir_. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a
direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a
oração, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.
A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um _rick'ah_.
Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em
frente do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um
combate contra o espirito das trevas.
No mez de _schewal_, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro dos
mezes da peregrinação, accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as
velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se
igualmente o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova.
Na manhã seguinte celebrava-se a oração da paschoa, pois que no mez
anterior, o _ramadhan_, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano
comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr do sol até o
romper d'alva.
Chegado o primeiro dia do mez de _doulkaadah_, que era o undecimo,
tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do
abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até
ao dia da subida a Arafat. No setimo dia o _iman_ pronunciava do alto do
mimbar na mesquita a _khotbat-el-hadjï_, isto é, uma allocução, em que
explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam
celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao
valle de Miná. Este dia chamava-se de reflexão--_Ianm terwia_, alludindo
á incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de
immolar seu filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se
uma suggestão diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia
immediato, depois da oração matutina, a caravana subia á montanha de
Arafat, onde existia uma capella--_turben_, a qual santificava o sitio,
em que pelo anjo Gabriel fôra ensinada ao páe commum dos homens a
primeira invocação. Conforme o ritual, os crentes, depois de uma
oração feita na propria _kubba_, armada no acampamento, iam esperar o
pôr do sol, e entretanto o _iman_ erguia os braços ao Céo, para invocar
a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de
vózes unisonas; _Lebeïk Allahouma Lebeïk!_ Nós estamos ás tuas ordens, ó
Deus!
Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer
a _Djebel Farkh_, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma
catarata de espuma!
No segundo dia punha-se em marcha, atravessava _Elmeschar-el-haram_--o
lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em confusão enorme, o apertado
valle _Onadi-monhassar_--o valle maldito, e chegava de novo a Miná.
Atiravam todos para traz das costas, junto do _Djamrat-el-Agabé_, sete
pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo
demonio, e gritando antes do arremesso: _Bismillah!_--Em nome de Deus!
Os sete seixinhos, que tomavam o nome de _Hassiato-Aljemar_, eram
expressamente apanhados em Monzdelifat.
Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a
victima, que trouxesse.
A caravana regressava a Mecca para visitar a _kaaba_, fazia nova romaria
a Miná, e tratava logo de sair da cidade _santa_, antes de commetter
algum peccado; mas não partia, sem voltar pela terceira e ultima
vez á _kaaba_, a fim de celebrar os _Thonaf-wida_--procissões da
despedida; ao pôço de Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma,
como piedosa recordação; e retirava-se finalmente pela porta do
adeus--_Bab-el-wida_.
Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado
de um _uâdi_, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde
raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes
inundações, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.
As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro,
lembravam sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam
confiados, por singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli
procurar os sectarios do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral
as das outras cidades arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e
traçadas com certa regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de
granito vulgar dos montes suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto
monotono.
Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos
tanques, cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á
bella sultana Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso
califa Harun-al-Raschid.
Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio
muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que
em seus bazares accumulavam-se as producções de todos os paizes sujeitos
á lei do propheta, e faziam-se negocios importantes.
No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes
e carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos,
que, mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas
_foluzes_, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
duas alcôfas de differente tamanho, chamadas _Magtalá_, as compras
feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.
O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem
fermento, e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal
cosidos e molles, como pasta, a que chamavam _hops_.
De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que
verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.
Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós
aromaticos, mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa
d'esse facto, e soube, que por costume andavam os meccanos sempre
perfumados; mas nos mezes da peregrinação chegavam a fazer tão
extraordinario uso dos perfumes, que muitas mulheres se privavam até de
parte do seu alimento para compra-los, e, quando ellas vistosamente
ornadas íam girar ao redor da _kaaba_, o aroma expirado por seus
vestidos predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que
muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio
fragrantissimo.
Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam.
A muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por
isso os tingiam, velhas e moças, com o _kohl_, que do mesmo modo
empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só
ennegreciam, mas ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma
tintura, applicada ás palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem
embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o _kohl_ um verdadeiro
collyrio, e um remedio soberano contra as ophtalmias tão frequentes
n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e nas mãos com um certo
pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha despolida de ferro
ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada, servindo-se
para isso de uma erva denominada _elhene_.
As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as
classes um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como
que uma pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.
Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa,
do Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas
uma grande similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica
e capa--o que sómente bastaria, á falta de outras provas, para
demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.
As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos,
são o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos
alternativos do seu gosto.
O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas,
compunha-se geralmente de uma larga tunica--_farmla_, atada na cintura
com o _samla_ ou _foutah_, e um véo--_tarbah_, que cobria a cabeça e
quasi todo o semblante.
Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem
de espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não
sacrificava o pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo,
por exemplo, as quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente
e nos hombros desempenados, as deusas da Grecia antiga.
Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras
sómente um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por
isso pareciam verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia
formosas musulmanas, que, muito embóra usassem a capa até aos pés,
deixavam ás vezes cair artificiosamente o véo, regalando os olhos de
quem as via.
Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia
esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam
sequér desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.
Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da
mesquita, gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a
oração deve ser preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu
tapete, sobre o qual ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os
olhos, fitava os da sua alma na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua
fé catholica. Mas não havia preceito do Corão, que elle ignorasse e não
cumprisse publicamente.
Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam
as cinzas de Mahomet. Os mercadores--_gellabys_, carregaram de provisões
os seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os
seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o _kyrba_, ou gancho
indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por
impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o
caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de
sobejo e não lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas
essas necessidades occorriam as esmólas dos ricos. Sobre o dorso de
muitos animaes viam-se grandes caldeirões de cobre, chamados
_arraçuato_, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes eram
illuminados por lanternas immensas, que serviam igualmente para as
marchas, durante a noite. Em varios _meharas_ enfeitados com collares de
sêda, e o _henné_ ou apparelho coberto com magnificos brocados,
sobresaíam os _attatouch_, ou palanquins, para commodamente se
recostarem as mulheres opulentas.
O alfange, o punhal--_khamtscher_, a faca,--_bitschak_, a lança, a
alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.
A cidade do propheta _Medinet-el-Nebi_, distava de Mecca onze dias de
jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e
extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E
a toda essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas
Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado,
_houdoud-el-haram_.
Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada
a sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o
monumento funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se
á grandiosa mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e
constantemente illuminada por trezentas lampadas.
O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas
tambem os de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se
El-Hdjra. Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até
dois terços da altura por uma grade de ferro com intervallos
estreitissimos.
O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro,
sob um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de
laminas de prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e
ouro, elevava-se sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a
uma balaustrada de prata, em cima da qual ardiam continuamente perfumes
em vasos do mesmo metal. Uma lua de prata, em quarto crescente,
artisticamente lavrada e cravejada de pedras preciosas, encimava emfim o
sepulchro do fundador do islamismo.
Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual
paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da
face do enviado.
Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os
islamitas tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na
mesquita junto do tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o
pulpito. No primeiro dia, em que subiu a este, inclinou-se o tronco para
o novo lugar occupado pelo propheta, e com tal affecto, que podia
comparar-se ao amor da camêla para o seu filhinho. Então Mahomet abraçou
o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, suspiraria inconsolavel até
ao dia de juizo!»
O pulpito era feito de tamargueira.
Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe
faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao
sudoeste d'ella, no mar Vermelho.
Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha
do propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da
cratéra de Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos
musulmanos, ser transportada um dia para o paraizo, como theatro, que
foi, da victoria alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e
a oeste elevavam-se tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra,
onde o propheta esteve préstes a morrer de sêde, e que será precipitado
no inferno, conforme a crença. Ao sul prolongava-se a planicie a perder
de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de póços, cujas
aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em longe a
monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as argilas alternavam com as
areias e a greda.
Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde,
embarcando em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que
percorreu, e, voltando a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.
Chegou emfim ás portas da Abyssinia.