manejos politicos mas imperitos nas questões do gosto,--que os
promovestes e auctorisastes.
Vós começastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana
prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripção.
Quando a miseria é geral, quando as amarguras são immensas, como disse o
proprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes publicos não
baixa uma só medida para acudir a tanto infortunio, quando todo o
remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha,
como quereis vós que se acredite que essa rainha, em uma tal
conjunctura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnanimos até
achar o numero de libras que compense a miseria geral e a amargura
immensa? Por que vibrações de piedade, por que processo de sentimento,
por que logica de consternação, por que inducção de pezares, quereis vós
que o alanceado coração de sua magestade tenha chegado de dor em dor, de
lagrima em lagrima, á conta, que só vós podieis ter feito, de duzentas e
vinte e duas libras em oiro e dez tostões em prata? Esta conta
deploravel é de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, não
tendo aprendido pelas necessidades proprias qual é o valor do dinheiro,
não sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vós lhe tivesseis
dito simplesmente que para acudir a uma catastrophe nacional não havia
nem uma só disposição da sciencia ou da lei e que todo o remedio para
essa desgraça publica se esperava da influencia regia, a rainha,
entregue ao impulso instinctivo do seu coração, não deixaria de
contribuir para esse fim de um modo illimitado, sacrificando-se
inteiramente e incondicionalmente á fatalidade da fome como teria de se
sacrificar á fatalidade da guerra.
Depois não vos occorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se
cerceava em soccorros no producto dos espectaculos em beneficio das
victimas da inundação. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma
senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher occorreria:
a prescripção da _toilette_. Como sois homens publicos e viveis
permanentemente na ostentação e no apparato vós não podeis conceber
quanto ha de inopportuno, de indelicado, de offensivo do bom gosto no
aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de
joias como para um certame de luxo. Se fosse effectivamente uma senhora
quem tivesse a direcção d'esses actos de phylantropia, as joias teriam
sido abolidas, o preço das luvas de baile teria sido applicado á
subscripção para os pobres, e nas mãos nuas um annel de ferro mandado
fazer pela commissão ornaria toda a pessoa que quizesse acceital-o em
troca de um annel de oiro offerecido aos inundados. Em vez dos
ramilhetes, de 15 ou 20 libras, offertados aos actores, aos musicos e
aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa
despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais
economico e mais expressivo como seria por exemplo, o offerecimento de
uma pequena photographia de sua magestade com uma simples dedicatoria
autographa.
* * * * *
Além da commissão de soccorros presidida nominalmente por sua magestade
a rainha a unica corporação que em Portugal se occupou do problema das
inundações foi a de suas excellencias os srs. bispos.
Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos
os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericordia
que os rios voltassem aos seus leitos.
Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pôr em
harmonia a meteorologia e a religião, crear barometros especiaes
dedicados ás nossas circumscripções ecclesiasticas.
Estes barometros, que os srs. parochos collocariam nas sacristias ao
lado das folhinhas em que se prescreve a côr das vestimentas, teriam as
indicações precisas para constituirem um formulario perpetuo sem o
incommodo da intervenção dos srs. bispos por via das suas pastoraes.
Bastaria que os aneroides _ad usum ecclesiae_ fossem um pouco mais
desenvolvidos na indicação dos resultados da pressão atmospherica sobre
os aspectos do tempo. Por exemplo:--78, _bom tempo fixo, faça preces a
pedir chuva_;--74 _grande chuva, faça preces a pedir sol_;--73
_tempestade, saia procissão e faça preces a pedir bom tempo_.
N'este caso os observatorios astronomicos e meteorologicos poderão ser
substituidos com vantagem pelas cabaças rotatorias dos Kalmuks ou pelos
moinhos do Tibet. As cabaças, cheias de orações e agitadas polo vento,
produzem a adoração perenne. Os moinhos são uma fabrica mecanica de
preces continuas, de moagens devotas.
É preciso que n'este ponto nos decidamos por uma das duas:--pela
meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosphericos se determinam
nos templos é absolutamente inutil estudal-os nos observatorios. As duas
coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeças que pensem ou bem
cabaças que rodem. Decidam!
* * * * *
O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro,
foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo
chegar a Lisboa senão oito dias depois d'aquelle em que partira do
Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos--quinze ou
vinte--que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um
dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estações proximas de Gaya
esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo
pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam
nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abençoal-os, dar-lhes os
ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de
mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para
sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros
abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres,
indifferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da
ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com
commentarios facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho,
magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe
abraçára ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e
uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:--«Ó labrego, larga o
rapaz!» e accrescentou sentenciosamente este conceito:--«Beijos de
homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma
visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na
carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te
abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»
O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não
pôde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde
chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de
frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés
molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das
calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da
estação. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados,
perdidos no meio da indifferença, desappareceram. Quando nós, no
primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de
Coimbra, onde ficaramos, até Santarem, não encontramos nenhum dos nossos
pequenos companheiros. É provavel que tivessem continuado a pé, sob a
tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza.
Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troçados, escarnecidos
na sua dôr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de
fortuna, eram os embriões da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao
deixar a patria.
Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundações era um
velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por
baixo do chapeu, um lenço de seda e ás costas uma manta _couvre-pieds_,
que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por
traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a
figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas,
com o seu lenço na cabeça, os seus sócos, o seu chapeu de chuva, o
aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua
prima, mais velha que elle, e de um pão de ló mais volumoso do que os
dois primos juntos.
Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e
de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua
naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu
amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em
creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma
modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara
para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus
paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de
uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera
operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de
castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome
de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na
politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias,
contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera
toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional--a
fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os
partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o
inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte--a
imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o,
desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações.
Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado
acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na
vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim,
invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as
suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe
fizesse justiça. «Exijo--dizia elle--que me paguem indemnisação na
medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a
quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho
para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me
fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não
tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz
extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida,
repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha
dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado
e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto
hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa
terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros
mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até
penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto
vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de
menos[1].»
[Nota 1: Textual.]
Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os
pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o
brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.
Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, está o
portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que
passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o
portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente
patriotismo. Nas suas allucinações de exilado a patria apparece-lhe
deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam
os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeiçôa em cada dia pelo
trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo
progresso, e mede pelo esforço d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o
empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus
homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus
escriptores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que elle faz
parte, suppõe a patria um grande todo confederado e harmonico com
interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados,
tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de
paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrificios illimitados. E
tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a
suppõe susceptivel.
Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações
a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de
libras por cada paquete.
Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as
sementeiras começam a crescer, a lembrança da catastrophe principia a
dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar.
Dentro de pouco tempo a commissão portugueza de soccorros aos inundados
não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.
As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitorias e tão
rapidas como as proprias inundações. Desde que a inundação cessa, o
trabalho restabelece-se nas suas condições normaes. Os estragos causados
pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam
unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo
proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela
caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo
opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o
dinheiro accumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque
não tem a opportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a
opportunidade do modo como.
É por estas rasões que suppomos fazer um serviço á commissão de
soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com
que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de
honra aos portuguezes residentes no Brasil--1.° indemnisando os
emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de
janeiro pelos prejuizos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a
tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em
Felgueiras uma policia rural que empeça a população indigena de destruir
as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na
provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes
residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e
que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da
indisciplina dos homens.
* * * * *
Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o
que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalicão, com um pequeno
riacho obscuro que ali passa.
Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o
adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era
tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos,
todos os grandes proprietarios da região em que passava o ribeiro
pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. N'este sentido ferveram
os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos,
todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia
das idéas, a direcção dos principios, os planos das estradas e os
projectos das pontes.
A obra fez-se finalmente sob a acção d'essas influencias e, como é
costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e
tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as
copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e
pelos caminhos, passou por toda a parte, sómente não passou--por baixo
da ponte!
Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é
verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um
symbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o
ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos
os philosophos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem
do legitimo espirito da politica e da administração na presente phase da
civilisação portugueza.
* * * * *
Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignára
de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda,
offerecendo-lhes em Palacio um banquete composto das iguarias mais finas
e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chouriço,
carne guisada com batatas e laranjas.
No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da
guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da victoria, nas quaes, a
um gesto da regia munificencia o _doutor roxo_ se repartira e
prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da
companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos
dithyrambos, ás canções bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto tão
anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jámais deixa
de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta
arte:
«Soldados! O principe, cujo pennacho branco vós tendes visto
constantemente á vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos ás
victorias, o principe cuja espada invencivel vós tendes visto sempre no
meio de vós, já relampagueando intemerata ao sol das batalhas, já
embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o principe, generoso e
magnanimo, n'este dia consagrado ao ephemero repouso dos acampamentos,
convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros d'armas. Uma
coisa de que sua real magestade jámais se póde esquecer é a maneira como
vos tem visto pelejar! Porque é mister dizer-vol-o: no maior ardor dos
combates, no proprio momento em que mais absorto elle parece no afan de
retalhar em postas os exercitos inimigos, nunca o principe vos perdeu de
seu real olho!
«Tudo elle viu, e nada do que obrastes lhe é occulto.
«Viu-vos caminhar ávante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no
meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os
estandartes do outro campo! Viu-vos quando á chegada fatal da maldita
cavallaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a
pé firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos
pelo peito como heroes! Viu-vos morder o pó! Viu-vos finalmente exhalar
o ultimo suspiro, a vós todos, desde o primeiro ao ultimo, até nada mais
se ver no logar onde estaveis senão um monte de cadaveres abraçados a um
monte de bandeiras! Foi ainda o principe, piedoso e grande, quem,
percorrendo o campo no dia seguinte á batalha, recolheu e enfrascou as
vossas cinzas, restituindo-as elle proprio ás vossas viuvas, e
dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: «Em cada um d'esses frascos,
marcados com o numero da praça e da companhia, encontrareis uma pitada
de tudo quanto vos resta d'esse punhado de bravos!»
«Foi depois de todas essas provações--tão arduas!--que sua magestade
deliberou reunir-vos n'este banquete sumptuoso.
«Soldados! em testemunho de agradecimento a uma tão manifesta prova de
consideração e de amor, peço-vos que ergaes as vossas taças, de dois
decilitros cada, e que, antes de haurirdes o phalerno de Torres que
ellas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os
quaes dou por finda esta allocução marcial. Viva sua magestade el-rei!
Viva a real familia! Viva a carta constitucional da monarchia!»
Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos _toasts_,
porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessaria para criticar os
seus proprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em
palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coçando nas
cabeças essa especie de comichão produzida por todo o rude encontro de
idéas contradictorias e confusas.
Expressos sob a fórma litteraria, os sentimentos que o soldado revelou
sob a fórma de coceira dariam o seguinte discurso:
«Capitão! Ha alguns annos que eu fui agarrado á força na minha terra
para vir para a tropa. A minha primeira idéa foi livrar-me comendo um
dedo. Affiançaram-me, porém, que poderia egualmente livrar-me dizendo
que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas não me acreditaram, e cá
fiquei ás ordens.
«Desde que jurei bandeiras é raro o dia em que o capitão, o major, o
tenente-coronel ou o proprio commandante me não fallam do meu ardor
mavorcio, da minha firme e tremenda attitude diante do inimigo e dos
meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.
«Eu devo dizer ao capitão, com toda a franqueza, que desde que estou na
militança nunca tive _ardôr mavorcio_ nem d'outra qualquer especie, a
não ser que o capitão se refira ao que senti nas orelhas quando na
recruta me puchava por ellas o sargento instructor. Se é d'este ardôr
que se trata, tive-o, e se o sargento o não teve ainda, ha de tel-o
tambem se, quando eu largar a farda, elle continuar a conservar as
orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de então estender
conscienciosamente desde a porta do quartel até á entrada da minha minha
freguezia.
«Emquanto ao inimigo declaro que o não conheço, e muito obrigado ficaria
ao capitão se tivesse a bondade de m'o mostrar para que eu podesse
desenferrujar estas inuteis pernas applicando-lhe sem perigo de offender
a disciplina alguns dos pontapés que em observancia da mesma disciplina
não tenho até hoje feito senão receber.
«Quem é o inimigo? Não farão favor de me responder:--quem é o inimigo?
«Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco côr de pinhão, de
gola levantada para cima, que ás vezes se mettia commigo nas guardas.
Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso
das artes da guerra.
«Vejo todavia que não fazemos mais do que preparar-nos constantemente
para resistir ao inimigo, o qual parece não implicar com mais ninguem
senão connosco. Pelo menos ninguem o teme senão a tropa.
«Ha familias, compostas unicamente de mulheres, que dormem sósinhas nas
suas casas sem medo a ninguem; no quartel, cheio de homens, cada um dos
quaes tem uma espingarda e uma bayoneta, é preciso pôr sentinellas a
todas as portas, velam uns emquanto os outros dormem, e ha sempre gente
armada até aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite,
para que não nos surprehenda o inimigo!--Que é sempre com o que lhe
dão:--com o inimigo!
«Emquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me
egualmente fazer sentir ao capitão que desde que estou no exercito ainda
não seguei.
«A minha vida tem consistido unica e exclusivamente em deitar todas as
manhãs umas correias ás costas e em pôr uma tocha ao hombro para marchar
ao som da musica ou para passear de sentinella á porta dos edificios
publicos.
«Pelo que diz respeito ao banquete opiparo para que sua real magestade
me convidou, agradeço-o muito, confesso-me profundamente sensivel aos
attractivos da real carne guizada e das fulgidas batatas da corôa.
Todavia não posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria
que me fizessem a especial mercê de me mandar embora.
«Apezar da excellencia das iguarias preciosas de que consta este
banquete olympico, sou forçado a dizer que por mais de uma vez a esta
meza o bocado se me tem enfardelado na bocca sem querer ir para baixo.
Porque? Porque me sobe do coração e me aperta a guela a lembrança da
minha aldeia, da alegre festa do Natal, n'este dia, ao pé do lar, no
casal da minha velha... Chamo-lhe eu a minha velha! O capitão faz
idéa... Fallo-lhe da minha mãe.