Era o meu sonho chamar-te o meu marido, e poder caminhar com firmeza,

sobre o teu braço, e de cabeça erguida, sem receio!

Pois bem, o meu sonho, está realisado, não é verdade? E eu sou feliz. Já

posso acompanhar-te sem córar. Agora dizem ao vêr-nos passar em

Luxemburgo: ahi vão dois jovens noivos; e como elles vão contentes, como

se amam!

Ronquerolle chorava ante o delirar da sua pequenina amiga, da sua

«querida toutinegra» d'outros tempos, como elle tinha por costume

chamar-lhe, brincando com ella como duas creanças.

E o deputado de agora tapava o rosto com o lenço e soluçava.

Emilia entretanto nos seus delirios febris, tinha projectos adoraveis,

d'uma simplicidade encantadora.

--Dize, Maximo, exclamou ella, quando voltar a primavera tu levar-me-has

para o campo, não é assim?

Iremos pelas veredas embalsamadas, pelos trigaes, pela beira dos bosques

e das vinhas... Vestir-me-hei como tu gostas; porei um d'esses chapeus

de verão, que tanto te agradam e que, dizes tu, me ficam muito bem.

N'um dos seus momentos de lucidez, Emilia pediu a presença d'um

sacerdote e recebeu os sacramentos com a devoção e recolhimento d'uma

creança na sua primeira communhão.

Quando Ronquerolle viu a sua pobre amiga erguer-se, aproximar o rosto e

receber a hostia sagrada das mãos do sacerdote, a impressão n'elle

produzida foi tão violenta, que não poude conservar-se ali por mais

tempo e sahiu a respirar por um momento no boulevard Montparnasse.

Uma vez ali, reparou n'uma carruagem fechada que perto estacionava.

Aprumando-se viu que alguem de dentro da carruagem o chamava.

Era madame de la Tournelle que inquieta, viera ali para informar-se do

que se passava.

--A pobresinha, disse-lhe Ronquerolle, morrerá mal chegue a noite, são

estas ás palavras do medico. Parte-se-me o coração e soffro muito por

vêl-a assim desfallecer.

«Não quero abandonal-a assim. Volto para junto d'ella.

Eram umas quatro horas da tarde.

A marqueza quiz acompanhar Maximo até á cabeceira da moribunda.

Emilia já mal respirava.

A garganta comprimia-se-lhe e apenas podia volver os olhos sem mover a

cabeça.

O medico tambem estava perto d'ella. O seu aspecto grave e triste era

como uma phrase completa e fatal.

A morte reclamava aquella pobre rapariga e elle tinha que se curvar,

aguardando apenas o momento em que aquella existencia teria que cessar.

Madame de la Tournelle collocára-se ao lado do medico.

O perfume a heliotrope da sua toilette enchia, embalsamava o quarto de

Emilia.

A marqueza contemplava curiosamente aquella pobre moribunda e pensava

que durante muitos annos a infeliz que ia morrer fôra a amante de

Ronquerolle.

Este, sentado aos pés do leito da pobre creaturinha sentia a mais

violenta das punhaladas que pode atravessar o peito d'um homem de coração.

E olhava essa figura magra, descarnada, que elle amara nos dias da

sua irrequieta mocidade.

Quantos beijos elle tinha deposto n'aquelles labios agora sem côr,

n'aquellas faces, n'aquelles olhos, sobre esse rosto outr'ora encantador!

E não podia acreditar que a morte ia apagar a luz d'aquelles olhos que

elle amára, e gelar aquelle coração que lhe pertencêra.

Emilia fez ainda um esforço para se sentar no leito. Ronquerolle correu

a ajudal-a.

A infeliz voltou-se então para o lado onde se encontrava madame de la

Tournelle, e poude ainda dizer:

--Oh! Minha senhora! Amae-o como eu o amei, apenas por elle!

Depois pondo a mão fria de neve sobre o rosto de Ronquerolle, proseguiu:

--Não tenhas remorsos, meu amigo, a minha vida estava condemnada! Eu

teria querido viver apenas para ti...

«Tu não sabes como eu te amava! Mais tarde o comprehenderás e sinto que

não poderás esquecer-me!...

E nada mais poude dizer. A sua linda cabeça cahiu novamente sobre a

almofada, e alguns instantes depois a pobre rapariga expirava.

No dia seguinte um coche magnifico, coberto de flôres, dirigia-se

lentamente, pelas dez horas da manhã, para os lados do cemiterio do Père

Lachaise. Uma unica carruagem de luto seguia o coche funerario.

Tres pessoas occupavam essa carruagem. A um dos cantos um rapaz

soluçava, immerso na dôr, aniquilado.

Uma dama com o rosto coberto por um espesso véu, tentava

inutilmente animal-o. Em frente d'elles, silencioso, sombrio, um homem,

com o queixo encostado ao castão dourado da sua bengala, embrenhava-se

em mysteriosos pensamentos.

Estas tres personagens eram Ronquerolle, madame de la Tournelle e o

medico que tratara Emilia.

Eram elles que acompanhavam a querida creaturinha á ultima morada, tanto

do rico como do pobre, do sabio como do ignorante, do valente como do

fraco.

Em volta d'elles o ruido, o movimento da grande cidade, eram de estontear.

A manhã estava bella, o sol de outubro era ainda lindo com os seus

reflexos de ouro e aquecia os boulevards.

Alguns passeantes reparavam n'esse bello coche funerario coberto de

flôres e seguido apenas por uma carruagem.

E pensavam que havia ali talvez um d'esses dramas patheticos, que Paris

possue em tão grande numero.

Ronquerolle, do qual a superior intelligencia cedêra o logar á tristeza,

conservou-se muito tempo inconsolavel pela morte de Emilia. A febre da

ambição fôra dominada pela da dôr.

Passou os dias a evocar a tocante recordação d'essa rapariga que elle

tinha amado, que a elle se havia dado com todo o seu coração, que elle

possuira e que morrêra por elle. De noite não podia dormir, erguia-se e

ia contemplar o retrato da querida defunta, pendente d'uma das paredes

da sua habitação.

Quando olhava para essa figurinha tão graciosa, de olhar tão

singello e tão suave, o seu coração estremecia com as recordações do

passado, e grossas lagrimas cahiam dos seus olhos e rolavam sobre o seu

rosto varonil de tribuno popular e de poeta.

Depois ia tirar d'uma gaveta um masso de cartas, e relia-as.

Sabia-as de cór, mas o fixar a calligraphia da sua joven companheira da

mocidade, era para elle motivo de intima consolação.

Eram já de longo tempo essas cartas. A tinta havia empallidecido e as

datas traziam recordações a Ronquerolle.

--Que fatalidade! exclamava elle.

Tudo se acabou.

O luto entrou no meu pensamento e jámais o amôr me dará uma alegria sem

uma triste recordação. Encantadora e bôa creança, com a tua mocidade

levaste tambem a minha para o tumulo. Os tempos de illusão acabaram-se,

as horas tranquillas não voltarão mais. Agora só vejo na minha vida

sombras e tempestades.

Para acalmar as suas apprehensões, para procurar serenar os seus nervos,

Ronquerolle começou a escrever versos em memoria da sua adorada Emilia.

Compoz um verdadeiro poéma em sua honra e fêl-o publicar n'uma revista

litteraria.

Esses versos foram notados e commentados nos jornaes politicos.

A marqueza de la Tournelle respeitou a dôr do seu amante.

Ella sentia uma infinita e deliciosa commoção ao pensar que tambem seria

adorada por aquelle homem, e mais ainda que a bôa, mas simples

creaturinha que acabava de morrer.

Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle

sahiu como que d'um sonho quando leu no «Jornal Official,» o decreto

presidencial, e recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o

Parlamento ia recomeçar os seus trabalhos. Estava como um homem que após

um longo e profundo somno, desperta com a impressão de que tem um rude

trabalho a desempenhar, e um grande caminho a percorrer. Experimentado

pela dôr, devorado pela paixão, Ronquerolle ia entrar na vida politica

como um verdadeiro athleta, treinado por violentas luctas.

VIII

_Policia dupla_

As tribunas da Camara estavam cheias de gente.

Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a

Paris, mulheres da moda, elegantes, avidas de emoções oratorias,

politicos de varios matizes, alguns más linguas e intriguistas e

parentes e amigos dos deputados, de tudo ali havia.

As ordens eram severissimas relativamente á entrada; era impossivel

assistir á sessão legislativa, sem um bilhete perfeitamente em

regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado.

N'uma das primeiras tribunas, um pouco á esquerda, viam-se duas mulheres

novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e

agitavam habilmente os seus leques.

De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o «lorgnon» de aros

de ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma á outra as suas

impressões.

Vestiam «toilettes» muito elegantes; no emtanto mostravam-se á vontade

sem procurarem attrahir a attenção da camara ou das galerias, embora não

podessem passar despercebidas.

A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a

acompanhava era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita,

madame de Fleurus.

O ministro da guerra acabava de dar á camara explicações sobre as

despezas não previstas pelo orçamento, e das bancadas do Centro

ouviam-se ainda appoiados, quando o prezidente da Assembleia pronunciou

gravemente estas palavras:

--Na ordem do dia figura uma interpellação do sr. Ronquerolle sobre a

politica geral do governo.

--Tem a palavra o sr. deputado Ronquerolle.

Estabeleceu-se silencio. Das bancadas mais distantes da extrema

esquerda, ergueu-se um homem novo, de excellente figura, que depois se

dirigiu lentamente até á tribuna dos oradores.

Subiu os degraus com passo cadenciado e pousou sobre o marmore alguns

papeis.

Depois lançou um rapido olhar sobre o auditorio e começou a falar n'um

tom muito baixo.

Tinha deante de si os ministros aos quaes não perdia de vista. Pouco a

pouco, a sua voz foi-se avolumando, tornando-se mais forte, e resoou em

todo o ambito do Parlamento.

Ronquerolle passava á fieira os actos do ministerio, e fazia resaltar a

hypocrisia d'alguns dos membros do governo.

Fustigava todos os homens que ambicionavam o poder só para adquirirem

fortuna, não considerando o povo senão como uma machina util ás suas

ambições.

Erguendo os olhos para o lado das tribunas reservadas, Ronquerolle viu a

sua amante.

Ao clarão d'esse olhar apaixonado, á visão rapida d'essa bella figura,

d'esses cabellos dourados e abundantes, d'esse collo admiravel apertado

n'um delicioso corpete, á vista d'essa mão fina e bem desenhada agitando

o leque finissimo, o joven deputado sentiu como que uma vertigem, uma

forte commoção electrica, e encontrou para as suas palavras uma dicção e

uma accentuação de tanta eloquencia que fez estremecer todo o auditorio.

Ronquerolle, porém, nem via a Assembleia, esquecêra os seus collegas, os

seus inimigos da direita da Camara e os seus amigos da esquerda; não via

mais ninguem pelo espirito, senão a sua bella Carlota, a sua

conquista, a sua felicidade, o seu thesouro, a sua vida.

Queria conquistar a inteligencia d'aquella mulher que adorava, como já

havia conquistado o seu coração e os seus beijos.

Queria unir-se a ella pelos laços indestrutiveis da estima, e do

respeito pela sua coragem e pelo poder do seu cerebro.

A bella Carlota toda estremecia de prazer no seu logar.

Respondia ligeiramente á sua amiga, que lhe dava conta das suas impressões:

--Que pena, dizia ella á marqueza, que este homem não seja dos nossos!

Desejaria vêr a causa dynastica, defendida assim com esta energia e com

este vigor.

A marqueza fechou os olhos por um momento, n'uma grande commoção de

felicidade.

Ella, positivamente, bebia soffregamente as palavras do amante.

Gozava assim deliciosamente do mysterio da sua ligação com Ronquerolle.

Tudo n'ella se satisfazia n'esse momento, o seu orgulho de mulher, a sua

superior concepção do amôr; o seu voluptuoso ideal, a sua propria

vaidade, n'uma palavra, a sua intelligencia e o seu coração.

Essa sessão da Camara gravou-se na sua memoria com uma tal intensidade

de traços, que jámais se apagariam.

Comprehendeu n'esse dia como a sua existencia estava ainda incompleta, e

teve como que um grande arrependimento de tantos annos perdidos já, e

que se assemelhavam a um campo arido sem arvores, sem verdura e sem

flôres.

O discurso de Ronquerolle causou enorme impressão.

Foi discutido por toda a imprensa.

Uns encheram de elogios o joven orador, outros criticaram vivamente as

suas doutrinas, mas toda a gente se curvou perante a sua incontestavel

eloquencia.

Na quinzena que se seguiu, o novo deputado não teve mãos a medir.

Era uma alluvião de solicitadores.

Ou vinham felicital-o, ou enviavam-lhe delegações, ou convidavam-n'o

para conferencias e banquetes.

Janeiro estava a findar e os dias eram pequenos; desde as cinco horas

que a noite envolvia Paris, e o inverno era rigoroso.

N'uma quinta-feira, Ronquerolle sahindo da Camara, dirigia-se a pé para

sua casa pela explanada dos Invalidos. Cahia gelo e por isso eram raras

as pessoas que andavam pelas ruas.

Chegado á altura da rua de Grenelle, o deputado de Saint-Martin, parou

um momento para deixar passar uma fila de carruagens...

Como olhasse em torno de si, antes de atravessar a rua, notou á sua

esquerda, um individuo cuja figura não lhe era desconhecida.

Esse homem conservava-se a distancia, e quando viu que Ronquerolle o

observava, alargou o passo e passou adeante do deputado.

--Ah! Já sei, disse Maximo, este homem é um agente da policia. Depois da

minha interpellação ao ministerio, este honesto espião não me deixa um

segundo.

Não se enganava. O homem era effectivamente um agente da policia

secreta. O discurso de Ronquerolle tornara-o um deputado perigoso,

temivel para um ministerio na agonia. A consequencia natural d'esse

facto era fazel-o submetter a uma rigorosa espionagem.

Chegariam com essa espionagem a colher elementos da sua vida privada, de

que naturalmente se serviriam no momento opportuno para entravar essa

eloquencia que vinha de nascêr e que se apresentava implacavel para com

a traição.

Ao mesmo tempo que os adversarios de Ronquerolle o submettiam a essa

vergonhosa e ignobil observação dos agentes da policia secreta, o

inimigo da marqueza de la Tournelle não dormia tambem.

Mais enraivecido que nunca, o barão de Quérelles tinha resolvido, elle

tambem, fazer passar a bella Carlota por uma espionagem assidua.

Adivinhava que ella tinha um segredo a occultar, e esse segredo queria

elle conhecêl-o, afim de a fazer estremecer ante a sua pequena estatura.

O pygmeu, o tacanho, desejava humilhar a nobre mulher cujo coração não

vivia senão para o amôr e pelo amôr, cujo espirito jámais conhecêra o

que fosse uma baixeza.

É assim que, na vida, as almas mesquinhas e cubiçosas attacam a belleza,

a generosidade, a coragem, a franqueza que lucta á luz do sol, a

franqueza que procura sempre a verdade e segue ousadamente no seu

caminho claro e leal.

Em redor dos entes superiores e brilhantes giram os perversos

silenciosos e invejosos. Não teem senão um fim, incommodar, prejudicar;

senão um pensamento, infeccionar, macular; não teem mais que um desejo,

um empenho, buscar trazer até elles, até á lama que os envolve, as

creaturas de eleição, que lhes fazem sombra, e das quaes elles não podem

imitar as qualidades e as virtudes.

E assim é que, n'um jardim, se vê muitas vezes uma lagarta repellente

instalar-se na mais bella rosa deixando a sua nojenta baba sobre as

petalas da flôr.

O barão de Quérelles era um ente odioso, desprezivel, abjecto, mas não

era um imbecil.

Comprehendia que só uma mulher podia espionar outra mulher, e poz-se em

campo para descobrir esse cumulo da infamia.

Á uma hora depois do meio dia vinha elle descendo a Avenida dos Campos

Elyseos, após um copioso almoço, quando subitamente deu uma palmada na

testa, como se fôra illuminado por uma inspiração celestial e apressou o

passo.

--Mas, sem duvida, exclamou elle comsigo mesmo, M.me William tratará

perfeitamente do negocio. Como não havia eu pensado n'ella ainda?! Oxalá

que ella não tenha mudado de rezidencia!

E Dominique, sem se envolver n'outras meditações, cortou á esquerda,

seguiu ao longo do palacio do Elyseu e chegou rapidamente ao «boulevard»

Malesherbes, onde outr'ora M.me William occupava uma vasta habitação em

que dava soirées muito concorridas de jovens ricaços, jornalistas,

romancistas mundanos, mulheres novas e bonitas, casadas com maridos

velhos ou de habitos sedentarios, preferindo o canto do fogão, ou o

leito, ás seducções d'um baile, que começa ás onze da noite, para

terminar ás seis horas da manhã.

--M.me William! perguntou Dominique timidamente ao porteiro.

--No segundo andar, á esquerda, respondeu o homem.

Podeis subir, madame está em casa.

O barão respirou.

Havia bem uns cinco annos que elle não visitava a mulher, cuja

recordação lhe viera tão aproposito.

Receava não a encontrar, pois que M.me William era pessoa que se mudava

a miudo e que viajava mais a miudo ainda.

--Que milagre! pensou de Quérelles. O quê! Depois de cinco annos, ella

não deixou esta casa, onde eu a vi pela ultima vez!

Terá renunciado aos elegantes negocios d'outros tempos!

M.me William era de origem ingleza.

Habitava em Paris ha uns dez annos com suas duas filhas.

Porque a tinha deixado seu marido, official superior no exercito

britannico? Ninguem ao certo, o sabia.

M.me William, no emtanto, dizia que seu marido não tivera razão para a

abandonar e todos fingiam acredital-a.

Fôra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos salões

frequentados pela alta sociedade.

Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe

protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia

indulgencias ao seu procedimento.

Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e

especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o

dinheiro, a intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de

fazer propostas deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher

cubiçada, procurava-se para esse fim M.me William.

Por cada operação d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu

alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim

como as suas bellas «toilettes» e os ordenados dos seus innumeros

serviçaes.

M.me William era uma mulher sem pudôr e que dispunha para satisfazer os

seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel.

Era, n'uma palavra, a encarnação poderosa e perigosa da immundicie

coberta de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame

podridão, merecendo ser lançada ao monturo, depois de ter sido esmagada

debaixo dos pés. Era a lagarta sem nome, de corpo repellente, devastando

esse immenso jardim humano que se chama Paris.

Tal era a immunda creatura á qual o barão de Quérelles ia confiar a

missão de perder a marqueza de la Tournelle.

M.me William não tinha ainda attingido os quarenta annos. Era bastante

formosa; e só por vêl-a e ouvil-a ninguem podia jámais suppôr as

torpezas da sua vida.

Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuação

estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seducção.

--Que foi isso, barão, disse ella a Dominique, que bom vento vos trouxe

até aqui? Julgava-vos casado. Sabeis que me haveis abandonado bem

singularmente?!

De Quérelles mostrava-se embaraçado. Não sabia como abordar o assumpto

pelo qual ali viera, e sentia desejos de abreviar aquella visita mesmo

sem ter dito cousa alguma.

Mas M.me William é que comprehendia claramente que se elle voltara a

procural-a após tel-a esquecido durante cinco annos, era porque no seu

espirito existia qualquer preocupação grave.

Tinha a impressão de que era preciso manobrar com toda a astucia dos

dias solemnes e dispunha já em linha de ataque todas as suas baterias.

Fez assentar o barão n'um sophá, perto d'ella, e interrogou-o sobre os

assumptos mais extraordinarios. Jamais um confessor empregou mais habeis

estratagemas para facilitar a confissão a um penitente, para o obrigar a

confessar qualquer grande peccado dos que não se ousam contar em voz

alta, de que só se fala na meia escuridão d'um fim da tarde e fechando

os olhos.

Após duas horas de conversação o barão descarregára do coração um grande

fardo.

A sua confissão fôra completa.

M.me William soubera que Dominique gostava da marqueza de la Tournelle,

que elle tinha sido alvo dos desdens d'essa dama da aristocracia,

que elle desejava vingar-se humilhando a altiva fidalga; que era preciso

portanto, descobrir á marqueza qualquer amante verdadeiro ou falso,

fazer estalar o escandalo, e depois recolher, em bôa ordem, algumas

excellentes notas de mil francos na sua bolsa.

A intrigante experimentou uma alegria diabolica, pensando que ia

achar-se em frente da marqueza. Havia muito tempo que esta aranha

ingleza não envolvia nos fios da sua teia tão bella presa. Detestava por

natureza as mulheres d'um mundo superior ao seu, e reservava-lhes as

suas mais crueis ciladas.

Começou por encommendar duas soberbas «toilettes» n'uma modista da moda,

no «boulevard» Haussmann.

--Meu pequeno De Quérelles, disse ella comsigo mesma, subindo para o seu

coupé, depois de ter escolhido os tecidos de que deviam ser feitos os

vestidos que encommendára, serás tu quem pagará a factura como inicio do

negocio, que em seguida realizaremos sob um aspecto de seriedade.

Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasião de abrir

emissões para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro barão, para

satisfazeres na caixa as obrigações contrahidas.

E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire.

M.me William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua

ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas

queria obter dados precisos, exactos, constatados por ella tanto

quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurança e

firmeza de pulso.

Uma manhã, acabando de tomar o seu chocolate, começou a pensar

seriamente, no que ella chamava o negocio do barãosinho.

--Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa

formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o

possue, trata-se de descobrir quem elle é.

Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a

qualquer entrevista? Não, deixemos esses processos vulgares á policia. A

marqueza ama o grande mundo, os bailes, as «soirées»; adora tambem o

theatro e tem um camarote na Opera.

Ora, é evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama.

É necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expressões, os

olhares; e d'isso me encarrego eu, M.me de la Tournelle!

A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra,

elles teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos

as scenas harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensações

litterarias e artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a

emoção produzida attinge a sua maior intensidade.

O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece tão bello, como

quando n'elle apparece tambem um traço da vida d'aquella a quem amâmos.

M.me de la Tournelle e Ronquerolle não fugiam á regra geral, á lei

commum, doce lei que ordena áquelles que se amam que tudo sintam em

commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas.

Os dois amantes não podiam encontrar-se na sociedade. O logar de

deputado republicano não era, decerto, nos salões aristocraticos que a

marqueza frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas

comprehendiam que a sua ligação era impossivel se não observassem a cada

instante a maior prudencia.

O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu

palacete havia readquirido a animação de todos os invernos.

O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse

visto a conversar com sua esposa n'uma «soirée» do grande mundo.

M.me de la Tournelle assistia ás sessões da camara dos deputados, afim

de vêr ali o seu amante.

Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado á sua carteira,

escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo

os oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua

actividade, e a marqueza era feliz vendo-o assim.

Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir á Opera, onde ella

apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza

todas as outras mulheres...

--Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano, é minha essa

sublime mulher!

Amâmo-nos, adorâmo-nos e ninguem no mundo, além de nós, conhece o nosso

segredo.

Amôres d'um deputado · 第 6 / 8 段