--Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos.

Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias

em campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha

treguas na lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será

finalmente o resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus

desejos. Quanto aos candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o

caso como entenderem. Se porém ainda assim a marqueza continuar a

mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o novo deputado por Saint-Martin.

Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos

eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo

n'uma pia d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os

operarios, pagava-lhes de beber, comia com elles, acabando sempre as

suas conversas pela politica.

Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão

advogava a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello.

O conde d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que

se devia tomar uma medida energica, e em plena reunião de todos os

marechaes do partido reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no

castello do marquez «de la Tournelle», a reunião dos oitenta a cem

proprietarios influentes da circunscripção; coroaria a reunião um grande

banquete.

--Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o

conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a

população contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as

tradições da sua familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos,

se o barão fôr contra nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo

muitissimos votos.

--É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des Quérelles»

é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a frente

commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis

por que elle nos odeia a este ponto?

--Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar a

marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do

coração da marqueza, calcando assim os seus caprichos. Tratemos,

antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á

margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.

Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu

procedimento e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o barão de

gosar deliciosamente os golpes que desapiedadamente despedia sobre os

seus adversarios.

Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus

cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas

mais avançados.

N'uma occasião em que na praça publica atravessava com a sua carruagem,

encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do «comité» republicano,

disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem:

--Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o coração. Fazei-me o

favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de

Paris, que lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir á reunião publica

na quinta-feira á tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos

homens intelligentes e nada de deputados sem valor!

O barão «des Quérelles» dispunha de tres a quatro mil votos. Era um

influente nada para despresar n'um escrutinio onde só votavam dose mil

eleitores.

--Tenho o castello nas minhas mãos! dizia o barão n'uma ceia, quando

bebia cognac em companhia dos seus amigos.

No fundo da sua consciencia pensava:

--Serei o senhor da soberba Carlota que sem duvida capitulará por

ambição. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem despresado!

Emquanto o marquez «de la Tournelle» e o conde d'Orgefin tratavam da sua

reunião plena das fôrças conservadoras, emquanto o colerico barão «des

Quérelles» meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao

serviço das suas paixões amorosas, os tres amigos de Ronquerolle,

Branche, Didier e Maupertuis, não perdiam o seu tempo. Os rapazes,

arrojados para as mulheres, como todos os jornalistas, produziam

estragos terriveis nos corações das burguezinhas de Saint-Martin.

Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena

«soirée» em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade,

que não temia defender as suas opiniões democratas e que alem d'isso,

possuia uma bella fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom «vivant»

amando os prazeres da mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente

fornecida. Recordava muito as suas travessuras de rapaz no tempo em que

vivera na capital. Havia muito tempo que isto accontecera, ha pouco mais

ou menos vinte annos. Que praser sentiria, ao receber em sua casa os

quatro parisienses com os quaes conversaria dos tempos passados e das

suas loucas amantes.

Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua

entrada no salão de M.me Desbroutin, uma senhora loira, pequena e

nutrida, muito amavel, muito simples e muito mais nova que seu marido.

--Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem?

--Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está

preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes

d'uma hora tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.

Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de

Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não

podiam por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os

continuassem a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.

As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por

todos os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a

quem uma pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para

ser servido o chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o

gabinete de trabalho do notario, que se seguia ao salão e onde fumando,

se entretinham a fallar das eleições.

Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto

das mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris

e como ella era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem

d'isso, Branche testemunhava uma sympathia particular a M.me

Desbroutin, emquanto que Didier fazia evidentemente a côrte a M.me

Beaumenard, a mulher do banqueiro Beaumenard. Esta tinha um espirito

romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser

heroina ideal das mais ternas aventuras.

--A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um

deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o

quanto tenho soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde

faço carreira e que me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem

mais infeliz da terra.

A graciosa M.me Beaumenard estava encantada com esta linguagem.

Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas

apaixonadas que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu

lado, tinha levado a linda mulher do notario até ao precipicio

encantador mas perigoso das confidencias amorosas.

Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin

tinha-o convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e

viera com o fim d'excitar os espiritos contra o marquez «de la

Tournelle». Pretendia ao mesmo tempo conhecer de perto e assegurar-se

por si proprio se o joven deputado republicano era realmente o homem

intelligente de que lhe tinham fallado. A presença do barão interrompeu

por momentos a interessante conversação de Branche com M.me Desbroutin.

Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem dos convidados e a curiosidade que

se fizera em volta do barão, para apertar docemente a mão de M.me

Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas sem muito esforço.

Ronquerolle entrou finalmente no salão. Apresentou as desculpas da

sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin apresentou-o ao

barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. A

pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo

o mundo o invejaria.

Ronquerolle escutava attentamente o barão «des Quérelles». No fundo

desconfiava d'este homemzinho que tão calorosamente defendia a causa

republicana.

--Que interesse poderá ter este barão, pensava, na actividade que

desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario?

Evidentemente não trabalha por convicção. Ha pois, na sua conducta um

mobil occulto. Qual será?

E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o barão dos pés até á

cabeça.

Pelo seu lado o barão tratava de sondar o espirito de Ronquerolle;

abordou successivamente todos os assumptos para ver até que ponto podia

confiar n'elle.

Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questões

politicas, mas fóra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, «des

Quérelles» interrogou d'esta maneira o joven candidato:

--Conheceis a marqueza «de la Tournelle?»

Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um

instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio,

respondeu com uma soberana indifferença.

--A marqueza «de la Tournelle!». Mas senhor barão, conheço-a como toda a

gente, e menos que V. Ex.ª certamente. Tenho eu tempo para me

occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus eleitores

e procurando bater o meu adversario.

O barão queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a

historia da sua paixão por M.elle de Champeautey. Não receava tomal-o

para seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo

castello «de la Tournelle».

A pergunta do barão tinha feito tremêr um pouco intimamente Ronquerolle.

Terá este tagarella alguma suspeita? Terá advinhado a minha paixão, a

minha loucura pela loura e adoravel Carlota?

Terá surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que será, emfim?

Todos tinham saido satisfeitos da «soirée» de M. Desbroutin e, no dia

seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram

discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e

a malicia dos narradores. Recahia toda a consideração sobre o notario e

algumas más linguas começaram a insinuar que a gentil M.me Desbroutin

não era quem mais lastimava os resultados da reunião politica de seu

marido.

V

_Os infortunios do marquez_

A reunião publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas

á ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa

reunião veiu avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do

soalho e que seria, a pesar seu, obrigado a faltar á sua promessa e ao

preço estabelecido, porque um particular tinha pedido cincoenta francos

pelo aluguer.

A sala do «Poule Blanche» era demasiado pequena e por esse motivo foram

ter com Matteus Baliverne, proprietario do café do Commercio, que tinha,

no primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e

quinhentas a duas mil pessoas.

Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os

seus amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de

signal pelo aluguer da sala e beberam n'essa occasião em boa companhia

um copo de cognac.

--Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o

seu o copo de Ronquerolle.

Não obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez

francos do signal.

--Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a

vossa sala não está segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor

Baliverne, tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes

do logar veem bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso,

descalçarem-se no vestibulo, afim de dançarem descalços para não

prejudicar a solidez das vossas salas?! Basta de gracejos, senhor

Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e ha dias comemos juntos, por

isso é preciso fallarmos com toda a franqueza. Vamos, dizei-nos qual a

verdadeira razão que vos leva agora a recusar-nos a sala que já nos

havieis promettido. Mas, por amôr de Deus, se Deus existe, deixae em paz

o vosso soalho.

Matheus Baliverne estava embaraçado, de cabeça baixa, não sabia que

responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta.

--Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a

verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a

sala? Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e,

como necessitaes da sua auctorisação para conservardes o vosso baile

aberto até ás 5 horas da manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora

avante vos recusará essa licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa

aos meus eleitores!

Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o

escutava, respondeu a Ronquerolle:

--Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me, eu sou um homem energico

mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo obrigado a

agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós.

Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire

que me fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião

se realisasse em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me

recusasse licença para os meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o

sustento, privava os rapazes de se divertirem.

Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois

do que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de

Baliverne e encerrou-se no seu quarto.

N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a

reunião devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.me de la

Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite.

Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que

julgava não poder assistir, tornava-se agora possivel.

Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a

bella, a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o

como rival, temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que

fallasse em publico e que conquistasse a popularidade que lhe dava a sua

eloquencia. O infeliz! Impedindo Ronquerolle de n'essa noite subir á

tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era elle mesmo o causador da sua

infelicidade.

--Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a marqueza

n'essa inolvidavel noite dos «Passeios».

A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais

tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel

«maire» de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo

tempo que as lindas raparigas da cidade se divertissem com os seus

namorados, mas que pouco importava a sua ridicula e idiota firmeza pois

que breve teria de se recolher ao seu castello socegadamente a tratar da

sua vida particular.

Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la

Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente

a sua «toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda,

pegou no chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e

as botas mais elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.

Sentou-se, nos «Passeios», no mesmo banco onde a marqueza o encontrara,

recordando as tempestades da sua juventude.

O dia estivera quente mas a brisa fresca começava a murmurar por entre o

arvoredo.

Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e

o canto do rouxinol. Alguns cães uivavam nas herdades longinquas e uma

indefinivel voluptuosidade saía dos campos, dos bosques, dos valles e

descia dos céus.

--Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto que

ella venha! Mas, sem duvida, ella virá! Sinto que se aproxima! E

poder-me-ha ella enganar? Mas, porque não está ella já junto de mim?

Porque não tenho entre as minhas a sua mão mimosa, porque me encetou os

meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu

idolo?

O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua

impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma

herdade, parou.

--Soou a hora que me indicou. Estará aqui dentro de poucos momentos?

Porque não veiu já? Porque não ouço ainda o ruido do seu vestido de seda

passando na areia da avenida?

E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite,

mas não se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se

passou, hora d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez

não tivesse podido deixar o castello, e que tivessem surgido

difficuldades imprevistas que a impedissem de cumprir a sua palavra.

Resolveu esperar toda a noite. Nuvens pesadas pairavam no céu,

occultando as estrellas. Não havia luar e a escuridão da noite

tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera á brisa calma

da tarde.

D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escuridão,

Ronquerolle espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a

impacientemente, queria vel-a, correr ao seu encontro. Cêrca da

meia-noite, uma fórma occulta e mobil appareceu lá no fundo d'um caminho

orlado de macieiras.

Surgia como uma sombra na direcção dos «Passeios».

--Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza! É minha emfim!

O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz

d'uma sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle,

murmurou docemente:

--Sois vós, minha querida?

--Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?

Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto

com um espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se

tranquilisada com a presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante,

abandonando-se-lhe. Ronquerolle tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e

deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar, arrastando-a quasi.

--Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.

--Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós

imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me

amaes verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!

Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia

destruir. «M.me de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se

sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com

attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.

Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos

romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca Ronquerolle,

pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão

ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão

favoravel se lhe offerecera.

Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as

horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento

acalmara-se e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.

Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e

contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o,

admirava-o intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia

ao pensar na aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção

commovente do remorso e da felicidade.

--Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, sem

restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A

fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos

amemos. Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem

conhecerá a lei que preside ás preferencias do coração humano? Quem nos

explicará como é que nos achamos aqui reunidos na calma d'esta noite

linda, devorados pelo fogo da paixão, decididos a tudo vencer antes do

que deixarmos de nos amar, de que nos separarmos?... Oh! como sois

bella! E como vos amo!

E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto

sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se

decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que era digno da sua

ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.

--Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na

minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a

marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um

dia me mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes

que talvez tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa

lembrança? Porque foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se

me gravou na memoria? Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas

e de vos amar?...

«M.me de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas altas

espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus

pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se

comprehendiam, e que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza

d'outro, que por mais alto que fosse o amante mais alto iria a mulher

amada.

Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições

humanas se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo

dinheiro, pela vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso

pouco tempo duram e se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.

Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as

barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro,

dois entes se atraem, se encontram e se amam, este amôr profundo, é

tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida

d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo

o destruirá.

Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza

e o republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e

intelligencia e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a

existencia de «M.me de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que

elle a amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É

a planta que se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.

Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica

marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas,

separa as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja

d'outros, desapparecia aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se

entretinha a approximar e a unir n'um beijo.

Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada

«M.me de la Tournelle» que alli estava, n'este momento.

Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura

adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um

homem que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem.

O mesmo acontecia a Ronquerolle.

Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignações, nada

tinha, n'este momento, do vingador dos soffrimentos populares. Todo

entregue ao encanto d'aquella paixão, o seu coração trasbordava d'amôr,

a sua juventude brilhava, não vendo em «M.me de la Tournelle» mais do

que a formosa personalidade da belleza e da vida.

Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais

desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e

se adorarem se tinham unido debaixo do céu e jurado um amôr eterno!

--Amo-te até á loucura! dizia Ronquerolle á marqueza.

--E eu, respondia ella, amo-te até morrer!

..........................................................................

Como tinham decidido os directores do «comité», um grande banquete se

devia realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da região tinha

sido convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna

politica do sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado

o senhor bispo de Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de

Saint-Martin. Não se tinham esquecido dos grandes industriaes da

circunscripção, que dirigiam numerosos operarios e que convinha prender

por qualquer delicadeza.

Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam

chegar de todos os lados ao castello «de la Tournelle», conduzindo toda

a nobreza.

Amôres d'um deputado · 第 3 / 8 段