Ronquerolle.
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Uma grande actividade começou a desenvolver-se nos dous campos, a partir
d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre
o castello soberbo dos «de la Tournelle» e a humilde «Poule Blanche»
onde estavam hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se
apostas. Agitaram-se todas as paixões em Saint-Martin.
As proprias mulheres, se mettiam nas discussões. Muitas d'entre ellas se
mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um
bonito rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se não
organizava uma conferencia publica no theatro, um domingo, depois do
meio-dia? Ellas iriam lá. E depois, não era só isso. Tinham simpathisado
com os «tres parisienses». Eram d'este modo que designavam Maupertuis,
Branche e Didier. Estes cavalheiros diziam ellas, teem muito espirito;
conhecem a alta vida de Paris. Porque se não convidam? É necessario
deixal-os abandonados na «Poule Blanche?»
Tal era o objecto das conversações quando, no domingo, 24 de junho,
appareceu o primeiro numero do «Reveil» o jornal de Ronquerolle.
Principiava por uma apologia vigorosa do regimen republicano,
seguindo-se-lhe um pequeno artigo intitulado: «O sr. conde d'Orgefin».
N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando
as injurias que o conde proferira, terminava assim: «Por consequencia, a
redacção do «Reveil» decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado
como um tolo e convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo
na quinta feira, 28 de junho á reunião publica que se ha de effectuar em
Saint-Martin. Por sua vez, reservamos uma queda honrosa para o nosso
elegante adversario, o marquez «de la Tournelle», cujo papel na camara
tem sido até hoje egual a zero. Os eleitores julgarão depois de ter
escutado os dois concorrentes».
O artigo não levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava
esta bomba, apparecia do seu lado o «Echo de la Bourgogne» e o artigo da
marqueza, brilhando na primeira pagina com a assignatura «Phenix».
Ronquerolle era ali martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com
habilidade o seu talento d'escriptor, os inicios da sua carreira
litteraria, considerando-o apenas como um estudante.
«Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos
dignos de censura se o fizessemos chorar e tomar a serio os seus
brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripção de
Saint-Martin poderão talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje
perdoam-lhe os destemperos mas com a condição de que em breve acabarão.
Em todo o caso seria bom que lhe impozessem silencio».
Ronquerolle não se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca
se alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o.
Separou o estylo e as ideias como homem de «metier».
--Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, não é um principiante mas o
medo que lhe provoco é manifesto. A ameaça final denota despeito e
fraqueza Ah! bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei
quem tu és!
No castello houve uma discussão animada a proposito da reunião publica
annunciada. A marqueza queria por força que seu marido e o conde
d'Orgefin acceitassem o desafio dos republicanos.
O comité conservador decidiu por unanimidade que se deixassem sós os
republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunião publica. Era
por outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era
necessario operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberação
encolerizou-se extraordinariamente.
--Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas
desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a
Saint-Martin irá a essa reunião. Contam comvosco lá e vós não ides.
Ainda uma vez lembrai-vos da minha advertencia, dizei adeus á
eleição se vós proprio não defenderdes as vossas ideias!
A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as
simpathias iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido
conquistada por Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno
commercio e a burguezia, indifferentes até então, davam coragem ao
candidato republicano. Na sua colera a marqueza agarrava-se a seu marido
sem piedade, e perguntava a si mesma porque casara com esse homem, só
bom para se pavonear n'um baile ou n'uma «soirée».
--Como este Ronquerolle é ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu
fim, abertamente, sem demora, com o bom «humour» da força, com a coragem
da mocidade e com a resistencia das grandes convicções! E eu que o
ataquei com colera! eu que tentei envergonhal-o!
É um prestigio do talento, o impôr-se áquelles que merecem o nome
d'adversarios. M.me «de la Tournelle» censurava-se de ter cedido á
phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz!
Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se
sempre attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente
na vida, podem ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais
diversas, que se assemelham sempre pela honestidade superior da
conducta, pelo respeito do que é verdadeiramente grande e bello e pelo
desprezo soberano de tudo que é mesquinho, pequeno falso, venal e
baixo.
Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem
nunca terem trocado duas palavras; seguem-se por uma visão intelectual,
nas suas acções, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque
só ellas se podem comprehender. É isto que explica muitas vezes o
segredo d'essas melancholias profundas que absorvem o pensamento
completamente, d'esses sentimentos, d'essas ligações, d'esses amôres que
o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que um observador de
paixões considera naturaes e fataes.
A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o
republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era
novo, porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho
das suas obras, porque nada devia ao dinheiro, á lisonja e á intriga.
Tudo entretanto os separava, o nascimento, as ideias, a raça, a fortuna,
as relações e a sociedade em que viviam; mas á lei mysteriosa que
preside aos sentimentos humanos, agrada vencer os obstaculos e acaba
sempre por ligar os que se procuram, os que sentem a necessidade de se
amarem.
A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a
vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando
bater para os «Passeios». Estava encantadora na sua «toilette» de verão.
Agitada, contrariada na sua ambição, cheia de colera contra seu
marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do campo, de
descançar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos
bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo
galope rapido dos seus cavallos.
O retiro conhecido pelo nome de «Passeios» é um dos mais bellos logares
de Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O
rio, parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado
opposto uma cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo
tocar o ceu azul. Os «Passeios» são formados por tres avenidas
magnificas, com castanheiros e tilias centenarias. No fundo da avenida
central levanta-se uma estatua em marmore, datada do XVIII seculo e
representando Cybele. Alguns metros distante corre uma fonte rustica
mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas.
É um passeio verdadeiramente encantador feito para o amôr e para a
ambição. Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso,
abandonado durante a revolução e que, com o tempo, tombara em ruinas. As
pedras amontoaram-se, as silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas
invadiram-as, mas as arvores resistiram á acção do tempo.
A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de
quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto ás
ruinas do castello não ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas
suas economias.
Aos domingos, durante o verão os «Passeios» eram muito frequentados.
Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes davam alli
«rendez-vous» ás suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara de
marmore, passa por ter visto cousas «lindas». Á semana, pelo contrario,
era um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a pé de
Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores.
A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres á vista do rio e das
suas margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe
sentir um encanto mysterioso.
--Meu Deus! como isto é bello! murmurava.
Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello
carvalho desejava vêr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um
barco preso á margem do rio, balouçando ao capricho do vento, e desejou
sentar-se alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma
palavra, toda a sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em
presença d'essas florestas voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa
verdura que a sombra torna mais attrahente.
M.me «de la Tournelle» mandou parar a sua carruagem no principio da
grande avenida. Desceu e caminhou a pé por entre os castanheiros e as
tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar
o frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem
para regressar a Saint-Martin.
Uma vez alli, começou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada
contra seu marido.
Appoiava-se ligeiramente á sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo
exhalava, a sua «toilette», perfumando a atmosphera. Caminhava
arrogantemente, levando alta e direita a sua linda cabeça loira, olhando
para diante com uma elegante arrogancia.
Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova
e bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias,
no meio do silencio da natureza. O coração batia-lhe mais forte do que
de costume. A solidão do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza
fazia murmurar docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel
voluptuosidade.
Quando se dirigia para a fonte dos «Passeios», viu de repente n'um banco
um homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava só. Tinha os braços
cruzados sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma
meditação de tal modo que não ouvira o passo ligeiro da marqueza nem
dera pela sua presença. Tinha a cabeça um pouco inclinada sobre o hombro
e poder-se-hia acreditar que dormitava se não fosse o seu olhar vivo e
expressivo.
M.me «de la Tournelle» parou. Não ousava afastar-se nem ir mais longe.
Impressionara-se ao encontrar um homem na occasião em que se encontrava
só, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou,
portanto; mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a
sombrinha o que attrahiu as attenções do mancebo que se levantou
saudando-a.
Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos,
para meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do
seu futuro, sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir á
superficie e nos põem em evidencia como nos deixam na sombra e nos
lançam no nada.
Quando reconheceu M.me «de la Tournelle» sonhava com a poesia da
natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das
solidões e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar ás
agitações da vida publica, ás febres e ás agonias das ambições e ter uma
existencia pacifica em qualquer humilde habitação do seu paiz natal.
Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava
junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura
que a sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos
loiros nunca os esquecera!
--A senhora marqueza «de la Tournelle?» perguntou Ronquerolle.
--Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. Não o conheço! Que me
deseja?
Ao dizer isto, M.me «de la Tournelle» recuou um pouco, olhando a
carruagem que tinha ficado á entrada da Avenida. Viu-a através a
folhagem do arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza
temia ser vista pelos seus criados que acreditariam facilmente n'um
«rendez-vous,» decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o
desconhecido que lhe dirigira a palavra.
--Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crêr que não sou
para vós absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho
a confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos!
--Vós?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso
inimigo!
--O destino, dizia Ronquerolle, é verdadeiramente o deus do mundo, como
já vos escrevi, citando Schiller. É necessario aproveitar. Não fiqueis
immovel debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados
perceberão que não estaes só. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa,
onde ninguem nos poderá ver e vos direi todo o meu pensamento.
A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e
tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de
todas as vistas.
--Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a
perder-me por vós.
Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco,
contemplava-a e sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella
mulher. Não via n'ella a marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata
que desejava a volta da realesa e que sonhava uma côrte brilhante em que
triumphasse; não, ella não era para elle, n'essa hora, mais do que a
incarnação da elegancia, da juventude, da vida, do amôr, da paixão
incandescente, que queima, que devóra.
Por um phenomeno análogo, a castellã de Saint-Martin esquecia que o
homem que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os
infelizes que se revoltam, que fazem as revoluções e que prendem os reis
e os imperadores. Não pensava que esse homem incarnava o odio fatal do
pobre contra os rico, do humilde contra o poderoso, do opprimido contra
o oppressor. O que n'elle via era o talento promettedor, o enthusiasmo
da sua linda edade, a coragem do homem que luta, a poesia do ideal e da
acção, o encanto emfim d'um espirito superior e d'um coração preso ao
destino.
Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenções
imbecis da sociedade não podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a
natureza boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presença, por si
mesma, tem a sua eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem
singularmente as distancias.
--Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas não sabeis que me perderei
para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha
energia e não é d'hoje este amôr, não é d'hontem. Ha quatro annos que
viveis na minha saudade. Recordae o baile em que dançámos juntos, onde
vos tive junto do meu peito!... Recordai-vos...
--Amaes-me, vós! o orador das multidões, o republicano fogoso, o
apologista do Terror!
M.me «de la Tournelle» estava de pé e encostada á larga tilia, paternal
e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas não a occultava.
Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O
seu busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa.
--Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia
lagrimas. Se vos amo!
Fez-se silencio. A commoção impedia Ronquerolle de fallar! Sentia
desejos de tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e
pensava: como convencêl-a? Sê simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua
nobre intelligencia; era a arma mais digna para conquistar uma mulher
como aquella.
--Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a
este encanto, mas não posso. Oh! minha senhora, não misture com a minha
paixão as irritantes discussões politicas. Não pairará acima d'essas
questões, para almas como as nossas, a ideal visão do amôr? Não se
encontram os grandes corações n'esta esphera superior onde veem acabar
as disputas dos homens? Vêde! tenho um orgulho que por vezes me arrasta
e que resistencia alguma fará dobrar... appareceis-me, e estou prompto a
cair de joelhos deante de vós. Está domado o meu orgulho? Certamente
não, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos e parece-me que lá nos
amaremos.
... Não pensaes assim? Sei-o bem, não me enganei comvosco: o mundo ideal
a que aspira a vossa alma não tem nada de commum com as infamias,
com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e dos
partidos. Vá, respondei, senhora! Não disse eu a verdade?
Ao terminar, Ronquerolle ousou approximar-se, quasi tocando na marqueza.
Appoiava-se, como ella, á velha tilia e esperava resposta.
--Escuto-vos, senhor, e sinto-me perturbada. As vossas theorias
parecem-se ás flôres do Oriente cujo perfume muito forte enerva os que o
respiram.
--Não me amaes? perguntou Ronquerolle com a voz perturbada.
--Elle duvida ainda! respondeu a marqueza, empallidecendo.
Ao escutar estas palavras Ronquerolle tomou-lhe a mão que uma luva
finissima calçava e levou-a aos labios. A marquesa retraiu-se e quiz
escapar-se.
--Por favor, uma palavra para acabar! disse elle. Onde e quando vos
voltarei a ver?
A marqueza hesitou, sentia-se embaraçada para responder. N'este momento
os cavallos da sua carruagem relinchavam de impacientes; finalmente
fugiu a Ronquerolle, dizendo:
--Aqui, d'hoje a tres dias, ás dez horas da noite.
Ronquerolle viu-a partir e escutando o ruido do seu vestido de seda, o
«frou-frou» harmonioso de toda a sua «toilette», custava-lhe a acreditar
na sua felicidade.
Quando escutou o ruido da portinhola da carruagem que o trintanario
fechava, quando viu a carruagem desapparecer a caminho de
Saint-Martin entre uma nuvem de pó, pareceu-lhe que a terra girava por
todos os lados e que o ceu ia sair-lhe do peito.
Durante muito tempo olhou a carruagem que dous cavallos ageis
arrastavam. Quando emfim ella desappareceu n'uma volta do caminho,
voltou a sentar-se sobre o banco solitario em que M.me «de la
Tournelle» o tinha surprehendido no meio dos seus sonhos e das suas
doces illusões.
--Dentro em tres dias voltarei a vêl-a; dentro em tres dias será minha.
Ó delicia! Ó felicidade inesperada! E já antecipadamente, escutava os
transportes da sua paixão, a alegria dos novos amôres. De repente bateu
na testa e empallideceu.
--Mas, d'aqui a tres dias, á noite, ha uma reunião eleitoral em
Saint-Martin. Não posso enganar-me pois que fui eu que convoquei os
eleitores... Que fazer?
Ronquerolle acreditou por momentos que M.me «de la Tournelle» lhe
tivesse pregado uma peça. Ella conhecia a data e a hora da reunião
publica já publicadas no «Reveil». Quereria ella d'esta fórma pôr á
prova o amôr de Ronquerolle, forçando-o a sacrificar a sua palavra de
homem politico? Quereria ella rebaixal-o para com os eleitores e tentar
destruir a sua influencia em proveito da sua causa? Emfim, terá fallado
sem calculo algum e o «rendez-vous» que lhe marcou, na sua coindencia
com a reunião de Saint-Martin, não passaria d'um acaso que por vezes
tanto nas grandes como nas pequenas coisas, se torna um obstaculo ás
vontades do homem?
Ronquerolle não sabia que pensar.
IV
_O barão de Quérelles_
Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o barão
de Quérelles a Saint-Martin. Como dissemos já, era o unico inimigo da
marqueza por causa do despreso a que ella votara a sua paixão.
Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados á
escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe
enchia o cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente
até conseguir o seu fim e se o não conseguisse era por que ninguem o
poderia conseguir.
Com trinta e cinco annos, rico, este «petit baron» tinha tido uma paixão
louca pela marqueza «de la Tournelle» quando ainda era apenas M.elle
Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes,
o seu maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e
inteligente mulher por esposa.
A orgulhosa Carlota ria das suas pretenções.
--Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava em
conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão
baixo que se torna ridiculo.
No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um
contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os
homens não se mediam aos palmos.
Infelizmente para elle, M.elle de Champeautey não se via obrigada a
debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la
Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A
repugnancia d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica
personagem que era «Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do
marquez.
--Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.elle de Champeautey quer
desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá.
O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu
departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos.
Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para
Saint-Martin onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des
Quérelles» tinham sido até então conservadoras se bem que com uma certa
tendencia liberal. A côr de conservador era uma tradicção na sua casa de
fidalgo, mas o seu espirito, moderno e liberal, não desdenhava em
admittir as modernas theorias democraticas.
Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se
fazia, reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer
dos republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se
desprezava em comer á mesa dos operarios quando para isso se
offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.
Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os
seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e
deputado.
--É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um
estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em
como não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito
de ortographia é um ignorante.
A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr
proprio e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira
de se vingar d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha
acalentado durante tantos annos.
--Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que
eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos
que vão ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao
novo deputado Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa
isso. É necessario a todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la
Tournelle» perca a eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah!
sr.ª marqueza, despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta
vez virá implorar a paz e então entabolaremos as condicções.
Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara,
ainda, á sua ultima esperança em commover o coração da mulher que
elle tão extraordinariamente amara.
Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda
a esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez
podesse um dia fazer d'ella sua amante.
--Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe
dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após
o seu casamento com esse estupido marquez.
Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se
sobre os elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.