dos seus amôres, e sentia uma extranha voluptuosidade em relêl-as.
É tão agradavel conservar os objectos que hão acompanhado o nascer e o
desenvolver d'uma paixão sincera!
As palavras escriptas pela pessôa amada, quer sejam receosas, prudentes,
conselheiras ou loucas e irreflectidas; as pequenas lembranças ou
recordações, um annel um lenço, um livro; uma simples flôr que secca mas
que assim se conserva durante muitos annos, tudo, tudo, mesmo na sua
pequenez e na sua apparente insignificancia, representa a mais eloquente
testemunha do nosso amôr.
Ha quem conserve esses pequeninos nadas, que são tudo para quem amou, e
que não trocaria essas recordações d'um dia, d'uma hora, ou d'um
instante feliz na sua vida, por uma perola, um diamante, uma corôa, um
reino.
M.me de la Tournelle não daria por um imperio aquelles dois papeis
escriptos pelo seu amante.
Era supersticiosa a marqueza em tudo que dizia respeito a Ronquerolle.
Pensava que se desapparecessem aquellas cartas, com ellas lhe fugiria
Ronquerolle.
Dava a maior importancia a tudo que lhe dizia respeito; e o amante, pela
sua parte, não a ligava menos a tudo que respeitasse ao seu idolo.
No fundo do precioso cofre admiravelmente cinzelado jaziam as duas
cartas de Ronquerolle como um thezouro de alto preço.
O marquez, perante a horrivel realidade, sentiu renascer a calma no seu
pensamento.
--Está bem! exclamou elle com resolução.
E tornou a collocar as duas cartas no cofre.
O pequenino e lindo movel tinha a fechadura arrancada.
Reparou o melhor que poude os estragos causados no cofre e foi pôl-o no
mesmo logar onde o encontrára.
Não queria que sua mulher percebesse o que se passára e principalmente
que elle tinha conhecimento da sua falta.
A partir d'essa noite fatal, o senhor de la Tournelle começou de
apparentar uma grande tranquillidade em todas as suas palavras. Sorria
com satisfação e mostrava grande prazer em offerecer aos seus creados
pequenas lembranças.
Quem o visse pela primeira vez e quem com elle entretivesse duas horas
de conversação, teria dito: Que homem tão feliz! E, no emtanto o
desgraçado estava ferido de morte.
Durante um mez occupou-se em pôr os seus negocios em ordem. Todas as
manhãs o seu secretario vinha trabalhar com elle.
Algumas dependencias de sua casa, que estavam em más condições foram
arranjadas, alguns moveis foram renovados. As propriedades do marquez
receberam a sua visita e por toda a parte elle deu ordens uteis.
A marqueza não sabia que pensar do procedimento de seu marido.
Parecia que se preparava para emprehender uma grande viagem por mares
perigosos d'onde ignorava se voltaria, e que antes da sua partida
tratava de assegurar a sorte dos entes que lhe eram caros.
E no emtanto o marquez não tinha no cerebro qualquer projecto definitivo.
Sentia que ia dar-se um acontecimento grave, um drama sem duvida. Mas
qual?
Não teria podido dizêl-o.
--Devo provocar, pensava elle, esse sinistro e fatidico Ronquerolle?
Devo cruzar o ferro, ou trocar uma bala com elle? Para quê? É uma
loucura. Elle está no seu papel. Encontrou no seu caminho uma bella
mulher a quem sorriu e que se lhe entregou... Eu é que deveria ter feito
com que ella me amasse. Devo matal-a, a ella, á culpada, ou pôl-a fóra
de minha casa? E seria eu menos desgraçado, após essas violencias? Não,
não. O golpe está dado, a minha vida está envenenada e o meu destino
traçado.
Não posso confiar a minha dôr a pessoa alguma sem me tornar ridiculo.
Sou eu quem deve morrêr!
Ah! Se eu não a amasse!...
E o desgraçado sentia uma alegria amarga ao pensar na morte.
Era o seu unico refugio.
N'uma quinta-feira, pelas onze horas da noite, a marqueza sahiu segundo
o seu costume, indo a uma «soirée» que dava a sua amiga, M.me de Fleurus.
Era nos fins de maio. A estação dos bailes e recepções estava a
terminar. M.me de la Tournelle via decorrer os minutos com impaciencia,
para voar para os braços de Ronquerolle.
Estava prestes a deixar os salões da sua amiga, quando esta se aproximou
d'ella, e lhe fez signal de que precisava falar-lhe áparte, e
immediatamente.
M.me de Fleurus estava pallida e a sua apressada respiração denotava
grande emoção.
--Minha querida Carlota, disse-lhe ella; é preciso que voltes já a tua
casa, e se me permittes, acompanhar-te-hei.
Um creado teu acaba de trazer aqui uma triste noticia. Teu marido
encontra-se muito mal... Partamos depressa.
Por sua vez a marqueza se tornou pallida.
Suppoz logo que uma desgraça irreparavel acabava de se passar.
Quando as duas amigas chegaram ao palacio de Tournelle ia ali uma
confusão enorme.
Á porta encontrava-se immensa gente e os creados, muito afflictos,
corriam d'um lado para o outro falando e gesticulando.
Um commissario de policia, acompanhado do seu secretario e de muitos
agentes descia pela escadaria principal.
Ao vêr a marqueza e madame de Fleurus, o commissario descobriu-se
respeitosamente e ahi mesmo participou a M.me de la Tournelle o que se
passára.
Varios tiros de revolver se tinham ouvido no palacete e um creado do
marquez tinha ido procural-o a elle commissario. Com o mesmo creado
entrára nos aposentos do sr. de Tournelle a quem encontrára morto sobre
um tapete, no seu quarto de dormir. Tinha-se suicidado; não restava duvida.
Na manhã seguinte, Ronquerolle, que em vão esperára pela amante até ás 2
horas, ao pegar no «Figaro», deparou com estas linhas:
«Á ultima hora acabâmos de receber uma triste noticia:
«O sr. marquez Sergio de Tournelle acaba de fallecer. Tinha
quarenta e cinco annos, era um leal defensor da causa da ordem, e um
amigo dedicado dos principes da casa de França.
O sr. de Tournelle tinha sido, ao que parece, fortemente affectado pelo
triumpho do partido republicano no seu circulo e pelo cheque soffrido
nas ultimas eleições.
A sua morte é atiribuida á ruptura d'uma aneurisma. A marqueza está
inconsolavel. Todos os representantes do partido conservador lhe enviam
com os seus mais sinceros sentimentos de condolencia, as suas
respeitosas homenagens.»
--Diabo! exclamou Ronquerolle, relendo ainda a noticia. Oxalá que esta
desgraça não venha a recahir tambem sobre ella!
A morte do marquez de Tournelle fez grande ruido e foi vivamente
commentada, menos por elle talvez, que por causa, da marqueza, que era
uma das senhoras mais conhecidas de mundo parisiense.
Nenhum jornal falou em suicidio, e o infortunado marquez passou aos
olhos do publico por ter succumbido á ruptura d'uma aneurisma, como o
«Figaro», habilmente tinha noticiado. A policia conhecendo a verdade não
guardou menos o segredo.
Os intimos d'alguma cousa desconfiaram, assim como os creados, mas
precisavam da marqueza e calaram-se.
Ronquerolle soube pela marqueza de tudo o que se passára. Quando os dois
amantes se encontraram após a catastrophe e depois dos funeraes do
marquez, estavam inquietos e tremendo.
Abraçaram-se fechando os olhos, e conservaram-se assim algum tempo
sem proferirem uma palavra.
--Saberia elle da nossa ligação? perguntou, por fim, Ronquerolle.
«Porque se matou elle?
«Teremos sido nós os culpados d'essa morte?
--Não, respondeu M.me de la Tournelle. Meu marido de cousa alguma
suspeitou.
--Estás certa d'isso? interrompeu o deputado republicano.
--Sim, estou certa, replicou a bella Carlota.
Ronquerolle respirou mais á vontade.
Elle não explicava o suicidio do marquez senão pela descoberta da verdade.
M.me de Tournelle era sincera, nas suas affirmações.
Antes de se matar seu marido tinha-lhe escripto uma longa carta que ella
encontrára sobre a sua meza de trabalho.
Essa carta não encerrava a menor reprehensão, qualquer allusão que a
podesse ferir. Pelo contrario, era ella uma expressão do mais violento
amôr.
O desespero que essa carta manifestava parecia ter por causa unica
motivos politicos.
Lendo essa carta d'um homem que ao escrevêl-a resolvêra já fazer saltar
os miolos, Ronquerolle demonstrára um sentimento de piedade.
--O desgraçado, exclamou elle, não estava á altura da sua missão.
Comprehendeu-o, por fim, e a vida tornou-se-lhe um pesado fardo. Que
descance em paz.
A marqueza nunca suppoz que seu marido tinha lido as cartas de
Ronquerolle, e que se havia suicidado louco de desespero, comprehendendo
que nunca seria amado por ella.
Atribuiu realmente aquelle suicidio, como outras pessoas que d'elle
tiveram conhecimento, aos grandes aborrecimentos que lhe tinha causado a
sua derrota politica.
Carlota de la Tournelle reconheceu um dia que o seu pequeno cofre estava
partido, mas acreditou que a sua creada particular o tinha deixado
cahir, e como encontrára dentro d'elle a poesia e a carta de
Ronquerolle, que tanto amava, nunca lhe veiu á ideia que se passára em
sua casa um grande drama, que determinára a morte d'um homem.
_Epilogo_
Um anno é decorrido. As rosas de maio perfumam os jardins. Na sociedade
parisiense não se fala d'outra coisa, senão do casamento da marqueza de
la Tournelle com o deputado Ronquerolle.
O bairro de Saint-Germain considéra como uma escandalosa união a d'uma
mulher da sua sociedade com o joven tribuno republicano, o arrojado
orador, o inimigo do throno e do altar.
Se bem que os novos esposos desejassem que o seu casamento fosse o menos
conhecido possivel, todos os jornaes n'elle falaram.
A fama, a gloria, ia procurar Ronquerolle, mesmo quando elle desejaria
occultar-se na sombra e que em volta do seu nome se fizesse o maior
silencio.
Quando o bispo de Dijon teve conhecimento d'essa união nos seus labios
brincou um sorriso singular.
Monsenhor acabava de almoçar, e saboreava uma chavena de café tomado a
pequenos golos, no seu gabinete de trabalho.
O seu secretario estava perto d'elle acompanhando-o no saborear do fino
Moka.
--Recordaes-vos, meu caro Duboeuf, disse o bispo, d'aquelle banquete que
ha tres annos nos offereceu esse pobre marquez de la Tournelle? Nós ali
estivemos os dois.
--Sim, monsenhor, bem me recordo, respondeu o vigario. A marqueza não
assistiu a esse banquete politico.
--E porque não assistiu ao jantar a formosissima Carlota?
E o bispo de Dijon fazia esta pergunta com um ar trocista e malicioso e
em voz quasi afflautada.
--O cidadão Ronquerolle, poderia talvez responder-vos monsenhor,
retorquiu o padre, em voz baixa, acariciando o queixo com a mão esquerda
e fazendo os olhos mais pequenos, n'um grande ar de espertalhão.
O prelado ficou um momento pensativo.
Depois enchendo um calice com finissimo licôr offereceu-o ao seu
interlocutor e tomou um outro calice para si.
Os dois homens tocaram amigavelmente os copos, trocando uma saude, e
levaram-os em seguida aos labios.
--Pobre marquez de la Tournelle! disse o bispo.
--Era um fraco de espirito, accrescentou o vigario. Deve pertencer-lhe o
reino dos céus.
--E ella, a marqueza? disse o bispo piscando o olho esquerdo.
--Ella! replicou o travesso vigario, é uma deusa do Olympo, que desceu
até nós.
Emquanto esta scena se passava no gabinete de trabalho do bispo de
Dijon, uma outra scena não menos interessante se dava em Paris entre
Ronquerolle e os seus tres amigos.
Tinham n'essa manhã almoçado juntos em casa do deputado republicano, e
depois como o tempo estava lindo, a temperatura agradavel e o sol cheio
de belleza e alegria, tinham ido passear ao jardim do Luxemburgo.
Haviam posto de parte a politica, e evocavam as recordações dos
primeiros annos da sua mocidade na grande Paris.
Instinctivamente, como n'outros tempos, se dirigiram para o Café
Tabourey, onde juntos tinham feito tantos projectos de gloria, de amôr e
de ambição.
Lá estava ainda, esse café attrahente, esse cantinho parisiense tão
propicio aos homens de lettras e aos poetas.
Reconheceram a sua meza preferida e a ella se instalaram.
Os mesmos freguezes liam os jornaes e as revistas. O aparador, ao centro
da casa, lá estava, como sempre, carregado de garrafas com cerveja e de
copos.
A menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento estava um
pouco mais nutrida.
Annunciava-se o seu casamento para breve e seu pae tratava de trespassar
o café.
A sua fortuna estava feita, os filhos estavam empregados ou
estabelecidos e elle precisava descançar. A edade assim lh'o exigia.
Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se ás suas recordações. E cheios
de melancholia reconheciam quanto é verdadeira a phrase do poeta:
«Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.»
Ali encontravam a sua inquieta e desgraçada juventude, os dias da
adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem
fama, tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel
orgulho. Que de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados
áquella meza, sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo
versos, imaginando romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas
vezes a todos reanimava e que d'outras se desesperava sentindo-se tambem
vencido pela adversidade. Como parecia que esse tempo já ia longe!
--Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudâmos os
nervos, vamos.
«Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao
pescoço e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria!
«Merecem bem que as recordêmos, essas loucas, mas lindas e alegres
companheiras dos tempos que não voltam.»
Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos.
Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento.
Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal
rapido aos seus amigos e a conversação não proseguiu no caminho para
onde a desviára Maupertuis.
Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para
os seus amigos:
--Acompanhem-me.
E encaminhou-os para o cemiterio do Père-Lachaise, até junto do tumulo
da infeliz Emilia.
O excellente rapaz não podia evocar os dias da sua primeira mocidade,
sem pensar na pequenina e gentil creatura que tanto o tinha amado, que
morrêra por elle.
Quando essa lembrança lhe invadia o cerebro, o coração soffria e
Ronquerolle sentia uma dolorosa tristeza que o acabrunhava.
Avançou sósinho até ao tumulo da sua amante.
Os seus amigos conservaram-se respeitosamente a alguma distancia.
Ronquerolle curvou-se ante o marmore da lousa funeraria e descoberto ali
se conservou algum tempo, como que petrificado.
--Pobre creança, exclamou elle com toda a sua alma, tu foste colhida
pela morte ao principiares a viagem tormentosa da vida.
«A primeira dôr quebrou o teu debil coração; os rigôres do destino hão
encontrado em ti uma presa facil.
«Como tu me adoraste!
«Ah! Tinhas razão quando no teu leito de agonia, me disseste que eu
nunca te poderia esquecer.
«Tu foste a poesia e a flôr da minha juventude e viverás eternamente no
meu pensamento.»
Depois tirando um lapis da algibeira escreveu estes versos sobre o
marmore da lapide tumular:
Appareces-me sempre, oh candida Visão!
E choro-te saudoso, oh minha Primavera!
Se não soffrêra assim seria ingratidão.
Furtar-te á morte, amôr, eu bem quizéra,
Mas sempre viverás na minha adoração.
Muito tempo ainda decorreu.
Branche, Didier e Maupertuis, começaram a inquietar-se.
--É preciso arrancal-o d'aqui, disse Maupertuis; a dôr pode matal-o.
Branche aproximou-se e tomando o seu amigo por um braço, afastou-o
d'ali. Ronquerolle deixou-se conduzir como uma creança. Pararam depois
um instante nas immediações do Père-Lachaise e d'ali contemplaram Paris
que se desenrolava deante d'elles.
--Vamos, disse Maupertuis, que era um homem de energia, desçâmos ao
turbilhão, e esqueçâmos as miserias d'este mundo, proseguindo na nossa
obra de justiça... A nós a fortuna e a gloria! A nós a vida!
Ronquerolle apertou a mão do seu companheiro de luctas e sorriu
tristemente.
Depois os quatro amigos seguiram no seu caminho e desappareceram na
immensa cidade, na grande capital.
..........................................................................
Em cada anno, pelo começo do mez de agôsto, se vê chegar ao lago de Côme
um par que se instala n'uma deliciosa vivenda, em meio da verdura e de
cascatas emolduradas de flôres. Dir-se-hia que se trata de dois
namorados que fugiram de casa de seus paes, e que ali se occultam, para
furtarem a sua alegria e o seu amôr a olhares indiscretos. Nunca dois
entes mais sympathicos pela harmonia da sua mocidade, appareceram por
aquelles logares. Quando elles passeiam ao longo do lago, volta-se a
gente para os admirar na sua encantadora marcha.
Sente-se, advinha-se, o maravilhoso accordo das suas almas.
Uma aureola de voluptuosidade os envolve; e reconhece-se que hão
conquistado a unica felicidade que existe na terra: Adoram-se! Saudae
essas felizes creaturas!
É a marqueza de la Tournelle que passa pelo braço do seu adorado e
apaixonado marido, o deputado Ronquerolle.
FIM
End of Project Gutenberg's Amôres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir