E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amôr, Ronquerolle

atravez a sala do theatro enviava toda a sua alma á incomparavel Carlota.

Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares,

transmitia-lhe tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as

varetas do seu lindo leque beijos discretos.

Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de

orchestra interrogarem-se.

--Quem é, diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo

camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa

estrella de diamantes?

--É a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor

informado. É na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris.

Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!...

Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade,

belleza e espirito.

Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua

deliciosa amante.

Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos

ouvidos essa palavra tão doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir:

--Amo-te! Amo-te!

Invejava e tinha ciumes de todos os que visitavam o camarote da

marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das flôres e dos canticos

que enchiam o theatro.

As convenções sociaes não permittiam que aquelles dois amantes se

apaixonassem, que fallassem em publico. Não podiam trocar palavras senão

na intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha

organisado com uma arte consummada.

Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privações

e mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam

menos, por não poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as

mesmas emoções, os mesmos prazeres.

Uma noite, na Opera, Ronquerolle não poude conter-se. M.me de la

Tournelle estava só. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro

do pequeno salão interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da

sala, chamou a attenção da amante.

Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa:

--Que imprudencia!

E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente.

Apertou-a um momento nos seus braços e depois retirou-se com a alma

embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse.

Esta rapida scena não teve testemunhas, comtudo M.me William, a aranha

ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza

estando só, tinha-se affastado por alguns minutos da frente do

camarote.

--Por acaso o amante da marqueza não pertencerá á sua sociedade? disse

comsigo a perfida observadora. É um enygma então, e como decifral-o?

M.me William havia já começado a sua sombria tarefa de espionagem.

Sabia já o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o

palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a

perplexa. Não podera ainda achar um facto preciso, que podesse

collocal-a n'uma pista que devesse seguir.

Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraçado dos agentes lançados nas

suas piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu

partido uma noticia nos seguintes termos: «O deputado de Saint-Martin

interpellará proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da

perfeitura da policia. Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes

infamias dos agentes secretos. O sr. Ronquerolle apresentará factos, não

baterá ao acaso. Desejamos que o ministro seja d'esta vez, um pouco mais

feliz do que na sua ultima derrota.»

O ministro havia comprehendido a intenção e a ordem fôra revogada, ou

fôra suspensa por algum tempo a observação secreta de que Ronquerolle

era alvo. Este não poude deixar de sorrir-se da covardia dos seus

adversarios.

Comprehendia agora que ignobil procedimento se acoberta sob as

apparencias de legitima defeza politica.

Quanto mais penetrava no exame dos actos e dos homens do poder,

maior numero de ignominias encontrava.

A colera invadia-o e teria querido desmascarar os homens que se fingiam

honestos e dignos.

--De que valem os discursos contra a villanagem? dizia elle. Não são

phrases que é preciso lançar-lhes ao rosto, o que é preciso é

cuspir-lhes na cara.

M.me William reconheceu a necessidade de realizar uma larga entrevista

com o barão de Quérelles.

N'essa entrevista contou-lhe elle a historia da ultima eleição de

deputados em Saint-Martin, a queda do marquez e o triumpho de

Ronquerolle, o candidato republicano, e a parte que elle proprio tomára

nos acontecimentos.

--Não faço ideia, interrompeu M.me William, como seja o aspecto d'esse

tal sr. Ronquerolle, de quem tanto se fala na Camara e cá fóra, e que

derrotou com tanta felicidade o pobre de la Tournelle?

--É um homem alto e delgado, disse o barão, e elegante como um principe.

Mas porque me faz essa pergunta?

--Simples curiosidade de mulher! exclamou a descarada ingleza tomando

uma attitude de denguice.

M.me William viu depois muitas vezes a Ronquerolle, na Camara dos

deputados.

Occupava logar n'uma tribuna não distanciada d'aquella onde M.me de la

Tournelle tinha por costume assistir aos debates parlamentares,

deliciando-se com a vista do amante.

A esperta ingleza reparou em que a loura Carlota não desviava os

olhos do joven deputado.

--Seria interessante, pensou ella. Aqui ha mysterio! Decididamente

senhora marqueza é necessario que eu vos faça seguir durante os vossos

passeios atravez a cidade de Paris!

As entrevistas de Ronquerolle com a sua formosa amante, realizavam-se

alternadamente em tres logares differentes, em tres bairros affastados

uns dos outros.

Era assim mais difficil surprehender os dois amantes nos locaes das suas

reuniões.

Além d'isso a marqueza mudava de carruagem cada vez que ia juntar-se a

Ronquerolle, de fórma a estabelecer a duvida na espionagem de que

podesse ser alvo.

Ella bem sabia que por uma moeda de vinte francos é facil fazer falar os

creados e os cocheiros.

Assim nem mesmo estes podiam ter a mais leve suspeita.

Esses agradaveis encontros tinham sido organisados pelo intelligente

deputado republicano com especial habilidade, uns dias realizavam-se de

manhã e d'outras vezes á tarde ou á noite.

M.me de la Tournelle poderia mesmo passar a noite inteira fóra de seu

palacete sem se comprometter.

Paris tem essa immensa vantagem sobre a provincia.

Em geral as pessoas que vivem na grande cidade não se occupam dos visinhos.

Nas casas habitadas por pessoas de alta posição só se exige uma

qualidade aos locatarios, e essa qualidade consiste em não fazer

ruido nas escadas.

O socego e algumas peças de cinco francos lançadas de tempos a tempos

nas mãos dos porteiros auxiliam efficazmente os amôres illicitos nos

ninhos dourados, impenetraveis. Accresce que certas casas e certos

predios teem duas entradas, e portanto duas sahidas.

Este systema aperfeiçoado permitte ás pessoas que teem motivos para se

envolverem em mysterios o rirem-se nas bochechas d'aquelles, que pelo

contrario, teem todo o interesse em conhecerem os nomes e as caras das

pessôas que se occultam nas mysteriosas habitações.

Ronquerolle era bastante parisiense, pelo espirito e pelos habitos para

n'aquelle jogo de amôr obter todos os trumphos.

De resto, a intelligencia que qualquer recebeu da mãe commum, a

natureza, serve-nos de auxiliar poderoso em todos os lances da vida.

Que prodigios de imaginação não teriam os amantes, para se vêrem a miudo.

Ronquerolle por si nada tinha a recear, era livre como o ar; mas

preoccupava-se com o salvaguardar a honra da sua amante, uma mulher

casada, pertencendo a um mundo de apparato, de vista, e que teria tudo a

perdêr, se o segredo da sua ligação viesse a ser desvendado.

O marquez de la Tournelle não tinha a menor suspeita sobre a virtude e a

fidelidade de sua esposa. Era-lhe submisso como um cão ao dono e nem

sequer discutia os seus menores caprichos.

Sentia e sabia que ella lhe era superior, e amava-a com uma especie de

devoção, como se ama e se venera uma divindade.

Depois do chéque eleitoral soffrido, elle considerava-se perdido aos

olhos da marqueza, porque não seguira os seus conselhos.

Tremia deante d'ella e nem tentava explicar a si proprio as causas da

frieza que sua mulher lhe testemunhava.

Por caricia unica, depois que Ronquerolle triumphára, M.me de Tournelle

apenas permittia ao marido que a beijasse na testa.

Uma noite, pelas 11 horas, o infortunado marquez veiu bater á porta do

quarto de sua mulher.

--Sois vós, Sergio? perguntou ella com voz irritada.

E como elle lhe respondesse affirmativamente:

--Tende paciencia, mas não vos posso attender. Voltae para os vossos

aposentos. Estou fazendo a minha toilette para ir ao baile a Saint-Germain.

Effectivamente estava vestindo uma elegantissima «toilette» depois de se

ter perfumado dos pés á cabeça.

Ronquerolle esperava-a n'essa noite n'um dos seus ninhos de amôr; mas

para salvar as apparencias a marqueza foi effectivamente a um baile em

Saint-Germain, d'onde rapidamente sahiu sem os outros convivas darem por

isso, para ir cahir nos braços do seu adorado, do seu querido Ronquerolle.

--Fui eu que errei, dizia Sergio de la Tournelle dirigindo-se para

os seus aposentos.

Devia ter escutado os seus conselhos e obedecêr-lhe escrupulosamente...

Oh! A politica! Infernal politica! Para que me lancei eu n'essa odiosa

engrenagem?

Carlota! Carlota!

Se tu soubesses como eu te amo!

Morreria por ti se m'o ordenasses!

E o desgraçado desesperava-se suppondo que havia perdido a estima de sua

esposa apenas por uma serie de fraquezas suas, e acreditando, o que era

verdade, que jámais a podia reconquistar.

O pobre marquez devorava a sós o seu profundo desgosto, porque as suas

dôres eram d'aquellas que não se confiam a pessoa alguma, nem mesmo a um

amigo intimo.

N'essa noite o marquez de la Tournelle não dormiu.

Ouviu dar todas as horas até ás quatro da madrugada.

A essa hora a marqueza entrava em casa.

Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a

porta da rua, a carruagem entrára no pateo, depois a porta envidraçada

da escadaria abrira-se para dar passagem á encantadora Carlota, e depois

tudo voltára á tranquilidade e ao silencio.

--E dizer que minha mulher está aqui perto de mim, exclamava elle, que

acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como

uma Venus, e que eu não ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse

ella me acolheria com um sorriso de piedade!

E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se

estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza,

mordia as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril.

No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppôr toda a

importancia da sua desgraça.

A marqueza, como é sabido, vinha não só do baile como d'um delicioso

«rendez-vous» de amôr.

Fatigada dos abraços estonteantes de Ronquerolle, despia-se

vagarosamente, lançando o seu vestido de baile, levemente amachucado,

sobre uma poltrona.

Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso

republicano.

E adormeceu feliz recordando as phrases de amôr, o delirio do olhar

apaixonado de Ronquerolle; e jurando não amar no mundo mais ninguem

senão a elle.

IX

_Drama sangrento_

M.me William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem, não

podia penetrar nos segredos da vida privada da bella Carlota.

Dispunha-se ella a organisar uma espionagem especial e astuciosa, quando

uma manhã recebeu um aviso muito secco, pelo qual era convidada a

apresentar-se das 8 ás 10 horas na repartição do sr. prefeito da policia.

Desconcertou-se, e estremeceu, á vista d'esse papel impresso e com o

timbre da Prefeitura.

No emtanto resolveu não se preoccupar com essa nota inesperada e logo

que chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu

gabinete, conforme o aviso que lhe enviara, M.me William tomou um trem

e fez-se conduzir para a Prefeitura.

Apezar da sua ousadia e da sua depravação não se sentia muito tranquilla

ao subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na

consciencia uma serie de acções más, que suppunha terem sido

descobertas, e achava singular que a policia viesse metter o nariz nos

seus negocios.

Esperou uma bôa meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas

personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como

ella, chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda.

Por fim um empregado chamou em voz alta: «Madame William»! Esta

ergueu-se rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete,

e passou a um gabinete onde esperou apenas um instante.

Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella não

havia reparado.

--Meu caro senhor, exclamou logo ella, é extraordinario! Ha sem

duvida um engano, um lamentavel equivoco. Não comprehendo que a policia

me faça comparecer aqui, obrigando-me a...

E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentações, quando o

individuo que se achava na sua presença, grave como uma sentença de

morte, lhe fez signal para se sentar, sem dar a menor attenção ás suas

palavras.

--Vós sois madame William, disse elle; madame William do «boulevard»

Malesherbes; não é assim?

--Effectivamente, respondeu a criminosa mulher.

--Está bem, accrescentou o empregado da policia, mantendo a sua linha de

serenidade e firmeza, tenho ordem de vos participar que se continuardes

a fazer por mais tempo concorrencia á Prefeitura de policia,

vêr-nos-hêmos obrigados a reconduzir-vos á fronteira.

M.me William quiz ainda balbuciar algumas explicações, e tentou ainda

enternecer o empregado, que falava em nome do prefeito da policia. Mas

foi trabalho perdido. O homem não se desmanchou e disse-lhe ainda:

--Madame, sabemos tudo. Não viestes aqui para fazer phrases

sentimentaes, mas para receber uma advertencia. Essa advertencia já

vol-a dei. Fazei por não a esquecerdes.

E, como M.me William se erguesse, o homem accrescentou ainda, pondo a

mão sobre um masso de papeis.

--Madame, estão aqui documentos que vos dizem respeito. Como vêdes

o masso é bastante volumoso. Devo prevenir-vos de que estaes sob a

vigilancia da nossa policia e que ella vale bem mais de que a vossa.

M.me William regressou á sua habitação fortemente impressionada com o

que se passára.

Não se entendia já dentro dos acontecimentos.

Teve um verdadeiro ataque de nervos e n'esse mesmo dia escreveu ao barão

de Quérelles, pedindo-lhe para ir vêl-a sem demora.

A criminosa via bem que a Prefeitura de policia estava ao corrente das

suas pequenas intrigas, mas não soube explicar como tinham esperado

tanto tempo para a advertirem de que tivesse cuidado nos seus

«negocios». Havia annos que ella intrigava a sociedade parisiense, e

sempre a tinham deixado «trabalhar» á vontade. Mas apenas dirigira as

suas baterias contra M.me de la Tournelle logo a policia intervinha no

caso. Realmente a maldita Prefeitura queria tirar-lhe o pão da bocca.

Afinal, pensava M.me William, aquelle trabalho a que ella se entregava

era como outro qualquer; era um meio de ganhar a vida «honestamente».

O que se tinha passado, perguntará o leitor, para que a policia se

intromettesse no assumpto? Uma coisa muito simples. Ronquerolle, que

velava sobre a sua amante, como uma mãe vela pelo seu filho, havia tido

a suspeita de que a marqueza estava ameaçada d'um grande perigo; e

redobrando de vigilancia, havia sabido da existencia de M.me William.

Entretanto prevenira o prefeito da policia, e como este receava os

ataques na Camara, do joven deputado, déra immediatamente as ordens mais

severas relativamente á aranha ingleza tão compromettedôra.

E foi assim que M.me de la Tournelle, sem o saber, foi desembaraçada

d'uma infame espionagem que poderia ter trazido as mais deploraveis

consequencias.

O marquez, porém, começava a sentir algumas suspeitas. Era tão

desdenhosamente tratado por sua esposa de cada vez que tentava a sua

intimidade, que acabou por perguntar a si proprio se a politica seria a

causa unica da repulsão que a marqueza por elle demonstrava. E nunca a

bella Carlota fôra mais attrahente e digna de ser adorada.

Vestia toileites encantadoras, estonteantes; apparecia nos bailes mais

aristocraticos de Saint-Germain, não faltava ás sextas-feiras da Opera,

nem a uma unica quinta-feira de Comedie; e viam-n'a em todas as

interessantes sessões parlamentares.

Passeava tambem no Bois, nos dias e nas horas em que as grandes

elegantes da vida parisiense vêem ali apresentar os seus maravilhosos

encantos e as suas deliciosas frivolidades.

Nas secções mundanas dos jornaes, falava-se da marqueza de la Tournelle

nos termos os mais elogiosos; era ali citada como uma das rainhas do bom

tom e da verdadeira elegancia, e dava-se-lhe o estandarte da

belleza no batalhão das formosas louras.

A sua amiga, M.me de Fleurus, era rainha na côrte das morenas.

Esta possuia um particular encanto, que constava de bem pouco, mas que

muitas mulheres desejariam possuir.

M.me de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado, por um

adoravel e quasi imperceptivel buçosinho.

--É este o privilegio de nós outras as morenas, dizia ella algumas vezes

sorrindo, para M.me de la Tournelle. E devemos tirar todo o partido

possivel do que a natureza nos concedeu.

Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia

constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade

parisiense. Ella bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo

os mais fortes e os mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir

falar nos encantos, na elegancia, e na belleza da mulher a quem amam.

Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade.

Não era só a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era

tambem, o seu orgulho.

Quando percorria com a vista as secções elegantes do «Figaro» ou do

«Gaulois», onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a

abraçar o mundo inteiro, e teria querido conhecer os «reporters» que

haviam redigido essas noticias tão simples, mas para elle tão

encantadoras, afim de lhes offerecer opiparos jantares na «Maison

d'Or», em que o Champagne corresse a rôdo.

Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se

falava de sua mulher como d'uma maravilha de graça e de seducção.

Esses elogios despertavam n'elle a paixão d'outros tempos. E tornava-se

a sua paixão mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria

esposa, como se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos

olhos sonhos voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel

intensidade o tão falado supplicio de Tantalo. O divino licôr

mostrava-se deante dos seus labios febris, mas o marquez não podia

mitigar a sêde que o devorava. E não tentava sequer aproximar o calice

que brilhava como faiscas de diamantes.

Soffria em silencio, e a sua dôr accumulava-se, como a agua d'uma

corrente que cae no fundo d'um precipicio.

Se elle fôra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral

que quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la

Tournelle teria falado a sua mulher n'um tom que não permittiria a

replica, e teria arrombado sem difficuldade a porta do quarto de dormir

onde a marqueza se encerrava pretextando a fadiga ou o arranjo da sua

toilette.

É verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que

indicam o dominador, o conquistador, a marqueza não lhe teria jámais

fechado a porta; viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado

na fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho.

A mulher ama a força e despreza ou pelo menos sente piedade pela

fraqueza. É feliz em sentir-se martyrisada, não por um poder brutal,

feroz ou louco, mas por uma força intelligente, bella e harmoniosa.

O papel d'um homem é na acção o que o da mulher é pela graciosidaoe.

Para M.me de la Tournelle o homem de acção era Ronquerolle; com elle

sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do

talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava

ligada ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida,

augmentando dia a dia pela força adquirida e pelo encanto da recordação.

O marquez estava preso da maior angustia.

Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu

os aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de

dormir, o seu «boudoir», o seu gabinete de toilette estavam saturados de

perfumes. Reinava ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do

grande mundo, quando acaba de se preparar para ir a um baile, a um

theatro, ou a uma entrevista de amôr.

Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que

concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle

cahiu sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero

impossivel de descrevêr.

Uma extranha recordação invadiu todo o seu sêr, e lagrimas ardentes

queimaram as suas palpebras.

No «boudoir», viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre

comsigo nas suas viagens, e nas suas mudanças de Paris para Saint-Martin

e de Saint-Martin para Paris.

Acudiu-lhe á mente a ideia de o abrir.

Veiu até junto do cofre e tentou erguer-lhe a tampa. O cofre estava

fechado á chave.

--É singular! disse o marquez. Porquê este mysterio?!

E o seu ávido olhar envolvia o elegante e pequeno cofre.

Poz-se a sacudil-o.

Nenhum som se fez ouvir.

Então a colera atravessou o coração d'aquelle desgraçado homem.

Tomou o cofre entre as duas mãos, acima da altura da cabeça, e lançou-o

violentamente contra o marmore branco do fogão.

O cofre abriu-se e duas cartas saltaram d'elle.

O senhor de la Tournelle hesitou ainda um momento, antes de apanhar as

cartas.

Parecia-lhe que commettia uma falta, que se deshonrava entrando assim

nos segredos de sua mulher, mas a angustia, de que se achava possuido,

lançava-o de encontro ás catastrophes.

Com mão tremula, abriu uma das cartas, reconhecendo que ella continha

apenas alguns versos, e respirou.

A julgar pelo amarellado da tinta, havia já bastante tempo que esses

versos tinham sido escriptos. Olhou para a assignatura: «Maximo

Ronquerolle».

--O quê, pensou elle, o nome d'esse homem!

Mas é uma infamia! Oh que fatalidade!

A outra carta não continha assignatura.

Era escripta mais recentemente mas a lettra era a mesma que a da poesia.

Á medida que proseguia na leitura o marquez sentia como que um punhal a

atravessar-lhe o coração.

Comprehendeu emfim todo o seu infortunio.

Sua mulher tinha um amante e esse amante era um republicano, e esse

republicano era o seu rival politico, o seu implacavel inimigo, aquelle

a quem tinham por habito chamar o cidadão Ronquerolle. As duas cartas

que haviam saltado do cofre eram as unicas que Ronquerolle tinha enviado

á sua amante.

Os versos datavam de longe, eram a sua primeira expressão de amôr.

A outra missiva tinha-a elle escripto no proprio dia da sua eleição,

após o apuramento do escrutinio d'onde o seu nome sahira victorioso.

A carta dizia:

«Mulher adorada, devo-vos uma parte do meu triumpho. Sêde bemdita, pois

haveis secundado os meus esforços, tendo a coragem de me sacrificardes

os preconceitos da vossa raça, e a vossa posição.

Que hei de eu fazer para chegar até á altura do vosso amôr, que se

affirma tão poderosamente»!

E mais adeante lia-se: «Que bello destino antevejo, para ti e para

mim, deliciosa amante! Ninguem saberá que nos amâmos, ninguem advinhará

o segredo da nossa paixão...

Amar-nos-hêmos, adorar-nos-hêmos por nós mesmos, e não em obdiencia a

tôlas convenções sociaes, não por nos conformarmos com pequenas cousas

ou interesses pueris!»

A leitura dos versos e da carta de Ronquerolle foi um martyrio para o

infeliz marquez de la Tournelle.

Pela primeira vez na sua vida esse aristocrata de nascimento, esse

espirito fraco, comprehendêra de quanta magia dispunha sua mulher.

E sentiu um duplo soffrimento reconhecendo, que nunca tivera nem podia

ter aos olhos da marqueza esse prestigio secreto, admiravel, que faz as

verdadeiras conquistas do amôr.

Muitas vezes Ronquerolle tinha aconselhado á sua amante que queimasse os

seus versos e muito principalmente a sua longa carta de amôr.

Ella sempre o promettera fazer mas jámais tivera coragem para cumprir a

sua promessa.

Amôres d'um deputado · 第 7 / 8 段