D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.

--Para que?

Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde

tremulava ainda a bandeira portugueza, pois tinha de permeio o rio,

invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma

batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma

superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e

tendo cobertas todas as communicações importantes.

Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte

de Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde

de Villa Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu

bastante, approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto

e assentou o arraial.

Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno

alcance das bôcas de fogo, mas preceito do _Regimento de guerra_, para

fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte

estava enfiada pela nossa artilheria.

Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o

damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena

trégoa para concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir

meio conciliador, de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores

d'ella. A sêde de sangue causada pela febre guerreira, em que uns e

outros ardiam, tornava-se cada vez mais insaciavel. E comtudo nenhum dos

exercitos podia invejar ao outro a sua situação. O nosso, além de

luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz

extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo

que as chuvas e neves o iam já desimando, começava a falta de viveres a

fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.

Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de

que Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita

do Douro. D. Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o

passo ao inimigo, e foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade,

onde mandou recolher o parque e a peonagem. Soube o principe durante a

marcha, que Fernando não havia saido de Zamora, mas tinha para o bater,

em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de seiscentas lanças, commandadas

pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de Fernando. D. João

obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que tomára seu páe,

e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.

Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que

começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos

nossos, a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a

nossa rectaguarda com algumas cargas ligeiras de cavallaria.

Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda;

mas D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde

lhe deram a nova, pois tão apertado era, marchou para a planicie, e

ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais despejadamente.

D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de

formar as suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição

d'ellas fosse, quanto possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as

em duas grandes fracções. Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao

principe o da outra, em que ficou a flor da cavallaria portugueza.

Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita

capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, _vindo na reserva_ Fernando de

Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o

cardeal Mendoza.

Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a

rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças,

pois que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de

dispôrem finalmente de infanteria mais numerosa.

Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma

de infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e

uniformidade de seus movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á

cavallaria, olvidando-se a maxima dos antigos, prudentemente restaurada

pela illustração militar dos nossos tempos, de que a infanteria é o

agente principal do combate, ou, como poeticamente dizem alguns, a

rainha das batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de

nobreza valente e déstra, mas pouco subordinada, bem como dos

contingentes tumultuarios das cidades, era incompativel com a disciplina

e outros requisitos essenciaes da sua organisação. N'este encontro de

Toro, comtudo, os castelhanos empregaram com proveito a sua infanteria

ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora aguerrido, não soube

mostrar-se disciplinado.

Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois

exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol

têr-se posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva

miuda e persistente.

Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o

convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do

adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado

pelas trombetas, fosse o primeiro a romper.

Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, _por S. Jorge e S. Christovão_,

invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza,

clamando com os seus por _S. Thiago e S. Lazaro_.

Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas

obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo

d'Evora D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o

inimigo, a nossa cavallaria, como se fôra uma forte muralha de

lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, irresistivel,

sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram

quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos,

com o principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais

completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á

carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o

effeito moral d'esse choque violentissimo, que percutiu até a reserva do

inimigo. E por isso Fernando de Aragão--um moço de vinte e seis

annos!--que, para não expor a vida á contingencia de um golpe do seu

adversario, se collocára a respeitosa distancia, mal viu approximar-se a

hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas de cavallo para Zamora, sem

tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a pista, e salvando-o a sua

boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos cavalleiros, que

correram sobre elle.

Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do

rei da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o

animo tê-la embainhada, e lança-se no combate.

Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da

cavallaria; rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças

arremessadas com furia; retingem-se de sangue as espadas nos crébros

golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do

peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; resoam,

similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de

dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e

servindo antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida,

desesperada, horrivel a refréga. Não cessa do ardor, com que começou de

accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se á parte da

multidão, ou á do esforço.

Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de

Toledo em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a

cavallo--o que para a nossa hoste era uma novidade--dão uma descarga,

que fez hesitar um momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o

adversario empregado aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o

momento decisivo, logo recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.

Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no

ultimo choque.

D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado

expôr ás contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava.

Era pois a morte ou a gloria o escopo unico d'aquelle

«Que a suberba do barbaro fronteiro

Tornou em baixa, e humillima miseria.»

Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias, mas os

cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam,

percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e,

fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com

que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais

fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na

bainha.

Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos

nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se

a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante:

acertada resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não

era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto

planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do

ultimo conflicto.

Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das

cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa

quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua

visinhança tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis

relações com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em

que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um

homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É claro, que nem pela

cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse derrotado, tal

era a confiança que depositava no valor de seu filho e no dos

companheiros, que lhe deu.

Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um

porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega.

Ficou victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os

feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste,

tio de Fernando de Aragão.

Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque

estava fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para

entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua

temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro

inimigo não victimáram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram

outros, mais prudentes, unir-se ao principe, e entre esses o escudeiro

Gonçalo Pires, levando a bandeira real, que por instantes tremulára na

mão de um castelhano.

Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade,

que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe

arrebataram depois de uma lucta titanica.

Singulares contrastes!

Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria,

onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para

immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o

appellido de _Bandeira_; a outra, o cognome de _Decepado_ a Duarte

de Almeida.

«Cercado por toda a parte

Sua espada se partiu.

Por guardar seu estandarte,

D'arma o estandarte serviu:

A dextra mão jaz por terra,

O seu guante a não guardou;

O pendão na sextra aferra,

E a mão perdida vingou:

Outro golpe lhe sepára

A sextra mão que segura

A bandeira, que jurára

Conservar intacta e pura:

Nem assim perde a bandeira,

N'hastea dura os dentes crava,

Quando lança traiçoeira

Seu ginete lhe prostava:

Cahe no chão o cavalleiro

Sem vida, quasi expirando,

E ficou prisioneiro

D'illustre rey Dom Fernando.

Mas a bandeira regada

Pelo sangue portuguez,

Por Goncal'Pires livrada

Breve foi, logo outra vez.»

Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de

Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma

era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o

honrado cavalleiro resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a

Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue tão generoso, e

sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.

A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois _per força e

como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a

levava_ (a bandeira), _e o prendeo sobre sua menagem_,[5]

abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que já iam

correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.

Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres

dias, ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso

mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.

O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma

deliberação.

Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem

mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre

umas pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.

--Cães de portuguezes!--grunhia um.--Por causa d'elles fizeram de nós

morcêgos!...

--Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de

Malaga!--tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava,

levando o cavallo á mão.

--Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar--observou o

outro, sem nenhuma curiosidade de saber, quem era o seu

interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.

--Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles

malditos!--exclamou o cavalleiro.--Mas, Virgem Santissima! o que

estaremos nós aqui a fazer?--perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa

estivesse a verrumar-lhe o entendimento.

--Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...

--Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.

--Fugiu, não direi... Retirou...

--Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do

campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da

_Beltraneja_, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois

tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na

direcção, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.

--Sim, é o mais certo;--replicou em tom indifferente o cavalleiro.

Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os

biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a

cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.

Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se

concentravam no acampamento sem apparencia de receosos, valeu-se do

silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.

D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres

dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo

de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a

bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem

mostrar préssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.

Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o

interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do

que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de

Pelayo Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio

de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de

Guimarães, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.

--Não merece--exclamou alto e bom som--o nome de cavalleiro, quem

abandona o seu rei, e o não segue na vida ou na morte!

E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:

--O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?

Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João,

appareceu Pero da Covilhan, e disse ao principe:

--El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são

está, por isso sejais tranquillo.

--E onde está el-rei, nosso senhor?!...--perguntou com alvoroço o

principe real.

--Em Castro Nunho.

--Quem nos trouxe tão bom recado?

--El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.

A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de

trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de

alegria, feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o

principe sair para Castro Nunho uma guarda de honra composta de

numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D. Affonso V a Toro.

Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do

rei, pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do

principe, havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa

refrega, em que conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.

Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:

--Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?

--Facilmente, meu senhor--respondeu Pero da Covilhan com a maior

naturalidade.--Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr,

que em nosso campo não havia de el-rei novas, nem mandados. Ancioso

de buscar sua alteza, era dominado por um triste presentimento. As

trévas da noite, e a confusão que reinava no campo contrario, poderiam

talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de

que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os dialectos de Hespanha,

e fui á ventura.

--Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a

vida--atalhou o principe.

--Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que

imperava unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a

voss'alteza.--A poucos passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando

caminhava na direcção da margem do rio, ouvi fallar uns biscainhos.

Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do inimigo, que estavam em descanço.

Quasi não repararam em mim. Tomaram-me naturalmente por seu convisinho,

e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles affirmou ter el-rei

retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo a verificar

isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já voss'alteza.

Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do acampamento sem

licença de voss'alteza.

--Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se

alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que

pelejastes a meu lado.

--Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...

Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da

Covilhan, como veremos.

O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da

desgraçada guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho,

regressou a Portugal; e o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem

pensar que o revéz de Toro fôra o occaso de sua gloria guerreira.

Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho de Medina, ter-lhe-iam

caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão prodiga, não fosse para o

seu competidor tão adversa.

Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca

temera a morte.

Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para

ser instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da

expiação. Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar

vingança eterna do sangue derramado em Alfarrobeira.

Justiça da Providencia!

V

_ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA_

Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha

nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua

temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o

Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua

missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores,

por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua

boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os

principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus

interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima: _quem não

sabe dissimular, não sabe reinar_; e que, por elle ser assás astucioso e

perfido, lhe chamavam _a raposa_.

Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro de 1475, o

tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar

Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a

confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre

estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da

outra por D. Affonso V, rei de Castella.

O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as

estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da

Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e

negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro

da paz com o duque de Borgonha.

Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho,

pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a

ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus

desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de

arriscar mais uma vez a sua reputação.

Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para

França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em

uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos

homens.

A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo

foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os

cumprimentos, que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa,

com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os

navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que

fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do

conflicto de Toro.

Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e

teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao

requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.

De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de

notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde

deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D.

Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a

estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde

lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso

cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI

déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante.

Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo,

fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o

entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre

outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de

benidictinos. Era o _Lancelote do Lago_, romance de cavallaria escripto

em latim, na leitura do qual os paladinos dos seculos XII e XIII

aprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros da

_Tavola Redonda_. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D.

Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus

agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por

isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.

Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as

chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos

dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o

seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.

Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de

Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede.

Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos

ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois

principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial

da entrevista.

A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França

«vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e

duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á

cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos

pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma béca de

chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e

suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.

«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os

joelhos muito baixos.

«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os

olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S.

Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta

mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que

elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém

elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu,

porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de

Portugal.

«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre

quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados

debates.»[6]

Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal

apresentar-se humilde até á repugnancia!

Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours

para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os

monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder

casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.

Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no

coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque

de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com

quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois

soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu

proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos

resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a

fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna,

e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o

bom exito da empreza de Castella.

O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe

apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era

homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o

aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a

soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar

o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de

Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.

Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á

concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e

assim fez.

Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu

inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a

presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo

sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha

propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha

agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o

preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios,

mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao

territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os

passos de seus agentes.

Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de

Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha

diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de

Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a

curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal;

mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em

melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a

questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente

a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez

supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando

implicitamente insinuado aos reis da Secilia, que tratassem com essa

potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma

condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que

era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.

A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com

elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso

no encontro dos dois monarchas em Arras.

Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de

Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma

abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e

recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica

tortuosa de Luiz XI.

Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos

para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de

embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios

para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi

todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de

preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em

escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um

cofre, cuja chave trazia comsigo.

Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:

--Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas

tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér

tambem.

Ao que Pero da Covilhan respondeu:

--Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever

meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado

ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal,

sem que vá com o meu rei e Senhor.

--Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa,

dando-me algum allivio o desabafo.--Quando enviuvei, prometti deixar o

mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho,

estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a

empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua

vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi,

como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta

nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por

sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo

infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus

negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava

de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os

principes, que vivem e morrem na regencia de seus estados, com

difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução

de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois

de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não

deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco

honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados

juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa,

e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e

passarei o resto de meus dias em uma clausura.

Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!

--Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade

tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não

quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e

muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os

infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto

porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de

voss'alteza e da nossa patria querida?!...

D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito

impressionado:

--Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os

destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o

barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua espada. Vós lá

sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos

plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande

estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem

elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a

buscar-me a Castro Nunho.

Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan,

que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.

Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua

peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava

com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de

grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço

escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.

Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o

rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara

e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o

fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde

effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos

moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus

escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva

estivesse presente.

Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI

acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava

em regressar do seu passeio.

Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente,

que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse

pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral

inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.

Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram

encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na

qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os

portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o

determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D.

João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com

paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar

immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e

determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e

verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual

nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.

Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo

ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se

tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha vindo a França tratar

de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi

D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco

em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.

Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que

trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que

levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por

toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual

fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir

graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e

acompanhavam o seu soberano.

Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um

cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia

da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para

melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro

fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação,

e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a

Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét,

participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com

acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.

O conde de Penamacor, que era o primeiro camarista de D. Affonso V,

e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo

junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu

proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e

pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim

D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito

consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em

Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de

Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França,

onde se sentia sobre brasas.

Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de

Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a

tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat,

cognominado _o Grego_.

O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações

de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o

trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no

coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente

logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria

a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe

esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e

alliado...

D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos

que cultivavam as lettras; por isso, durante a viagem, algumas

vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras

composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito

folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel;

e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes

descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos

lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de

Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.

Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios

aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do

que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira,

pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que

seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.

Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi

surgir a Oeiras.

No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que

mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por

obediencia havia empunhado.

A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna.

O arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a

sua graça. O proprio Beltran de La Cueva recebia mercês d'estes

principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e

Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de

Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano,

rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este,

enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes

condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.

Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de

1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer

confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com

Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de

Castella.

Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns

magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas

estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a

guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulação dos

castelhanos não passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e

receio; por isso não cessavam as hostilidades tanto por parte de

Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas nações.

A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim

as partes interessadas.

Para entabolar as negociações, avistaram-se na villa de Alcantara,

em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do

infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem

ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479,

celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e

os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o

principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por

palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D.

Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os

rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o

principe a concordar n'este casamento, a princeza não só seria

indemnizada, mas ficaria livre para poder dispôr de si.

Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de

Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.

Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em

terçaria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não

querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de

Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era

obrigada a optar pela profissão ou pela terçaria.

No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do

principe D. João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse

com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,

devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria nas mãos da infanta

D. Beatriz.

Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de

ambos os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam,

originada de conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a

especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.

Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes

successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi

victima a innocente princeza D. Joanna:

«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua

liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e

com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de

rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas

que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe

da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e

cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior

seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e

vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro

mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.

E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim

o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D.

Affonso seu páe de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se

escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a

cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e

sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo

contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e

temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do

casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma

esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú

algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a

tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos

innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que

tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de

Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira

crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o

principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora,

viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a

quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os

de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de

terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza

sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do

verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas

delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo

vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental

proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua

conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos

de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos

esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas

e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr

aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar

estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso

juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento

d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e

mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que

se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles

viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo

pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e

juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida,

filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum

d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta

esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente

que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes

mais chegados».

Depois da profissão da _Excellente Senhora_--tratamento dado a D. Joanna

tanto que vestiu o habito de clarista--D. Affonso V quiz abdicar e

recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a

morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de

1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde

se ouvira o seu primeiro vagido.

A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a

sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos

de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.

Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com

Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou,

rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro

lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um

momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com

nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe,

preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com

sessenta annos de edade.

Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a

quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E,

como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá

desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas

da pobre princeza.

Malfadada condição a sua!

Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e

ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da

peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a

reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro

quartel do seculo VIII pela batalha de Guadalete.

Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era

patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de

que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a

estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.

O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as

leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a

macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.

Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de

Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade

hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos

elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.

Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o

poder da realeza.

Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV · 第 13 / 32 题