FERNANDES COSTA.

_ADVERTENCIA_

O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um

pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma

e pura, como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de

lodaçaes, d'essas miserias, que são a mais viva chaga social de todos os

tempos, o terrivel problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.

Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por

impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no

incidente da successão á corôa de Castella.

Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.

A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na

formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para

descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira

lamentavel em ambos os casos.

No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio,

houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios.

D'estes não cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca

estiveram, os meus dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido

eterno da palavra, antes de o serem no sentido historico.

--E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou

tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á

qual subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha

phantasia?

Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto

hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,

porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar as tintas modernas,

e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.

Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do

descobrimento do caminho maritimo da India.

_Zephyrino Brandão_

I

_DESPEDIDA_

O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam

por lá os nossos visinhos, que _não vio maravilha_.

Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem

crêr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do

Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e

em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades

modernas.

O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um

dia calmoso do estio.

Abrasa tanto calor!...

Em breve zombaremos d'elle.

Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os

de jardins e fontes, no intuito de refrescar as regiões ardentes, que

povoavam, e até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos

refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de

seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas,

poupar-nos-hemos a insolações.

Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa

planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.

Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com

elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas,

que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob

esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa

nomeada, não só por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam

os mares, senão por facilitar assim as relações commerciaes, e animar a

florescente industria fabril dos sevilhanos;--o que torna riquissima de

população e haveres a formosa metropole andaluza.

Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina

do Ouro.

Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a

estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se

vulgarmente a _grande_, como á de Toledo a _rica_, á de Salamanca a

_forte_ e á de Leão a _bella_.

Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de

rosa, que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores

dimensões com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito.

Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na

peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Géber, a

quem se attribuio, sem fundamento, a invenção da algebra.

--Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não

existe ainda o _Giraldillo_, e por isso a torre não é conhecida pelo

nome de _Giralda_.

Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo

com palacios realengos.

As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com

graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar

ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de

encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos por

tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a

reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.

O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha,

que não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão

que é patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama

patrioticamente:

«Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas

Para el Cielo crió tantos tesoros,

Cuantas el ancho mar esconde arenas,

Cuantas estrellas los celestes coros!»

Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem

algo peccadora...

A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que

abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos,

que põe ao seu serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias

ambições e prosapias.

Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças

centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes

fartos legados em seus testamentos.

Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha,

como tambem o tratam.

Entremos no seu palacio.

Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior

uma riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a

influencia exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde

considerar-se uma vivenda semi-oriental, como todas as do estylo

_mudejar_, a que pertence, para a construcção das quaes as duas artes,

christã e mahometana, se dão as mãos com tal engenho, que se harmonisam

perfeitamente os dois elementos de manifestações tão diversas.

--Como sabido anda, os arabes que ficaram com os christãos, depois de

certos tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas

leis, religião e costumes, chamavam-se _mudejares_, e nas edificações,

em que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que

os da sua raça haviam conquistado, especialmente da Persia.

Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o

estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das

quaes demoram as habitações.

A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes

d'ella recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus

desenhos primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento

acha-se coberto com uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No

tecto, o elemento decorativo predominante são estalactites e laçarias,

tudo realçado com applicação de côres e douraduras.

Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa

imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás

suas tradições gloriosas.

Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e

estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia.

Uma riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés

d'esta cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum

extrangeiro de distincção, que o visita, e a quem elle offerece esse

lugar de honra.

Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,

representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos,

batalhas, torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos,

imitando persas, guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de

mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e pintados, com imitações mais

ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos, alcatifados.

Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua

escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da

pintura sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes

fundára a sua escola. As paredes e tectos da ante-camara, armados e

toldados de riquissimos lambeis. Os móveis, de páu-santo, primorosamente

entalhados e forrados de brocado e ouro.

Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero

manda executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a

perfeita intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma

credencia com tres compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim

e rendas de Flandres, repousam varios objectos de uso senhoril, uns de

ouro, outros de prata e crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano,

coberto com um bancal de velludo, tendo ao meio bordadas as armas da

duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados

de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e

castiçaes de ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas

proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de

onyx exhalam a sua fragancia suavissima.

As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes,

despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas,

adargas, onde se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em

fórma de meia lua, espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.

Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem

completamente as estreitas portas de alerse.

O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar

coroado por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla,

titulo da familia Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas

cadeiras ainda, lavradas com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e

umas e outras com escabellos fixos ou moveis; almofadas de seda,

sobrepostas duas a duas, e servindo de assento na sala de recepção da

duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, bancos longos e de

espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de thezoura,

bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros

dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de escrever,

todas de madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze;

relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro.

Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias orientaes, que lhe

dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus bordados

caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de

um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre

que se vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas,

outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.

Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D.

Juan de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.

Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as

dez donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão

um rosario e um livro de missa.

Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.

Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com

que na volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.

Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas

moças da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por

aquella pequena côrte.

Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de

suas donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de

cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores,

passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se

aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.

Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora.

Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos

muitos, que tão justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de _mãe

dos pobres_.

E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo

principal do palacio.

É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,

decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de

ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de

columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é

ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro

de um tanque largo que a circumda; e os canteiros são separados uns dos

outros por lousas de marmore branco.

Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza.

O sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um

grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim,

perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:

--Estais a despedir-vos das flores, Perico?...

--Quem sabe, se tornarei a vê-las!...--respondeo o pagem com

pronunciado acento de tristeza.

--Pois porque não haveis de voltar?...

--Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...

--Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir

atormentando com presagios pelo caminho...

As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua

companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta

pergunta á sua interlocutora:

--Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo,

na certeza de que ficaria bem guardado?

--De mim!--exclamam todas a um tempo.

--Como elle não póde repartir-se,--ponderou o pagem--entrega-lo-hia a

Beatriz.

--Sois mui gentil, Perico!--tornou esta. Graças pela preferencia...

--Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...

--Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...

--Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora

ao som d'elle:

_Con dos cuidados guerreo_

_que me dan pena y sospiro;_

_el uno quando no os veo,_

_el otro quando vos miro._[1]

--Bellissimo, Perico!...--bradaram as donzellas com viva demonstração de

alegria.

--Que gracioso sois!--accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque

esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do

corpulento alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?

--Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...--observou o pagem.

--Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos

jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o

arcipreste descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual,

quando regressardes, recitai-os, Perico!...

--Careceis dos nossos rogos?...--atalharam as outras donzellas.

Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de

Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso

são poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques,

marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se

no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á

côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia perdido completamente o

favor popular o romance brioso e sentido.

Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados

na lingua arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas.

Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os

romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de Hespanha,

anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella côrte

sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de

Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos

é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes

esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a

espada na mão do cavalleiro.»

N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a

familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.

Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de

gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam

chispas de luz e de graça, e exclama:

--Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...

Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao

animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da

galeria inferior.

O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em

virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram

tambem logo da galeria.

Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de

olhar scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu

orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem

feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora

narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A

famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar

ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos

Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos

estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.

São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão,

que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena,

recebida momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte

com dois mil cavallos».

Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do

palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de

Portugal D. Juan de Guzman.

Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o

qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto

pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos

mais disértos trovadores da sua côrte.

Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente

ajaezadas e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns

romeiros, encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha

ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam

alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui

passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar

os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.

As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a

ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não

logravam distinguir um só d'elles.

--Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?...

Talvez. Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar

esse desejo.

--E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de

Beatriz?... Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?...

Ou a lembrança de entrar no seu paiz, que, desde muito creança não

tornára a vêr, e em cuja côrte teria ensejo de exhibir as singulares

prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias

de Sevilha?...

Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas,

feitas com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.

Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes,

dos costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da

Andaluzia, não auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se

apresenta.

--Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os

gabos de experimentados escudeiros?

--É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro

que monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus

ditos joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.

Ditosa mocidade!...

Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a

exercer o galante ministerio de _juiza_ em alguma _côrte de amor_.

E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som

da sanfona:

«Rosa fresca, rosa fresca,

tan garrida y con amor;

quando vos tuve em mis braços,

no vos supe servir, no,

y agora que os serviria

no vos puedo aver no.[2]

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Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV · 第 9 / 32 题