Aho que ElRei D. Diniz respondeo, que de semehantes cousas lhe pezava

muito, e que fosse certo que nom eram feitas por seu consentimento, e

prazer, mas que loguo sem ser necessaria sua entrada, proveria como se

mais contra elle nom fezesse. Pello qual ElRei D. Diniz encomendou, e

mandou aho Ifante seu irmaaõ, que nom fezesse, nem consentisse que aho

dito Rei D. Sancho, nem a suas terras, e vassallos, se fezesse guerra,

nem dano das ditas Villas, e Castellos de Portugual, dos quaes elle era

obriguado fazer guerra, e manter paaz, segundo elle lhe mandasse. Ha que

ho Ifante D. Affonso nom quiz inteiramente obedecer assi por respeito de

seus genros, ha que satisfazia, e aquolhia, como pella deneguaçam da

legitimaçam de suas filhas, do que se mostrava muito agravado, dando por

sua escuza ha nom ovedecer com hos Castellos contra sua vontade, que

elle pellas cousas, e preroguativas de suas doações feitas por ElRei D.

Affonso seu pai, era de semelhante obriguaçam, e serviço relevado.

Pello que ElRei D. Diniz no anno de mil duzentos noventa e nove annos

(1299) ajuntou suas gentes, e mandou loguo cerquar Arronhes, e Marvam, e

ha elle Ifante seu irmaõ, cerquou em Portalegre, e porque ha este tempo

Castella Davide, que era tambem do Ifante, era termo de Marvam, e Luguar

entam mais cham que forte, por esso se nom cerquou, e durando este

cerquo, em que de huma parte, e da outra, em ambos hos Regnos se fez

danos asaas, entrevieram ha concerto delRei, e do Ifante ambos irmaaõs,

hos Perlados, e Senhores principaes do Regno, e sobre todos ha Rainha D.

Isabel, por cujo virtuoso meio ho Ifante D. Affonso entreguou has

Villas, e Castellos ha Aires Cabral, que hos teve em fieldade, e com

menagem atée que por elles deram aho dito Ifante has Villas de Sintra, e

Dourem, com outros Luguares chãos na Comarqua de Lixboa, e antre has

outras muitas, e mui singulares virtudes, que ouve na Rainha Dona Isabel

em quanto viveo, foi procurar sempre paaz, e amizade de que se ella

prezou muito, porque assi ho fazia antre ElRei, e seus vassallos, de que

tirava todolos dias, e escandalos, e assi antre outro quaesquer

particulares do Regno, e se por bem das semelhantes concordias compria

pagua de dinheiro pera emenda dalgumas perdas, e danos ha que has partes

por algum caso nom podiam comprir, ella porque amizade se nom

desfezesse, de seu proprio tesouro has mandava, de maneira, que has

certas bolsas de seu dinheiro nunqua foraõ arquas, nem cofres, mas hos

ventres, vestidos, e necessidades dos pobres, e cousas piedosas, em que

todo lançava, e alli tudo lhe crecia.

E este irmaaõ legitimo delRei D. Diniz, e filho delRei D. Affonso Conde

de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, faleceo no anno de mil duzentos e

noventa e nove annos, (1299) e jáas sepultado no Moesteiro de S.

Dominguos de Lisboa, em hum Moimento de pedra, que estaa á porta do

Coro, esto ponho por tirar opiniam, e erro, que muitos antiguos teveram

e eu ho vi, que este que alli jazia, era ho filho que ElRei D. Affonso

Conde de Bolonha ouve de Dona Matildes Condeça de Bolonha sua molher, ho

que nom hee (segundo jáa tenho dito) porque esta hee ha verdade, qeu

affirmo, e eu ha vi no proprio letreiro, que tem ho dito Moimento, e

assi ho achei por outras escrituras asáas autentiquas.

*CAPITULO VI*

_Do que succedeo do cazamento do Ifante D. Affonso, filho delRei D.

Diniz, e do Ifante D. Fernando, filho delRei D. Sancho de Castella_.

No tempo, que hos ditos cazamentos antre estes Reis, e suas vistas se

concordáram, foi logo acordado, e assentado pera moor firmeza do

cazamento do Ifante D. Fernando com ha Infante Dona Costança, porque em

algum tempo nom ouvesse causa, nem razam pera se leixar de fazer, que

ElRei D. Sancho pozesse loguo, como poz em poder, e fieldade de

Portugueses estas suas Cidades, Villas, e Castellos, ha saber,

Badalhouce, Moura, Serpa, Caceres, Broguilhos, Acharces, Aguilar de

Neiva, com tal condiçam, que se ElRei D. Sancho, e ha Rainha Dona Maria

sua molher, ou aquella ha que ho Ifante D. Fernando tevesse em seu

poder, nom comprissem, e fizessem fazer, ou ho mesmo Ifante aho tempo

que era limitado, nom quizesse cazar com ha dita Ifante, que nestes

casos hos ditos Portugueses, que hos ditos Castellos tinham, hos

entreguassem loguo aho dito Rei de Portugual pera sempre de seu Reino, e

Senhorio, e mais que depois do cazamento ser assi feito se ho dito

Ifante D. Fernando leixasse ha Ifante Dona Costança sua molher, e lhe

nom desse de suas arras des mil maravedìs douro, em que se concordaram,

que neste caso tambem hos ditos Castellos de Castella se entreguassem ha

Portugual.

E por esta maneira ElRei D. Diniz poz em fieldade, e poder dos

Castelhanos hos Castellos, e Cidades da Guarda, e Pinhel, pera que nom

dando, e entreguando ha dita Ifante aho tempo concordado, que hos

perdesse, e fossem pera sempre de Castella. Mas ElRei D. Sancho ho nom

comprio assi; porque desejando de desfazer ho dito cazamento procurou

contra sua verdade daver hos ditos Castellos da terceria, e ho que pior

foi, que hos ouve, e tomou com mortes dalguns Alcaides Portugueses, do

que ElRei D. Diniz foi mui anojado, porque de sua natural, e Real

condiçam nunqua se achou, que dicesse mentira, assi sentio, e lhe doeo

muito quebraremlhe tam honestamera te ha prometida verdade; e porque

antre elles, era tambem concordado, que de pormeio ambos concordassem,

procurassem, e paguassem has despensassoens Apostoliquas, que se

requeriam por serem muito parentes.

ElRei D. Diniz enviou loguo por sua parte querella aho Papa; mas ElRei

D. Sancho mudou sua messagem em outra sustancia, porque enviou ha ElRei

D. Felippe de França, requerendolhe huma sua filha pera ho Ifante D.

Fernando, seu filho, antre hos quais ouve loguo prazer, e outorgua pera

este cazamento se fazer. Ho que ElRei D. Sancho loguo fez saber ha ElRei

D. Diniz sem asinar causa evidente porque ho fizera, e com esta

confiança, e esforço de França, elle rompeo ha paaz, que tinha com

Portugual, e mandou loguo sua frota de naos, gualés aho Alguarve, e

nellas muita gente que por maar, e por terra fizeram grandes danos, assi

nos Cristãos, como nos Mouros fóra daquelle Reino, de que levaram muitos

cativos, e por elles de seus resguates, outra grande soma de dinheiro de

Portugual, e assi entraram has gentes do Reino de Liam, e queimaram, e

roubaram, e fezeram grandes danos com mortes de muitos do Reino de

Portugual.

ElRei D. Diniz maravilhado destas roturas, e sem razões delRei D.

Sancho, desejando todavia com elle paaz, e por nom virem ha maiores

danos, rompimentos, lhe enviou por algumas vezes requerer assi ha

entregua de seus Luguares, que contra direito lhe tinha tomados, como

emenda dos outros danos, e perdas e tomadias que em seus Reinos

vassallos, e fazendas delles contra ho assento de sua paaz tinha

recebidas, e assi que comprisse ho cazamento de seu filho com ha Ifante

Dona Costança como tinha assentado, sobre ho que lhe enviou por seus

embaixadores, e Procuradores ho Bispo de Lixboa, e Joaõ Simaõ Meirinho

moor, que na Corte delRei D. Sancho andavaõ sem algum despacho detidos.

E porque ho cazamento de França, que ElRei D. Sancho tinha por feito se

desconcertou, e desesperou vendo que de necessidade lhe convinha

concertarse com ElRei D. Diniz, assi no cazamento de sua filha, como em

lhe fazer emenda dos males, danos passados, enviou ha elle por

Embaixador D. Mauzinho Bispo de Palença, por ho qual lhe mandou dizer,

que sua vontade era de todo concertarse com elle, e que pera esso

enviasse seus apontamentos ahos ditos seus Embaixadores, que ainda eram

em sua Corte, com hos quaes se concordariaõ como fosse razam, e ha seu

contentamento. Aho que ElRei D. Diniz satisfez, mas hos ditos seus

Embaixadores vendo, que ha concruzam delRei D. Sancho era de longuas, e

de negações sem causa se tornaram sem duvida ha Portugual sem nhum

despacho.

E no tempo destas desavenças, e guerra antre ElRei D. Sancho, e ElRei D.

Diniz, ho Ifante D. Joaõ seu tio, irmãao da Rainha Dona Breatiz sua

madre, e D. Joaõ Affonso Dalbuquerque, neto delRei D. Diniz, filho de

Affonso Sanches, seu filho bastardo, acertouse que entraraõ ha correr

terra de Çamora com muita gente, que levavam com D. Joaõ Nunes de Lara,

filho que foi de D. Nuno Guonçalves de Lara, que diceram ho Bom, ho qual

era desavindo delRei D. Sancho, e tendo elle cõsiguo pouquos Cavalleiros

pera peleja saio, e ho esperou, e na peleja que ouveram foi delles

prezo, e trasido ha Portugual ha ElRei D. Dininz, ha quem ElRei D.

Sancho, pello dito Bispo de Palença enviou pedir, que ho quizesse

soltar, e enviarlho, porque elle ho queria recolher, e servirsse delle,

e fazerlhe honra, e merce, especialmente tornarlhe suas terras, que lhe

tinha tomadas, e nom por desleal, mas porque fora sempre ha serviço, e

da parte delRei D. Affonso, com que ElRei D. Sancho seu filho teve

guerra, como jáa dito hee.

ElRei D. Diniz, como homem mui liberal sobre todolos Reis de seu tempo,

enviou loguo com muitos Cavalleiros, e Fidalguos de sua caza, ho dito D.

João Nunes ha Castella, ha que deu grandes dadivas, e fez muita merce, e

D. Joaõ Nunes fiquou por vassallo delRei D. Diniz, e ha seu serviço, e

ha sua boa vontade, e como homem boò, e aguardecido nunqua depois lho

neguou, e por esso depois em Castella nom compriram com elle assi como

lhe tinham prometido, e elle por esso se foi ha França, e de guerra

tornou depois ha Castella, como aho diante direi. E tornando á Estoria

ha ElRei D. Diniz, elle como vio que ElRei D. Sancho contra direito, e

rezam lhe falecera de todo, e nom compria alguma cousa das muitas, que

com elle concordára, bem entendo que nom queria com elle paaz, e amor,

como por bem, e assesseguo de seus Reinos sempre desejara, e porém

porque era Rei de grande coraçam, e que álem das perdas que recebera,

ainda por estes casos recebia alguma quebra de sua grande honra, e boõ

nome, determinou aparelhar loguo sua fazenda, e ho que lhe compria, e

mandalo desafiar pera pubriqua guerra, e entrarlhe por sua terra, e

della nom sair atée nom aver emenda, e em comprimento de todo ho que

requeria, e de direito lhe era devido.

Neste tempo ante dalguma destas cousas aver efeito, morreo ElRei D.

Sancho estando na Cidade de Toledo, na era de mil duzentos noventa e

sinquo, (1295) sendo ainda mãcebo. Ha causa de sua morte antecipada, e

sua tam pouca vida muitos ha reportaram ha sentença da Lei de Deos, e

pela desobediencia, e maao trato, que com desamor fezera ha ElRei D.

Affonso seu pai, como atraas se dice, ElRei D. Sancho leixou á ora de

sua morte por seus testamenteiros, e tutores de seu filho à Rainha Dona

Maria sua molher, e ho Ifante D. Anrique seu tio, irmãao del-Rei D.

Affonso seu padre, ho qual Ifante ha este tempo fora solto da prizam em

que por muitos annos jouve em Italia, quãdo prezo por Carlo Rei de

Napoles em Cesilia, na batalha em que Corradino seu competidor nos ditos

Reinos foi morto, em cujo favor, e ajuda ho dito Ifante viera, e ha

estes encomendou em seu testamento, que comprissem com ElRei D. Diniz ho

que tinha concordado, assi no cazamento dos filhos, como na entregua das

Villas de Moura, e Serpa, e dos outros Luguares que ha Portugal

pertenciam.

Depois do falecimento dei Rel D. Sancho, loguo ElRei D. Diniz mandou por

seus messegeiros requerer ha ElRei D. Fernando, que novamente começara

de Reinar, e assi à Rainha Dona Maria, e aho Ifante D. Anrique, seus

tutores, que quizessem comprir hos cazamentos, e fazer ha entregua das

Villas, segundo com ElRei D. Sancho seu pai estava concordado, e elle em

seu testamento leixara aho tempo de sua morte. Aho que ElRei D. Fernando

com acordo, e autoridade dos ditos tutores nom satisfez, segundo ElRei

D. Diniz esperava, antes pelo contrairo, poendo ahos cazamentos

entreposições de tempo, que tinham semelhança de denegações, e assi

escuzas à entregua dos Luguares, chamandose Senhor delles em suas mesmas

cartas, da reposta que enviou, de que ElRei D. Diniz se sentio mui

escandalizado, e para determinadamente saber ho que por sua honra, e por

sua justiça compria, tornou ha enviar ha ElRei D. Fernando João Anes

Redondo, e Mem Rodrigues Rebotim, seus Cavalleiros, e pessoas

principaes, hos quais estando presentes ha Rainha Dona Maria, e ho dito

Ifante D. Anrique, e assi muitos Cavalleiros, pessoas principaaes do

Conselho de Castella, elles pera justificaçam da causa delRei D. Diniz,

e do Reino de Portugual diceram ha ElRei D. Fernando mui particularmente

todalas ajudas que elle, e ElRei D. Affonso seu padre tinham feitas ha

ElRei D. Sancho, e ha ElRei D. Affonso seu padre, e avoo do dito Rei D.

Fernando, hos quais muitas vezes prometeram fazer entregua dos Luguares

ha Portugual, mas ainda para acender mais mal com suas gentes por maar,

e por terra lhe fizeram muitos danos em seus Reinos, e vassalos, sem ho

quererem emendar podendo o fazer. Pello qual hos ditos Embaixadores,

diceram contra ElRei D. Fernando.

Senhor estas cousas que asima relatamos tam breves, sam mais

inteiramente sabidas por certas, e verdadeiras por ha Rainha vossa

madre, e por estes Senhores, que aqui estam presentes, e por ellas ElRei

N. Senhor se maravilhou delRei D. Sancho vosso padre poer tardança, e

escuza na emenda, e satisfaçam dellas, pois eram justas, e de razam, e

porque ha tençam com que esto fazia elle ho nom entrepretava ha bem, por

esso em sua vida ho mandou desafiar para entrar, e pór guerra em seus

Regnos, e aver emenda do que justamente pedia, e depois de seu

falecimento ElRei N. Senhor por algumas vezes vos enviou roguar como ha

filho, e aconselhar como amiguo, que has cousas que por ElRei vosso

padre lhe eram prometidas, vós lhas quisesses comprir, e assi receberdes

sua filha ha Ifante Dona Costança por vossa molher, assi como antes fora

concordado, vós na reposta que lhe enviastes em luguar de lhe mandardes

entreguar hos ditos Castellos, e Luguares de que era forçado, vio nella

que vos chamastes delles Senhor, e por esso hee muito anojado de vós, e

de quem vos aconselhou muito escandalizado, e porque este escandalo, e

agravo que de vós tem, nacem de taes cousas, razões, que por sua honra,

e estado nom convem passarem sem justiça, e emenda, elle por nós

finalmente, vos manda dizer huma cousa, que pella esperança que de vós

tinha, e pellos grandes dividos que antre vós ha lhe he mui cara de

fazer, e porém hee de sua honra, e serviço aconselhado que sem trespaço

ha faça ha saber, que vós daqui em diante busqueis outro amiguo que

ponhais em seu luguar, porque elle quererá com suas forças, e poder

trabalhar de vos penhorar pera sua entregua nos Regnos de Castella, e

Liam, e que vos pera esso envia engeitar vossa amizade, e como ha imiguo

desafiar, pera que vos façais prestes, porque em sua vinda nom tardará

muito.

Destas razões, e desafio pubriquo, que estes Embaixadores de Portugual

fezeram ha ElRei D. Fernando de Castella foraõ alguns, que eram

presentes asaas maravilhados, e outros postos em desvairados

pensamentos. E porém esperando hos ditos Embaixadores alguma reposta,

porque lhaa nom deram se tornaram descontentes ha Portugual, onde ElRei

D. Diniz dobrandose por esso has cousas de sua entrada em Castella,

ajuntou loguo suas gentes, e com asaas poder se foi à sua Cidade da

Guarda, pera dahi entrar loguo em Castella, maas antes que entrasse, veo

hi ho Ifante D. Anrique tio, e tutor delRei D. Fernando, e sobre

praticas, apontamentos, e concordias, que antre elles sobre estas cousas

ouve, concertaram que ambos fossem dahi, como foram à Cidade Rodriguo,

que hee em Castella, onde estavam ElRei D. Fernando, e ha Rainha Dona

Maria sua madre, e alli outra vez todos se concordaram sobre ho

cazamento, que atée certo tempo loguo limitado, se ouvesse de fazer.

E assi foi despachada ha entregua de Serpa, e Moura, sobre que a Rainha,

e Ifante em nome delRei D. Fernando passaram sua carta por hum Estevam

Pires Adiantado moor do Regno de Liam, que era Alcaide, e tinha has

ditas Villas de Serpa, e Moura pera que se entreguassem ha Johaõ

Rodrigues Porteiro da Camara delRei D. Diniz, pera que este has

entreguasse, como entreguou ha Coguominho, Cavalleiro delRei D. Diniz,

porque elle poz loguo nellas por Alcaide huum Martim Botelho, e outro

Lourenço Martins Guanço, que esta carta delRei D. Fernando passou em

Cidade Rodriguo ha vinte Doutubro do anno de mil duzentos noventa e

sinquo annos, (1295) aselada com tres selos pendentes, ha saber, ho

delRei no meio, e ho da Rainha à maõ direita, e ho do Ifante D. Anrique

à esquerda, e sobre esta concordia, que foi ifirmada com grandes, e

solenes juramentos, ElRei D. Diniz se tornou pera dentro de seu Regno. E

sendo depois cheguado ho tempo em que ElRei D. Fernando avia de receber

por molher ha Ifante Dona Costança, e comprir outras cousas em que

fiquaram em Cidade Rodriguo concertados, ElRei D. Diniz por seu

messegeiro hos mandou requerer, porque elle tornou ha Portugual sem ha

reposta, e concruzaõ que ElRei esperava entonces, e veo com palavras,

que mostravam craros sinais de verdadeira denegaçam das cousas

prometidas.

ElRei D. Diniz anojado desso, com coraçam pera sua emenda, e vinguança

mui cheo de sanha determinou sem mais tardar entrar loguo de guerra em

Castella, e pera esso concertou, e apercebeo mui bem seus Castellos das

frontarias, em que leixou bõos fronteiros, e ajuntou outra vez suas

gentes pera mais poderoso entrar em Castella, e ajuntaremse com ElRei D.

Diniz contra ho Ifante D. Fernando Rei de Castella, ho Ifante D. Pedro

erdeiro Daraguam, que depois foi Rei, que era primo com irmaaõ da Rainha

Dona Isabel de Portugual, e ho Ifante D. Johaõ, que cõtra ElRei D.

Sancho se chamava Rei de Liam, e era filho delRei D. Affonso ho decimo

avoo delRei D. Diniz, e D. Johaõ Nunes de Lara, aquelle, que sendo prezo

em Portugual foi por ElRei D. Diniz enviado solto, e com grande honra

enviado ha Castella, como atraas dice.

E sendo jáa todos juntos no estremo da Comarqua da Beira pera entrar em

Castella, veo ha ElRei D. Diniz ha Ifante Dona Margarida, molher que

fora do Ifante D. Pedro, e com ella D. Sancho de Ledesma seu filho, e

por descontentamentos, que tinha delRei D. Fernando pedio ha ElRei D.

Diniz por mercee, que ho recebesse por vassallo, do que ha ElRei

aprouve, e lhe poz loguo grande contia de dinheiro em seu ordenado, e

lhe mandou que loguo se aparelhasse pera entrar com elle em seu serviço,

e porque ho dito D. Sancho, que sóomente viera pera receber muito

dinheiro que levou, ou por lhe cometerem outros partidos em que mais

consentio elle, nom tornou ha servir ElRei D. Diníz, e com seu dinheiro

se foi pera ElRei D. Fernando ho quaal como soube que ElRei tinha todas

suas gentes percebidas pera entrar em Castella mandou logo perceber em

Sevilha suas gualees, e frota que de guerra vieram aa costa de Portugal,

e entraram no porto de Restelo, mea legua de Lixboa, onde tomaram naaos

de Portugal carreguadas de mercadorias, e has levaram. E ho Almirante de

Portugal que ha esse tempo estava em Lixboa por cobrar ha preza, e pera

vinguança do maal que se fezera, armou logo com grande triguança outras

gualees, e foi empoz da frota de Castella, que ainda alcançou no maar

onde todos ouveraõ grande, e crua guerra, mas em fim ho Almirante de

Portugal ficou vitorioso, e tomou ahos contrairos suas naaos, e gualees,

e mais has que consiguo levavam, e trouxe tudo aho porto de Lixboa.

*CAPITULO VII*

_Como ElRei D. Diniz entrou em Castella, e da crua guerra, que de huuma

parte e da outra se fazia_.

ElRei D. Diniz com suas gentes beem ordenadas entrou por has Comarquas

de Cidad Rodriguo, e de Ledesma, e na frontaria hos Portuguezes toamraõ

por força em hum Castello, que dizem Torres, todolos contrairos, que

nelle acharam, e dahi foi ElRei D. Diniz fazendo crua guerra sem alguma

rezistencia nem contradiçam corenta leguoas por Castella atée ho Luguar

de Simancas que hee duas leguoas de Valedolid, onde ElRei D. Fernando

estava, e ha tençaõ de todos era que ElRei D. Diniz ho hia cerquar pera

que repartiram suas estancias de que ha huuma parte davam ha ElRei D.

Diniz, e ha outra cõ ha gente Daraguam davam ha D. Affonso de Lacerda,

que era com elle contra ElRei D. Fernando, porque se chamava Rei de

Castella por ser filho primeiro do Ifante D. Fernando de Lacerda, e neto

delRei D. Affonso ho decimo, e ha outra parte davam aho Ifante D. Joham

que se chamava Rei de Liam, e porém ho cerquo se nom poz; mas ElRei D.

Diniz se tornou ha huu Castello de Medina que dizem Pasaldes, e

tomaram-no sem resguardo, nem rezistencia, e sem reverencia entraram ha

Egreja, e espedaçaram has Imagens dos Sãctos, e ha despojaram de todo ho

que nella acharam, e com muita crueza mataram ahos que se nella

acolheram, sem perdoarem alguua idade de machos, nem femeas.

De que hos Castelhanos movidos primeiramente por sua crueza e depois por

sua vinguança nos luguares e couzas semilhantes que pera exercitar sua

sanha se lhes offereciam ho nom faziam menos porque na Comarqua, e

frõtaria de Riba Dodiana alguus Capitaens, e senhores de Castella, dos

quaes era D. Affonso Pires de Gusmam se ajuntaram nom pera dar batalha

ha ElRei D. Diniz, mas pera entrar, como entraram em Portugual, onde

entraram com muitas gentes Dandaluzia, e da sua frontaria, da quaal

entrada mataram, e cativaram de Portugual muitos homens, e molheres,

seem alguua piedade, e levaram grandes roubos da teerra.

Aho encontro do quaal foi ho Mestre Davis com has gentes, que pode, e

ouveram ambos mui dura peleija em que ouve muitas mortes, e danos dambas

as partes, no fim da quaal ho Mestre foi vencido por has menos gentes,

que tinha, e muitos dos seus foram mortos, e nove centos cativos, que

vendiaõ, e resguatavam em Castella por mui pouquo preço, porque outro

tanto se fazia de castelhanos cativos em Portugual, porque de huua

parte, e da outra hos que se cativavam assi se vendiam como servos,

ainda que se acha que hos Castelhanos nesta qualidade de crueza uzavaõ

contra hos Portuguezes em mais estremo, e cõ menor piedade, porque ha

todos se diz que hos punham em barreiras, e nellas mui cruamente hos

matavam aas setadas; Pelo quaal hos corações de huus, e outros assi eram

nesta guerra acezos em odio, e ira; que pareciam arder pera todos

matarem, queimerem, e destroirem seem alguua piedade, nem temperança,

como faziam.

*CAPITULO VIII*

_Dos grandes maales e danos que de hum Regno ha outro se faziam, e

dalguns Luguares de Castella, que hos Mouros tomaram_.

Hos periguos, danos, mortes, perseguiçoens, e trabalhos durando esta

guerra eram tantos nos maares, e teerras dambos estes Regnos de

Portugual, e Castella, em que huus ahos outros por odios e vinguanças se

guerreavam, que por aspero jáa se nom podiam sofrer, por que a todolos

Luguares que cheguavam ha que cerquas fortes nom defendiam, logo eram

entrados, roubados, e destroidos de todo, e hos Castelhanos tornaram a

cobrar ho Castello de Torres, que fora tomado na frontaria de Castella,

e dos Portuguezes que ha guardavam nem fiquou nhum que ha ferro nom

morresse, e com a nova desta crueza de que ElRei D. Diniz foi logo

certifiquado com suas gentes em mui maior sanha, e pera mais destroiçam

contra hos Luguares da Comarqua de Salamanca porque andava, porque nom

valiam Egrejas, nem cazas sagradas, e piedozas ha alguus que se ha ellas

acolhiam, porque nellas assi eram mortos, roubados, & cativos, como se

foram outras quaesquer cazas profanas.

E com certidaõ desta crua guerra de que ElRei de Grada foi certifiquado,

porque era na terra dos Christãos, nom achou quem ho rezistir, entrou

com maior esforço pela parte Dandaluzia, e assi guerrearam hos Mouros

que por força guanháram ha fortaleza de Quesada, e Alcaudete, com tres

outros Castellos, e entraram ho arrabalde de Jaem. E com estas tam

danosas entradas de taes dous Rex contrairos em Castella, nem ElRei D.

Fernando nem ha Rainha sua madre, nem hos do seu concelho abrandaram has

vontades pera cõprir com ElRei D. Diniz ho que lhe tinham prometido,

crendo que elle por necessidades que ocurriam, ou por grandes despezas

que na guerra fazia has nom poderia tanto tempo sofrer, e se partiria da

teerra, mas veendo ElRei D. Fernando, e ha Rainha Dona Maria, e ho

Ifante D. Anrique seu Tutor, que esta maginaçam pelas obras, e

continuaçam delRei D. Diniz cada vez mais crecia acordaram de dar ha

Villa de Tarifa hos Mouros por sua, porque com suas pessoas, e poder hos

viessem ajudar contra ElRei D. Diniz porque hos moradores Dandaluzia

eram com entradas, dos infieis jáa taõ destroidos, que vendo ha entrada

dos Mouros ho quizeram assi fazer.

*CAPITULO IX.*

_Da razam porque ElRei D. Diniz desistio desta guerra, e se tornou ha

Portugal_.

Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I) · 第 2 / 5 段