_CONSPIRAÇÃO_
Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde
poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos
condensa-la, para melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.
Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de
Portugal D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu
á luz uma menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes
demonstrações de regosijo, pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso
Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel, irmã do rei, e padrinho,
por procuração, Luiz XI de França. Pouco depois, reunidas côrtes em
Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a recem-nascida, a que se
havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra o juramento.
Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de
pagem da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido
igualmente agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este
mui solicito no serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as
ordens do monarcha, de cujo favor e privança gozava com inveja e
despeito de muitos, que não queriam reconhecer-lhe meritos para tanto.
Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;--o
verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e
divertindo-se.
D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de
Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a
este, por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon,
que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.
Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do
rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.
O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e,
como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a
Saragoça tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.
No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de
Toledo e seus sequazes, para uma reunião secreta, que se realizou em
um valle proximo de Alcalá de Henares.
Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:
--É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.
--Não se me afigura empresa difficil...--acudio em tom pausado e sisudo
o arcebispo de Toledo.
--Convenho;--replicou Vilhena--mas ainda é numerosa a parcialidade do
rei, e tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...
--E a nós,--atalhou, recachando-se, o prelado toledano--embóra
inferiores na quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na
perseverança com que luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo
de Sevilha...
--Sim, esse...--condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja
execução de ninguem confiava.--Lembrai, pois, um plano, e contai com o
rei de Aragão.
--Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em
poucas palavras: invistamos contra a honra da rainha!
Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da
edade media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro,
do que para menear o cajado pacifico do apostolo.
O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu
interlocutor, e, occultando cautelosamente o assombro, que lhe
produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:
--Como?...
--Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la
Cueva--respondeo serenamente o arcebispo.
--E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis,
o facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde
explicar-se com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito.
Álem d'isso a todos é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha,
que, batendo com um chapim na sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a
ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, sem evitar, que a sua rival esteja
vivendo hoje tão entonada, por ser amante do rei, e dispensadora de
mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações perante tal mulher, a
conquista-las ás lançadas aos mouros...
--E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de
ninguem acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho
offendido. Álem de que o vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as
accusações feitas aos potentados, e até as avulta enormemente...
Accresce, que para o genero d'esta não ha defensa possivel, e, dado o
escandalo, já o monarcha se não attreve a mostrar-se em publico, sem
correr o risco de ser apupado...
--N'essas circumstancias deixará a infanta de ser a herdeira
presumptiva da corôa...--contestou pausadamente o marquez.
--Sem duvida!--atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no
marquez de Vilhena certo ar de indecisão.
--Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...
--Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter
começado!--exclamou o arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o
aspecto, de seu natural severo, accrescentou: e quem hade impedir-nos de
o realizar?...
--Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei
de Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo
nosso com a côrte aragoneza...
--É habil esse lance!...--ponderou o arcebispo--Comtudo não vos
esqueçais do arcebispo de Sevilha...
--Seguramente...
--Vejo, que nos comprehendemos...
--Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de
restaurar...
--O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e
apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...--concluio o arcebispo, sorrindo
ironicamente.
--É uma creança que substitue outra...--observou Vilhena.
--É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança, e D. Affonso hade
obedecer ás nossas inspirações...
Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores
não confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era
insolente e audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas
palacianas, fazia consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e
sabia-lhe melhor ganhar a victoria por meio de traças ardilosas, e
palavras melicas. Não pretendia álem d'isso desaggravos tão cruentos,
como o arcebispo; mas teve de concordar com elle, e com os outros
conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de uma corôa,
para a tornar ludibrio do mundo!
O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão
mostrando elles para gloria sua.
Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de
Aragão, assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece,
porém, ter-lhe servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar,
mais do que nunca a sua intimidade com o conde de Ledesma.
Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em
bocca o nome de _Beltraneja_, posto por elles á innocente infanta, e
perfida injuria disparada ao pundonor de sua mãe.
Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na
baixeza, de propalar em tamanha infamia aquelles, que se diziam
_grandes de Castella_!
Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por
saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo,
para lhe propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio
n'isto o timido monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O
marquez avisou do rescripto a sua victima, que passou logo para o bando
dos descontentes!
Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e
apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a
tentativa. Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi;
compraram a camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e
pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.
De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe
diziam, com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma
a fazer jurar por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem
o ser; pois que não era sua filha bem o sabiam elle e o conde!
O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os
perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e
accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago,
por que tanto suspirava o marquez de Vilhena.
Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma
vez que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu
turno, entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago,
não por se considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em
tudo servir D. Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.
Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo
ergueram em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um
cadafalso, sobre o qual collocaram uma cadeira, em que assentaram um
manequim, figurando D. Henrique de sceptro na mão e corôa na cabeça.
Leram muitas queixas contra o rei, e em seguida o arcebispo de Toledo
tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o sceptro; o conde de
Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de Benavente e o de
Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a pontapés,
do cadafalso abaixo o vulto desataviado!
O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe
beijaram a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.
Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!
Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria
abalado profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e
covardia de Henrique IV, que era o desespero dos bravos, a parte
sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os conjurados.
Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um
grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção
enthusiastica, feita á princeza D. Joanna em Saragoça.
Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas,
mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de
Toledo lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a
ponto de receber o sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu
testamenteiro, e pedir-lhe, que fosse patrono de seus filhos. Deixou
assim de arrogar-se, em seu entender, a responsabilidade de certos
actos, e preparou novas alicantinas.
O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das
muralhas da velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D.
Opas;--o que significava compara-lo com o typo mais repugnante dos
homens conhecidos por traidores.
Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos
negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que
se ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar,
que Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma
suspensão de armas por cinco mezes, dando azo a despedir-se das duas
parcialidades gente, que foi infestar as povoações, a ponto de provocar
a fundação das _Hermandades_, para perseguir os malfeitores.
Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente
comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de
potentados, cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.
O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã,
casasse com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D.
Beatriz Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando,
filho do rei de Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou
por se oppôr tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.
A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem
fazer esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.
O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e
senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real,
deixando de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de
Toledo, principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do
interdicto, dizendo, que appellariam para um concilio. E mandaram logo a
Paulo II uma embaixada, participando-lhe, que tinham acclamado o
infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em
vez de attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle
os castigos eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava
todas as classes á desobediencia.
D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os
conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou,
por não poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique
vivesse... Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em
competencia com D. Joanna, a quem chamou _supposta_ filha do monarcha.
Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua
irmã não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria
honra e a da rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os
interesses da innocente infanta, sua filha.
Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo
legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra
tudo quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque
havia recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe
impossivel desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.
Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido
para D. Isabel.
O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu
neto D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de
Vilhena oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para
olhar pelo engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto
antes o enlace d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda
mal apagadas umas discordias, surgiam logo outras.
Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a
corôa sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades,
buscavam em tudo elementos de perturbação, e a auctoridade real era
incessantemente um joguete em suas mãos.
Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de
previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada
d'isso, porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia
de um povo illustre uma pagina indecorosa.
O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma
nova campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os
grandes de Castella.
Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia,
afim de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio
arbitrio; e depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não
casaria, fosse com quem fosse, antes de elle regressar. A infanta,
porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e
intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei
de Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante
certas condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella
encarregára a negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do
principe as consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo
o matrimonio realisou-se. Correo logo que não estava valido, por se ter
celebrado sem a dispensa pontificia, tão reclamada pelo proximo
parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos, nem
difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á
verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o
breve indispensavel.
Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma
exposição, na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as
condições, em que se effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de
solicitar o perdão do seu rei, por haverem, sem seu beneplacito,
preparado e conseguido tão auspiciosa união. Ao mesmo tempo Isabel
dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em que lhe communicava a
sua mudança de estado.
Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!
O desforço de Henrique IV consistio em reunir um simulacro de côrtes
no valle de Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar
solemnemente, que era irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros
de Guisando, a infanta D. Isabel por herdeira do throno, em virtude de
concessão feita por elle monarcha, pois lhe fôra esta arrancada á força,
e offendia os direitos de sua legitima filha. Assistiram a essa
assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por procuração o
casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades, que
se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu
assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra,
que por meio de poderes especiaes havia empenhado.
Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D.
Affonso V, a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em
dote os reinos de Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais
receoso dos artificios de Vilhena do que das difficuldades do assumpto,
deo largas ao negocio, e Henrique IV entretanto tentou ainda procurar
para genro o infante D. Henrique de Aragão, filho de outro, que,
cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de Castella.
Começou o anno de 1474.
Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de
Cabrera, teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no
alcaçar com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural bonhomia,
recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para
apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto
IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que
desejasse, por isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o
irmão a ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao
marido uma prova publica de affecto, indo á missa com elles, e voltando
com grande comitiva ao alcaçar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado
almoço. O rei comeo com sua irmã e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se
tão mal, que foi mister leva-lo em braços para o palacio. Em quanto
esteve de cama não cessaram as deligencias, para que declarasse sua irmã
por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O marquez de
Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D.
Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a
sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo
contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia
um pêso, de que não podia alliviar-se.
Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que
falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois
mezes antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu
filho D. Diogo, que assistio com o cardeal Mendoza, o conde de
Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo, aos ultimos
momentos do rei em Madrid.
Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha
moribundo, perguntou a este o cardeal:
--V. A. deixa testamento?
--Deixo--respondeo Henrique IV.--O meu secretario Juan de Oviedo o
apresentará.
--E quem são os vossos testamenteiros?--continuou o cardeal.
--Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o
conde de Plasencia.
--E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?--insistio ainda Mendoza.
--A minha filha D. Joanna--replicou o monarcha serena e firmemente.
Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora
tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta
das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!
Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se
acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um
solemne _Te-Deum_, como se acabasse de alcançar o maior triumpho.
Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes
em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se junto
d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o
alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D.
Henrique.
Parece um sarcasmo!
Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a
successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a
legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de
que lançaram mão os rebeldes.
Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.
Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu
criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a
verdade, que é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem
a escreve.
O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido
desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a
nodoa, com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.
Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de
Castella; saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D.
Affonso V, que no conceito de Camões,
_Fôra por certo invicto cavalleiro,_
_Se não quizera ir ver a terra Iberica._