IV

_JORNADA INFELIZ_

Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde

mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o

_Regimento de Guerra_, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham

de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a

hoste assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a

bandeira real mettida na funda.

Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475,

D. Affonso V

...................«tocado de ambição

E gloria de mandar amara e bella,

Sai cometter Fernando de Aragão,

Sobre o potente reino de Castella.»[4]

Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva,

Ruy Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram

a Piedra Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e

seiscentos cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V,

que tomou então o supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o

marechal, o ouvidor da hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos,

cavalleiros e capitães, a quem recommendou obediencia em tudo aos quatro

primeiros; verificou o numero da gente que havia, e deu as necessarias

providencias no tocante á ordenança, que as tropas deviam conservar

durante a marcha.

Na frente saíu o _adail-mór_ com um troço de ginetes, formando a guarda

avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do

arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da

vanguarda real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a,

o condestavel, cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava

as alas a fina flor da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a

rectaguarda não mediava mais de um tiro de bésta, a fim de poderem

mutuamente soccorrer-se.

Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na

vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa

dignidade estavam repartidas por D. João, marquez de Montemór, filho

do duque de Bragança D. Fernando I, e por seu irmão o duque de Guimarães.

A cavallaria compunha-se de _cavalleiros_ e _escudeiros_ de geração

nobre; de _lanças_, que os senhores de terras tinham obrigação de dar,

acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de

_cavalleiros_ da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a

contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes

sómente eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou

rezenha das praças, que constituiam os corpos chamados bésteria,

denominando-se _bésteiros do conto_ tanto os de cavallo, como os de pé.

Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou _á gineta_. Na primeira,

o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda, os

cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos

curtos no apparelho do cavallo.

A infanteria constava de _bésteiros_, _espingardeiros_ e _piqueiros de pé_.

Na bésteria differençavam-se os chamados de _polé_, por trazerem bésta,

que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os _bésteiros da camara_,

que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino; _bésteiros de

garrucha_, mais abastados e considerados, que os de polé, armados com

bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e solhas

para arremessar virotões; _bésteiros_ _de fraldilha_, por levarem

uma fralda de couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do

inimigo; e _bésteiros do monte_ ou caçadores.

Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais,

á medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi

acolhida, durante muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria,

que considerava cobardes similhantes armas, com especialidade as

portateis. No reinado de D. João II apparece já o cargo de _anadél-mór_

dos espingardeiros, concedido a Payo de Freitas, cavalleiro da casa

real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua vez de extinguir em 1498

os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da camara, todos os

cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando unicamente os

bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e Algarve,

com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como

consta da carta de 29 de maio de 1499.

A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a

quem pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os

alojamentos; executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do

condestavel; e julgar as causas civeis e crimes das gentes de guerra,

levando um ouvidor comsigo para esse fim.

O _alféres-mór_ levava a _signa_ ou _bandeira_, a qual não estendia ou

desenrolava sem especial determinação do rei, quando estivessem á

vista do inimigo, e costumava ter um _alferes pequeno_, que o

substituia. As bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e

estender-se, sem que o fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre

estendidos os balsões ou insignias. No guião do rei via-se a divisa que

Affonso V tomára por sua mulher D. Isabel, e consistia em um rodizio de

moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na legenda _Jámais_.

Com oito ou dez pendões pequenos era balizado e divisado o lugar

escolhido para acampar.

Havia um _aposentador-mór_, que de ante-mão preparava os quarteis das

tropas, quando estas se mobilisavam. O _capitão de ginetes_ era o

general de cavallaria; o _adail-mór_, o capitão dos bésteiros; e o

_coudel-mór_ commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam

a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por _coudeis_.

Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou

escudeiros, commandados por um _guarda-mór_. Eram escolhidos, e andavam

armados de cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz

assistiam no paço junto da real camara. Algumas vezes o soberano

encarregava tambem da sua guarda o capitão de ginetes, sendo então de

duzentos o numero de cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como

os da camara real.

Segundo prescrevia o _Regimento_, os soldados ou gente de guerra deviam

trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e

tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As

trombetas eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou

chamadas; mas affirma Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o

nosso exercito usou tambem dos atabales.

O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente

conduzido. Estava a cargo de um _védor-mór_, aprompta-lo e pô-lo em marcha.

Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um _regimento_

proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. Requisitava

ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que julgassse

indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem

como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que

houvesse necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava

conforme os seus merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de

gastadores, para abrir caminho.

O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui

regressou a Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o

norte, indo fazer alto em Plasencia.

D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de

D. Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar

o seu reconhecimento como rei de Castella, e, conforme os desejos do

rei de França, renovar os antigos tractados, que existiam entre as duas

monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de Salamanca uma carta

sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e Leão, e

mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem

fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de

Aragão.

Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava

acompanhada dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates,

e foi publica e solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de

intitular-se rei de Castella, Leão e Portugal.

Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis

de Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e

outros contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união

áquelle que mais afortunado fosse.

D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas

se formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das

diligencias de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o

favor de muitas povoações, visto serem mui versateis e caros os

magnates. Em quanto o seu antagonista se divertia, conquistava ella as

sympathias da classe burgueza. Percorria os seus estados. Procurava e

enviava soccorros ao exercito, que seu marido commandava, para

conter o progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de

Leão. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a

importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na

depravada e cupida aristocracia. Lançava finalmente mão do thezouro de

Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de Contrera, a quem mais

tarde brindou com o Marquezado de Moya.

Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de

Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro

estrategico; pois, segundo Zurita, «foi de grande remedio para a

conservação do estado do rei da Secilia, e seria de grande prejuizo, se

a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo

este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se fórte em

Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou

descontente por não ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar

do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim

procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a

maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os

corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e

determinou-o a propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua

mulher.

Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se a miude as

incursões de nossos visinhos. Até o primogenito do duque de Medina

Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais audacioso do que prudente, fez

uma entrada em Portugal, como se fosse em terras de mouros.

Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco

depois da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D.

Isabel, que lhe prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com

o marquez de Cadiz.

E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella

jornada de D. Juan de Guzman?

--O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um

espião.

Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o

principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz,

escoltados de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos

lugares suspeitos, para avisarem das partidas do inimigo; cortar as

estradas das serras com patrulhas, a fim de embaraçarem os castelhanos,

que de ordinario se emboscavam por entre os arvoredos e quebradas do

terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males, cuidando ao

mesmo tempo da conservação e defesa do reino.

Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para

premio de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de

Penamacor, saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a

quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou por

Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca

do movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era

chamado e levado para soccorrer.

O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia,

n'esta empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não

podemos denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos

afortunadas, de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha

campal, digna d'esse nome, e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.

Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no

perigo, em que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus

quarteis de inverno em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o

arcebispo de Toledo, o qual sempre inconsequente e inconstante, sendo

convidado por Isabel a auxilia-la com os seus homens de armas, respondeu

com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz: _que a tinha livrado

de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na roca_.

De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse

vê-lo, pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se

tinha posto a caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas

torres, que defendiam a ponte sobre o Douro, á entrada de Zamora, se

tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou matar D. João na

sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V a seu

filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do

qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da

guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio

a nado, para se furtar á vigilancia do inimigo.

Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o

poude conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se

permanecesse com a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais

temor, que confiança, os habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro,

onde tanto elle como a rainha foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.

Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario,

em quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu

empenho principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro,

tendo tomado á força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta

dos defensores d'ella, para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima

dos muros de Toro riram-se d'essa façanha, e cobriram de motejos o

auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas desafiar D.

Affonso V, que não tornou á requesta. Então Fernando foi sitiar o

castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia,

onde não havia esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu

de Toro em som de guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor.

Fez alto em frente da fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas

horas, retirava já para Toro, por lhe parecer que Fernando saía a

pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da cidade, aguardou-o no campo

outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida varias cartas, em que

blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até fugira. Tendo o

nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma carta de

Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta

denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma

costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.

Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso

V e D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a

rainha Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou,

allegando haver grande desigualdade no penhor.

D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que

já tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se

levantava; sendo certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes

condições, fazendo questão de igualdade das pessoas, era confessar que

não queria o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a sua

mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude

conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.

Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o

principe D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil

infantes e dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia

de engrossar o seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos

magnates, á medida que a sua causa se tornara cada vez mais duvidosa,

permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de Toledo.

Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio

portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no

coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.

A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista,

depois da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as

torres e conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas

não seria necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas

na difficuldade!

Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV · 第 12 / 32 题