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Bibliotheca de Classicos Portuguezes
Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
(VOLUME LXXI)
CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ
POR
RUY DE PINA
2.ª edição
VOL I
_ESCRIPTORIO_
147--RUA DOS RETROZEIROS--147
LISBOA
1912
BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES
Proprietario e fundador
_MELLO D'AZEVEDO_
CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE DOM DINIZ
SEXTO REY DE PORTUGAL,
COMPOSTA
POR RUY DE PINA,
Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.
FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,
Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.
OFFERECIDA
Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY
D. JOAÕ O V.
NOSSO SENHOR.
LISBOA OCCIDENTAL
Na Officina FERREYRIANA.
M.DCC.XXIX.
_Com todas as licenças necessarias_.
SENHOR
Aos Augustissimos pés de V. Magestade chega a minha obrigaçaõ a
offerecer-lhe a Chronica do senhor Rei D. Diniz seu duodecimo Avô. Esta,
Senhor, he a Historia de hum dos mais gloriosos Principes, que teve a
Monarchia Portugueza, porque se fez taõ conhecido pela sua prudencia,
que dous grandes Reis o elegeraõ por arbitro, e Juiz das contendas, que
lhe perturbavaõ a paz de seus Vassallos, e foi taõ venturoso, que
mereceo ter por Espoza uma Matrona, que pela grandeza das suas virtudes,
e dos seus milagres a veneramos hoje coroada no Ceo. Se me fora licito
passar dos limites de uma Dedicatoria, bem podia mostrar ao mundo a
semelhãça do Neto com o Avô, mas bastarmeha dizer, que aquella virtude
verdadeiramente de Principe, qual he a liberalidade, sendo por ella tam
celebrado El-Rei D. Diniz, V. Magestade a tem praticado de sorte, que o
deixa infinitamente excedido. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos
como seus vassallos lhe dezejaõ.
_Miguel Lopes Ferreira_
AO EXCELLENTISSIMO SENHOR *D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*
Quarto Conde da Ericeira, do Conselho de Sua Magestade, Sargento mór
de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados,
Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Anciaõ, oitavo
Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa
Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de
Frazaõ, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S.
Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo, Academico da
Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della,
&c.
Meu Senhor, buscar o amparo de V. Excellencia he effeito da mais
prudente rezaõ, porque na sua pessoa se achaõ todas aquellas
circunstancias, que seguraõ a protecçaõ. He V. Excellencia taõ affavel,
e taõ benigno para todos, que suavisa, e facilita com estes dotes
aquelle justo temor que se acha nos que ao mesmo tempo, em que os anima
o dezejo de conseguirem o que pretendem, os detem, e suspende a grandeza
de quem procuraõ como valedor. Porém V. Excellencia de tal sorte he
inclinado a favorecer aos que se valem do seu patrocinio, que lhes está
offerecendo as occaziões de o occuparem, como se unicamente nacera para
todos. Naõ fallo na excessiva generozidade, com que V. Excellencia faz
publica para todo o genero de pessoas a sua copiozissima, e selectissima
Livraria, beneficio, com que tem attrahido geralmente a todos. E porque
eu Excellentissimo Senhor, sou hum daquelles que com mais frequencia, e
com muita especialidade tenho recebido os favores de V. Excellencia tomo
a confiança de lhe pedir queira pôr na Real presença de Sua Magestade
esta Chronica delRei D. Diniz, porque desta sorte por meio de taõ
illustre valedor ficará desculpado o meu atrevimento. A Excellentissima
pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.
B. as mãos de V. Excellencia
Seu criado
_*Miguel Lopes Ferreira*_
*PROLOGO*
AMIGO LEITOR
Aqui te dou na Chronica do Serenissimo Rei D. Diniz de Portugal outro
argumento da palavra, que te empenhei quando te prometi dar impressas
todas as Chronicas manuscriptas dos Reis deste Reino. Entre ellas era
muito digna deste beneficio a delRei D. Diniz, porque sem duvida entre
os Soberanos desta Monarchia mereceo elle hum lugar de maior distincçaõ.
Aqui verás hum Principe taõ altamente respeitado, que pela sua grande
prudencia foi o arbitro para o ajuste de pezadas contendas de dous
Principes, o que conseguio com a dezejada felicidade, cujos documentos
poderás ver na Sexta parte da Monarchia Lusitana, e em D. Diogo Jozè
Dormes nos seus Discursos varios de Historia, impressos em Çaragoça em
1683, em quarto a folhas 135. Pelo seu conselho foi taõ venerado, como
temido pela sua espada; com a qual entrou taõ felizmente pelas terras
inimigas, que mais parecia triunfante, que combatente. Foi taõ
venturoso, que mereceo ser Espozo da Rainha Santa Isabel, sendo tantos
os pretendentes daquella Princesa, que parece que lhes prognosticavaõ os
corações, que havia de ser a gloria da Monarchia, que a tivesse por
Soberana. Tudo isto he a materia desta Chronica, que se a naõ achares
escrita em estillo elegante, naõ ponhas a culpa ao Author, põe-na ao
tempo, que tudo desfigura com as suas necessarias mudanças, porque he
certo que os Reis de Portugal, que elegeraõ ou a Fernaõ Lopes, ou a Ruy
de Pina para Chronistas móres deste Reino, haviaõ de eleger a huns
homens, que fossem merecedores de taõ authorizada occupação pelas suas
letras, e pela sua elegancia.
_Vale_.
*LICENÇAS*
DO SANTO OFFICIO
Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica delRei D. Diniz, e
depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 29 de Agosto de 1727.
_Fr. Lancastre. Cunha. Silva. Cabedo_.
DO ORDINARIO
Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois
de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a
qual naõ correrá. Lisboa Occidental 9 de Outubro de 1727.
_D.J.A.L_.
DO PAÇO
SENHOR
Já na cençura da Chronica delRei D. Affonso III que V. Magestade foi
servido commeter-me, disse, que a maior recomendaçaõ para o prelo, era o
nome de seu Author. Nesta delRei D. Diniz, e nas mais facilmente se
distinguirá o que for parto do entendimento de taõ grande Chronista,
pois de alguns escritos se duvida serem seus. E sendo quem os ler juis
recto, ficará ao arbitrio da sua prudente critica o exame da verdade
delle: sendo sempre muito util que se imprimaõ por ser a lição das
Historias estudo da maior utilidade, porque nellas se achaõ todos os
principios da verdade, da prudencia, e da sabedoria. Isto mesmo me
parece quanto ás Historias delRei D. Affonso o IV e delRei D. Duarte em
que concorrem os mesmos motivos, por naõ multiplicar cençuras. V.
Magestade mandará o que for servido. Lisboa Occidental 25 de Outubro de
1727.
_Manoel de Azevedo Soares_.
Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario,
e depois de impressa tornará á Meza para se conferir, e taxar, e dar
licença que corra sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 15 de
Novembro de 1727.
_Pereira. Oliveira. Teixeira. Bonicho_.
* * * * *
Nec ut credatur omnibus numeris absolutü, aliud praeter nomé Authoris
desideratur Augustinus de Castro apud. Sosors. incensur. Emblem.
Librorü Judex statim quicunque voluerit erit Rulãd. de cõmisl. 1 p.l 1
c. 13. Ex Dionisio Halicasnas. Rulãd. supr. c. 18. n. 5.
_Coronica do muito alto, e esclarecido Principe Dom Diniz sexto Rei de
Portugual_.
*CAPITULO I*
_Como ElRei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e obedecido, e
das virtudes que teve_.
ElRei D. Affonso Conde que foi de Bolonha, faleceo em Lisboa ha vinte
dias de Março do anno de mil e duzentos setenta e nove annos, (1279) em
idade de setenta annos, como em sua Coronica jáa se dice, e por seu
falecimento na mesma Cidade, e tempo foi loguo alevantado, e obedecido
por Rei de Portugual, e do Alguarve ho Ifante D. Diniz seu filho legitimo
maior, em idade de dezoito annos, avendo nove mezes, que sem ser cazado
tinha jáa por ElRei sua caza apartada. Este foi do começo de seu Reinado
atée ho fim delle sempre em todos seus feitos mui excellente, e por seu
bom nome conhecido, e estimado por tal antre todolos Reis do mundo, que
teve em perfeiçam tres virtudes, ha saber verdade, justiça, e nobreza,
pelo qual hos homens que has tem, como elle teve, claramente sam avidos
de humanos, por divinos, e de mortais por immortais; e porque cada uma
destas elle fez com tal temperança, e assi sempre uzou, que em cada huma
dellas mereceu de ser, e foi com rezam muito louvado, e na justiça foi o
seu primeiro intento, e cuidado, e punições, da qual quiz loguo reparar
alguns insultos, e desmandos, que dos tempos de seu padre, e avoo ainda
avia no Reino, e principalmente em punir, e castigar ladrões, e
malfeitores, que com merces, que dava, e deligencias, que fazia, aos que
eram tomados punia com mortes, e grandes escarmentos, e a outros com seu
temor, espantou, e desterrou da terra, especialmente hos que em
quadrilhas em alguns ermos onde salteavam tomava, assi como na montanha
que se diz de Açor, e na serra da Mendigua, e em Alpedris, que por suas
culpas, e maleficios receberam em suas pessoas cruas penas, de que davam
testemunho has muitas forcas do Reino que delles estavam cheas.
Foi Principe de bom saber; porque amou ha justiça sobre todalas cousas,
e por esso foi para todos mui justiçoso, e para si sobre todos
justiçado, e sua justiça nom era sempre tam severa, que quando alguns
casos, e tempos ho requeriam nom misturasse com ella muita misericordia,
e piedade. Nunqua delle se achou que dicesse mentira, nem quebra de sua
verdade, e defendeo, e favoreceo muito hos lavradores, ha que chamou
nervos da terra, e do Reino, e teve grande cuidado dos pobres, e
minguados, ha que sempre proveo com suas ajudas, e esmolas, e nas cousas
de sua fazenda, e caza foi sobre todos ho mais provido, e solicito, com
que deu maravilhoso exemplo, para que em seu Reino todos ho fizesem, por
esso se fez Rei de grandes tezouros, porque has gentes do Reino foram
tambem em seu tempo mui riquas, e fez muitas leis por bem, e regimento
da terra, e todas sem alguma quebra por si sempre guardou, e mandou
inteiramente guardar, e foi Principe tam liberal sem algum vicio de
prodigo, que por todalas terras elle por sua grande nobreza foi de todos
mui celebrado, e lembrado, e por ella muitos Senhores de Nações diversas
vinham á sua Corte pelo ver, e elle assi hos honrava, e tratava, e com
suas grandes dadivas assi os despedia que da fama, e esperança, com que
ha elle vinham, nom se achavaõ enganados, e ha todolos outros Fidalguos,
e Senhores Estrangeiros, que por alguns casos tinham de sua ajuda
emparo, e soccorro alguma necessidade, elle nunqua em seu Reino lho
negou, e ha todos recebia com muita honra, e fez grandes merces.
E alguns destes foram ho Ifante D. Joaõ de Castella seu tio irmaõ da
Rainha Dona Breatiz sua madre, e de D. Reymaõ de Cardona Daraguam, que
desses Reinos de Castella, e Daraguam eram desterrados, e no de
Portugual acolhidos, e tambem D. Joaõ Nunes de Lara, Senhor de Bisquaya,
que ElRei D. Diniz teve prezo, e depois por grandeza ho soltou, e mandou
poer em sua terra com muitas dadivas, e grandes merces que lhe fez, com
que honradamente, e com muitos Cavalleiros ho soltou, e mandou poer em
sua terra, como aho diante se dirá. Este Rei, porque sempre dezejou de
fazer guerra ahos infiéis, e elle nom tinha terra, que jáa fosse de sua
conquista trabalhava de lhe fazer continuadamente por maar com armadas,
e frotas, que contra hos Mouros Dafriqua, e de Grada sempre trazia, e
nunqua se acha que contra elles fizesse paz, nem lhe desse treguoas, e
has mais cousas que em sua vida fez por acrescentar e enobrecer seu
Reino, no cabo desta sua Coronica bremente ha somarei, porque
verdadeiramente se saibaõ.
*CAPITULO II*
_Como ElRei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha delRei D. Pedro
Daraguam, e da Rainha Dona Costança, e de suas grandes virtudes, e
santidade_.
Sendo ElRei D. Diniz de vinte annos, idade asáas conveniente para casar,
foi aconselhado da Rainha Dona Breatiz sua madre, e assi requerido por
parte do Reino de Portugual, que cazasse para teer esperança de lhe dar
Deos erdeiro legitimo, que ho succedesse, e loguo lhe foi apontado na
Ifante Dona Isabel Daraguam, que estava por cazar filha del Rei D. Pedro
deste nome ho IV, e dos Reis Daraguam houndecimo, e da Rainha Dona
Costança, filha de Manfreu Rei dambas has Cezilias, que fora filho do
Emparador Federiquo, ha qual Ifante Dona Isabel por suas muitas
bondades, e grande fremosura era nas Cortes dos Reis, e Principes
Christãos muito louvada, e por esso se requeria delles grandes, e mui
altos cazamentos, no que ElRei D. Pedro seu pai nom podia consentir
vencido sóomente de grande affeiçam, que lhe tinha, com que nom podia
padecer ha privaçam de sua santa conversaçam, e da graciosa prezença de
sua vista, e sendo ElRei D. Diniz por estes respeitos della muito
contente, estando em Estremoz no anno de mil duzentos oitenta e hum
annos, (1281) avendo dous annos que jáa reinava, ordenou seus
Embaixadores, e Procuradores para hirem requerer ha dita Ifante D.
Isabel; Joaõ Velho, Vasquo Pires, e Joaõ Martins, homens de seu
Concelho, e pessoas acerqua delle, de grande autoridade, e boa estima,
hos quaes chegaram á Corte delRei Daraguam, que estava em Barcelona,
onde sobre ho mesmo caso se acertaram outros Embaixadores delRei de
Frãça, e delRei de Ingraterra, que para cazamentos de seus filhos
erdeiros enviavam requerer a dita Ifante.
Pelo que ElRei D. Pedro vendo que algumas destes Principes jáa se nom
podia escuzar consirando, que com ho filhos delRei de Frãça, e de
Ingraterra pelos muito conjunctos dividos de sangue, que com elles
tinha, elle sem dispensação Apostoliqua a nom podia dividamente cazar, e
que em caso que com cada hum delles cazasse nom saia de sua caza Rainha,
mas Ifante, ouve por bem de outorgar, que cazasse com ElRei D. Diniz,
porque sem mais longuas esperanças, ella fosse logo Rainha. Pelo qual ho
dito Joaõ Velho, que dos sobreditos Procuradores era pessoa para esso
especialmente deputada, recebeo ha dita Ifante por molher delRei D.
Diniz, e depois de assinarem tempo certo em que avia de ser trazida, hos
Embaixadores se tornaram ha Portugual, e porque antre hos grandes
guostos, e muitos proveitos das Estorias, ha declaraçam verdadeira das
linhagens, e descendencias dos Principes, e Senhores consegue ho mais
pequeno, e vejo que hos Istoriquos, que dos Reis, e seus feitos, que
eram prezentes escreveram elles, porque semilhantes declarações de
gerações serem ha estes tempos rezentes pubriquas, e mui notorias, has
calaram, e nom escreveram, e por esso aho diante por ha longura do
tempo, e has fraquezas das memorias se cauzam duvidas, e confuzoens, que
muito descontentam.
Por tanto nom sóomente nom pareceo couza injusta mas mui necessaria
declarar algum tanto de mais longe ha geraçam de que esta Rainha Dona
Isabel descende, e com que geraçoens Reaes foi liada. Porque he de
saber, que ElRei D. Pedro deste nome ho terceiro, e dos Reis Daraguam ho
noveno, cazou com ha Rainha Dona Maria, filha de D. Guilhemo de
Mompilher de que ouve hum filho, que ho socedeo dito D. James deste nome
o primeiro, e dos Reis Daraguam ho decimo, este D. James, como nas
Coronicas Daraguam se affirma, foi concebido ha caso, e seu nome posto
por milagre, porque ElRei D. Pedro por sua natural condiçam, ou por seu
vicio era muito dado ás molheres estranhas, e muito pouquo á Rainha sua
molher, ha que por consentimento de hum Camareiro delRei escondida, e
mui secretamente se lançou de noite na cama delRei em luguar de huma
moça, com que elle tinha affeiçam, e aquella noite concebeo do marido, e
conhecida por ElRei, que do caso foi enverguonhado, ella se nom quiz
alevantar da cama atée ho outro dia mui claro em que de muitas gentes se
fez alli vir conhecer, e daquelle proprio dia de que mandou tornar
pubriquos testemunhos ha nove mezes pario hum filho, com que ElRei ouve
muito prazer, e por devaçam, e mais segurança de sua vida, mandou loguo
offerecer ho menino ha huma Egreja, e encomendallo ha Deos.
Preguntando ElRei pelo Officio, ou Psalmos, que se rezevam aho entrar
della, foi certifiquado, que a este tempo hos Sacerdotes cantavam _Te
Deum laudamus_, e daquella primeira Egreja ho mandou levar ha outra
segunda, onde pela mesma maneira soube, que aho entrar della com ho
menino se dizia _Benedictus Dominus Deus Israel_, e sendo ambos pai, e
mãi em consulta do nome, que lhe poriam, ha Rainha sua madre dice, que
sua vontade, e devaçam era parindo filho, que ouvesse ho nome de cada
hum dos doze Apostolos, e para esso mandou loguo fazer doze cadeas de
cera por igual medida, e pezo, e em cada hua hum escrito, e em cada hum
escrito ho nome de cada hu dos doze Apostolos, e com ellas juntas, e ha
hum proprio momento acezas mandou dizer huma Missa solene do Espirito
Santo, e no cabo della has candèas todas arderam, salvo ha que em nome
de San-Tiaguo foi posta, que fiquou mais inteira, e por esso no seu nome
de James, foi loguo cazado com ha Rainha Dona Lionor, filha delRei D.
Affonso deste nome ho noveno de Castella, irmãa da Rainha Dona Orraqua
de Portugual, de que ouve hum filho D. Affonso, que faleceo, e foram
ambos depois pela Egreja apartados, e depois elle cazou com ha Rainha
Dona Violante, filha que foi de D. André Rei Dumgria, de que ouve estes
filhos ha saber: D. Pedro, que apoz elle Reinou em Araguam, e D. James,
que foi Rei de Malhorqua, e Menorqua, e D. Sancho que foi Arcebispo de
Toledo, e foi morto em huma batalha em Andaluzia, que ouve com hos
Mouros, e Dona Costança, que foi cazada com ho Ifante D. Manoel de
Castella avoo da Ifante D. Costança, molher, que foi delRei D. Pedro de
Portugual, e D. Violante, que cazou com ElRei D. Affonso ho decimo de
Castella, avoo delRei D. Diniz de Portugual, e Dona Isabel, que cazou
com D. Filippe Rei de França, filho e erdeiro delRei S. Luís.
E este Rei D. James foi ho que tomou segunda vez Valença Daraguam ahos
Mouros por cerquo, e força, porque da primeira vez, que por ho Cide Ruy
Dias foi tomada, elles Mouros no proprio tempo de sua morte ha tornaram
ha cobrar, e atée este Rei ha tiveram. E este Rei D. James depois de
muito velho, e nom podendo jáa sofrer ho pezo, e carreguo do regimento
de seu Reino fez alevãtar, e obedecer por Rei aho Ifante D. Pedro seu
filho, e elle meteose Monge no Moesteiro de Santa Cruz, de Monges
branquos, onde jáas sepultado.
Este Rei D. Pedro seu filho deste nome ho quarto, e dos Reis Daraguam ho
onzeno, contra vontade de seu pai cazou cõ Dona Costança, filha delRei
Manfreu, que foi dambas as Cezilias, filho bastardo de Federiquo II
Emparador Dalamanha, e Rei de Cezilia, e de Napoles, que foi Erege, e
máo homem, e cruel, e perseguidor da Egreja, assi como fora seu avoo, ho
outro Federiquo, que diceraõ Barbarroxa, ho qual Emparador Federiquo II,
sendo doente em Fruelmela Luguar do Reino Dapulha por consentimento de
hum seu Camareiro foi afoguado, e morto por este seu filho Manfreu, que
se chamava Principe de Tarento, para loguo aver como ouve, seus
tezouros, que eram mai grandes, e esta abominavel maldade fez por tal
que em algum testamento, que o pai podera fazer, nom despozesse de suas
riquezas ho contrairo do que dezejava.
E deste Emparador fiquou hum filho legitimo, que chamavam Conrado, que
era em Alemanha, e vindo para Nopeles de Cezilia, que direitamente lhe
pertencia tambem Manfreu seu irmaõ em hum pastel ho fez matar com
peçonha, e deste Conrado fiquára hum filho menino erdeiro dito
Conradino, que em mistura de certos prezentes, e joias tambem seu tio ho
quizera matar cõ peçonha, mas ha Rainha mãi do menino como mui prudente,
e receosa das manhas de Manfreu aprezentou em luguar do filho outro
menino em tudo conforme, que por elle loguo morreo, ho qual Manfreu por
morte de Conrado seu irmaõ com has muitas riquezas, que tinha occupou
loguo, e ouve o Reino de Cezilia, que sendo sobre esso pelo Papa
Alexandre escommunguado, e perseguido com exercito para que deixasse ho
Reino, elle por sua ajuda meteo em Italia muitos Mouros de Tunes, e
Dafriqua cõ que desbaratou ha gente do Papa, e fez em Italia grandes
destroições, e levou della grandes despojos.
Pelo qual ho Papa Urbano IV, enviou em França chamar ha Carlo irmaõ
delRei S. Luis ha quem fez Alferes da Egreja, e lhe deu hos Reinos de
Napoles, e de Cezilia, porque os cobrasse de Manfreu, que tiranamente
hos usurpava, e Carlo ajuntou muita gente, e com ajuda do Papa ouve
batalha com Manfreu junto de Benavente em Italia onde ho dito Manfreu
foi morto, de que hos Reinos de Cezilia, e de Napoles fiquaram loguo
pacifiquos ha Carlo, especialmente, que depois da morte de Manfreu
tambem Carlo matou em outra batalha ho Conradino neto de Federiquo, ho
que Manfreu quizera nas joias matar, porque com grande exercito veo
contra Carlo para cobrar hos Reinos que dizia lhe pertencerem de
direito, e na contenda foi morto, e sendo Carlo nessa posse dambos hos
Reinos sobreveo, que por quãto hos Francezes tratavaõ has gentes de
Cezilia com inhumanos roubos, e cruezas, e desprezos, desonestidades,
dissoluções: elles todos de que ha Cidade de Palermo, foi ho principio,
indinados contra hos Francezes sendo jáa para esso secretamente
exortados, e favorecidos delRei D. Pedro Daraguam, em hum dia hos
mataram todos, e para vinguança desta rebeliam, e mortindade dos seus,
ElRei Carlo, que nom era em Cezilia ajudado de grandes potencias veo ha
Cezillia, e cerquou estreitamente ha Cidade de Mecina, que loguo com has
outras Cidades da Ilha enviaram pedir soccorro aho dito Rei D. Pedro, ha
quem pediam amparo, e ajuda, e por esso lhe offereceram ha entregua do
Reino, que diziam lhe pertencer direitamente pela Rainha D. Costança sua
molher, filha do dito Rei Manfreu, de que nom fiquara outro erdeiro
legitimo, que o socedesse.
Por cujas preces, e requerimentos, commovido ElRei, D. Pedro,
principalmente por cobrar o Reino de Cezilia, que lhofereciaõ, elle com
grandes frotas veo loguo ha Palermo onde recebeo ha obediencia, e Coroa
do Reino, e dahi ordenou loguo descerquar Mecina em cuja perda se ha
perdesse, toda Cezilia se perdia, primeiro mandou requerer ha ElRei
Carlo, que se partisse, e lhe deixasse seu Reino, que por sua molher
direitamente lhe pertencia, ho que Carlo desprezou, como ha Embaixada, e
requerimento de grande soberba, e porém com medo delRei D. Pedro, que
pelo maar, era muito mais poderoso, receoso de lhe colher hos
mantimentos para seu exercito, deixou ho cerquo de Macina, e se foi ha
Calabria, e dahi mandou chamar ha Carlo Principe de Salerno, seu filho
que era em França, ho qual com grande poder se ajuntou com seu pai em
Roma, onde se queixaram delRei D. Pedro aho Papa Martinho IV da força, e
danos de Cezilia feitos contra direito, dizendo que Carlo por armas, e
em campo lhe faria conhecer seu erro, e tirania.
Ha quem ElRei D. Pedro com escuzas coradas das couzas passadas se mandou
defender em Roma por seus Embaixadores, hos quaes por guanharem tempo, e
escuzarem ha ida dos Francezes sobre Cezilia, porque estavam muito
poderosos concordáram em nome delRei D. Pedro por juramentos solenes,
que ha contenda desse Reino se partisse por desafio dambos hos Reis em
pessoas, e com cem Cavalleiros cada hum sôomente, e que fosse em
Bordeos, que ha esse tempo era delRei Dingraterra, e que aho Rei
vencedor fiquasse livremente, e sem contradiçam ho dito Reino de
Cezilia, do que ElRei Carlo foi mui contente, para concordarem ho
desafio, e ElRei D. Pedro deixou Guovernador, e como Rei de Cezilia
ElRei D. James seu filho, e veose Araguam, e Carlo para regimento, e
defençam deixou tambem seu filho Carlo Principe de Salerno, e passou em
França, para cada hum com suas valias, que levavam por segurança do
campo irem comprir ho desafio para que era assinado dia certo no mez de
Junho, ho qual dia Carlo pareceo em Bordeos com hos seus Cavalleiros
armados, deixando a huma jornada ElRei Felippe de França cõ grande seu
exercito por segurador.
Mas ElRei D. Pedro nom pareceo pubriquo em Bordeos, e porém se diz, que
por nom quebrar ho juramento que fizera, se mostrou ahi a alguns em
secreto, e que de como parecera tomou por sua escuza estormentos, se
volveo ha seu Reino com grande pressa, e por este enguano de que ElRei
de França, e Carlo seu tio, e ho Papa juntamente foram muito
escandalisados, ho Papa escommungou ElRei D. Pedro, e deu contra elle
Cruzada, e concedeo o Reino Daraguam com grande solenidade, e com grande
doaçam ha Felippe Conde de Valois, segundo genito delRei Felippe de
França, que cazou com huma neta delRei D. Carlo seu tio Principe de
Salerno. E neste tempo antes de se executar ha Cruzada contra ElRei D.
Pedro, hum Rogerio Delora, Almirante delRei D. Pedro com grande frota se
foi á vista de Napoles, onde Carlo filho delRei Carlo fiquara por
Guovernador, ho qual por seu mui riquo sangue de que descendia nom
podendo sofrer has muitas injurias que do Almirante Daraguam em sua
pessoa recebera, guiado mais do favor de seu esforço, que do verdadeiro
sizo, nem dos preceitos de seu pai, que nom guardou, sahio com sua
frota, que tambem consiguo tinha, e pelejou no maar com ho Almirante, ho
qual por ser de si mesmo tam afouto, e nas pelejas do maar mui
afortunado venceo, e prendeo Carlo com muitos homens de sua companhia, e
prezo com hos seus, loguo foram levados ha Cezilia, e postos em carcere
em Mecina.
Aho qual infortunio de Carlo, ElRei Carlo seu pai querendo proverse se
foi ha Guaieta, e porque com effeito nom podia seu dezejo satisfazer, de
nojo adoeceo, e segundo se diz morreu de tristeza, pelo qual hos de
Mecina, porque eram por este caso apertados pelo Papa com grandes
escõmunhões, e antreditos sabendo ha morte delRei Carlo por mais sua
vinguança se foram ahos carceres, onde estavam hos Francezes para hos
matarem, e porque hos prezos eram homens, e bons Cavalleiros se poseram
em defençam, e resistencia, e foram dos Cezilianos nos mesmos carceres
mortos sem piedade, e queimados, e assi quizeram fazer aho Principe
Carlo, se ha Rainha Dona Costança molher delRei D. Pedro, que ha esse
tempo era em Cezilia lhe nom valera, porque estranhou fazerse tam crua
justiça, sem mandado, nem autoridade delRei D. Pedro seu marido, dalli
concordaram, que Carlo fosse levado prezo, como foi a Araguam, onde era,
e avendo quatro annos, que ho dito Carlo era prezo depois da morte
delRei D. Pedro, Reinando em Araguam ElRei D. Affonso seu filho, foi por
meio delRei D. Duarte Dingraterra solto sobre ha refens, que Carlo deu
de tres filhos seus legitimos, e sinquoenta Cavalleiros nobres do
Condado de Proença, e pelas despezas trinta marquos de prata, com
condiçaõ, que elle renunciase ho direito que tinha em Cezilia, e fizesse
renunciar ha Carlo de Valois ho direito que ho Papa lhe dera em Araguam.
E por esto, e por cazamentos que depois antre elles se fizeram fiquou
ahos Reis Daraguam ho direito no Reino de Cezilia; como quer que sobre
esta mesma contenda antes de se fazer ha mesma concordia ElRei Felippe
de França, e este Rei D. Pedro Daraguam faleceram ambos sobre ho cerquo
de Girona, ha saber, ElRei de França por doença, e ElRei D. Pedro por
dezemparo, e treição dos seus, foi morto ha ferro, como nas Coronicas de
Frãça, e Daraguam mais larguamente se decrara. E deste Rei D. Pedro
Daraguam, e da Rainha Dona Costança sua molher fiquaram estes filhos, ha
saber D. Affonso filho primeiro ha que disseraõ ho Casto, que apoz este
Reinou, e sem cazar morreo Frade no abito de S. Francisquo, e D. James
ha que fiquou ho Reino de Cezilia, depois que elle foi Rei Daraguam, e
Dona Violante, que depois cazou com ElRei Carlo, irmam de S. Luis Bispo
de Toloza, e Dona Isabel molher delRei D. Diniz de Portugual.
E tornando ho processo aho fio de seu cazamento, que atraaz leixeei aho
tempo, que este cazamento se fez em Araguam, eram grandes guerras, e
differenças em Castella, antre ElRei D. Affonso ho decimo e ho Ifante D.
Sancho, seu filho, cuja parte ElRei D. Pedro Daraguam favorecia, e
siguia, e por este caso receando enviar sua filha por terra ha seu
marido ElRei D. Diniz, ordenava que viesse por maar, mas por outros
pejos que da vinda do maar se offereciam, ordenou de toda via vir por
terra, e em sua companhia enviou ho Bispo de Valença, e muitos outros
Cavalleiros dos milhores de sua terra, e lhe deu mui riquas joias douro,
e de pedraria, e grande baixella de prata, e com ella veo tambem ElRei
seu padre atée ho estremo de Castella, onde ante de se espedirem falaram
ambos apartados por grande espaço, e em se espedindo ElRei della, elle
com olhos cheos de mui saudosas lagrimas lhe dice.
_Filha, Deos que te chamou pera este cazamento, e lhe prouve que de
minha caza saisses Rainha, elle neste caminho te queira guardar, pera
que nom recebas pejo, nem dano algum, e Deos que na terra onde nasceste
te amou, e quis que de todos sempre fosses amada, enderessa tua vida, e
teus feitos nessa pera onde vaaz de maneira que sempre faças couzas de
seu santo serviço, e te dèe sempre avença, e boa concordia com teu
marido_.
E com esto soltando-a dos braços com que ha teve apertada, chorando lhe
deitou ha bençam de Deos, e ha sua, e assi se despedio della com sinaes
de muito saudoso, e como entrou em Castella, veo ha recebella aho
caminho, ho dito Ifante D. Sancho, seu primo com irmão, porque fora
filho da Rainha Dona Violante molher delRei D. Affonso de Castella, que
era mãa delRei D. Pedro Daraguam, e do dito Ifante D. Sancho de que ha
Rainha Dona Isabel, e todolos de sua companhia receberam muita honra, e
boom trato, e ho Ifante lhe dice: _Senhora ElRei vosso padre meu tio, em
minhas necessidades me fez sempre tanto favor, e me deu tam grandes
ajudas, que por esso, e principalmente por quem vós sois, eu com boa
vontade atèe Portugual fora com vosquo, mas por estas guerras em que
ando, que hee necessario que sempre proveja com minha pessoa, ho nom
posso aguora fazer, e peço-vos que desta culpa me releveis, e sabei que
pera has cousas de vossa honra, e serviço sempre me achareis deligente,
e muito aguardecido, mas eu enviarei com vosquo ho Ifante D. Jarnes meu
irmaõ, que vos acompanhe_.
E assi proseguiram sua viagem atée cheguarem ha Braguança, onde sua
entrada fora concordada, e alli eram jáa, que esperavam por ella ho
Ifante D. Affonso, irmaõ legitimo delRei D. Diniz, e ho Conde D.
Guonçalo, cazado com Dona Lionor, tambem sua irmãa, filha bastarda
delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e assi outros Perlados, e riquos
homens do Reino de Potugual, e dalli se despedio delia ho Ifante D.
James, e se tornou pera Castella, e ho Ifante D. Affonso, e hos
Perlados, e Senhores de Portugual trouxerao ha Rainha ha Tranquozo, onde
veo ElRei D. Diniz, e ha recebeo em pessoa, e depois de feitas suas
benções ordenadas pela Egreja, fizeram alli vodas com mui grandes
festas, e com mui grandes alegrias no mez Daguosto do anno de mil
duzentos oitenta e dous annos,(1282.) pera ho que no campo de Tranquozo
se fizeram grandes, e custozas cazas, e ElRei se partio dalli com ella,
e lhe ordenou loguo caza, e deu seus officiaes, terras, e assentamento
segundo ha sua honra, e estado compria.
E esta Rainha Dona Isabel posto que por obediencia, e mandado delRei seu
padre, e por necessidade de bem, e paz destes Reinos, fosse
corporalmente cazada com ElRei D. Diniz ha que tinha grande amor, ella
porém com todalas obras, e sinaes de mui Santa, nom leixava
espiritualmente de ser cazada com Deos, ha quem com tanta abstinencia, e
continuas orações sempre servia, e contemplava como sempre fizera, sendo
donzella em caza delRei Daraguam seu padre, porque sendo cazada, por hum
Breviairo por devoto costume, tinha por seu desenfadamento mais
familiar, em todolos dias rezava todolas oras Canonicas, e depois desso
tomava outros livros de couzas espirituaes, e devotas, e por elles lendo
retraida muitas vezes com muitas lagrimas de devaçam ha viram chorar, e
depois deste virtuoso officio, que cada dia ordenadamente tinha, por nom
estar ocioza custumava por suas mãos lavrar, e fazer cousas douro, seda,
e prata, e sobresso com suas donas, e donzellas praticava sempre em
cousas devotas, e onestas, e porque sua fée fosse por obras mais
prefeita, e de moormerecimento, ella ha moor parte de suas rendas dava
secretamente ha pessoas miseraveis em que sabia, que avia verguonhozas
necessidades, e ha estas era tam liberal, e piedoza, e com tam limpo
coração, e tam graciozo rosto lhe dava ho seu, que por ella mui
verdadeiramente se dizia, que das viuvas, e orfans era piiedoza madre; e
ella foi sempre em todas suas averssidades, e descontentamentos, que lhe
socediam, mui armada de paciencia, porque nella nunqua foi conhecida
ira, nem sanha, huma ora mais que outra, e has vinguanças, que tomava
dos males, e descontentamentos que dalguem recebia, eram graciosos
perdões sem querer tomar per si, nem por outrem alguma outra emenda.
Era em suas palavras mui mansa, e em suas obras mui conforme ha toda
humildade, sem algum alevantamento de soberba, de maneira, que a graça
do Espirito Santo, de que era aceza de todo, causava em sua alma hum
louvado assosseguo, e grande devaçam, com que hos dias que ha Egreja
mandava guardar ella sem quebra dalgum hos jejuava todos ha conduto, sem
comer mais que huma sóo vez, e alem desso fazia jejuns de paõ, e aguoa
todalas sestas feiras do anno, e Vesperas dos dias de N. Senhora, e
sobresso em toda huma quarentena, que vem em cada hum anno de S. Joaõ
Baptista, atèe Sãta Maria Dagosto, e atèe ho S. Miguel, e outra quoresma
dos Anjos, que hee des ho dia de N. Senhora Dagosto, e assi de dia de
todolos Santos atée Vespera de Natal nom comia, nem bebia se nom paõ, e
aguoa huma sóo vez no dia, de maneira que fazia este tam aspero jejum
has duas partes do anno, e assi teve outras muitas, e mui singulares
virtudes, com que pareceo que venceo suas forças humanas, e por ellas
aprouve ha N. Senhor fazer em sua vida muitos milagres, e depois de sua
morte muitos mais, e dos de sua vida segundo achei por inquirições de
testemunhas dinas de fée, e mui autorizadas foi, que em Lisboa ha veo
ver huma dona do Moesteiro Dodivelas, que por huma apostemaçam, e
inchaço que tinha no estamago, era muito doente, e desposta ha morte, e
ha Rainha aho espedir della lha vio, e benzeo com ho sinal da Cruz com
que no Moesteiro se achou loguo assi sam, como se daquelle mál nunqua
fora toquada.
E porque esta dona ha todos ho proviquava por milagre, ha Rainha ha
mandou chamar, e reprendeo-à, e lhe mandou, que mais ho nom dicesse,
porque se algum bem recebera nom fora de sua maõ, nem della, que era
peccadora, mas sóo da virtude de Deos, que ho louvasse. E esta Rainha
por sinal da sua humildade custumava em todas has sestas feiras da
quoresma lavar por si hos pées ha doze homens, hos mais leprozos, que se
podiaõ achar, e esto fazia assi secretamente que ElRei particularmente
ho nom soubesse, e estando em Santarem depois, que hum dia fez este
lavatorio, mandou dar bem de comer ahos pobres, como sempre fazia, e em
se elles saindo escuzos do Paço acertouse, que hum porteiro com sanha
deu ha hum cuidando que era outro homem, tal golpe na cabeça de que
loguo cahio em terra asaaz ferido, e huma dona, que esto vio, recolheo
ho pobre em sua caza onde loguo ha Rainha ho foi ver, e depois de ho
curar por sua mam, e lhe dar dinheiro pera sua despeza se despedio, e
aho outro dia que mandou saber de sua disposiçam acharaõ no de todo saõ.
E na Semana Santa, na Quinta feira de Lava pées, em lavando ha treze
molheres pobres enverguonhadas, huma dellas acertou, que tinha hum pée
comesto de pragua, e dous dedos afistolados, que estavam para cair,
depois que ha Rainha lhe lavou ho são, ella escondia ho doente, e
escuzandose por seu mal de ho querer mostrar, forçada dos roguos, e
despejos da Rainha, lho mostrou, e nom sóomente lho lavou mansamente,
mas humildosamente lho beijou na propria chagua, e depois que ha todos
deu de comer, e vestir, como tinha por costume, em se saindo do Paço
aquella molher doente indo na companhia das outras se achou de todo sam.
E huma Orraqua Vasques molher da Rainha, era de muitos tempos doente de
tal dor, que cahia amortecida, e com tormentos, que lhe davaõ
escassamente, e com difficuldade ha faziam retornar à vida, e sabendo ha
Rainha, que has muitas meizinhas, e remedios dos Fisiquos lhe nom
aproveitavam, ella no dia de sua paixam ha benzeo cõ ho sinal da Cruz, e
aprouve ha Deos, que loguo acordou, e depois foi sempre em sua vida
livre de taes acidentes. Estando ha Rainha era Alamquer muito doente de
humores frios pera que hos Fisiquos por meizinha lhe mandavam beber
vinho no puquaro porque bebia, ella ho nom quiz fazer, trazendolhe aguoa
pera ella beber milagrosamente se tornou duas vezes vinho no puquaro
porque bebia. Estes, e outros milagres muitos se achaõ, que N. Senhor
pelos merecimentos desta Santa Rainha fez em soa vida, e muitos mais
depois de sua morte, de que aho diante por sua devaçam, e louvor darei
alguma particular, e breve conta.
*CAPITULO III*
_Do fundamento, e cousas, que ouve pera ElRei D. Diniz aver alguas
Villas, e Castellos de riba Dodiana, que foraõ de Castella_.
Aho tempo que ElRei D. Affonso Conde de Bolonha faleceo, e depois em
alguns primeiros annos do Reinado delRei D. Diniz, ElRei D. Affonso de
Castella, seu avoo atée hos derradeiros dias de sua vida, sempre foi
perseguido de grandes guerras, e muitas necessidades, causadas pela
errada desobediencia, e desleal alevantamento, que o Ifante D. Sãcho seu
filho, e hos do Reino de Castella, e de Liam contra elle usavam, pelo
qual ha Rainha D. Breatiz sua filha, como Rainha virtuosa, e aguardecida
filha mui piedosa, e por lhe paguar em alguma maneira has dividas, que
por obriguaçam Divina, e humana lhe devia, loguo como ElRei D. Diniz seu
filho foi cazado, foi ha ElRei D. Affonso seu pai, que estava em
Sevilha, pera em tantas suas aversidades, e infortunios, como padecia,
ella ho soccorrer, e confortar, e aconselhar, sem o nunqua leixar atée
ora da morte delRei, ha que ella foi prezente, e cuja testementeira
principal com outro fiquou, e porque ella lhe soccorreo com todo ho
dinheiro de sua fazenda, e com todolas joias de sua pessoa, e com
todalas rendas, e gentes, que tinha, e podia aver de Portugual, pelo
qual neste meio ElRei D. Affonso pelo grande amor, que tinha á Rainha
sua filha, como jáa dice, e por lhe satisfazer has boas obras, que della
recebera fez ha ella especial doaçam da Villa de Niebla, que hee em
Andaluzia ha que chamam Reino, com todolos Castellos, e rendas que ha
ella pertencem, e assi lhe fez mais doaçam das Villas de Serpa, Moura, e
Mouram, Noudar, que saõ em riba Dodiana, por carta que foi dada em
Sevilha quinta feira quatro dias de Março do anno de mil duzentos trinta
e tres annos. (1233)
E porque Moura, e Serpa, e Mouram eraõ da Ordem do Esprital de S. Joaõ
de Castella ho dito Rei D. Affonso pera milhor, e mais livremente poder
dar has ditas Villas á dita Rainha sua filha, por serem conjuntas aho
dito Reino de Portugual ante algum tempo, que se fizesse ha dita doaçam
elle por autoridade, que se ouve do Gram Mestre, e por consentimento do
Prior, e Freires da dita Ordem em Castella fez com elles escaibo das
ditas Villas pera lhe fiquarem livres, e por ellas deu em Castella pera
fiquarem á dita Ordem pera sempre Touro, e ha Egreja de Santa Maria da
Veiga, e hos direitos de Cairola e has Martineguas, e direitos de
Guaronha, e de Feerne, e de Paralyves, com outros Luguares, e outras
muitas rendas, e direitos, que saõ expressamente decrarados, ho qual
escaibo ante da doaçam se fez por carta feita em Santo Estevam de
Guormas, terça feira onze dias de Março de mil duzentos oitenta e hum
annos (1281) sobescrita por Guarda de Toledo, Secratairo, ha qual doaçam
destas Villas ElRei D. Affonso antes tres annos, que falecesse, fez á
Rainha Dona Breatiz sua filha. Depois da morte delRei D. Affonso Conde
de Bolonha seu marido, em Reinãdo ElRei D. Diniz, como atraas dice, e
por virtude destas doações ElRei D. Diniz tinha aquerido ho direito
destas Villas, que por El Rei D. Sancho de Castella seu tio, e por ElRei
D. Fernando seu filho lhe foram empedidas, e embarguadas, como aho
diante direi.
*CAPITULO IV*
_Dos filhos legitimos, que ElRei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel, e
assi doutros bastardos_.
ElRei D. Diniz sendo cazado com muito amor, e concordia com ha Rainha D.
Isabel, ouve della estes filhos, ha saber, ha Rainha Dona Costança
molher que foi delRei D. Fernando deste nome ho Terceiro de Castella, de
que aho diante direi, e ho Ifante D. Affonso filho erdeiro delRei D.
Diniz, que apoz elle Reinou, ho qual nasceo em Coimbra ha oito dias do
mez de Fevereiro de mil duzentos e noventa, (1290) de que aho diante em
sua propria Coronica farei inteira decraraçam. E alem destes filhos
legitimos, ElRei D. Diniz sendo cazado, ouve doutras molheres com que
teve afeiçam sete filhos, e filhas bastardos, cada hum dos quaes foi
filho de huma madre, ha saber D. Affonso Sanches, que se chamou
Dalbuquerque, ha que ElRei D. Diniz quiz grande bem, e por quem o Ifante
D. Affonso foi com seu pai em grandes desvairos, como aho diante direi,
e D. Pedro que foi depois cazado com Dona Branqua, filha de Pedre Annes
de Portel, filho de D. Joaõ de Boim, e de Dona Costança Mendes, filha de
D. Mem Guarcia de Souza, e outro D. Pedro, que depois foi Conde em
Portugual, este foi ho que fez ho livro das linhagens Despanha, e foi
singular homem, e D. Joaõ Affonso, e D. Fernam Sanches, e Dona Maria,
que cazou com D. Joaõ de Lacerda, e outra Dona Maria, que foi Monia no
Moesteiro Dodivellas.
Hos quais filhos bastardos ElRei D. Diniz assi ouve, vencido da sobeja
deleitaçam de sua propria carne, com que afastandose da Rainha sua
molher nom lhe guardando ha inteira lei do matrimonio, seguia por
indusimentos falsos, e máos, ha que se inclinava mais por sua vontade,
do que sua dinidade Real, e por sua consciencia, e onestidade, sobresso
devia, e por culpa, e peccado desso se diz, que em quanto ElRei D. Diniz
se deu ha estes apetitos nom licitos, sempre decrinaram has cousas da
justiça, que muito amou, e boa guovernança de sua caza, e fazenda, que
sobre todos soia melhor ter, e ha Rainha posto, que neste tempo era em
idade, e feições, e desposiçam pera ElRei se della muito contentar, e
ella dever sentir hos taes apartamentos, e solturas delRei, porém se
diz, que ella nom mostrava receber por esso paixam, nem escandalo algum,
antes como esquecida, e nom toquada de dores, e paixões tam comuas ha
molheres, nom perdia ha devaçam, e exercicio de rezar, e encomendarse ha
Deos, e de partir alegremente com suas molheres em cousas honestas, e de
serviço de Deos, e sobre esto fazia ho que parecia mais duro, e menos
pera fazer, que era dar de vestir às amas, que criavam hos taes filhos
delRei, e fazer, e procurar merces ahos aios, que hos ensinavam.
E estas virtudes pera outras molheres nom costumadas, vendo-as fazer tam
sem paixam á Rainha sendo mui moça, cauzavam ha todas mui grande
maravilha, mas ElRei D. Diniz averguonhado destas suas fraquezas, e
temendo ha Deos pór emenda de sua justiça, e assi por apaguar nodas, que
tanto danavam ha limpeza de sua Real dinidade, e singular condiçam se
apartou dellas inteiramente, e com grande serenidade se privou de todos
estes defeitos, e se poz no direito, e verdadeiro caminho, que devia, e
sempre atée sua morte ho seguio, e guardou.
*CAPITULO V*
_Do desacordo, que ouve antre ElRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso seu
irmaõ_.
ElRei D. Diniz tinha hum irmaõ lidimo ho Ifante D. Affonso, filhos ambos
delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, e ha este
Ifante D. Affonso fez ElRei seu pai doaçam mui solene das Villas de
Portalegre, e Marvam; e de Castello Davide, e Darronches, pera elle, e
seus filhos lidimos, ho qual Ifante em vida delRei seu padre, foi cazado
com ha Ifante Dona Violante, filha do Ifante D. Manuel, filho delRei D.
Fernando II de Castella, e da Ifante Dona Costança, filha do primeiro D.
James Rei Daraguam, e ouve della hum filho D. Affonso, que foi senhor de
Leiria, e faleceo sem filhos, e ouve mais tres filhas, Dona Isabel, e
Dona Costança, e Dona Maria, que todas cazaram grandemente em Castella,
ha saber Dona Isabel cazou com D. Joaõ ho torto, filho do Ifante D.
Joaõ, que se chamou Rei de Liam, que morreo na Veigua de Grada, e de
Dona Maria sua molher, filha do Conde D. Lopo, senhor do Bisquaia, e
Dona Costança cazou com D. Nuno Guonçalves de Lara, filho de D. Joaõ
Nunes de Lara, ha que diceram ho Bom. Estes nom ouveram filhos, e Dona
Maria cazou com D. Tello, filho do Ifante D. Affonso de Molina irmaõ da
Rainha Dona Maria molher delRei D. Sancho, e ouveram Dona Isabel, que
cazou com D. Joaõ Affonso Dalbuquerque neto delRei D. Diniz, filho de
Affonso Sanches, seu filho bastardo.
E avendo jáa sinquo annos, que ElRei D. Diniz era cazado, e sete que
Reinava, ouve grande desacordo antre elle, e ho Ifante D. Affonso seu
irmaõ, e ha cauza principal, era porque ElRei D. Diniz nom queria, nem
nunqua quiz legitimar, e abilitar has filhas do Ifante D. Affonso pera
erdarem suas Villas, e Castellos de Portugual depois de sua morte, sobre
que ha Rainha Dona Isabel molher delRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso
seu filho erdeiro, sendo ha esso ambos conformes fizeram solenes
protestações, e requerimetos pera esta abilitaçam, e legitimaçaõ nunqua
se fazer por ElRei, nem pelo Papa, aleguando muitos inconvenientes se se
fizesse, e ouvesse efeito, e ho principal era ha grande deminuiçam, e
perda que seria do Reino, e Coroa de Portugual se has sobreditas Villas,
e Castellos, estando no estremo de Portugual, passassem com suas filhas
do Ifante, que eram cazadas com homens grandes, e poderosos de Castella,
e ainda se diz, que avia receo do Ifante, que pubriquamente dizia, que
ho Reino de Portugual lhe pertencia, porque nacera lidimo depois da
morte da Condeça de Bolonha primeira molher delRei seu padre, e que
ElRei D. Diniz ainda nacera em sua vida della, e nom podia erdar, mas
com este defeito era jáa despensado pelo Papa, como na Coronica delRei
D. Affonso, Conde de Bolonha jáa dice.
E por esta deneguaçam em que ElRei D. Diniz se afirmou, ou por outra
qualquer couza, o Ifante seu irmaõ nas cousas da paz, e da guerra lhe
nom obedecia com has ditas Fortalezas assi como ElRei queria, e ho
Ifante devia, pello qual ouve guerra antre ambos na era de mil duzentos
noventa e sete, (1297) e ho Ifante D. Affonso com ajuda, e favor que
seus genros com suas pessoas, e gentes de Castella lhe davam, fazia
muito dano em Portugual, especialmente, que neste tempo Regnando jáa em
Castella D. Sancho, filho delRei D. Affonso ho decimo, elle matou em
Alfaro D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya, e D. Dioguo Lopes de Campos,
que eram pessoas mui principaes, e prendeo ho Ifante D. Johaõ, seu
irmãao, cujo filho era D. Johaõ ho torto, cazado com D. Isabel, filha
deste Ifante D. Affonso de Portugual, e pella morte destes senhores, e
prizaõ do Ifante D. Johaõ, ouve contra ho dito Rei D. Sancho grandes
guerras em Castella.
E durando ellas ElRei D. Diniz, e ElRei D. Sancho teveram vistas em que
por bem, e maior assesseguo de seus Regnos, concordaram cazamentos de
seus filhos, que eram pequenos ha saber, que ho Ifante D. Affonso, filho
maior delRei D. Diniz, cazasse com ha Ifante D. Breatiz, filha delRei D.
Sancho, como depois cazou, e que ho Ifante D. Fernando, filho maior
delRei D. Sancho cazasse com ha Ifante D. Costança, filha delRei D.
Diniz; e sobre este concerto, que ha tempo certo se avia de fazer, e
comprir com effeito como estes Principes, e Ifante fossem em idade, hos
Rexs se tornaraõ ha seus Regnos, e hos genros do Ifante D. Affonso de
Portugual, e suas gentes, que desobedeciam ha ElRei de Castella, se
acolheram nos seus Castellos de Portugual, onde has terras, que eram de
ElRei de Castella faziam muito dano. E porque ElRei D. Diniz era
sobrinho delRei D. Sancho, irmaaõ de sua mãi ha Rainha D. Breatiz, e por
pazes de cazamentos, estavam mui concordes, e amiguos, ho dito Rei de
Castella enviou notifiquar estes danos, e guerra, que das Villas, e
Castellos de Portugual seus naturaes lhe faziam, pedindolhe que ho
passado quizesse castiguar, e ho futuro mais contra elle nom se fizesse,
e se nom lhe desse loguar, que em seu Regno entraasse, e que elle com
suas forças ho emendaria.