_ADVERTENCIA_
O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um
pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma
e pura, como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de
lodaçaes, d'essas miserias, que são a mais viva chaga social de todos os
tempos, o terrivel problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.
Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por
impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no
incidente da successão á corôa de Castella.
Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.
A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na
formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para
descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira
lamentavel em ambos os casos.
No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio,
houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios.
D'estes não cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca
estiveram, os meus dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido
eterno da palavra, antes de o serem no sentido historico.
--E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou
tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á
qual subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha
phantasia?
Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto
hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,
porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar as tintas modernas,
e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.
Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do
descobrimento do caminho maritimo da India.
_Zephyrino Brandão_
I
_DESPEDIDA_
O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam
por lá os nossos visinhos, que _não vio maravilha_.
Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem
crêr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do
Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e
em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades
modernas.
O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um
dia calmoso do estio.
Abrasa tanto calor!...
Em breve zombaremos d'elle.
Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os
de jardins e fontes, no intuito de refrescar as regiões ardentes, que
povoavam, e até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos
refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de
seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas,
poupar-nos-hemos a insolações.
Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa
planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.
Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com
elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas,
que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob
esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa
nomeada, não só por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam
os mares, senão por facilitar assim as relações commerciaes, e animar a
florescente industria fabril dos sevilhanos;--o que torna riquissima de
população e haveres a formosa metropole andaluza.
Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina
do Ouro.
Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a
estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se
vulgarmente a _grande_, como á de Toledo a _rica_, á de Salamanca a
_forte_ e á de Leão a _bella_.
Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de
rosa, que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores
dimensões com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito.
Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na
peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Géber, a
quem se attribuio, sem fundamento, a invenção da algebra.
--Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não
existe ainda o _Giraldillo_, e por isso a torre não é conhecida pelo
nome de _Giralda_.
Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo
com palacios realengos.
As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com
graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar
ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de
encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos por
tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a
reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.
O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha,
que não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão
que é patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama
patrioticamente:
«Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas
Para el Cielo crió tantos tesoros,
Cuantas el ancho mar esconde arenas,
Cuantas estrellas los celestes coros!»
Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem
algo peccadora...
A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que
abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos,
que põe ao seu serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias
ambições e prosapias.
Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças
centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes
fartos legados em seus testamentos.
Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha,
como tambem o tratam.
Entremos no seu palacio.
Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior
uma riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a
influencia exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde
considerar-se uma vivenda semi-oriental, como todas as do estylo
_mudejar_, a que pertence, para a construcção das quaes as duas artes,
christã e mahometana, se dão as mãos com tal engenho, que se harmonisam
perfeitamente os dois elementos de manifestações tão diversas.
--Como sabido anda, os arabes que ficaram com os christãos, depois de
certos tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas
leis, religião e costumes, chamavam-se _mudejares_, e nas edificações,
em que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que
os da sua raça haviam conquistado, especialmente da Persia.
Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o
estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das
quaes demoram as habitações.
A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes
d'ella recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus
desenhos primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento
acha-se coberto com uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No
tecto, o elemento decorativo predominante são estalactites e laçarias,
tudo realçado com applicação de côres e douraduras.
Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa
imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás
suas tradições gloriosas.
Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e
estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia.
Uma riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés
d'esta cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum
extrangeiro de distincção, que o visita, e a quem elle offerece esse
lugar de honra.
Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,
representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos,
batalhas, torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos,
imitando persas, guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de
mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e pintados, com imitações mais
ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos, alcatifados.
Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua
escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da
pintura sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes
fundára a sua escola. As paredes e tectos da ante-camara, armados e
toldados de riquissimos lambeis. Os móveis, de páu-santo, primorosamente
entalhados e forrados de brocado e ouro.
Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero
manda executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a
perfeita intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma
credencia com tres compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim
e rendas de Flandres, repousam varios objectos de uso senhoril, uns de
ouro, outros de prata e crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano,
coberto com um bancal de velludo, tendo ao meio bordadas as armas da
duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados
de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e
castiçaes de ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas
proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de
onyx exhalam a sua fragancia suavissima.
As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes,
despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas,
adargas, onde se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em
fórma de meia lua, espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.
Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem
completamente as estreitas portas de alerse.
O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar
coroado por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla,
titulo da familia Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas
cadeiras ainda, lavradas com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e
umas e outras com escabellos fixos ou moveis; almofadas de seda,
sobrepostas duas a duas, e servindo de assento na sala de recepção da
duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, bancos longos e de
espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de thezoura,
bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de escrever,
todas de madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze;
relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro.
Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias orientaes, que lhe
dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus bordados
caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de
um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre
que se vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas,
outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.
Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D.
Juan de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.
Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as
dez donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão
um rosario e um livro de missa.
Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.
Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com
que na volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.
Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas
moças da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por
aquella pequena côrte.
Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de
suas donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de
cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores,
passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se
aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.
Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora.
Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos
muitos, que tão justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de _mãe
dos pobres_.
E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo
principal do palacio.
É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de
ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de
columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é
ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro
de um tanque largo que a circumda; e os canteiros são separados uns dos
outros por lousas de marmore branco.
Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza.
O sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um
grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim,
perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:
--Estais a despedir-vos das flores, Perico?...
--Quem sabe, se tornarei a vê-las!...--respondeo o pagem com
pronunciado acento de tristeza.
--Pois porque não haveis de voltar?...
--Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...
--Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir
atormentando com presagios pelo caminho...
As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua
companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta
pergunta á sua interlocutora:
--Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo,
na certeza de que ficaria bem guardado?
--De mim!--exclamam todas a um tempo.
--Como elle não póde repartir-se,--ponderou o pagem--entrega-lo-hia a
Beatriz.
--Sois mui gentil, Perico!--tornou esta. Graças pela preferencia...
--Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...
--Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...
--Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora
ao som d'elle:
_Con dos cuidados guerreo_
_que me dan pena y sospiro;_
_el uno quando no os veo,_
_el otro quando vos miro._[1]
--Bellissimo, Perico!...--bradaram as donzellas com viva demonstração de
alegria.
--Que gracioso sois!--accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque
esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do
corpulento alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?
--Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...--observou o pagem.
--Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o
arcipreste descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual,
quando regressardes, recitai-os, Perico!...
--Careceis dos nossos rogos?...--atalharam as outras donzellas.
Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de
Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso
são poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques,
marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se
no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á
côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia perdido completamente o
favor popular o romance brioso e sentido.
Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados
na lingua arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas.
Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os
romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de Hespanha,
anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella côrte
sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de
Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos
é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes
esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a
espada na mão do cavalleiro.»
N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a
familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.
Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de
gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam
chispas de luz e de graça, e exclama:
--Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...
Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao
animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da
galeria inferior.
O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em
virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram
tambem logo da galeria.
Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de
olhar scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu
orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem
feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora
narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A
famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar
ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos
Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos
estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.
São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão,
que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena,
recebida momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte
com dois mil cavallos».
Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do
palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de
Portugal D. Juan de Guzman.
Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o
qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto
pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos
mais disértos trovadores da sua côrte.
Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente
ajaezadas e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns
romeiros, encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha
ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam
alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui
passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar
os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.
As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a
ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não
logravam distinguir um só d'elles.
--Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?...
Talvez. Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar
esse desejo.
--E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de
Beatriz?... Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?...
Ou a lembrança de entrar no seu paiz, que, desde muito creança não
tornára a vêr, e em cuja côrte teria ensejo de exhibir as singulares
prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias
de Sevilha?...
Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas,
feitas com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.
Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes,
dos costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da
Andaluzia, não auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se
apresenta.
--Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os
gabos de experimentados escudeiros?
--É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro
que monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus
ditos joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.
Ditosa mocidade!...
Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a
exercer o galante ministerio de _juiza_ em alguma _côrte de amor_.
E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som
da sanfona:
«Rosa fresca, rosa fresca,
tan garrida y con amor;
quando vos tuve em mis braços,
no vos supe servir, no,
y agora que os serviria
no vos puedo aver no.[2]
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