cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume.
O sol de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já
asphyxiante. Quinhentas a seiscentas pessoas estacionavam em frente do
edificio da Camara, onde acabava de chegar uma fanfarra com o seu
estandarte, e ia formar-se o cortejo.
Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos
de ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris.
Por entre os grupos que se viam formados pela praça, o observador
prespicaz teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas ás
outras pareciam tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu
sorriso era contrafeito.
Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beauménard, a mulher
do banqueiro, da buliçosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellião, e
finalmente da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das
contribuições.
Todas tres muito amigas, não tinham segredos umas para as outras.
Madame Beauménard deixara-se prender pelas declarações amorosas de
Didier; Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis
conseguira fazer sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois.
Ai, como são rapidos os dias felizes!
Os apaixonados retomavam o vôo em direcção a Paris, e a vida monotona da
provincia ia recomeçar para aquellas galantes mulheres.
De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres
amigos, de todos os membros do «comité» republicano e de numerosos
cidadãos, pertencentes ás diversas classes da sociedade. Estava pallido,
quasi livido e uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez,
resultante da fadiga e das commoções soffridas. A fanfarra executou a
«Marselheza» e o cortejo poz-se em marcha.
Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres
amantes, trocaram-se rapidos olhares e as tres mulheres não puderam
conter as lagrimas.
--Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beauménard.
--Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada.
--Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois.
Quanto a Madame Desbroutin, estava tão commovida, que apenas poude dizer:
--Que ha de ser de nós, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia,
o amôr a paixão.
A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao
das eleições. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali
chegou.
A grande cidade estava n'essa occasião deserta. A alta sociedade partira
já para as estações de aguas, para os banhos do mar, para o campo.
Apenas ficára a população que as necessidades da vida prendiam em Paris.
O calor tornava-se mais violento dia a dia.
A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido
entre um pateo e um jardim.
Habitualmente demorava-se no campo até aos fins de novembro, mas o seu
regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido
pelo marquez seu esposo.
O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de
sua mulher, não ousava acompanhal-a á grande capital. Por outro lado o
continuar em Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por
isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin.
Ronquerolle, em vista da sua nova situação, alugara uma bôa habitação
perto dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu
secretario e rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier
installar-se-hiam nas immediações.
A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam
ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas
parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar
inteiramente á sua amante.
Durante esse espaço de tempo esses dois entes privilegiados foram
completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade
augmentando, augmentou a sua paixão. Até então elles tinham-se mais
adivinhado do que conhecido. E que alegria foi para elles o
reconhecerem, mutuamente, que eram ainda superiores á ideia que se
haviam formado de sentimentos, de intelligencia e da elevada concepção
do amôr.
Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza
de Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua
mocidade, simplicidade, pela vehemencia da sua paixão e do seu formoso
espirito, e tambem pela sua insaciavel ambição.
Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus
projectos de futuro. Não queria entrar na camara dos deputados para se
deixar seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da
corrupção, da ignorancia ou do embuste; mas sim para representar
verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de
apoio...
Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e
quando já descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz
repetia á sua amante os seus sonhos de esperança, deixando as palavras
seguirem o curso do seu fogoso temperamento.
Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de
la Tournelle; perdôa-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeço
ao pensar que em breve te tornarás uma figura celebre, que os mais
provocantes sorrisos te vão ser dirigidos, e que, pode ser, que então,
eu não seja a unica a possuir toda a tua alma!
--Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura não sentimos que
este amôr é de vida e de morte.
--Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amôr para
a vida e para a morte!
Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes
passeavam juntos, a pé ou de carruagem, percorrendo os bairros mais
afastados e solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse
reconhecida nos seus passeios em companhia do joven deputado republicano.
N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua
desviada da habitação de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo
ao cruzarem-se com um individuo que seguia em sentido contrario.
Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um véu espesso e não
poude por isso ser reconhecida.
O homem que passara perto d'elles era o barão de Quérelles, que, por seu
turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezolução de vigiar a
marqueza.
Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o barão nem mesmo
reconheceu Ronquerolle, mas fôra reconhecido por este e por madame de la
Tournelle.
--Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno barão a seguir-nos os
passos. É preciso acautelarmo-nos até que d'elle estejamos livres.
Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o
impressionou.
Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe
escrevia.
Ronquerolle ainda não a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do
seu regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara.
«Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o
fim dos nossos amôres! Eu bem sabia que uma nova vida ia começar para
ti, meu adorado Maximo, e que eu, pobre flôr desfeita, seria sacrificada
á tua ambição, que uma nova paixão exige.
«Bem sabia ao vêr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico
amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes
morrêr a descêr pela escada fatal das raparigas bem educadas mas
pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem,
depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! Não! Não! Repito-te,
antes a morte!
«Não me digas que ainda me amas; se assim fosse não terias vindo
abraçar-me logo após a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu
estás aqui ha quinze dias, e em vão te hei esperado todas as manhãs e
todas as tardes.
«Oh! Maximo! Meu querido Maximo! Não poderei eu ainda apertar-te nos
meus braços, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de
fechar os meus olhos á doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao
cemiterio e coberta com algumas pás de terra?
«A tua querida toutinegra d'outros tempos
«Emilia.»
Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio
lhe banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre
creança companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia
á qual jurara eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no
seu coração e no seu cerebro pela visão estonteante da marqueza de la
Tournelle.
E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre
rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os
seus desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr
d'outros tempos transformara-se n'uma affeição de irmão.
Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira
que lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.
Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa
immensa Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua
juventude, e a sua fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.
Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes,
Emilia comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido
Maximo, e então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se
abateram de um só golpe.
Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.
A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo
já não me ama, pois bem, só me resta morrêr.
Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em
Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e
decidiu-se por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao
menos uma vez antes de morrer.
Ronquerolle, tomado d'uma inquietação mortal, ao terminar a leitura da
carta da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e
dirigiu-se a casa da pobre rapariga.
Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu á porta,
abriu-lh'a com o coração despedaçado, mas ainda com uma migalha de
esperança.
Foi tal a violencia da commoção recebida, que a pobrezinha, cahindo
nos braços do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos não poude
articular palavra.
O triumphador não podia crêr no que os seus olhos viam. A sua pequenina
Emilia não era mais que uma sombra do que fôra.
Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e
pelas noites de insomnias, davam áquella creaturinha o aspecto d'um
phantasma.
--Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxalá que eu não chegasse demasiado
tarde! A pobre creança está ferida de morte pelo desgosto que lhe
causei, e a sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo.
Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma
alegria verdadeiramente infantil exclamou:
--Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella.
Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te!
Como eu te esperava!
Como eu receava morrer sem te abraçar ainda uma vez!
Como eu te amo!
Se tu soubesses como eu te amo!
Tu, bem sei, tu não podes amar-me da mesma forma.
Sei muito bem que tu não podes prender na tua vida uma simples sensitiva
como a pobre Emilia...
Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a
percorrer. Tens que alcançar a gloria.
Eu vejo bem a differença da minha vida para a tua.
Precisas de amôres enebriantes; desejas o explendôr que possa satisfazer
o teu immenso orgulho...
Eu conheço-te bem!
Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira
d'outros tempos tinha razão.
Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava
sempre a reconhecer o fatal abandono a que fôra votada.
Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover
as recordações dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus
amôres, dos seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a
Mendon, a Montmorency, a Ermenonville.
--Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo.
--Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes
crêr. Sentia-te perto de mim.
Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jámais os enganam.
Além d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard.
A sua presença confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu
não estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e
Maupertuis.
O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia.
Um extranho encanto havia em volta d'ella.
Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canapé, perto da
janella. Lembrava uma convalescente que procurava cobrar fôrças, e
a quem o menor esforço enfraquecia.
--Voltarei a vêr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem
coragem. A tua vida terá ainda dias felizes.
--Não, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou!
Pois não reparas?
Não vês que eu não te faço a menor pergunta?
Nem sequer me queixo!
É a suprema resignação do condemnado.
Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para
o «boulevard» de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a
janella onde outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da
pobre creança. A sua dôr tão verdadeira, tão sincera, tão eloquente,
envenenava a sua felicidade.
Aguardou assim a hora em que M.me de la Tournelle o esperava.
A marqueza não teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante
tinha qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o.
Perguntou-lhe a causa da sua dôr.
Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso
que tinha sobre o coração, contou-lhe toda a historia da sua ligação com
a pobre Emilia.
--Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida,
disse-lhe elle.
O soffrimento d'essa pobre creança, cahe sobre mim como um remorso. É o
primeiro da minha vida!
Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre
abandonada.
«Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim:
estou cada vez peor, meu amigo, vêm depressa. Eu não nasci para viver
n'este mundo demasiado brutal. O meu pobre coração quebrou-se ao embate
da primeira amargura.
Tombou como uma flôr que a tempestade lança por terra, e cousa alguma
n'este mundo pode já reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle não
pode viver.
A flôr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o
seu perfume.
Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella.
Outras flôres vêem substituil-a, outros felizes dias vão nascer, e a
outra a pobre florinha morreu e não ressuscitará.
E que bellos momentos nós tivemos na vida meu querido Maximo!
Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lições da
Sorbonne e do Collegio de França, quando iamos passear de braço dado,
sob as sombras de Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras
de amôr, quando tu apenas ousavas apertar-me a mão?
Abençoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha
juventude, porque tão depressa me fugiste?
Porquê meu bem amado é tão rapida tão fugitiva a felicidade?
E porque será que ha na vida fatalidades que nos quebram o coração?
Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo
terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cêdo
morrer!
Entretanto a ambição vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem não
descobrirão nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para
mim, essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude
apreciar. É essa a minha suprema consolação.--A tua pequenina amiga
d'outros tempos--Emilia».
Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu
remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e
morrendo de desgosto não o deixava um instante.
Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que não
tinha a força para supportar as brutalidades da existencia e que o
primeiro abalo derrubava.
Ha no meio da corrupção das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que
possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os
heroismos. Nada as mancha; ellas veem o mal que para ellas avança, mas
os seus olhos se fecham sobre a visão pura que vive na sua alma e a
perversidade jámais as alcançará.
A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu
ideal como a hera em volta da arvore.
É esse todo o seu destino.
E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos
palacios dos ricos, como nas habitações dos burguezes ou nas cabanas dos
pobres. O observador á primeira vista não os apercebe, tão modestos
elles são, tão simples, tanto se occultam na sombra; mas por pouco
que o seu olhar investigador saiba lêr nas consciencias, analysar a vida
dos homens e o aspecto das coisas, elle não tarda a reconhecer o
heroismo do coração, onde, na apparencia só ha uma existencia monotona,
sem colorido e sem perfume.
As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicações obscuras, que
toda a gente ignora, de que ninguem falará e de que mesmo o que d'ellas
é objecto não suppôe toda a grandesa.
É quando essas creaturas amantes e tão felizes por se sacrificarem já
não existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes.
É quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se
reconhece a bondade do seu espirito e do seu coração e que se lhe faz
verdadeiramente justiça.
Mas então, é já tarde!
Esse arrependimento posthumo não consola do remorso de haver quebrado
desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um
thesouro de ineffavel ternura e de amôr sincero, de ter feito chorar
dois lindos olhos, de ter feito o desespero d'um inexperiente coração.
Dar-se-hia então dez annos da existencia para tornar a vêr uma hora
apenas essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi
comprehendida e que é amada.
Mas são já inuteis então os desesperos e estereis os votos.
A morte não mais devolverá a sua presa, e o turbilhão do mundo,
chama-nos e attrahe-nos com os seus risos, as suas canções, o ruido
das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres.
Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se não tivessem
amantes, se fariam irmãs de caridade, dedicando-se aos doentes e á
paixão pela cruz.
Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais
humildade que orgulho, mais resignação que coragem para a lucta.
Tinha sonhado o amôr como a juncção de duas vidas não formando mais do
que uma.
Aos dezesseis annos, essa fragil creança realizava o typo perfeito da
joven que ama perdidamente.
Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem.
Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz
tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella
para elle erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes.
D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse
acompanhado.
Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o
mal fazia constantes progressos.
Ronquerolle não a abandonava. Sentava-se aos pés do seu leito e
prodigalisava tantos cuidados á doente como se fôra mãe da infeliz
rapariga.
Graças a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fôra
chamado a tractar da joven Emilia.
Todas as manhãs esse medico vinha vêl-a e ficava surprehendido dos
progressos da doença, e resumia por estas palavras as suas impressões:
uma saude delicada morta por um desgosto terrivel.
Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da
doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre
rapariga.
--Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!
«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o
equilibrio das fôrças é incompleto.
«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania.
«A sua fraqueza faz d'ella uma santa.
«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse
numero, reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes
verdadeiramente fortes, são talvez mais feridos pela desillusão do que
essa infeliz creança, mas vivem, não soffrem materialmente, sorriem até
quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem que elles são felizes.
«Olhae, por exemplo, para mim!
«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações?
«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande
ferimento moral, me atormenta.»
Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico.
Esse homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e
comtudo devia ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu
espirito.
E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados,
todos os carinhos a Emilia.
Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os
dias, de manhã e á noite informar-se do estado da doente.
Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo
Branche, para distrahir a infeliz rapariga.
Mas o mal fazia os mais rapidos progressos.
Os pulmões esphacellavam-se, o medico perdêra ja toda a esperança de
salvar a terna creaturinha.
Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente.
Não podia já deixar o leito.
Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fôrças para lêr.
E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lêr as
bellas paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogão nas
noites de inverno.
Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de
deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e
outros.
Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperação dos
poetas e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa
e a felicidade que se aguarda.
E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida
pela dôr, agarrada pela morte.
Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile.
Quando, após ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro
sobre o leito e a sua ainda bella cabeça tombava sobre o almofadão, e
perdia-se n'um mundo de recordações.
Via-se então ainda muito creança; rodeada de carinhos, adorada por sua
mãe, que tambem bem cêdo a morte arrebatara.
Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos.
Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os
seus modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mãos rogava
a Deus e á Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si.
Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, após a morte de sua
santa mãe.
Tinha então quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para
ser quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne.
Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma;
sim, com toda a sua alma tão leal, tão enthusiastica.
E quando apenas tocara na taça da vida era preciso deixar o festim e
seguir até lá baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria.
Emilia não podia, mau grado a resignação do seu temperamento e do seu
caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta.
Como a «Joven captiva», de André Chenier, ella desejaria não morrer ainda.
Pois quê! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do
mundo sem ter visto acabar a primavera, sem ter colhido as flôres
d'essa estação, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos, sem ter
conhecido o verão abrasador, nem o outomno fecundo!...
Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes.
Ronquerolle foi admiravel de dedicação.
Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia
morrer, Ronquerolle nunca mais abandonou a doente.
Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sêres humanos,
accomodára-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar.
Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de
felicidade lhe tivessem sido promettidos.
--Maximo, dizia ella no desvairamento da rasão, Maximo, meu querido
Maximo, nós vamos unirmo-nos para sempre!
Coisa alguma nos poderá separar, não é verdade?
A minha vida vae ficar unida á tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua
mulher.
Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua
esposa. Se soubesses como eu soffri por ser sómente a tua amante!