Na quinta-feira seguinte ao dia da eleição, pelas dez horas da manhã, a

cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume.

O sol de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já

asphyxiante. Quinhentas a seiscentas pessoas estacionavam em frente do

edificio da Camara, onde acabava de chegar uma fanfarra com o seu

estandarte, e ia formar-se o cortejo.

Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos

de ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris.

Por entre os grupos que se viam formados pela praça, o observador

prespicaz teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas ás

outras pareciam tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu

sorriso era contrafeito.

Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beauménard, a mulher

do banqueiro, da buliçosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellião, e

finalmente da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das

contribuições.

Todas tres muito amigas, não tinham segredos umas para as outras.

Madame Beauménard deixara-se prender pelas declarações amorosas de

Didier; Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis

conseguira fazer sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois.

Ai, como são rapidos os dias felizes!

Os apaixonados retomavam o vôo em direcção a Paris, e a vida monotona da

provincia ia recomeçar para aquellas galantes mulheres.

De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres

amigos, de todos os membros do «comité» republicano e de numerosos

cidadãos, pertencentes ás diversas classes da sociedade. Estava pallido,

quasi livido e uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez,

resultante da fadiga e das commoções soffridas. A fanfarra executou a

«Marselheza» e o cortejo poz-se em marcha.

Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres

amantes, trocaram-se rapidos olhares e as tres mulheres não puderam

conter as lagrimas.

--Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beauménard.

--Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada.

--Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois.

Quanto a Madame Desbroutin, estava tão commovida, que apenas poude dizer:

--Que ha de ser de nós, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia,

o amôr a paixão.

A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao

das eleições. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali

chegou.

A grande cidade estava n'essa occasião deserta. A alta sociedade partira

já para as estações de aguas, para os banhos do mar, para o campo.

Apenas ficára a população que as necessidades da vida prendiam em Paris.

O calor tornava-se mais violento dia a dia.

A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido

entre um pateo e um jardim.

Habitualmente demorava-se no campo até aos fins de novembro, mas o seu

regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido

pelo marquez seu esposo.

O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de

sua mulher, não ousava acompanhal-a á grande capital. Por outro lado o

continuar em Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por

isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin.

Ronquerolle, em vista da sua nova situação, alugara uma bôa habitação

perto dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu

secretario e rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier

installar-se-hiam nas immediações.

A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam

ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas

parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar

inteiramente á sua amante.

Durante esse espaço de tempo esses dois entes privilegiados foram

completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade

augmentando, augmentou a sua paixão. Até então elles tinham-se mais

adivinhado do que conhecido. E que alegria foi para elles o

reconhecerem, mutuamente, que eram ainda superiores á ideia que se

haviam formado de sentimentos, de intelligencia e da elevada concepção

do amôr.

Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza

de Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua

mocidade, simplicidade, pela vehemencia da sua paixão e do seu formoso

espirito, e tambem pela sua insaciavel ambição.

Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus

projectos de futuro. Não queria entrar na camara dos deputados para se

deixar seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da

corrupção, da ignorancia ou do embuste; mas sim para representar

verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de

apoio...

Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e

quando já descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz

repetia á sua amante os seus sonhos de esperança, deixando as palavras

seguirem o curso do seu fogoso temperamento.

Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de

la Tournelle; perdôa-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeço

ao pensar que em breve te tornarás uma figura celebre, que os mais

provocantes sorrisos te vão ser dirigidos, e que, pode ser, que então,

eu não seja a unica a possuir toda a tua alma!

--Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura não sentimos que

este amôr é de vida e de morte.

--Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amôr para

a vida e para a morte!

Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes

passeavam juntos, a pé ou de carruagem, percorrendo os bairros mais

afastados e solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse

reconhecida nos seus passeios em companhia do joven deputado republicano.

N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua

desviada da habitação de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo

ao cruzarem-se com um individuo que seguia em sentido contrario.

Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um véu espesso e não

poude por isso ser reconhecida.

O homem que passara perto d'elles era o barão de Quérelles, que, por seu

turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezolução de vigiar a

marqueza.

Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o barão nem mesmo

reconheceu Ronquerolle, mas fôra reconhecido por este e por madame de la

Tournelle.

--Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno barão a seguir-nos os

passos. É preciso acautelarmo-nos até que d'elle estejamos livres.

Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o

impressionou.

Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe

escrevia.

Ronquerolle ainda não a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do

seu regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara.

«Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o

fim dos nossos amôres! Eu bem sabia que uma nova vida ia começar para

ti, meu adorado Maximo, e que eu, pobre flôr desfeita, seria sacrificada

á tua ambição, que uma nova paixão exige.

«Bem sabia ao vêr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico

amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes

morrêr a descêr pela escada fatal das raparigas bem educadas mas

pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem,

depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! Não! Não! Repito-te,

antes a morte!

«Não me digas que ainda me amas; se assim fosse não terias vindo

abraçar-me logo após a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu

estás aqui ha quinze dias, e em vão te hei esperado todas as manhãs e

todas as tardes.

«Oh! Maximo! Meu querido Maximo! Não poderei eu ainda apertar-te nos

meus braços, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de

fechar os meus olhos á doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao

cemiterio e coberta com algumas pás de terra?

«A tua querida toutinegra d'outros tempos

«Emilia.»

Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio

lhe banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre

creança companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia

á qual jurara eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no

seu coração e no seu cerebro pela visão estonteante da marqueza de la

Tournelle.

E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre

rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os

seus desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr

d'outros tempos transformara-se n'uma affeição de irmão.

Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira

que lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.

Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa

immensa Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua

juventude, e a sua fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.

Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes,

Emilia comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido

Maximo, e então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se

abateram de um só golpe.

Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.

A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo

já não me ama, pois bem, só me resta morrêr.

Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em

Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e

decidiu-se por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao

menos uma vez antes de morrer.

Ronquerolle, tomado d'uma inquietação mortal, ao terminar a leitura da

carta da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e

dirigiu-se a casa da pobre rapariga.

Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu á porta,

abriu-lh'a com o coração despedaçado, mas ainda com uma migalha de

esperança.

Foi tal a violencia da commoção recebida, que a pobrezinha, cahindo

nos braços do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos não poude

articular palavra.

O triumphador não podia crêr no que os seus olhos viam. A sua pequenina

Emilia não era mais que uma sombra do que fôra.

Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e

pelas noites de insomnias, davam áquella creaturinha o aspecto d'um

phantasma.

--Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxalá que eu não chegasse demasiado

tarde! A pobre creança está ferida de morte pelo desgosto que lhe

causei, e a sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo.

Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma

alegria verdadeiramente infantil exclamou:

--Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella.

Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te!

Como eu te esperava!

Como eu receava morrer sem te abraçar ainda uma vez!

Como eu te amo!

Se tu soubesses como eu te amo!

Tu, bem sei, tu não podes amar-me da mesma forma.

Sei muito bem que tu não podes prender na tua vida uma simples sensitiva

como a pobre Emilia...

Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a

percorrer. Tens que alcançar a gloria.

Eu vejo bem a differença da minha vida para a tua.

Precisas de amôres enebriantes; desejas o explendôr que possa satisfazer

o teu immenso orgulho...

Eu conheço-te bem!

Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira

d'outros tempos tinha razão.

Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava

sempre a reconhecer o fatal abandono a que fôra votada.

Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover

as recordações dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus

amôres, dos seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a

Mendon, a Montmorency, a Ermenonville.

--Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo.

--Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes

crêr. Sentia-te perto de mim.

Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jámais os enganam.

Além d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard.

A sua presença confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu

não estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e

Maupertuis.

O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia.

Um extranho encanto havia em volta d'ella.

Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canapé, perto da

janella. Lembrava uma convalescente que procurava cobrar fôrças, e

a quem o menor esforço enfraquecia.

--Voltarei a vêr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem

coragem. A tua vida terá ainda dias felizes.

--Não, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou!

Pois não reparas?

Não vês que eu não te faço a menor pergunta?

Nem sequer me queixo!

É a suprema resignação do condemnado.

Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para

o «boulevard» de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a

janella onde outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da

pobre creança. A sua dôr tão verdadeira, tão sincera, tão eloquente,

envenenava a sua felicidade.

Aguardou assim a hora em que M.me de la Tournelle o esperava.

A marqueza não teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante

tinha qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o.

Perguntou-lhe a causa da sua dôr.

Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso

que tinha sobre o coração, contou-lhe toda a historia da sua ligação com

a pobre Emilia.

--Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida,

disse-lhe elle.

O soffrimento d'essa pobre creança, cahe sobre mim como um remorso. É o

primeiro da minha vida!

Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre

abandonada.

«Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim:

estou cada vez peor, meu amigo, vêm depressa. Eu não nasci para viver

n'este mundo demasiado brutal. O meu pobre coração quebrou-se ao embate

da primeira amargura.

Tombou como uma flôr que a tempestade lança por terra, e cousa alguma

n'este mundo pode já reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle não

pode viver.

A flôr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o

seu perfume.

Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella.

Outras flôres vêem substituil-a, outros felizes dias vão nascer, e a

outra a pobre florinha morreu e não ressuscitará.

E que bellos momentos nós tivemos na vida meu querido Maximo!

Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lições da

Sorbonne e do Collegio de França, quando iamos passear de braço dado,

sob as sombras de Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras

de amôr, quando tu apenas ousavas apertar-me a mão?

Abençoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha

juventude, porque tão depressa me fugiste?

Porquê meu bem amado é tão rapida tão fugitiva a felicidade?

E porque será que ha na vida fatalidades que nos quebram o coração?

Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo

terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cêdo

morrer!

Entretanto a ambição vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem não

descobrirão nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para

mim, essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude

apreciar. É essa a minha suprema consolação.--A tua pequenina amiga

d'outros tempos--Emilia».

Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu

remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e

morrendo de desgosto não o deixava um instante.

Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que não

tinha a força para supportar as brutalidades da existencia e que o

primeiro abalo derrubava.

Ha no meio da corrupção das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que

possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os

heroismos. Nada as mancha; ellas veem o mal que para ellas avança, mas

os seus olhos se fecham sobre a visão pura que vive na sua alma e a

perversidade jámais as alcançará.

A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu

ideal como a hera em volta da arvore.

É esse todo o seu destino.

E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos

palacios dos ricos, como nas habitações dos burguezes ou nas cabanas dos

pobres. O observador á primeira vista não os apercebe, tão modestos

elles são, tão simples, tanto se occultam na sombra; mas por pouco

que o seu olhar investigador saiba lêr nas consciencias, analysar a vida

dos homens e o aspecto das coisas, elle não tarda a reconhecer o

heroismo do coração, onde, na apparencia só ha uma existencia monotona,

sem colorido e sem perfume.

As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicações obscuras, que

toda a gente ignora, de que ninguem falará e de que mesmo o que d'ellas

é objecto não suppôe toda a grandesa.

É quando essas creaturas amantes e tão felizes por se sacrificarem já

não existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes.

É quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se

reconhece a bondade do seu espirito e do seu coração e que se lhe faz

verdadeiramente justiça.

Mas então, é já tarde!

Esse arrependimento posthumo não consola do remorso de haver quebrado

desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um

thesouro de ineffavel ternura e de amôr sincero, de ter feito chorar

dois lindos olhos, de ter feito o desespero d'um inexperiente coração.

Dar-se-hia então dez annos da existencia para tornar a vêr uma hora

apenas essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi

comprehendida e que é amada.

Mas são já inuteis então os desesperos e estereis os votos.

A morte não mais devolverá a sua presa, e o turbilhão do mundo,

chama-nos e attrahe-nos com os seus risos, as suas canções, o ruido

das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres.

Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se não tivessem

amantes, se fariam irmãs de caridade, dedicando-se aos doentes e á

paixão pela cruz.

Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais

humildade que orgulho, mais resignação que coragem para a lucta.

Tinha sonhado o amôr como a juncção de duas vidas não formando mais do

que uma.

Aos dezesseis annos, essa fragil creança realizava o typo perfeito da

joven que ama perdidamente.

Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem.

Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz

tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella

para elle erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes.

D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse

acompanhado.

Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o

mal fazia constantes progressos.

Ronquerolle não a abandonava. Sentava-se aos pés do seu leito e

prodigalisava tantos cuidados á doente como se fôra mãe da infeliz

rapariga.

Graças a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fôra

chamado a tractar da joven Emilia.

Todas as manhãs esse medico vinha vêl-a e ficava surprehendido dos

progressos da doença, e resumia por estas palavras as suas impressões:

uma saude delicada morta por um desgosto terrivel.

Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da

doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre

rapariga.

--Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!

«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o

equilibrio das fôrças é incompleto.

«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania.

«A sua fraqueza faz d'ella uma santa.

«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse

numero, reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes

verdadeiramente fortes, são talvez mais feridos pela desillusão do que

essa infeliz creança, mas vivem, não soffrem materialmente, sorriem até

quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem que elles são felizes.

«Olhae, por exemplo, para mim!

«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações?

«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande

ferimento moral, me atormenta.»

Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico.

Esse homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e

comtudo devia ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu

espirito.

E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados,

todos os carinhos a Emilia.

Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os

dias, de manhã e á noite informar-se do estado da doente.

Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo

Branche, para distrahir a infeliz rapariga.

Mas o mal fazia os mais rapidos progressos.

Os pulmões esphacellavam-se, o medico perdêra ja toda a esperança de

salvar a terna creaturinha.

Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente.

Não podia já deixar o leito.

Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fôrças para lêr.

E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lêr as

bellas paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogão nas

noites de inverno.

Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de

deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e

outros.

Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperação dos

poetas e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa

e a felicidade que se aguarda.

E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida

pela dôr, agarrada pela morte.

Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile.

Quando, após ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro

sobre o leito e a sua ainda bella cabeça tombava sobre o almofadão, e

perdia-se n'um mundo de recordações.

Via-se então ainda muito creança; rodeada de carinhos, adorada por sua

mãe, que tambem bem cêdo a morte arrebatara.

Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos.

Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os

seus modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mãos rogava

a Deus e á Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si.

Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, após a morte de sua

santa mãe.

Tinha então quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para

ser quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne.

Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma;

sim, com toda a sua alma tão leal, tão enthusiastica.

E quando apenas tocara na taça da vida era preciso deixar o festim e

seguir até lá baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria.

Emilia não podia, mau grado a resignação do seu temperamento e do seu

caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta.

Como a «Joven captiva», de André Chenier, ella desejaria não morrer ainda.

Pois quê! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do

mundo sem ter visto acabar a primavera, sem ter colhido as flôres

d'essa estação, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos, sem ter

conhecido o verão abrasador, nem o outomno fecundo!...

Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes.

Ronquerolle foi admiravel de dedicação.

Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia

morrer, Ronquerolle nunca mais abandonou a doente.

Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sêres humanos,

accomodára-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar.

Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de

felicidade lhe tivessem sido promettidos.

--Maximo, dizia ella no desvairamento da rasão, Maximo, meu querido

Maximo, nós vamos unirmo-nos para sempre!

Coisa alguma nos poderá separar, não é verdade?

A minha vida vae ficar unida á tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua

mulher.

Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua

esposa. Se soubesses como eu soffri por ser sómente a tua amante!

Amôres d'um deputado · 第 5 / 8 段