D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:

--Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...

Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os,

respondeu:

--Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...

--Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...--perguntou a

rainha, accentuando com grande admiração as suas palavras.

--Sim, minha Senhora--replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e

parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.

--Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na

differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu

casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...

--O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar

um passo, que não seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que

Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu coração o que consagro a

voss'alteza, como do coração da esposa nunca se apaga--creio--o amor da

filha. Até este mais santifica e robustece o outro...

--Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas

tu as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu

prásme?...

--Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se

elle não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito

tantas honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do

Oriente, por onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude

os gaba, e não esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando

elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor,

não lhe faltará o cuidado, que sua alteza sóe haver com aquelles que bem

o servem...

--Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores--affirmou

gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as

palavras, que docemente proferia, continuou:--pois bem... mandarei dizer

a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que

desejas fugir ás festas... e faço-te a vontade...

Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente Maria

Thereza, que, não podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e

lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito

scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a

fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem tanto

amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:

--Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por

algum tempo a companhia de voss'alteza!...

--Pobre creança!...--interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa.

Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente

pela cara:

--Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando

voltáres, não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de

mim...

Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV · 第 18 / 32 题