Produced by Pedro Saborano
IV--Colecção Diamante
HIPOLITO BUFFENOIR
Amôres d'um deputado
Guimarães & C.ª editores--Lisboa
Amôres d'um deputado
_Composto e imprenso na Imprensa
de Manuel Lucas Torres
Rua do Diario de Noticias, 93_
COLECÇÃO DIAMANTE
_Hipolito Buffenoir_
Amôres d'um deputado
_Trad. de A. Ferreira_
1911
Guimarães & C.ª--Editores
68, R. do Mundo, 70
LISBOA
I
_O café Tabourey_
--Paga oito «sous»! gritou Carlos, o moço do café Tabourey, dirigindo-se
á menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento, exercendo o
logar de «caixa», e acompanhando o grito do lançamento d'uma moeda de
cincoenta centimos sobre o marmore d'um pequeno balcão.
A rapariga guardou a moeda e deu-lhe o troco de dois «sous», que Carlos
fez cahir sobre uma meza do fundo onde um freguez se achava escrevendo
uma carta.
--Oito e dois dez! resmungou o moço do botequim, tirando um prato e uma
chavena que se achavam sobre a meza.
--Está bem, guarda o resto para ti! retorquiu suave e tristemente o
freguez, mal erguendo os olhos da carta que estava terminando.
O relogio collocado quasi junto do tecto da casa, embutido mesmo nos
ornatos da cimalha marcava dez horas e vinte e cinco minutos e o
freguez do café Tabourey olhando-o, melancholicamente, suspirou e pensou:
--Decididamente, não veem esta noite; levanto a sessão!
Ainda se demorou alguns minutos procurando na meza do centro, entre um
monte de jornaes, o «Soir» e não o encontrando, dirigiu-se á menina
Amelia Dufer, entregando-lhe a carta que acabava de escrever.
--Se esses senhores vierem, a menina faz-me o favor de entregar esta
carta a Maupertuis, sim?
--Com todo o gosto, sr. Ronquerolle, respondeu, amavelmente, a joven
Amelia, esboçando um gracioso sorriso, completamente perdido, porque o
seu interlocutor havia já desapparecido na rua Vaugirard.
N'aquella noite, Ronquerolle, que se sentira invadido por um
aborrecimento maior que de costume, tomara uma importante resolução.
Decidira voltar á sua terra natal, ha tanto tempo esquecida, e a carta
que elle entregara á menina Amelia Dufer, ao sahir do café Tabourey,
dizia o seguinte:
«Meus amigos:
Porque não vieram esta noite? Esperei-os durante muito tempo. Tenho
necessidade de os ver. Vou partir para a Borgonha.
«Estou cheio de tristeza.
«Vosso amigo,
«Maximo Ronquerolle».
Ás onze horas, os amigos de Ronquerolle aos quaes aquella carta era
dirigida e que, após o jantar tinham resolvido dar um passeio pelos
«boulevards» voltavam ao Bairro Latino, entrando no seu café predilecto,
pensando, e com razão, que Ronquerolle, se já ali não estivesse, lhes
teria deixado o que elles vulgarmente chamavam as suas «instrucções».
Entretanto, o que mais desejavam era vel-o porque tinham a dar-lhe uma
importante noticia.
Estes rapazes chamavam-se Jayme Maupertuis, Feliciano Didier e Emilio
Branche. Eram, como Maximo Ronquerolle, poetas, jornalistas e politicos.
Pobres, quasi desconhecidos, procuravam ser alguma coisa e para esse fim
corriam em busca da fortuna e da gloria. Todos os quatro eram republicanos.
Tinham feito excellentes estudos na provincia, e aos vinte e vinte e
cinco annos haviam partido para Paris, com grandes receios das suas
familias, que os consideravam perdidos, no movimento e confusão da
grande capital.
Socegados na apparencia, eram quatro enthusiastas. A imaginação junta a
uma clara intelligencia, eram as qualidades predominantes de todos elles.
A sua conducta era irreprehensivel. A amizade que os unia era profunda.
Estimavam-se, adoravam-se mutuamente.
Ronquerolle e Maupertuis tinham-se conhecido na provincia, na sua terra
natal, na Borgonha. Travando relações, de creanças, aos quinze annos,
durante os dez que se seguiram tinham-se perdido de vista até que se
haviam reencontrado em Paris, graças á «Revue des Poétes», que publicava
versos de ambos.
Didier e Branche eram do norte. Viviam como dois irmãos. Uma bella
manhã, juntos haviam deixado Lille, e juraram á sua entrada em Paris, de
sempre ahi continuarem a viver juntos e de juntos tambem seguirem a
carreira, que a sorte a qualquer d'elles deparasse.
Hospedados no hotel «Lisbonne» da rua Vaugirard, em pleno Bairro Latino,
ali encontraram á mesma meza, Ronquerolle e Maupertuis. Uma grande
sympathia se estabeleceu rapidamente entre esses quatro rapazes, que em
poucos minutos comprehenderam que os movia o mesmo pensamento, a ambição
e o desejo vehemente d'uma absoluta independencia.
Na occasião em que o leitor trava conhecimento com os quatro mancebos,
conheciam-se elles ha dois annos. Os primeiros tempos da sua franca e
leal camaradagem, tinham sido encantadores. Haviam comunicado os seus
pensamentos, os seus projectos de futuro, enthusiasmando-se mutuamente,
lendo os seus versos e conversando sobre os seus amôres, pois que cada
um d'elles tinha a sua amante.
Chegados ao café os tres amigos de Ronquerolle, receberam a carta que
este ali lhes deixara encarregando-se da sua leitura Maupertuis, que do
seu contheudo deu conhecimento aos seus companheiros Didier e Branche.
--Vamos depressa! disse Branche, que tinha por Maximo uma verdadeira
adoração.
Um quarto de hora depois, os quatro amigos achavam-se reunidos em casa
de Maximo Ronquerolle, que habitava no «boulevard» Montparnasse.
--Já sabes da novidade? perguntou Maupertuis.
--Qual novidade?! disse Ronquerolle surprehendido.
--Sahiu o decreto.
--Um decreto!?
--Pergunta a Didier e a Branche!
--É verdade! ajuntaram estes.
--Trouxe-te o numero do «Soir», que trata do assumpto, disse Branche.
Aqui tens, lê, nas ultimas noticias.
Com effeito Ronquerolle leu um decreto do Presidente da Republica,
convocando os eleitores para reunirem em 15 de julho.
Ronquerolle, pallido de commoção, conservou-se um momento ancioso.
É que elle sabia que aquella data, marcada para as eleições de
deputados, poderia ter grande importancia na sua vida. Para elle esse
dia seria decisivo, na sua existencia, d'aquelles cuja aproximação faz
tremer o homem mais corajoso, causando-lhe calafrios.
--E então, que me dizes do decreto? perguntou Maupertuis.
--Digo-te, respondeu Ronquerolle, que elle me indica, que tenho a
dizer-lhes coisas muito graves. Assentem-se que temos que conversar.
Os trez amigos de Maximo acceitaram o convite e emquanto Ronquerolle foi
buscar uns papeis guardados n'um movel proximo, esperaram anciosos que
elle falasse.
De volta para junto da mesa perto da qual se achavam os seus amigos
Ronquerolle lançou os papeis sobre a sua secretaria e aproximando o seu
candieiro de trabalho e tomando uma cadeira, disse rindo:
--Está aberta a sessão!
Então Ronquerolle contou aos seus amigos que havia algum tempo estava em
relações com o «comité» republicano de Saint-Martin, na Borgonha; que os
membros d'esse «comité» lhe tinham offerecido a candidatura por aquelle
districto, e que elle havia demorado a resposta até ao dia em que o
decreto relativo ás eleições fosse publicado.
--Explendido! gritaram ao mesmo tempo os trez amigos. Bello! O decreto
sahiu. Não ha que hesitar, acceitas!
--Mas eu hesito ainda; e se lhes pedi para virem aqui esta noite, foi na
intenção de lhes falar d'este negocio e de lhes pedir conselho.
E Ronquerolle tornou conhecidos dos seus amigos os documentos relativos
á futura eleição por Saint-Martin. Tratava-se de lutar, em nome da
Republica, contra o marquez de la Tournelle, que representava ali as
ideias reaccionarias, e que seria approvado por todos os fanaticos do
throno e do altar.
--Mas isso é encantador, exclamou Maupertuis, farás desapparecer o tal
marquez como uma simples bolinha de prestidigitador; e entrarás na
Camara como uma bala de canhão.
--Não me embriaguem com palavras, disse Ronquerolle desenhando-se-lhe
no rosto uma nuvem de tristeza. Não vá eu contar com a victoria e me
aguardem as desillusões. A lucta será encarniçada, terrivel. O marquez
possue influencia, é rico, pode vencer...
--Ora adeus! interrompeu Didier. Todo o districto de Saint-Martin se
impressionará com a tua embriagadora eloquencia, inflamarás todas as
intelligencias com os teus discursos, e no dia da votação, o teu nome
victorioso sahirá das urnas.
--E depois, accrescentou Branche, que amava mais Ronquerolle do que a um
irmão, tu imaginas que vamos deixar-te combater sósinho?! Reclamamos
tambem a nossa parte na lucta; proponho que partamos comtigo para a
Borgonha, tomando a cidade de Saint-Martin, como nosso quartel-general,
da qual faremos fogo, de quatro barricadas, afim de reduzir á expressão
mais simples sua excellencia o marquez de la Tournelle e todas as jovens
e velhas devotas, que, estou certo, correm já por montes e valles
trabalhando a favor da candidatura de tão alta personagem!
Uma formidavel gargalhada saudou a arrogante phrase de Emilio Branche, e
o proprio Ronquerolle foi obrigado a acompanhal-a olhando o seu amigo.
Depois de duas horas de discussão, ora calma ora ruidosa, ficou decidido
que Ronquerolle acceitaria a candidatura que lhe era offerecida, que
Branche, Didier e Maupertuis deixariam Paris durante o periodo
eleitoral, e que iriam a Saint-Martin auxiliar o seu amigo, e que, sendo
necessario fundariam um jornal de combate.
Ronquerolle mais pallido ainda que do costume, estremecia de satisfação
ao pensar que o seu nome ia sahir da obscuridade, e que ia achar-se
envolvido nas luctas politicas do seu paiz. Assaltava-o já o desejo, de
se encontrar, elle, filho d'um humilde artista borgonhez, em frente
d'esse arrogante marquez de la Tournelle, provando-lhe que os filhos dos
proletarios tinham mais sangue nas veias, que os filhos e os netos dos
emigrados de Coblentz, entrados em França nos carros de mercadorias do
estrangeiro.
Provava assim possuir o legitimo orgulho dos homens seguros da sua
consciencia e do seu valor e o desejo de ajudar generosamente os seus
amigos, fazendo-os saltar os obstaculos, que os impediam de obter uma
posição que lhes permitisse chegarem até onde a sua justa ambição os
attrahia.
Não era só por si que Ronquerolle ambicionava uma situação, era por
Maupertuis, Branche e Didier. O primeiro a chegar ao ponto desejado
devia estender a mão aos outros, e, decerto, não era Ronquerolle dos que
poderia esquecer os companheiros dos dias difficeis da mocidade.
Era uma hora da manhã quando os quatro rapazes se separaram.
Encontrando-se no «boulevard» Montparnasse, os amigos do poeta,
preocupados com os acontecimentos que iriam dar-se, guardaram silencio.
A noite estava magnifica. Uma brisa suave trazia á grande cidade os
vivificantes perfumes dos bosques de Ville-d'Avray, de Sèvres, de Meudon
e de Clamart. Alguns trens percorriam ainda os arruamentos e só
elles turbavam o socego d'aquelle bairro de Paris.
Chegados á encruzilhada do Observatorio, Maupertuis, Didier e Branche
voltaram a conversar animadamente.
Intimamente, porém, sentiam-se tristes.
--Uma nova existencia vae começar para nós, disse Maupertuis, uma vida
de discordias, de combates, de lucta. Podemos dizer adeus á bella
tranquilidade dos nossos vinte annos!
--E o que faremos das nossas amantes? acrescentou subitamente Didier.
--Daremos a liberdade a essas gentis avesitas, disse Branche, e não as
lamentemos que ellas saberão orientar-se no paiz do amôr. Voces bem
comprehendem, que não podemos preocupar-nos com saias durante o periodo
eleitoral.
--Poderiamos talvez, interrompeu Maupertuis, envial-as para casa de seus
paes!
--Tu falas bem! tornou Branche; infelizmente ignoramos a sua morada.
--Porém, Ronquerolle, accrescentou Maupertuis, não poderá, tão
facilmente como nós, desfazer-se da sua amante. Trata-se d'uma ligação
séria. O que será de Emilia sem elle?
--Meus filhos, disse Branche com ares paternaes, guardemos para amanhã a
continuação da palestra, e vamos deitar-nos. A discussão fica suspensa.
E os trez amigos separaram-se.
Entretanto Ronquerolle, após a sahida dos seus amigos, encontrando-se no
seu modesto gabinete de trabalho apressou-se a tomar algumas notas,
sobre o que se passava, e entrou no seu quarto.
Julgando encontrar a amante adormecida, avançou com precaução para não a
despertar. Qual não foi porém o seu espanto, quando a encontrou
embrulhada n'um «robe de chambre», sentada n'uma cadeira e chorando
copiosamente.
--Que tens tu? disse Ronquerolle, aproximando-se e tomando-a nos braços.
A pobre rapariga soluçava perdidamente, e não podia articular palavra.
Comtudo, como o amante a enchia de perguntas e a envolvia em caricias,
acabou por dizer-lhe que tinha ouvido toda a conversação que elle tivera
com os seus amigos, e que bem reconhecia que a legitima ambição de
Ronquerolle, era uma ameaça á sua felicidade, que seria a separação de
ambos, para sempre talvez.
E essa incerteza, era terrivel para ella, que apenas podia receiar e
chorar.
--Creança, disse ternamente Ronquerolle, porque duvidas de meu carinho?
Não sou o teu amante, o teu melhor amigo? Por ventura, depois de trez
annos, que vivemos juntos, alguma vez te menti, te enganei, te abandonei
um dia, uma hora?...
Tentava animal-a, mas a duvida e o receio haviam ferido a alma sensivel
da pobre Emilia, e tornar-se-hiam mais vivos á medida que se fossem
desenrolando os acontecimentos, que tão fortemente interessavam a
Ronquerolle.
A amante do novo candidato a deputado, era uma rapariga de vinte e trez
annos, de cabellos louros, olhos azues, d'um azul encantador, figura
insinuante, bem talhada, seio proeminente mas sem exageração.
Adorava a Ronquerolle a encantadora Emilinha.
Tinham-se conhecido por forma um tanto ou quanto original.
Haviam frequentado ambos o curso d'um professor celebre da Sorbonne.
A joven Emilia ia ali acompanhada d'uma tia velha, á qual os seus
parentes, que viviam na provincia, a tinham confiado.
Os amôres do joven republicano e da sensivel Emilinha, tinham começado
com o aspecto d'um idylio innocente, e havia tido por moldura o jardim
do Luxembourg.
Que de encantadores passeios não realizaram Ronquerolle e a linda
rapariguinha sob as arvores que ensombram a fonte de Médicis!
Que de ternas discussões elles não prolongaram percorrendo a Avenida do
Observatorio!
Que de alegres pensamentos, não os assaltaram ao atravessarem o
arvoredo, por entre as aleas floridas, ou quando sentados nos bancos de
marmore, onde ficavam horas esquecidas, a falar do seu futuro, dos seus
projectos, dos seus sonhos de felicidade!
Toda a força da juventude os aquecia. Um cantico de mocidade cheio de
vida, perpassava por elles.
Um dia juntaram-se as mãos e apertaram-se com transporte. Depois,
Ronquerolle, era natural, atreveu-se a beijar a sua linda companheira, e
finalmente deixando o curso do tal professor da Sorbonne, no proprio
dia em que elle, eloquentemente, dissertava sobre os encantos dos amôres
platonicos, Ronquerolle conduzia Emilia á sua habitação e fazia da pobre
pequena sua amante.
Desgostos, inquietações e lagrimas tinham já acompanhado essa ligação
durante os seus trez annos de existencia. Mas nas edades de Ronquerolle
e de Emilia, esquecem-se facilmente as miserias da existencia, as
angustias da pobreza, os tormentos da ambição, e as calumnias dos vis e
dos preversos.
Agora porém Emilia, conforme avançavam os dias e os mezes, sentia
avolumarem-se, desenvolverem-se os receios de ser obrigada, por
circunstancias imperiosas, a deixar o amante.
Previa, com o maravilhoso instincto da mulher que ama, que um homem como
Ronquerolle seria envolvido no turbilhão do mundo, que a sua ambição o
prenderia completamente, e que ella, pobre flôr colhida de passagem, no
caminho da vida, depois de quebrada, perdida, seria abandonada á sua
dôr, ao seu desespero.
Empallidecia e estremecia de commoção quando ao passar por uma egreja,
via descêr, ou subir, para uma carruagem uma noiva toda casta e
lindamente vestida de branco, coroada de flôres de larangeira. Tambem á
pobre Emilia seria grato, transpor assim as naves do templo, e ali
receber o sagrado annel de casamento.
Ronquerolle podia esposal-a, é verdade, a mais ninguem ella havia
pertencido. Para elle era ella uma mulher honesta; para elle devia
ella ser digna de usar o seu nome.
Por vezes ella tinha a illusão de que a sua ligação seria santificada,
mas pouco depois o seu intelligente espirito abraçava tristes ideias e
tinha então o presentimento do futuro, glorioso para Ronquerolle,
obscuro e desgraçado para ella. E esse devotado coração de mulher,
verdadeiramente amante, preparava-se já para o sacrificio, em favor
d'aquelle a quem tanto amava.
Emilia tinha ouvido toda a conversação de Ronquerolle com os seus amigos
Maupertuis, Didier e Branche. Soubera que o amante ia deixar Paris,
partindo para a Borgonha, e o seu coração palpitara com mais força, com
violencia.
Tinha visto com as mais sombrias côres o futuro que a sorte lhe
reservava e por isso chorava.
--Não chores assim, supplico-te! disse-lhe Ronquerolle, olhando-a
ternamente. Commoves-me profundamente com as tuas lagrimas. O que pode
affligir-te assim?!
--Julgavas-me adormecida e no entanto eu estava acordada, respondeu Emilia.
Conheço os teus projectos e os dos teus amigos. Ouvi o que disseram ha
pouco.
O que te causa tanta alegria, entristece-me, porque é o fim d'esta nossa
ligação que surjirá dos acontecimentos aos quaes vaes entregar todos os
teus pensamentos, a tua existencia.
--Creança! retorquiu Ronquerolle, pois é esse o motivo da tua tristeza e
das tuas lagrimas! Tu bem sabes que nunca te abandonarei! Vamos, socega!
Pensa na tua bella mocidade: e dize bem alto que te amo e que te hei
de amar sempre com toda a força do meu coração!
Estas palavras, pronunciadas com uma sincera convicção, abrandaram um
pouco as inquietações de Emilia, mas no seu pensamento ficara uma nuvem
de amargura e de pezar.
Ronquerolle, por seu lado, embora a sua audacia, a sua energia e a sua
poderosa vontade, estremecia ao pensar na brutal realidade dos factos,
realidade de que elle se queria aproximar, que precisava abraçar, que, a
todo o custo, precisava vencer.
A amante cançada por fim das commoções soffridas, adormecera. E elle,
sentado perto do leito, perto d'uma pequena meza, e á luz, d'uma
lampada, tendo a cabeça encostada ás mãos, parecia recolhido n'uma
dolorosa meditação. O seu olhar brilhava e não mudava de direcção
Relembrava as palavras do grande poeta inglez Shelley;
«O mundo é feio e mau.» Via-se a caminhar pelas estradas e atalhos, de
Saint-Martin, de aldeia em aldeia para fallar da Republica, aos
cidadãos, aos trabalhadores, aos homems do campo.
N'alguns momentos, o seu pensamento mudava de objectivo e olhava a
amante adormecida. A cabecita loura de Emilia reclinara-se para o lado
do amante. Transportes d'amôr enchiam então o coração do joven
republicano e pensava, recordando ainda Shelley:
«Não, não! Nem tudo é feio! Nem tudo é mau n'este mundo! Tomo por
testemunha esta creança, que dorme aqui perto de mim, este seio que se
eleva e abaixa, respirando vida, estes bellos cabellos louros soltos
lindamente, e a que os raios da luz d'esta lampada dão reflexos dourados...
II
_O marquez e a marqueza de Tournelle_
A pequena cidade de Saint-Martin, na Borgonha, conta seis mil
habitantes. É uma linda e graciosa sub-perfeitura que tem os seus ares
de praça forte, com as suas antigas muralhas, a sua guarnição e
sobretudo pelo seu velho castello, dominando a cidade e recordando os
tempos do feudalismo. Este castello é habitado desde tempos immemoriaes
pela familia «de la Tournelle», que tem nos seus brazões a corôa de
marquez.
Os «de la Tournelle», durante muito tempo, foram os senhores da região.
No tempo da Revolução, e nomeadamente durante o Terror, o seu poder
decahiu muitissimo; porém quando Bonaparte se apoderou do throno e se
fez imperador, readquiriram o seu antigo prestigio, graças ás habeis
generosidades diffundidas na região e mais especialmente na
circunscripção de Saint-Martin.
No momento em que se desenrolam os factos que relatamos, o marquez
Sergio de la Tournelle considerava mais do que nunca, esta
circunscripção de Saint-Martin como um feudo que, sem duvida alguma, lhe
pertencia. «Maire» da cidade, conselheiro geral e deputado da direita,
não poderia affrontar os seus inimigos?
Além d'isso, era digno de ouvir-se, quando fallava do pequeno grupo de
republicanos que se agitava na sua circunscripção. Chamava a esses
bravos democratas, assassinos, patifes, dignos de serem enviados para
Cayenna, canalha sempre embriagada, frequentando os antros do deboche e
insultando os padres.
No entanto, as ultimas eleições municipaes tinham mandado trez d'estes
«assassinos» a tomar o seu logar na «mairie», ao lado do sr. marquez, e
o senhor «de la Tournelle» tinha d'isso um vivo despeito.
A marqueza de la Tournelle, Carlota Maximiliana de Champeautey, era uma
mulher d'um bello aspecto e immensamente seductora. Tinha trinta annos,
sendo mais nova quinze annos que seu marido. Era bella e forte. Trazendo
sempre a cabeça arrogantemente erguida, o seu peito, extraordinariamente
desenvolvido nada tinha d'exagerado, por causa da sua elevada estatura.
Os cabellos castanhos claros, os olhos azues, as mãos finas com os dedos
alongados, os pequeninos pés, completavam o arsenal das suas graças
femininas. Além d'isso, amava os perfumes, a «toilette» e dava leis ás
grandes elegantes como as adoraveis mulheres do XVIII seculo. Era
amavel para todos, ainda mesmo para os humildes e os pequenos.
Finalmente, não se poderia vêl-a sem logo a amar. A bella Carlota não
tinha um inimigo, exceptuando talvez o barão de Quérelles, um
conquistador desprezado, que tinha jurado não morrer sem se vingar dos
desdens da altiva aristocrata. O barão vinha rarissimas vezes a
Saint-Martin, mas estava ao corrente de todos os acontecimentos da
pequena cidade.
A marqueza tinha no coração, ou antes na cabeça, uma paixão deveras rara
entre as mulheres. Era ambiciosa.
Tinha tentado fazer de seu marido um alto personagem, dar-lhe o
prestigio superior da vontade e da energia. Porém o marquez «de la
Toumelle» pertencia á raça dos mediocres, terminando a marqueza por ter
compaixão d'elle. O marquez era um bello homem, muito elegante no seu
porte, muito bom cavalleiro, bom valsista, bom caçador, conversador
agradavel ainda que futil, mas incapaz de empregar, por seu proprio
esforço, a actividade necessaria, e de seguir a um fim com tenacidade.
Era vaidoso, mas ignorava o poder do orgulho. Tinha uma grande confiança
em sua mulher e não tomava qualquer resolução sem a consultar. Elle era
só quem dispunha dos altos cargos da circunscripção, só elle se
offerecia aos suffragios dos eleitores. Quem ousaria disputar-lhe a
victoria? Deputado em evidencia, proprietario respeitado, dispondo d'um
jornal, tendo ás suas ordens um «comité» das pessoas mais elevadas da
cidade, batia o seu concorrente completamente, se acaso um se
apresentasse, se bem que sabia, dizia elle, que ninguem havia tão tolo
que contra elle aceitasse uma candidatura.
--Ah! os cobardes! os amotinadores! gritava uma tarde na janella do seu
castello, fallando dos republicanos, e dirigindo-se ao presidente do seu
«comité»: Elles que nada teem, que são pobres como Job, fallam em ser
senhores! Pois bem! onde está o seu candidato? Que appareça! Vamos,
mostrae-m'o raça de biltres!
Ao pronunciar estas palavras, o marquez estendia os braços no espaço,
ameaçando com um gesto o café da «Poule-Blanche», logar da reunião
habitual dos republicanos de Saint-Martin.
A noite cahia lentamente. Lá em baixo, um ultimo raio de sol dourava
melancholicamente o cume do monte. Era uma d'estas tardes de junho que
enervam a alma e os sentidos. O marquez olhava a cidade, os logarejos,
as aldeias perdidas no horizonte longinquo e ondas d'uma vaidade
insaciavel lhe subiam ao coração ao pensar que o seu nome dominava na
região, como as torres do seu castello dominavam as choupanas da
visinhança. Um sorriso de satisfação lhe animou o rosto e teve palavras
d'espirito para se rir dos seus inimigos. Quando estava completamente
absorvido no pensamento da sua estrella feliz, o seu creado de quarto,
Lapierre, tomou a iniciativa de lhe levar os jornaes que acabavam de
chegar de Paris. Rasgou, com um gesto brusco, a cinta que envolvia o
«Figaro» e passou rapidamente para a segunda pagina para consultar as
noticias dos departamentos e das eleições. Os seus olhos cairam
immediatamente sobre estas palavras em normando: *Borgonha*,
«circunscripção de Saint-Martin.»
Leu soffregamente a seguinte noticia:
«Escrevem-nos de Saint-Martin, que dois «candidatos se propõem por
aquelle circulo, o sr. marquez de la Tournelle conhecido deputado,
representando o partido conservador, e o sr. Maximo Ronquerolle
publicista, candidato do «comité» republicano. A lucta, diz-se, será
violenta. Temos, porém, todas as razões para acreditar que «o sr.
Marquez de «la Tournelle» baterá o seu adversario.»
--Ah! ah! ah! riu o marquez; a graça não está má.
Em seguida, dirigindo-se á galeria, chamou muitos dos seus amigos que
estavam no salão e leu-lhes a noticia que acabava de ler no «Figaro».
--Como, diz o conde d'Orgefin, presidente do «comité» realista, esse
Ronquerolle ousa apresentar-se aqui! É um homem sem valor, escoria de
Paris, um revolucionario, um escrevinhador. Conhecêmol-o creança a esse
senhor! Usava uma blusa e tamancos. Creio mesmo que seus paes mendigavam...
--Não, disse o marquez, tornando-se sério, o pae Ronquerolle era pobre,
mas ganhou sempre honradamente a sua vida. O bom homem era um dos nossos
fieis eleitores. Vinha algumas vezes ao casteilo pedir-me conselhos e
fui eu quem em tempos o levou a fazer instruir seu filho. Estou bem
recompensado! O creançola cresceu e é elle quem nos vae dar combate,
meus senhores!
--Mas não é um adversario sério, replicou o conde d'Orgefin; é uma
creancice! Quem é o senhor Maximo Rouquerolle? Não existe. Os
republicanos de Saint-Martin deviam pelo menos oppôr-nos um homem de
valor e não um fedelho, um ninguem, um cidadão Ronquerolle!
Riram todos muito. Lapierre, o creado de quarto, tinha assistido a esta
scena, esperando ordens do seu senhor.
--Está bem, diz-lhe o marquez, manda atrelar o break maior. Eu e estes
senhores sairemos hoje para fóra da cidade, para Sennevel... Ah! espera,
Lapierre, leva o «Figaro» á senhora marqueza. O criado tomou o jornal e
retirou depois de saudar o marquez.
--Pobre Maximo! murmurava por entre os dentes, atravessando um corredor,
como estes tratantes te tratam! Está descançado, que eu te ajudarei com
as minhas fôrças a destruir esta nobreza. E isto simplesmente porque
outr'ora fômos camaradas na escola...
Lapierre foi interrompido no seu monologo pela campainha electrica. Ao
mesmo tempo, a marqueza atravessava a galeria que confinava com a escada
d'honra do castello. Ia passear um pouco pelo jardim antes que a noite
descesse completamente. O criado entregou-lhe o jornal. Apenas o abriu
os seus olhos cairam sobre a nota relativa á eleição de Saint-Martin.
Ao lêr o nome de Maximo Ronquerolle, publicista, a marqueza
empallideceu, murmurando:
--Meu Deus! seria elle? será possivel: Sim, sim, chama-se Maximo, como
eu Maximiliana, recordo-me. É elle que vae chegar?
A commoção da marqueza era tão forte, que as suas mãos finas se
humedeceram, como se tivesse febre; em logar de ir passear, como
tencionava, no jardim, voltou aos seus aposentos onde se deixou cair
n'um «fauteuil».
Passado um instante, levantou-se sem fazer ruido e offegante, como uma
criminosa, temendo que qualquer dos seus criados a viesse surprehender,
abriu uma pequena secretaria e tomou um cofre de que só ella possuia a
chave, indo sentar-se junto da janella. A tarde tinha caido
completamente. Um ultimo raio, como diz André Chenier, animava ainda o
fim da tarde, mas as trevas do crepusculo invadiam toda a natureza. A
marqueza affastou as cortinas da janella; á luz do ultimo raio de sol
que desapparecia, pôde reler uma carta que estava no cofre e que tinha
esta assignatura: «Maximo Ronquerolle.»
Era uma carta d'amôr e d'amôr apaixonado. Os versos misturavam-se com a
prosa e o signatario falava d'uma tarde, d'um baile parisiense onde
tinha dançado com madame de la Tournelle...
«Oh! porque vos vi eu? dizia a carta. Porque senti eu bater o vosso
peito junto ao meu n'esse baile onde me levou o destino, esse Deus do
mundo, segundo o pensamento de Schiller? Penso constantemente em
vós, é a saudade por vós que me alenta. Não vivo, não aspiro senão á
vossa belleza».
Depois, impellido pelo lyrismo da sua paixão, Ronquerolle, ia até á
intimidade da marqueza, cantando a sua formosura hellenica em estrophes
d'oiro.
Os seus lindos olhos azues o seu porte altivo e distincto d'uma plastica
impecavel, o seu amôr ardente, tudo alli cantava em arrobos d'amôr e
d'enthusiasmo.
M.me de «la Tournelle» teve um estremecimento ao lêr de novo esses
versos. Com effeito, lembrava-se d'um rapaz com quem uma vez tinha
dançado, havia quatro anos e que, no dia seguinte, ousara escrevêr-lhe,
fazendo-lhe uma declaração d'amôr ardente... Porque guardara ella essa
carta que a podia comprometter? Porque a não rasgara e lançára ao fogo
como fizera a tantas outras produzidas pela sua belleza explendorosa?
Porque tremia, ao lêr de novo uns versos, escriptos outr'ora por um
desconhecido que perdêra de vista no grande mar da vida parisiense?
Mysterios do coração que nem mesmo os grandes sabios descobrem.
Enigmas do sentimento que zombam das investigações mais cuidadosas.
Talvez, no fundo da sua alma, a bella Carlota sentisse uma alegria
intima, e como que occulta, de ter inspirado uma paixão tão violenta e
tão sincera como a que sentia Ronquerolle! Talvez que os versos do joven
poeta, com o seu rythmo harmonioso, lhe recordassem o doce encanto d'uma
valsa preferida! Talvez que a audacia de Ronquerolle lhe não tivesse
desagradado, e admirasse a sua temeridade corajosa, o enthusiasmo da sua
juventude!
A noite espalhava-se por toda a parte e ella ficara recostada no seu
«fauteuil», com a luz apagada.
A escuridão favorecia o seu sonho e, apertando entre as mãos a carta,
murmurava, distraida, os versos de Ronquerolle.
E era elle, esse terrivel democrata, cuja canditadura os jornaes
anunciavam em opposição á de seu marido! Era elle que vinha á
circumscripção de Saint-Martin arvorar a bandeira da Republica contra a
nobreza contra a sua raça, contra a sua familia, contra ella mesma?
Ia voltar a vêl-o e a fallar d'elle a cada momento!
--Meu Deus! Meu Deus! dizia, que singular aventura. Se meu marido
soubesse! Mas porque estou eu assim perturbada? Quem é, afinal, esse sr.
Ronquerolle?
Guardou de novo e com cuidado a carta amorosa no cofre que fechou em
seguida, e que foi encerrar n'um dos esconderijos mais occultos da
secretaria.
N'esta occasião, o marquez de «la Tournelle» voltava do logar de
Senneval aonde tinha ido levar a nova da candidatura republicana a um
amigo da sua familia. Acompanhavam-o conde d'Orgefin e os srs. de
Trimolet e de Nipostte, pessoas da mais alta distinção na cidade e em
todo o departamento.
Os cavallos do marquez passavam estrepitosamente na calçada da rua
principal de Saint-Martin. Tinham já passado o theatro e o café da
Bolsa. Um minuto mais e a carruagem estaria em frente da «Poule
Blanche», o café dos vermelhos, dos assassinos dos «democs», como
costumava dizer o marquez de la Tournelle.
--Que ruido vem d'este lado! disse o sr. Trimolet, indicando a «Poule
Blanche»; ouvem meus senhores? De quem é esta voz? Ha alli uma reunião?
Escutem! Applaudem!
O marquez deu ordem ao seu cocheiro para demorar o andamento e os
cavallos começaram a andar a passo. A porta da «Poule Blanche» que dava
para a rua estava completamente aberta. O café via-se cheio de gente,
empregados de paletot, taberneiros de blusa, operarios em mangas de
camisa e com o avental do trabalho. Sobre o bilhar viam-se muitos
garotos. Em cima d'uma cadeira junto do espelho do fundo, um orador
fallava. A sua voz sonora fazia tremer tudo e ouvia-se até da praça
junto á fonte. A multidão escutava-o religiosamente.
--Queridos concidadãos, dizia o orador, accorri ao vosso appelo.
Agradeço-vos o não vos terdes esquecido de mim. Trabalhadores, sou dos
vossos! Republicanos, podeis contar commigo como eu conto comvosco!
... De que tratamos nós? Tratamos apenas de dezenraizar d'esta cidade,
d'este departamento, a arvore pôdre da reacção monarchica e clerical;
trata-se de bater no proximo escrutinio legislativo, o senhor de «la
Tournelle», esse marquez da idade media perdido nos tempos
modernos!... Pois bem! nós o alcançaremos, cidadãos!...
Applausos freneticos acolheram estas palavras, ouvindo-se immensos
gritos de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! Nunca a «Poule
Blanche» tinha abrigado egual gritaria popular. N'esta occasião a
carruagem do marquez, que caminhava a passo, chegava deante do café
republicano.
Aos gritos repetidos de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! o
candidato realista empallideceu de colera. Não havia que duvidar, os
democratas de Saint-Martin apresentavam realmente um candidato para lhe
fazerem opposição.
--Cidadãos, continuava Ronquerolle enthusiasmado com os applausos,
faremos tremer os de «la Tournelle» no seu castello feudal e
desembaraçar-nos-emos do seu jugo. O povo, libertado pela Revolução, não
quer nobres para o representar. É de cidadãos saidos das suas fileiras
que deve fiar os seus destinos...
Ronquerolle pronunciava estas palavras com uma voz estrondosa e o
auditorio tremia d'enthusiasmo.
--Como, dizia o conde d'Orgefin, é este tratante quem nos trata assim! E
applaudem-no. Mas, meus senhores, é necessario desembaraçarmo-nos d'este
canalha!
A carruagem do marquez de «la Tournelle» transpunha a porta do castello
e ainda se ouviam os applausos e os gritos dos cidadãos reunidos na
«Poule Blanche» para festejar a chegada de Ronquerolle e dos seus
tres amigos Branche, Didier e Maupertuis.
A chegada do candidato republicano e dos seus companheiros de lucta,
estava sendo um acontecimento extraordinario na pequena cidade de
Saint-Martin. Toda a população estava impressionada. Viam-se pelas
portas as mulheres ou faziam grupos nas ruas; os homens tinham invadido
todos os cafés na cidade e fallavam com animação da lucta eleitoral.
Na «Poule Blanche» a multidão augmentava a cada instante. Os discursos
tinham terminado e os ouvintes trocavam as suas impressões acêrca dos
oradores que tinham tomado a palavra. Maupertuis tinha fallado depois de
Ronquerolle. Recorreu para o tom ironico e os seus sarcasmos, cheios
d'espirito parisiense, tinham posto o auditorio n'um bello humor. Depois
de Maupertuis, o presidente do «comité» republicano, Kolri, desenvolvêra
um pequeno discurso cheio de bom senso e d'energia. Tinha posto o
marquez de «la Tournelle» nas peores condições e os exaltados não
fallavam já senão em ir cantar a «Marselhesa» debaixo das janellas do
castello.
Pouco a pouco, porém, a «Poule Blanche» ficou sem ninguem. A hora de
fechar tinha chegado. Kolri, «o bravo Kolri» ficara com os parisienses,
acompanhando-os a um quarto cujas janellas davam para a rua principal.
Organisou-se então, uma pequena sessão onde foi elaborado um plano de
campanha.
--Em primeiro logar meu caro Korli, disse Ronquerolle, tenho que
avisar-vos de que vamos fundar um jornal. O primeiro numero sairá
depois d'amanhã. Chamar-se-ha «Reveil de Saint-Martin».
--Vamos ter um jornal! gritou Korli; Pois bem, será o suficiente para
destruir o marquez. Um jornal! Um jornal independente! Era o que ha
muito faltava aqui! Ah! a imprensa! É a alavanca do progresso!...
O bravo Kolri ia a continuar o seu discurso quando bateram discretamente
á porta. Didier abriu-a e appareceu Lapierre. Contou a Ronquerolle a
scena do castello quando o marquez de «la Tournelle» lêra no «Figaro» a
noticia da sua candidatura, e referiu quasi palavra por palavra os
termos humilhantes com que o conde d'Orgefin fallara a seu respeito.
--Perfeitamente! disse Ronquerolle. Maupertuis, toma nota da
«delicadeza» da linguagem do conde d'Orgefin! Redigirei immediatamente
uma resposta á mensagem d'esse canalha.
Os clarões do odio brilhavam nos seus olhos. No emtanto, tinha um ar
perfeitamente calmo e a sua voz não traduzia emoção alguma extraordinaria.
--Ah! ah! somos homens sem valor, escorias de Paris, revolucionarios e
escrevinhadores! Ouvis, amigos, em que termos se falla de nós! Guerra,
guerra implacavel a esta nobreza que nada conhece e que se julga ainda
antes de 89... antes de 93!
Ao pronunciar esta data, Ronquerolle exaltou-se dando um valente murro
sobre a mesa, o que atemorisou Lapierre.
A meia noite approximava-se. Lapierre retirou-se, promettendo a
Ronquerolle trazêl-o ao corrente de tudo o que passasse no Castello.
Kolri retirou, tambem, por sua vez.
Tinha de convocar o comité republicano para o dia seguinte ás oito horas
da noite e, sem perder um minuto, todos os cidadãos convictos deviam
collocar-se nos seus postos. A primeira reunião publica effectuar-se-ia
mesmo em Saint-Martin. O marquez seria convidado por elle a fim de
defender as suas ideias e o seu programma. Outras reuniões seriam
organisadas em todos os logares dos districtos do departamento.
Os quatro amigos, quando se encontraram sós, riram extraordinariamente.
A sua mocidade tinha necessidade de despertar; o imprevisto da situação
encantava sobretudo Branche, Didier e Maupertuis.
Ronquerolle, esse era mais grave, porque todos os ataques iam cair sobre
o seu nome. Por outro lado a sua companheira, a Emilinha, preocupava-o.
Deixara-a em Paris mas á partida tinha havido uma scena pungente.
A pobre rapariga que não queria ficar só, queria por força acompanhal-o.
Que lhe importava a politica? Ella não comprehendia cousa alguma da
eleição a não ser que ia ficar separada do homem que amava, do homem que
para ella representava tudo n'este mundo.
III
_Trava-se a lucta_
Ainda que fatigados pela viagem de Paris a Saint-Martin, pelos discursos
e conversações enthusiasticas do «Poule Blanche» e se bem que era uma
hora da madrugada, os quatro alegres rapazes não pensavam em deitar-se.
Não obstante as graves preocupações da occasião os amigos de Ronquerolle
conversavam da maneira como se tinham despedido das suas apaixonadas
companheiras. Estavam ainda na edade feliz em que a bella
despreoccupação da juventude cobre todas as cousas com a sua aza
protectora; em que os dias e as noites não teem horas bastantes para
pensar nos projectos do espirito e nos encantos do coração, nas
confidencias d'amizade e nas caricias da alma.
--Meus meninos, disse Branche, para terminar a conversa, é muito bonito
fallarmos das nossas amantes, contar as suas phantasias, mas nós não
viemos aqui para nos divertirmos.
--Temos ainda trabalho a fazer, interrompeu Ronquerolle. Venham pennas,
papel e tinta e appareça o que ha de melhor no nosso cerebro. O primeiro
numero do nosso jornal, o «Reveil de Saint-Martin», deve apparecer
depois d'amanhã.
É tempo de descrevermos a nossa chegada. Tu, Maupertuis, redige um curto
artigo, descrevendo a recepção que nos foi feita, resume os nossos
discursos e retrata bem o enthusiasmo da multidão. Tu, Didier,
ridicularisa o marquez «de la Tournelle,» sê implacavel, calca-lhe sem
piedade a sua vaidade... Tu, Branche, convida os eleitores a saccudirem
o jugo da nobreza, critica as flôres de liz e proclama os direitos do
homem!... Vamos; preparae essas pennas! Cravae os ferros até fazerem
sangue! Fazei fustigar o chicote do ridiculo!...
Os quatro jornalistas pozeram mãos á obra. Ronquerolle, esse
encarregou-se de responder ás palavras injuriosas do conde d'Orgefin. Ás
duas horas da manhã uma carta volumosa era lançada na caixa do correio
por Branche dirigida á empresa do «Reveil», em Paris, visto que o
impressor da localidade não ousava encarregar-se d'imprimir um jornal
republicano, por causa do sr. marquez, «maire», conselheiro geral e
deputado.
Antes de se deitar Ronquerolle abriu a janella do seu quarto que ocupava
só. A noite estava serena e bella. As estrellas brilhavam no céo, os
perfumes das flôres espalhavam no ar, uma frescura deliciosa vinha da
terra e um silencio profundo reinava pela cidade adormecida. Á claridade
discreta da lua Ronquerolle via a praça de Saint-Martin e a fonte
decorativa. Só o murmurio da agua, caindo, perturbava o silencio da
noite, ouvindo-se de vez em quando o vento silvar por entre as
folhas das arvores, nos telhados visinhos da egreja e nos ulmeiros dos
ribeiros.
Perante este espectaculo de paz, n'esta noite de junho tão harmoniosa e
tão encantadora, o homem politico desapparecia em Ronquerolle e não
ficava mais do que o poeta seduzido pelas bellezas da natureza immortal.
O mancebo não se cançava de sentir a brisa refrescar-lhe a fronte, de
admirar esse espectaculo nocturno, vivo, que lhe recordava as scenas de
opera onde vivessem amôres, subindo, de noite, á janella da bem amada a
depôr um beijo.
Levado pela sua poderosa e febril imaginação o ousado filho da Borgonha
deixava-se guiar pelos pensamentos do amôr e versos ardentes lhe
occorriam á memoria.
Ronquerolle contemplava a egreja de Saint-Martin. Uma fachada estava
toda illuminada pelo luar emquanto que a opposta mergulhava na sombra. O
seu olhar ficou preso ao portico junto do qual em creança tantas vezes
tinha brincado com os seus pequenos camaradas e revia-se correndo em
volta da «mairie» nos muros cobertos de cartazes e em frente do mercado
fechado por uma grade de ferro. Os seus olhos de repente fixaram-se
sobre a collina que dominava a villa, reconhecendo a torre feudal, o
velho castello dos «de la Tournelle». Pensou um momento no seu
adversario, do que o distraiu uma luz que se via n'um dos lados do
castello.
--Quem velará a esta hora na habitação do marquez? pensou Ronquerolle.
Será o meu inimigo a quem a minha presença impede de descançar? Será
alguem doente a quem a febre e a insomnia impedem de dormir? Será alguma
linda mulher que lê, com a cabeça repousando no travesseiro, um romance
de Balzac ou um poema de Alfredo de Musset? Será uma mulher
linda?--Fazendo a si mesmo esta pergunta Ronquerolle bateu na fronte
como que recordando-se. Lembrava-se que outr'ora em Paris, fôra
apresentado n'uma tarde, a uma mulher soberba que se chamava marqueza
«de la Tournelle» com quem tinha dançado e a quem chegára mesmo a
escrever uma carta apaixonada. Acontecera isto ha trez ou quatro annos,
não sabia ao certo, mas recordava-se claramente d'essa tarde, do baile e
da sua carta insensata. Quanto á mulher não se esquecera que era loira,
que tinha uns seios opulentos, olhos azues e, quando caminhava uns ares
de deusa.
Os acontecimentos da vida parisiense são tão accidentados e tantos, as
sensações succedem-se tão rapidamente, as paixões são postas tantas
vezes em jogo, sobre tudo para um mancebo que faz os seus inicios na
vida e na sociedade, que não é para admirar o ver Maximo Ronquerolle
recordar, por acaso, uma das suas aventuras, que, depois de tanto tempo,
encontrava perdida na sua memoria.
Essa luz, que brilhava na escuridão da noite em uma janella do castello
do seu inimigo vinha lançar um clarão na sua memoria obscurecida e,
occorrendo não sei que presentimento do destino, o pobre rapaz imaginou
que a pessoa que trabalhava lá em cima, na habitação luxuosa do
marquez «de la Tournelle», era a linda e elegante mulher que em
tempo lhe perturbara a cabeça e o coração.
--Mas não! murmurou Ronquerolle. Não é possivel! Estas cousas só
acontecem nos romances e não na vida real!... No emtanto, essa loira
divina d'olhos azues chamava-se, era com toda a certeza a marqueza «de
la Tournelle». Revejo-a ainda na occasião em que dançava commigo e
encostava o seu peito desolado contra o meu... Pouco a pouco as
recordações reviviam. Tornara-se nervoso, o seu coração batera
fortemente, querendo esclarecer a duvida em que se debatia. Os «de la
Tournelle» eram numerosos. Havia-os no Norte, no Meio-dia, na Borgonha.
Nada poderia dizer a Ronquerolle que a mulher, que elle conhecera
outr'ora, estava alli, no seu castello batido pela lua.
--Vamos! disse fechando a janella, são horas de dormir. Sei bem a quem
hei-de recorrer, interrogarei Lapierre.
Quando adormeceu, a aurora começava a apparecer. O seu ultimo pensamento
fôra de que seria bem extraordinario que ao marquez «de la Tournelle»
alem da cadeira de deputado lhe conquistasse tambem a mulher.
Ronquerolle não se enganara nos seus presentimentos. A pessoa que velava
no castello senhorial era a marqueza, a loira, a seductora, a divina
Carlota. Não lia, porém, nem romances de Balzac nem poesias de Musset. O
seu espirito estava demasiado agitado para se entreter com os doces e
consoladores devaneios litterarios. Trabalhava pelo triumpho da sua
causa, escrevendo sobre um bello papel assetinado um artigo para o seu
jornal, um artigo em que envolvia os candidatos republicanos com uma
maneira encantadora e em que fustigava o cidadão Ronquerolle com toda a
malicia e crueldade d'uma mulher. Tambem ella espetava as esporas até
fazerem sangue.
O marquez «de la Tournelle», dissemol-o já, tinha um jornal o «Echo de
la Bourgogne», velha folha monarchica, assignada por todos os curas da
circunscripção de Saint-Martin. De vez em quando, a amavel marqueza não
se dedignava em publicar nas columnas do jornal, na primeira pagina, um
elegante artigo em que estimulava habilmente a indolencia do partido
realista e em que zombava dos democratas.
Esses artigos, que agradavam, eram lidos por todos, mas ninguem sabia,
quem fosse o seu auctor.
Quando o marquez entrou na sua habitação, após o passeio a Semeval,
contou toda a scena de que fôra testemunha em frente ao «Poule Blanche».
--Meus senhores, disse a marqueza, esses republicanos dão-vos o exemplo;
trabalham, estão no seu direito e teem razão. Vivemos n'um tempo em que
é necessario arriscar-se a gente. O prestigio da raça, do nascimento não
é mais do que uma lembrança longinqua. É necessario trabalhar-se, é
necessario descer á arena para se vencer. O poder, o futuro não pertence
senão aos homens d'acção.
O marquez «de la Tournelle» achou este discurso de sua mulher um
pouco atrevido, mas temeu fazer qualquer objecção. Convinha
voluntariamente em se mostrar ao povo no seu trem, fallar-lhe por
intermedio dos seus criados ou dos seus secretarios; mas fallar-lhe
n'uma reunião publica, expôr-se a ser interrompido, a ter diante de si
por adversario de tribuna um atrevido como Ronquerolle, com a sua voz de
trovão, e que saido do povo, lhe conhecia as emoções e as coleras, ser
um homem d'acção, n'uma palavra, no sentido em que o entendia a
marqueza; todo este papel, toda esta tarefa não se apresentava ao
espirito do castellão de Saint-Martin sob uma perspectiva muito attrahente.
Depois que fôra eleito deputado, não fallara uma só vez na camara.
Perfeitamente correcto nas suas maneiras, sempre barbeado de fresco,
limitara-se a soltar alguns gritos de quando qualquer orador da esquerda
tomava a palavra. Quando, porém, nas galerias reservadas ao publico
appareciam algumas elegantes, que vinham mostrar a sua vaidade e os seus
sorrisos como nos camarotes d'um theatro, não se esquecia nunca de as
requestar, lançando amiudadamente o seu monoculo.
O marquez era, n'uma palavra, uma das mais brilhantes inutilidades do
Parlamento.
Sua mulher que era ambiciosa, enfurecia-se por não possuir mais que a
apparencia do dominio e do poder. Teria preferido disfarçar sob uma
fraqueza fingida as alegrias intimas do mando.
--Ah! que se eu fosse homem! disse a marqueza, ao concluir o seu
artigo para o «Echo de la Bourgogne» e lançando com despeito a penna;
ensinaria a viver este senhor Ronquerolle.
Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel,
imaginando a maneira, de dar ao sr. «de la Tournelle» um golpe
traiçoeiro, a marqueza deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito
Luiz XV, coberto com um baldaquino que amôres gorduchos seguravam.