_PESQUIZAS_
Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II
para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de
Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos
serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do
novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.
Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros
particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade
contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes
qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade
e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de
contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de
armas em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor,
cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu
sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
_vassallos d'el-rei_, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas
em Evora a 12 de setembro de 1481.
Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da
sua guarda.
Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em
Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava
grande prazer de achar-se rodeado de cortezãos dotados de boas prendas,
e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença
das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da
rainha D. Leonor.
Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de
vêr dançar com primor a _retorta mourisca_ pelas damas trajando ao uso
arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro
emfim a lembrar os desafios poeticos, as _côrtes de amôr_, o _jogo dos
naipes_, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante,
de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.
Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha
educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do
real _jardim de formosura_, como depois Gil Vicente chamou ao
estrado das damas de D. Leonor.
Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em
verso. Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros,
torturando assim os apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de
desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem
repellidos. Não logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas
casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva, tão reservada,
quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade; em
aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na
linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo
reprezenta o _Cancioneiro Geral_, de Garcia de Rezende.
Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:
--Amo-vos!...
Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude
articular uma palavra.
Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse
comsigo mesma:
--Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas
traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a
sua galanteria por elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...
Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava
desculpa alguma para o seu silencio. Até pelo seu espirito passou o
receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de
que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é
sempre facil de responder.
Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas
retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que
elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração,
cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é
que salta a faisca sagrada.
Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não
fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se
comprehenderem. Os olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o
sentirmos, todos os segredos, que lá guardamos.
Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal
soube a novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando
elle surgiu, disse-lhe:
--Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura
tivesseis... Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da
rainha, minha Senhora?...
--Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me
tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o
levasse a bem...--respondeu Pero da Covilhan, ainda mal refeito do
sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que
para o tranquillizar lhe affirmou:
--Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha
real ama...
--Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
supplicando.
--Porquê?!...--perguntou Thereza meio admirada.
--Porque não vos mereço ainda...
--Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...
--Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que
espereis...
--Esperarei.
--Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre,
virei offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha
felicidade... Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...
--Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia
D. João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde
provêem os melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se
fizeram as casas de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina
Sidonia, e tantas outras...
--Assim é; mas...
--Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo...
Não tendes a nobreza por herança e patrimonio? Haveis de merece-la
e ganha-la!... É crença minha.
--Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso
peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...
--Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos
avós envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de
que não é nas raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo...
Ora dizei-me!... Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos
escudeiros sabemos todos, que muitos lá ficaram...
--Morreram no seu posto...
--Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume
foi sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo
dos nobres... Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que
sobreviveram!... A vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não
vo'-lo provou já, enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á
Barberia, a fazer pazes com o rei de Tremecem?...
--Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não
mereço... Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao
lado de sua alteza ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos
discorrer d'ess'arte!... Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me
sinto orgulhoso de vos amar!...
--E eu de ser por vós amada!...
--Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha
de elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...
--Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...
--Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós
sois já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...
--Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu
saiba corresponder ás vossas esperanças!
--Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe
de Deus, Thereza!...
--Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha,
minha Senhora. Adeus.
Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos,
apenas soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:
--Encantadora!...
E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração
virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos
primeiros raios do sol em alegre manhã de primavera. A sua alma
desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma
aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, invocava não sabia bem o
quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que geralmente o
interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos
servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o
coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das
suas riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os
seus galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma,
como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração,
como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois
thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna
ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua privação irreparavel.
A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para
o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados
com a sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e
moral do seu espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da
imaginação, nem lhe roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára.
Dando á imaginação o que justamente lhe pertencia, purificando-a e
dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia
forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um coração que soubesse
querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe deixassem trilhar
sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da honra.
Que mãe de familia com taes dotes!
Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua
paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como
quem prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo
passo encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico,
dizendo-lhe, que sem ella não pode haver vida de familia, como sem
templo não existe religião, que se avigóre.
Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua
pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós
como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar
consagrado pelas alegrias e pelos pezáres communs da familia.
Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza
promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e
risonha, velando tudo, tomando o maior quinhão nos dissabores do
trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforços, aconselhando-o,
inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por
isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais duras
inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma
reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas,
o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar
de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e
deliciava-se ao imagina-lo.
Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos,
desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os
primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento
deixou de ser uma paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma
virtude, que havia de eleva-lo.
O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma
aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João
II para premiar, tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam
as habituaes murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral,
occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e
aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar
trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e
noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.
Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria
de Pero da Covilhan.
Desinteressado amor!
A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a
burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e
da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama,
e segunda mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão.
Exultava por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia
para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada o
distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade
maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre
inflammado o coração.
Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer
a Maria Thereza:
--De novo passo á Barberia.
--Deus vos guie!--respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.--Comvosco
vae tambem o meu coração, que é vosso.
Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria
Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza
pelo apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente
eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da
saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.
D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava
insaciavel e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava
seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual
tivera por doação real a governança, quando principe ainda. Para ser
miudamente informado ácerca do que se passava n'esses lugares, enviou lá
Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com
Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a ossada de D.
Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva
da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque
de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem
Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com
particular interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto
tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais tarde rei.
Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.
Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já
outro encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a
realisação do plano politico de D. João II.
Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos
dos mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.
--Bem o fizestes--disse-lhe o rei--; e agora--muito secretamente--espéro
de vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor,
mui ditoso em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o
cansaço da viagem, de sair já de nossos reinos?
--Préstes estou, meu Senhor e rei--respondeu Pero da Covilhan.--Peza-me,
porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir
voss'alteza...
--Embóra, ireis, que Deus vos guardará.--A descobrir e saber do Preste
João, e onde se acham a canella e as outras especiarias, que das
terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um homem da casa de
Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui
fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia
entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais.
Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso
valor e discernimento muito mais confio...
--Mercê a voss'alteza, meu Senhor...
--O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da
Guiné podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se
tambem por lá, se a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.
--Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê,
por que beijo a mão de voss'alteza.
--Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que
vos dou para auxiliar-vos.
Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já
sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o
mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião
e á patria bons serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa
viagem, mas não resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de
amor:
--Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...
--A Virgem vos ouça!--exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e
radiante.--A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu
ficar-vos-hei esperando... de outro jámais serei!...
E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé
revigóra.
Nem um uma lagrima derramaram!
As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se
prova, com as que se deixam de chorar.
Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a
dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle,
porém, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta
ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas,
que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino,
com que mutuamente se queriam.
No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a
seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se
apresentou já com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa
de Pedro d'Alcaçova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o _Calçadilha_,
depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés,
os quaes tomavam com o primeiro parte na _junta dos cosmographos_.
N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do
Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.
Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das
despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes
Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a
fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma
carta de credito, dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para
que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim
portador de cartas em arabico para o Préste, nas quaes D. João II
significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle
relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela
costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras
era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem
communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.
E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.