Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas

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[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

NOVA SERIE TOMO VIII

Janeiro a Fevereiro 1877

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,

da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das

sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da

politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande

Universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON

SUMMARIO

A actual situação politica. Conceituosa parabola das moscas e das

maselas. O partido revolucionario e o partido conservador. A funcção de

um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extincção do

partido revolucionario por falta de idéas. Mancommunação conservadora.

Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A

profunda synthese do pipo do Estado.--As inundações. Crise

meteorologica. Theoria da chuva. Os irrigamentos e as cheias. As

civilisações e os rios. As previsões industriaes e economicas. O

regimen das torrentes. A arborisação. Os diques provisorios. As fontes

de Palissy. Crise economica. O Estado e o Inundado. Troca de

correspondencias. Lisboa durante a crise: os salões, os espectaculos, a

imprensa, o parlamento. Intervenção de sua magestade a rainha. A

caridade como elemento de administração. Autopsia do anjo. De como este

não baixou do ceu. Demonstra-se que saiu da arcada do Terreiro do Paço.

A intervenção dos Prelados. As preces para mudar o tempo e os

observatorios para o estudar. Os moinhos do Tibet e as cabaças dos

Kalmuks. A intervenção da colonia portugueza no Brazil. O brazileiro

que parte, e o brazileiro que chega. O patriotismo dos nostalgicos. A

commissão de soccorros.--Um banquete militar. O que se passa dentro dos

craneos sob a pressão das barretinas.--O centenario da Academia das

Sciencias. A tradição academica. A Academia, berço da revolução e da

liberdade. Ferreira Gordo, o abbade Correia da Serra, o padre Antonio

Pereira, o duque de Lafões, academicos e jacobinos.--_O crime do Padre

Amaro_ romance d'Eça de Queiroz.

A situação politica...

Mas, perdão--antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára

amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida.

Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de

um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel,

olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e

encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e

procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas

philosophicas.

Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das

illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta

ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera.

Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe

o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo

de missangas pretas e palpitantes,--coisa rabujosa á vista.

--Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de

que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso

musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e

moveres a pelle?... Sacode-te, bestiaga!

Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

--Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas

é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é

a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão

abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,--as

famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como

causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço

impagavel:--livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e

suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres

pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a

herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da

edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho

imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende

linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca

sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das

revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham!

Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?

Revertamos agora, como vinhamos dizendo, á situação politica.

Em toda a sociedade em movimento ha dois unicos partidos: o partido

conservador e o partido revolucionario.

A funcção do partido revolucionario, qualquer que seja o seu

nome--republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista,

positivista, etc.--é transformar a ordem estabelecida, modificando as

condições da civilisação no sentido de um mais rapido progresso.

Para este fim o partido revolucionario agita constantemente por meio de

idéas novas as opiniões preconcebidas.

Como, porém, não está ainda definido o programma geral e harmonico da

revolução, como a tendencia progressiva das multidões indisciplinadas se

basea no sentimentalismo esteril ou no phantastico ideal methaphysico

dos phraseadores eloquentes, succede que todo o esforço revolucionario

representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de

anarchia.

A funcção do partido conservador é a manutenção da ordem contra todas as

invasões que directa ou indirectamente ameacem a integridade da

organisação existente. Em todas as velhas sociedades os governos são por

essa rasão, os inimigos natos do progresso. A evolução progressiva da

humanidade realisa-se, a despeito d'elles, pela elaboração irresistivel

das idéas fora da esphera official, sob a acção das descobertas da

sciencia ou das suggestões da arte. O mais que fazem os governos é

submetterem-se ás transformações sociaes que a solução de cada novo

problema resolvido pela sciencia impõe á existencia dos povos. Os

governos, portanto, sempre que uma forte effervescencia intellectual não

agita a sociedade e os não abala constantemente na eminencia do seu

posto forçando-os a concessões successivas, tendem ao retrocesso.

A civilisação não é na orbita politica senão o justo equilibrio das

forças resultantes d'essas duas tendencias: a tendencia retrograda na

ordem, a tendencia anarchica na revolução.

Em Portugal o que succede?

A vida intellectual é extremamente debil. A sciencia não tem cultores

desinteressados e ardentes, a acção da arte sobre a aspiração dos

espiritos é nulla.

O resultado é que os partidos de opposição, não encontrando nos

phenomenos da vida nacional a profunda expressão implacavel de novas

necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se

naturalmente desarmados das grandes rasões que reptam os governos a

progredir ou a abdicar.

Em taes condições o partido revolucionario dentro da milicia politica,

partido fabricado pelos proprios governos com a corrupção do

suffragio,--sendo uma pura convenção, uma fixão constitucional, uma

expressão rhetorica, sem raizes na consciencia e na vontade

popular,--acabou por desapparecer inteiramente do nosso systema

representativo. Ha muitos annos que a revolução não tem quem a

represente no parlamento portuguez.

Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma opposição composta de varios

grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do unico

partido existente--o partido conservador--fragmentos cuja gravitação

constitue o organismo do poder legislativo.

Estes partidos, todos conservadores, não tendo principios proprios nem

idéas fundamentaes que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente

indifferente para a ordem e para o progresso que governe um d'elles ou

que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de

commum accordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente

segundo o lado para que as despesas da rhetorica nos debates ou a força

da corrupção na urna fizesse pesar a balança da regia escolha. Tal é o

espectaculo recreativo que ha vinte annos nos esta dando a representação

nacional.

Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um

pipo de vinho. Como nenhum d'elles tem mais direito que os outros a

beber do pipo, combina-se que cada um d'elles ponha a bocca ao espicho e

beba em quanto os pontapés dos outros o não contundirem até o ponto de o

obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida

pelos pontapés applicados pela companhia que espera. É exactamente o que

ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relação ao

usofructo do poder que elles acharam na estrada, perdido.

Chegou finalmente a vez de pôr o pipo á bocca um partido

excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido

não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações

escandalisadas, de almocreves, retroam.

--Este partido abusa!

--Isto não vale!

--Isto não é do jogo!

--Elle esvasia o pipo!

--Larga o pipo, pipa!

--Larga o pipo, pimpão!

--Larga o pipo, ladrão!

E incitam-se uns aos outros até á ferocidade:

--Chega-lhe rijo!

--Mais! que lhe dôa bem!

--Rebenta-me esse ôdre!

--Racha-me esse tunel!

--Ah! cão!

O partido, porém, continua sempre a beber, e é insensivel a tudo: á dor,

ao insulto, ao chasco, ao improperio, á graça pesada, á insinuação

perfida e á alusão venenosa!

Em vista de uma tal pertinacia, que nós mesmos somos forçados a taxar de

irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o

pacto da Granja, constituem-se n'um só partido novo,--n'uma só bocca

para o pipo. Fazem um programma, redigem um manifesto, vão de terra em

terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes occorreu n'esse

momento que o pipo tem dono! que é do paiz o pipo!

Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do

manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos

_meetings_ revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz

responde-lhes:

Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas _Farpas_? Eu

sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo

expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas--sendo meu destino que

ellas sempre me cubram e me comam--prefiro as antigas moscas saciadas ás

novas moscas famintas.

Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,--que é

para não bolir comigo!

* * * * *

Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugação erea de

Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o céu, descem no espaço

sobre as nossas cabeças, rolam pelos telhados com os idyllios felinos do

mez de janeiro, cáem sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo

asphalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em

abraços aquosos que lhes atravessam o paletot, o collete de flanella e

as articulações dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas

pelos resquicios das portas e das janellas, e na sua dança macraba as

pardas e humidas filhas do ar cobrem de sofregos beijos molhados e

bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o marmore

polido das chaminés, os cabellos que se desfrisam e as idéas que se

dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do céu,

chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobilia, dos

castões das bengalas, dos _abat-jours_ dos candieiros, e dos barretes de

dormir. Ha dois violentos temporaes com poucos dias de espaço entre um e

outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se arvores.

Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agricolas, os generos

em deposito nos celleiros, os viaductos e os rails das linhas fereas são

arrebatados pela corrente das aguas. O curso ordinario dos negocios, o

movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos

habitantes das regiões inundadas ficam na miseria e têem fome.

* * * * *

Ha por tanto duas crises: uma crise meteorologica e uma crise economica.

* * * * *

Sendo a crise economica um effeito da crise meteorologica, a questão

fundamental no estudo d'essas duas crises é a questão da chuva.

Esta questão acha-se definida e tem a sua theoria na sciencia.

Assim como a agua sujeita a uma dada elevação de temperatura se evapora

e se converte em ar, assim o ar sujeito a uma proporcional depressão

athmospherica se transforma e se converte em agua. Os conhecimentos que

já hoje se possuem da physica do globo permittem determinar os

differentes tramites do processo seguido pela natureza para obter os

resultados achados pela observação humana.

Todo o vento (effeito da rotação da terra) humedecido pela impregnação

aquatica do mar, encontrando na sua passagem um estorvo que o dilate na

atmosphera, transforma-se em chuva, ou transforma-se em neve, segundo o

gráu de arrefecimento, maior ou menor, resultante da altura a que o

eleva no espaço o volume do estorvo interposto na sua corrente.

Assim se explica o phenomeno da chuva, a existencia da neve nos

pincaros de todas as altas montanhas, e o nascimento dos rios. D'estes,

uns, como o Rhodano, o Rheno, o Danubio, são formados pela opposição das

cordilheiras á corrente regular de certos ventos; outros, como o

Mississipi e o Missouri, nascem do encontro das duas correntes

atmosphericas oppostas, uma que sáe do golpho do Mexico, outra que parte

dos Estados Unidos na direcção da Europa.

Achando-se determinado que 200 metros de elevação acima do nível do mar

dão 3 gráus de frio, é facil calcular, o frio que deve actuar no ar

elevado ás alturas dos Alpes, dos Pyreneus, do Caucaso, e de descobrir

assim as causas das geleiras, do mesmo modo se descobriu a origem das

chuvas e a do nascimento dos rios.

Possuida esta simples e clara noção, o homem adquiriu o poder de

intervir no meteoro. Em 14 de novembro de 1854 uma tempestade medonha

caíu sobre as esquadras franceza e ingleza, estacionadas no Mar Negro.

Todos os navios das duas marinhas tiveram avarias desastrosas. Muitas

embarcações de transporte naufragaram. O sr. Leverrier, director do

observatorio de Paris, procedeu então a um inquerito sobre as

perturbações atmosphericas d'esse dia, dirigindo circulares a todos os

meteorographos do mundo. Duzentas e cincoenta respostas de differentes

observatorios provaram que a onda atmospherica qua determinara a

tempestade fôra presentida pelos observadores, e que a catastrophe teria

sido evitada se o telegrapho, que caminha mais depressa do que a

corrente do ar, houvesse feito passar de observatorio em observatorio a

noticia do phenomeno.

Antigamente faziam-se preces e penitencias para pedir chuva; hoje em dia

a chuva não se pede, manda-se-lhe simplesmente que caia, e ella cáe

precisamente no ponto que se lhe designa.

Ha poucos annos ainda, no Baixo Egypto, não chovia nunca. Os celleiros

eram construidos ao ar livre, a descoberto, sobre os telhados. Desde

tempos immemoriaes que o vento secco do norte mantinha esse estado de

coisas na referida região. Um dia, porém, a corrente septentrional chega

á Alexandria e encontra uma certa difficuldade em passar com a rapidez

do costume; detem-se um momento, retarda-se um instante: basta isso para

que ella se dilate, para que se eleve no espaço, para que arrefeça na

razão da altura a que subiu e para que, por-consequencia, se converta

em chuva. D'onde viera esta poderosa resistencia á invasão do vento

esteril? De uma revolução geologica na configuração do solo? Do encontro

de um vento opposto? Da influencia calorifica da radiação solar? Não. A

voz de preso dada ao vento norte, o encarceramento d'elle n'uma certa

porção do espaço, a sua condemnação inilludivel a condensar-se e a ser

chuva, fôra simplesmente a obra do homem, que vencera o vento plantando

a arvore.

As florestas que têem o poder de occasionar as chuvas por meio da sua

interferencia na corrente dos ventos, possuem ainda a propriedade de

lhes regular os effeitos impedindo os excessivos irrigamentos, e as

inundações.

Além de certos processos de cultura e de arborisação nos cabeços dos

montes e nas encostas das colinas, ha outros meios de impedir os

estragos das cheias,--dando aos rios um regimen torrencial, operando

largos cortes transversaes nos declives do solo para regular a descida

das aguas, construindo tubos de drenagem, etc.

Quando um dique, como o de Vallada, se rompe por effeito de um

repentino augmento no volume da agua no leito de um rio, ha meios

praticos, prontos, expeditos, de construir diques provisorios. O sr.

Babinet, nos seus estudos ácerca da chuva e do irrigamento da França,

lembra para os casos analogos ao de Vallada a construcção de barreiras

feitas com grandes caixas de ferro fundido similhantes ás que

transportam a agua potavel nas navegações de longo curso. Estas caixas

enchem-se com a mesma agua do rio e sobrepõem-se ou enfileiram-se de

encontro á corrente até formarem um obstaculo de dimensões adquadas ao

volume da agua que se tem por fim represar.

O mesmo sr. Babinet suggere para o meio preventivo da arborisação o

sabio alvitre, tão moralisador, de organisar regimentos de plantadores

formados de corpos de veteranos, cujas praças encontrariam n'esse

trabalho um suave emprego da sua actividade, que o Estado poderia

utilisar remunerando-a com liberalidade superior á importancia mesquinha

do soldo e proporcional ao serviço prestado por esses cidadãos, até hoje

inuteis, á salubridade e á riqueza publica.

Por occasião das ultimas inundações em França, das recentes inundações

na Inglaterra, os meios apontados e muitos outros, descobertos pela

sciencia no momento do perigo, em frente da catastrophe, têem sido

objecto dos mais graves estudos por parte do governo, por parte da

imprensa, por parte principalmente das corporações especiaes, dos

meteorologistas, dos engenheiros hydrographos, dos de florestas, dos de

pontes e calçadas, etc.

Em Portugal deante do facto da inundação espraiada sobre as povoações do

Ribatejo, e das margens do Guadiana, a questão principal, a questão

summa, a questão technica, é posta completamente de parte, ou nem sequer

chega a ser afastada: não concorre no problema, é como se não existisse!

* * * * *

Em face do desastre, dos nossos periodicos, do nosso parlamento, dos

nossos proprios estabelecimentos de instrucção, irrompe um só grito

enorme, consternado, lacrimoso, impotente, imbecil:--_Caridade!

Caridade! Caridade!_

Parece não se ter unicamente em vista achar um remedio, mas cumprir uma

expiação que minore os castigos do Ceu!

Um antigo proloquio egypcio dizia: _Chuva em Tebas, desgraça no Egypto_.

A população portugueza não mostra ter da chuva uma comprehensão menos

supersticiosa que a da tradição tebana. Estamos na metaphysica dos

cataclismos incommensuraveis.

Debalde a meteorologia--com quanto em estado rudimentar, não constituida

ainda em sciencia sobre bases experimentaes e com processos

deductivos,--nos annuncia, ainda assim, que não ha nos phenomenos do ar

aberrações extraordinarias, inaccessiveis á previsão, mas sim

uniformidades periodicas de successão, as quaes o estudo das ondas

atmosphericas e da acção magnetica do globo, estudo dirigido

harmonicamente em uma cinta de observatorios que cinja

ininterrompidamente o globo, chegará por certo a poder um dia

regulamentar systematicamente. Definir-se-ha o sentido scientifico do

sonho symbolico das vaccas magras e das vaccas gordas, demonstrando-se

como aos annos de estiagem e de fome succedem annos compensadores de

irrigação e de abundancia.

Debalde a historia nos mostra que foi das inundações dos grandes rios

que saiu a iniciação dos grandes progressos humanos; que foi das

inundações do Nilo que procedeu a civilisação do Egypto; das inundações

do Hoang-Ho que procedeu a civilisação da China; das inundações do

Euphrates, que procedeu a civilisação da Caldea, da Babilonia e da

Syria. Povos na infancia, desprovidos das lições da experiencia,

desarmados dos instrumentos da analyse moderna, souberam fundar a sua

vida historica na previsão industrial e na previsão economica das cheias

dos seus rios.

Nós, portuguezes, em pleno seculo XIX, na posse dos mais importantes

segredos da mechanica, da astronomia, da physica, da chimica, nós,

filhos de Kepler, de Galileu, de Newton e de Francklin, nós,

contemporaneos de Mayer, de Helmboltz, de Virchow, de Haeckel, de

Humboldt, e de Wourtz, de Ampere, de Leverrier, nós, não sabemos tirar

das inundações successivas de um rio que vem de annos a annos,

periodicamente, contra nossa vontade, fertilisar os nossos campos,

nenhuma das lições que a experiencia devia suggerir-nos para regularmos

e utilisarmos em nosso proveito a acção violenta d'esse phenomeno!

Ha perto de trezentos annos que um velho naturalista, um modesto

oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as

fontes artificiaes, fazendo passar as aguas da chuva atravez de um

pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento

argiloso, terminando n'um muro de supporte que se corta no ponto em que

se colloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno

entre as raizes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado,

venha a correr no verão em bica de agua mineralisada e limpida. Ha

trezentos annos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva

torrencial é um facto de quasi todos os invernos, onde a falta de agua

potavel é um facto de quasi todos os verões, ainda ninguem aprendeu a

construir a fonte de Palissy!

Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro

abalo de terra se tivesse seguido ás grandes chuvas é natural que muitos

outros predios aluissem, porque a grave questão das edificações em

Lisboa está absolutamente despresada e abandonada á rotina do velho

systema adoptado pelo marquez de Pombal. Ora esse systema, aliás

excellente no tempo da reedificação subsequente ao terremoto, é hoje

imperfeito e perigoso. A canalisação da agua e as chaminés dos fogões de

sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela

sabia administração pombalina. Os andaimes de madeira geralmente

adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente

ao contacto dos canos da agua que envolvem os predios ou se carbonisam

por effeito do calor que lhes communicam os tubos das chaminés. A

elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos

procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, só

poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisação,

empregando nas construcções modernas o ferro em vez do pau. Esta

modificação tão facil, tão economica, tão urgentemente exigida nos novos

systemas de edificar, o nosso desleixo nacional não nol-a tem deixado

ensaiar. De modo que a mesma previsão do perigo discorrida pelo unico

homem que acordou em Portugal por occasião do grande tremor de terra com

que á natureza benigna approuve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa

indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos annos

em mais uma causa de destruição e de aniquilamento!

Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos côrtes

transversaes das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das

applicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes

caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que

um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos

centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar

pelo pequeno espaço de tempo necessario para evitar o perigo, quasi

momentaneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos

meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas,

ninguem se occupa--nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente

sentado nos seus _fauteuils de orchestre_ e applica á marcha dos

successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o

parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!

* * * * *

A crise economica não nos parece ter sido objecto de cuidados mais

serios do que aquelles que cercaram a questão hydraulica. Ou é certo ou

não é que a inundação do Tejo e os temporaes que concorreram com ella

destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras

á miseria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos _reporters_

sentimentaes, o diligente esforço humanitario empregado para arrancar da

caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação

insensata e ridicula. Se são verdadeiras as informações que os jornaes

vagamente nos transmittem das desgraças provenientes da inundação do

Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questão não se resolve pela caridade

particular mas sim pela assistencia publica.

Porque--reflictamos um momento--ou existe esse conjuncto harmonico de

instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.

Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço

militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a

lista civil?

Se o Estado existe, o que é para elle o _lnundado?_ O _Inundado_ é o

productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o

cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha,

pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado

desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas:

produz e paga.

Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do

Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós,

republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e

mesarios da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por

conseguinte, em rigor, tambem não pagamos.

Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores,

poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores

de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos

de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,--nós,

francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto

é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas--mais

ou menos legitimamente--os usufrutuarios, os administradores officiosos

ou officiaes do dinheiro dos outros.

Portanto, como acima dissemos, nóa outros, como não produzimos, em

rigor tambem não pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar é apenas uma

parte que se nos deduz n'aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse

vem a pagar é unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o

productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que

cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o

cavallo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o

pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.

É elle, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as

carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as

purpuras dos nossos reis, as _toilettes_ das nossas dançarinas, os

penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d'agua dos nossos

parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de

luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.

Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O

Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:

Inundado! Você trabalha como um boi de nora, o que o não impede de ser

um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a

felicidade material, intellectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e

que v. não sabe nem póde constituir sem mim. Você não sabe lêr nem

escrever, você não sabe trabalhar, não sabe prevêr, não sabe economisar.

Você não nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia

rural, nem o banco rural. Você não tem a granja modelo que lhe ensine os

novos processos agricolas e lhe empreste as grandes machinas de

trabalho. Você não tem arborisação nos seus montes nem canalisação nos

seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeiçoamento

e de prosperidade, arranjei-lhe eu um systema, que se chama o systema

monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo

seis ministros e seis correios a cavallo, um parlamento, composto de

duas camaras, uma electiva e outra hereditaria. Quer você ou não quer a

civilisação? Se a quer, aceite o meu systema e eleja um deputado que vá

á minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que você

appeteça. Em troca d'este enorme serviço que eu lhe presto ha de você

resignar-se a pagar-me um imposto annual, que eu cá mandarei cobrar pelo

escrivão de fazenda, e cuja importancia applicarei a regalal-o e a

divertil-o summamente com um exercito, uma côrte, um sceptro, varias

duzias de repartições publicas, um theatro, um _Diario das Camaras_, um

arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.

O Inundado começou desde então a pagar e o estado começou a dispender.

Ha perto de cincoenta annos que dura esta troca de serviços. O Inundado,

porém, ainda até hoje não pôde obter nem a escola pratica, nem a

bibliotheca, nem a granja, nem os novos instrumentos agricolas, nem as

grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisação, nem os

trabalhos hydraulicos no rio.

Um bello dia, um temporal rebenta, as aguas das chuvas, sem florestas

que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no

rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruina, alaga as

povoações, invade as casas, e deixa o Inundado entregue á nudez, á

desolação e á fome.

O Inundado pede então a alguem que em seu nome exponha ao Estado a

situação em que elle se acha:

* * * * *

Excellentissimo Estado e meu amigo.--Ha cincoenta annos que para aqui me

acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinámos quando v.

ex.'a fez comigo o contracto de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de

v. ex.'a me mandar para aqui a civilisação. Até á data d'esta nada

recebi.

Os deputados que para ahi tenho expedido á custa de muita intriga, de

muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas

distribuidas com as listas á bocca da urna, nada remetteram para cá

senão discursos cheios de exclamações e de erros de grammatica. Graças

aos effeitos de quarenta annos de eloquencia sobre os trabalhos da terra

e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as ultimas

chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, generos,

ferramentas.

Acho-me na derradeira miseria.

Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que já

alludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa,

entregava-o aqui assim ao morgado, ao capitão-mór, e ao convento. Mas o

morgado e o capitão-mór, se por um lado me arrancavam a pelle como v.

ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres,

padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as brôas e as amendoas pelas

festas do anno, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos

seus moços e os d'elles proprios ao serviço da nossa causa, quebravam

todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros

e aos almotacés, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em

quando a creação ou davam-nos chicotadas quando estavam bebados, mas em

seu juizo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braços abertos

para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades

resavam,--o que, se não nos fazia bem, tambem nos não fazia mal; e esta

é a differença que distingue os frades dos seus successores, os

deputados: o frade resava, os deputados intrigam. Além d'isso, os

frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre

acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e

agallegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades,

se de ordinario viviam á nossa custa, tambem nas occasiões de crise nos

permittiam viver á custa d'elles, e o caldo da portaria era uma

restituição.

Quem até hoje não tem restituido a importancia de um vintem nem em

dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma

especie é v. ex.'a, meu nobre e illustre senhor.

Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem

gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas

paradas; corpo diplomatico; côrte; gratificações aos doze homens que

representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias

dos outros; governadores civis e secretarios geraes; desembargadores

para Gôa e juizes para os Açores; repartições publicas; arsenaes;

imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.

Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequencia de uma desgraça de

que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que não serei

desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas

necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das sommas com que eu

ha cincoenta annos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem

sequer ao menos me teem convidado,

D'este que é

De v. ex.'a

Humilde subdito e servo

_O Inundado._

A resposta do Estado a estas argumentações e a estas instancias é de tal

modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua authenticidade não

fosse reconhecida, como é, de todo o mundo.

O Estado respondeu:

Meu caro Inundado.--A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma

situação bem critica para te poder servir, como desejava.

Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a apparição

dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para

me occupar de ti.

Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha

acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros

e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commissões de homens e

commissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de

amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com

alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que

simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê

sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia

garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te

um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a

casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de

chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão,

toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciencia, já que não podes

revestir-te de pano piloto, e espera.

Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho

e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso

Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso

Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o

nosso Forte Gato, e outros.

É tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam já os

consoantes para _rainha_; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres

disponiveis e mais proprios do alto estylo do que _tainha, morrinha,

doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha_.

Manda tambem para _Pia_ os que poderes obter, menos os que pareça

conterem allusões irreverentes como _enguia, folia, tosquia, letria,

azia, mania_ e _bacia_.

Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em

arabescos cheios de phantasia e de elegancia: está-se n'um _skating

rink_ de beneficencia para te accudir, meu grande maganão.

Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os

teus revezes--tão lastimados elles são!--têem feito espigar mazurkas e

rebentar polkas... de pura dôr.

Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a

caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos

de beneficencia diurna têem-se adoptado geralmente os vestidos de meia

caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de

beneficencia nocturna as _toilettes_ são sempre de grande-caridade, isto

é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda,

luvas de dez botões, e diamantes.

É indiscriptivel a animação ferverosa que reina em todos os salões para

se tratar de ti. Triplicaram as _soirées_ n'este inverno e dança-se

todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os

lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.

--Elle geme nas vascas da mais horrorosa agonia!... Chaine anglaise,

minha senhora!

--Mas nós havemos de arrancal-o das fauces da miseria... Sirva-me um

gelado!

--Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!... De fructa ou de leite,

minha senhora?

--Salvemol-o vivo ou morto!... De leite!

Ás duas horas ceia, volante ou de bufete, serviço quente e frio, menu de

Baltresquí.

Um telegramma que chega:--O Inundado está com agua pela cinta.

Um sujeito fugindo com um perú assado:--Vou levar-lhe uma boia!

Uma menina gritando:

--Não! Não! não o devo consentir! não consentirei jámais que o coração

generoso d'aquelle que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente

por um inundado que só está em perigo--da cinta para baixo! Accudam ao

papá! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vae fazer mal:

elle já comeu uma!

De rasgos d'estes poderia citar-te centenas.

Restos de velhas edições de livros, de polkas, de almanacks, que o

consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos

nos archivos de familia dos respectivos autores, acabam de te ser

coasagrados e cáem sobre as subscripções abertas para te proteger como

bençãos dos genios incomprehendidos e olvidados.

A mesma infancia estudiosa abre nas aulas de instrucção primaria

subscripções para te acudir, e meninos, que ainda não conseguiram

penetrar no _quadro de honra_ como sufficientemente fortes em leitura,

figuram nas resenhas dos jornaes como bemfeitores dos homens.

Não sei realmente, querido Inundado, como poderás agradecer-nos tão

reiterados e tão grandes beneficios! Como não sabes fazer mais nada,

espero ao menos quo rezes por nós. Compenetra-te bem de quanto nos

deves, e não te esqueças nunca, em primeiro logar de nos pagar as

decimas, e em segumdo de nos encommendares a Deus em todas as tuas

orações de manhã e de tarde para que o Altissimo vele constantemente

pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais

longos annos, como desejas e has mister.

Não te assustes, por quem és, com esse passageiro incidente da agua pela

cinta. Mantem-te em uma attitude serena e firme. As cheias bolindo-se

com ellas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as

cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo

que o tempo enxugue e os terrenos sequem, socega que irei ver-te. Podes

desde já preparar a foguetada, o vivorio, e o publico regosijo, para

receberes quem é devéras,

Teu amo e protector

_O Estado_.

_P. S._ O bom amigo Luiz de Campos recommenda-se-te muito e manda

perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta á latina com _c

a_, ou á grega com _c h a_.

* * * * *

Diz-se geralmente--e parece-nos util fixar este boato como um symptoma da

epoca--que sua magestade a rainha fôra aconselhada e guiada em todos os

tramites da sua intervenção a favor do Inundado por um personagem já

hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua

magestade vão dar um novo grau de importancia culminante e unica na

governação publica. Será perfeitamente legitima essa importancia. Se

effectivamente houve um homem sufficientemente sagaz para se conservar

na sombra e para suggerir a sua magestade a rainha a idéa profunda de

apparecer ella, unica e exclusivamente, a debellar unma catastrophe

publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um

servigo incomparavel e deu uma prova de pericia e de habilidade que

nunca se egualou e que se não póde exceder.

Como se sabe, os partidos conservadores não têem idéas, não podem e não

devem tel-as; os que por excepção as produzem commettem um erro fatal e

são victimas do seu proprio acto. Em todo o _statu quo_ toda a idéa nova

é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regimens

conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as

idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A

missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim

e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraça de um monitor em

batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e

disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo

projectil inimigo.

Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se

expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os

meios que produzam este resultado:--a consolidação do que está.

É de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que

nós dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem

effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos já porque) são o acto

mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais

adequado e mais proficuo.

Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da

inundação, que succederia? A opposição contraditava-o. Na imprensa e na

camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes,

controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos,

com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo

e estibordo não acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de

alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!

Que aconteceu, porém, em vez d'isso?

Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os

soccorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em

grandes letras nos jornaes da manhã, o governo foi para a camara, cruzou

os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se

manifestasse. Então a opposição em peso, composta dos srs. Barros e

Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela

bocca dos seus oradores.

O sr. Osorio de Vasconcellos disse:--«Partiu de alto a iniciativa;

partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois

congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este

sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem

distincção de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que é

geral _(apoiados)_ do soffrimento que é grande; das amarguras que são

immensas... O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da

caridade... Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc.,

etc.»

O sr. Barros e Cunha:--«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero

seja desde já votada por acclamação: A camara prestando a caridosa

iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio

das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que

representa, resolve que este voto seja lançado na acta das suas sessões,

e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo

do seu reconhecimento.»

O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)--«Trago tambem aqui uma

proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a

de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porém, que a camara

approvou a d'elle, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio.

Tenho concluido.»

E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido

violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos

effeitos da inundação, os unicos tres deputados da opposição que n'este

dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade,

para citar o Golgotha e para convidar uma grande commissão a ir depôr

nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento

popular!

A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era

indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam

permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de

gratidão.

Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas

com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os

empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros,

os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros

angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes,

_speechs_, mensagens, missivas particulares, desenhos á penna, vivas,

bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus

emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu

n'esta immensa apotheose.

E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que

anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais

firme que nunca no amor dos novos.

Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de

resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela

caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo

que o paiz podia desejar na sua situação presente.

* * * * *

O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um

promotor das conveniencias politicas e não guiada por impulsos

expontaneos é o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a

intervenção da Corôa e nas quaes se revela a mão burocratica do

conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir

programmas do que a imitar a graça engenhosa, a poetica delicadeza, o

fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os

actos nativos de um coração de mulher. N'esses actos, quando legitimos e

authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os

laboratorios officiaes não imitam senão por meio de falsificações

baratas e reles.

Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado esthetico, o

lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós,

meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de

popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas

companhias de amadores dramaticos em que só representam homens: tem os

pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e

miseravel.

Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos

grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na

alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos

collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas

azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.

Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a

não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si só,

teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada

simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita

educação de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa;

far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria á dedicação absoluta

de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por

cima da arêa encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de

murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, até o

ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas

_réclames_ com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens

sentimentaes e sonoras do _perfume dos seus cabellos_, das _pregas dos

seus vestidos_, da _flexibilidade da sua estatura_, etc. Houve um

folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua

magestade--a Magdalena!

Nós protestamos contra similhantes invasões do enthusiasmo nos dominios

da dignidade pessoal, e negamos á rhetorica monarchica o direito de

lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela

mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera

deitar fora com as camelias murchas.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02) · 第 1 / 4 段