«Hontem matava ella o porco, ou antes era eu que lh'o matava. Hoje

tinhamos lombo assado á fogueira do lar, n'um espeto de loureiro. Que

lombo aquelle, capitão! Com que vontade que eu principiava a jantar

outra vez se fosse d'esse lombo que me déssem! E depois não era o rei

que me convidava a mim,--o capitão ha de comprehender o effeito moral

d'esta differença--era eu que poderia convidar o rei a comer no meu

casal, d'aquillo que era meu, que eu proprio ganhara ou ajudara a ganhar

com o meu trabalho, com a minha força, com o meu prestimo! Na minha

aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um

cidadão, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho

e com o meu cajado, o rei era eu!

«Aqui, que diabo! Aqui, francamente, capitão, que raio de diabo!

«Aqui, que sou eu? Um monte de cisco, um molho de palha, um estafermo,

um espantalho de botões de ouro fingido, de espingarda descarregada e de

patrona vasia, para metter medo a outro estafermo, a outro espantalho, a

outra abantesma de espingarda egualmente descarregada e de patrona

egualmente vasia, o qual outro se chama o inimigo!

«Dizem qae tambem sirvo para--manter a ordem. A ordem que eu mantenho é

outra historia da carocha como a do inimigo que eu combato.

«Na minha aldeia, onde nunca de memoria de homem appareceu o bico de uma

bayoneta, todos vivem em harmonia e em paz. Aqui, onde a ordem é mantida

por dez ou doze regimentos, ha desordens todos os dias e todos os annos

ha revoltas. Revoltas de quem, meu capitão?--Dos sargentos!

«Ora, se eu não sirvo para nada, se o inimigo, sendo outro que tal como

eu, não serve tambem para coisa nenhuma, não acha o capitão, que o mais

justo seria mandar-nos para nossas casas a ambos--ao inimigo e a mim?

«Se como o capitão affirma, el-rei é meu amigo e pretende obsequiar-me,

que sua real magestade cesse de esbanjar-se nos acepipes com que me

cumula! Que me permitta estar na minha casa, como sua magestade está na

d'elle com sua excellentissima esposa e com os seus interessantes

filhos! Eu lhe protesto que não só dispensarei todos os seus favores,

mas que poderei ainda fazer-lhe alguns, e me tornarei um cidadão

independente, serviçal e util, em vez de me desfallecer para aqui,

dentro d'este uniforme, coberto por esta barretina, inundado de

ociosidade, comido de tedio[2], de nojo de mim mesmo, de todas as más

molestias da alma e do corpo, perdido para o bem dos outros e não

prognosticando grande coisa senão para o mal de mim mesmo. Nada mais

accrescento porque está a cair o quarto e tenho de me ir deitar ao

inimigo,--passeiando de sentinella á porta de palacio.»

[Nota 2: No dia em que estas linhas foram escriptas suicidavam-se dois

soldados, um de infanteria n.° 1, em Belem, outro de caçadores n.° 10,

em Setubal.]

Depois de coçado este discurso na cabeça dos soldados, terminou o

banquete, retirando-se todos os convivas profundamente penhorados pela

excellencia do serviço e pelas delicadas maneiras do sr. capitão.

* * * * *

Referem os jornaes que a Academia Real das Sciencias celebrará no mez de

março do futuro anno de 1879 a festa do primeiro centenario da sua

fundação.

A primeira das rasões porque folgamos com esta noticia e que se inicia

em Portugal uma tendencia nova no espirito das sociedades modernas:--a

tendencia a reformar o calendario, substituindo as ephemerides

ecclesiasticas pelas taboas historicas.

Essa tendencia revela um progresso.

A igreja tem, certamente, datas memoraveis que a civilisação ha de

manter entre as grandes epocas da humanidade. Mas essas datas, por mais

gloriosas que sejam, não bastam para prehencher os fastos da humanidade

e para pautar o culto devido á lembrança dos grandes factos e á memoria

dos grandes homens.

Se a igreja tem os seus santos, os seus martyres, os seus doutores, a

liberdade, a sciencia, o trabalho, a arte, teem tambem os seus, e a

gratidão humana não deve menos aos segundos do que aos primeiros. O dia

de S. Bernardino, a 20 de maio, é tambem o dia de Christovão Colombo. O

dia de S. Luciano, a 8 de janeiro, é egualmente o dia Galileu. O dia 5

de abril é o de Santo Adriano e é o de Danton e de Camille Desmoulins. O

dia 23 do mesmo mez é o aniversario do nascimento de S. Jorge e é

tambem o da morte de Shakespeare e de Cervantes.

Nem toda a gente sabe, de pronto, sem consultar a collecção dos

bolandistas ou o _Flos Sanctorum_ o que foram precisamente para o mundo

e para Deus, Bernardino, Adriano ou Luciano. Ninguem todavia ignora o

que a humanidade deve a Colombo, a Galileu, a Danton e a Shakespeare.

Depois a circumstancia de ir para o ceu por uma decisão dos concilios

nem sempre equivale a haver deixado na terra um exemplo que fortifique

as almas para servirem ao mundo ou para servirem a Deus.

Temos por exemplo que, segundo S. Lucas, capitulo XXII, versiculo 61, S.

Pedro, convicto da divindade de Jesus, o renega por tres vezes no

tribunal de Caiphaz. No tribunal da Inquisição, deante da fogueira que o

vae devorar se não renegar o seu livro, Giordano Bruno prefere morrer a

trahir a verdade. S. Pedro fundou a igreja christã; Giordano Bruno

fundou uma nova teoria do Universo. Um é adorado como santo; o outro é

condemnado como hereje. E todavia é com Bruno e não é com Pedro que

todos nós, filhos do seculo ou filhos da religião, temos que aprender

como se sustenta uma convicção ou como se defende uma crença.

A iniciativa da Academia contribuirá poderosamente, de certo, para fazer

entrar nos costumes a fecunda lição alliada ao culto dos grandes homens

e á commemoração dos grandes feitos, ceremonias destinadas a tornarem-se

as festas nacionaes de todos os povos civilisados.

Ao centenario da Academia succeder-se-ha sem duvida o do apostolo da

nacionalidade portugueza Camões, e o do martyr da liberdade de

pensamento Damião de Goes.

* * * * *

A segunda rasão porque nos regosija a noticia que registamos é que a

celebração do jubileu academico, pedindo a publicação de uma historia

d'aquelle instituto, virá por meio d'esse documento recordar o papel

brilhantissimo que teve na historia das idéas em Portugal essa

corporação scientifica, e chamar talvez alguns dos actuaes academicos a

reatarem a tradição gloriosa d'aquelles que os precederam na direcção

intellectual do paiz.

A Academia Real das Sciencias foi o foco da revolução e o berço da

moderna liberdade em Portugal.

Em um excellente livro do sr. Theophilo Braga, recentemente

publicado--_Bocage, sua vida e epoca litteraria_--encontram-se os mais

preciosos documentos para a nossa moderna historia litteraria,

documentos até hoje ineditos e pacientemente colligidos por aquelle

eminente escriptor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se

teem feito, o publico não aprendeu ainda senão a calumniar o auctor.

Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Theophilo Braga, acham-se

as mais curiosas revelações para a historia dos nossos primeiros

academicos.

O duque de Lafões, o abbade José Correia da Serra, Joaquim José Ferreira

Gordo, Antonio Pereira de Figueiredo, insignes na philosophia e nas

sciencias naturaes, conhecidos e respeitados na Europa, estavam

denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos

pela policia sob a direcção do intendente Pina Manique, o qual nas suas

_contas para as secretarias_, manuscriptos conservados na Torre do

Tombo, por differentes vezes se refere aos alludidos academicos,

accusando-os como sectarios das idéas da Revolução franceza,

relacionados com os homens da Convenção, iniciadores do movimento

liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeição com os

livreiros francezes residentes em Lisboa, com os addidos á legação de

França, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas

tampas das suas caixas de rapé a figura da liberdade, com os populares

finalmente que em certa noite vão debaixo das proprias janellas do paço

entoar a canção do _Ça-ira_.

Os cabeças d'este movimento de revolta contra o despotismo

monarchico-catholico são designados pelo intendente Manique com o nome

generico, ainda hoje em voga, de _philosophos modernos_. Os livros

dirigidos de França á Academia sob o nome do duque de Lafões são

sequestrados na alfandega.

A publicação de qualquer escripto revolucionario por parte da Academia é

impossivel sob a espionagem de Manique, mas a adhesão d'esta companhia

ás idéas francezas é manifesta em muitas passagens dos registros

policiaes.

«Acha-se n'esta corte--diz o intendente Manique--nas casas da _Academia

das sciencias_, ao Poço dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo

_abbade Correia_, Broussonet, que foi medico de profissão em Paris, e

depois secretario de Necar (É assim que Manique escreve o nome de

Necker) e aquelle que se fez marcar quando na sessão da convenção

Nacional, de que era tambem deputado, continuou o discurso que o

sobredito Necar não acabou de recitar por lhe dar no meio d'este acto um

deliquo; e ainda mais conhecido por ser um d'aquelles sanguinarios do

partido de Robespierre na Convenção. Pela morte que este assassino

soffreu, fugiu aquelle e aqui foi acolhido e introduzido ao _duque de

Lafões_ na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia

das Sciencias, d'onde frequenta as casas do sobredito duque e do _abbade

Correia_ que é amigo mui particular do ministro e consul da America do

Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a

v. ex.ª, e reputado por pedreiro livre.»

Eguaes accusações pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da

_Recreação Philosophica_ o Padre Theodoro de Almeida, «com o qual,

accrescenta Manique, o já alludido Broussonet fica algumas vezes na casa

do Espirito Santo de Lisboa.»

A Academia encerrava pois no seu gremio o fermento da revolução,

levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas

instituições em 1834 e a liberdade subsequente.

A missão da Academia em Portugal não pode ainda hoje ser senão a mesma

que era no fim do seculo passado.

Não é no estado de indifferença, de egoismo e de ignorancia em que ainda

hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como

queria Proudhon, a funcção moderadora dos trabalhos do pensamento e das

creações da arte.

A intervenção das academias como elemento official e conservador pode

ser util e salutar em França ou em Hispanha, onde a temeridade

impaciente e indisciplinada dos escriptores revolucionarios, actuando

constantemente na opinião, pode perturbar a lei da continuidade

historica e lançar a sociedade na anarchia. Ahi compete ás academias

salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.

Em Portugal, porém, onde a revolução de modo algum ameaça partir da

circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e

invasoras dos espiritos, é absolutamente preciso, para que nos possamos

considerar uma nação, que a revolução parta do centro para a periferia,

que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu

gremio as intelligencias mais avançadas, discutindo os problemas mais

vivos da philosophia, aclarando todas as questões relativas aos maximos

interesses do espirito, á religião, á politica, á esthetica, implantando

finalmente a revolução na esphera intellectual para que d'ahi ella

penetre nos costumes e se infunda nas instituições.

Se o desempenho d'este papel, que lhe está marcado pela sua tradição, é

incompativel com as ligações existentes entre a Academia, presidida pelo

chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que á Academia compete fazer é

libertar-se d'essa dependencia e constituir-se em corporação livre. O

poder espiritual, de que ella é a encarnação litteraria, não lhe procede

de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.

Subsidiada pelos governos ou não subsidiada por elles, estabelecida em

um palacio ou refugiada em um sotão, recrutando os seus membros entre os

invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos

da controversia moderna, separando-se da sua tradição gloriosa, ou

sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser d'estas duas coisas

uma:--ou a força dirigente do futuro social, a cabeça do paiz, ou uma

excrecencia apparatosa, um orgão atrophiado e inutil á civilisação.

* * * * *

Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que

lêem, a funcção da publicidade é predominar nos espiritos--ou seja

lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra litteraria dá um

d'esses resultados; ou se adapta ás opiniões existentes e as consolida e

reforça ou reage sobre ellas e as decompõe. Toda a litteratura ou é

_conservadora_ ou é _revolucionaria_. Queremos dizer: ou transige

passivamente com as condições do meio social ou se debate contra o

obstaculo que a influencia d'esse meio lhe impõe.

Sempre que a litteratura toma o caracter conservador tende a immobilisar

a sociedade e a atrophiar o progresso. Foi o que succedeu nos seculos em

que a litteratura não fez mais do que fortalecer as superstições que

achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade n'um marasmo

de quinhentos annos embalados com o esteril rumor monotono das homilias

e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quasi completamente

de ler, a humanidade voltou a si. A litteratura havia sido para ella uma

catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo

mysticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de

que se compõe a bibliotheca bollandista, e são esses _acta sanctorum

quotquot tote orbe coluntur_ que encerram a historia inteira da

humanidade sob o regimen clerical em toda a Europa e em quasi todo o

Oriente, desde o seculo VI até o seculo XII! Com razão conclue Buckle--o

grande historiador da civilisação--que o maior dos estorvos do progresso

tem sido a manutenção do erro pelo poder litterario.

Nos tempos modernos, sob os dominios despoticos, em quanto a obra do

pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como

succedeu em Portugal durante o imperio do Santo Officio, a litteratura

deixou egualmente de ser o livre producto artistico e converteu-se n'um

poder do Estado, o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente

da intelligencia e da dignidade humana.

Portanto: a primeira condição social para a existencia de uma

litteratura compativel com o progresso é a liberdade.

Todo o escriptor portuguez actual nasceu n'esse meio propicio. Todavia,

por uma fatalidade physiologica, por um effeito da heriditariedade,

falta-nos a orientação cerebral da independencia. O nosso espirito

conserva o stygma servil, o signal da marca que, em muitas gerações que

nos precederam, foi deixando a grilheta da oppressão mental. A nossa

tendencia de escriptores é ainda hoje, geralmente, para lisonjear a

rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da

credulidade geral.

A maior parte dos individuos que fazem um livro teem, nas precauções da

forma, no rebuço das opiniões, na doblez do stylo, o ar miseravel de

pedintes que solicitam venia para divertir inoffensivamente o

respeitavel publico.

Entre as aberrações eminentes d'essa tendencia geral, como por exemplo

os srs. Anthero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Theophilo

Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia

politica, a Sr.ª D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no

folhetim,--apparece-nos o sr. Eça de Queiroz no romance. Na pequena

litteratura portugueza destinada a ser um agente na evolução das ideias

e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos effeitos

sociaes, _O crime do padre Amaro_, representa a obra mais profundamente

caracteristica.

Este livro foi recebido pela imprensa periodica com um silencio que pode

parecer o resultado de um _mot d'ordre_. Cremos, para honra do

jornalismo, que a razão do apparente despreso de que foi objecto este

romance está no simples facto de que a critica se considerou

incompetente para o julgar. A unica coisa de que temos de accusar a

critica é de nos não haver dito isso mesmo. Em circumstancias analogas

as _Farpas_ deram um exemplo de sinceridade que ficou esteril. Um dia

escreviamos um artigo ácerca do adulterio; a logica arrastava-nos a

deducções que nos não atreviamos a imprimir; publicámos o nosso artigo

até o ponto em que o julgavamos compativel com os costumes e

concluimol-o com a confissão franca de que nos achavamos coactos pelo

publico. Quando tivemos medo confessamol-o. É verdade que omittimos uma

opinião, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de

espirito que elles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos

analysadores que se nos seguissem.

_O crime do padre Amaro_ é effectivamente difficil de sentenciar porque

constitue um caso novo, não previsto nas ordenações porque se regulam as

audiencias geraes do folhetim e do noticiario.

Essencialmente moderno este romance não é a narrativa de uma aventura ou

de uma serie de aventuras á Lessage, á Dumas ou á Gaboriot, não é um

estudo de sentimento á Rousseau, á Alfred de Musset ou á George Sand. É

uma pintura de caracteres, mas não uma pintura á Balzac ou á Flaubert,

porque este livro não é exclusivamente de nenhuma escola senão da escola

de si mesmo, e é esse cunho profundamente pessoal qne lhe dá o caracter

que o distingue como verdadeira obra d'arte.

Ora uma exposição de caracteres se pertence á sphera da arte pelos

processos da pintura, é um ramo da historia e está subordinado á

sciencia pelas operações de critica e de relacionação. O officio do

historiador é discernir no estudo das epocas e no estudo dos

acontecimentos o seu caracter social. O officio do romancista é

discernir no mesmo estudo das epocas e no mesmo estudo dos factos o seu

caracter artistico. O methodo do historiador é o methodo do romancista.

Não pode ser romancista um simples _observador_. Cada sciencia tem, como

diz Littré, o seu methodo particular e caracteristico. A _observação_ é

um methodo exclusivo da astronomia, para cujos phenomenos irreductiveis

o astronomo não pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela

_experiencia_ e pela _analyse_. O biologo tem por methodo especial a

_comparação_. O historiador, e por tanto o romancista, teem como

instrumento particular a _filiação_, isto é, a producção dos estados

sociaes uns pelos outros. Pintar um caracter é expor no personagem a

figura moldada dentro do contorno delineado n'uma dada porção do espaço

e do tempo por um certo estado social.

Um caracter é um phenomeno historico, que se não comprehende senão

emoldurado na convergencia de todos os factores que o produziram.

É por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposição

concentrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um

acto;--influencias naturaes, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o

sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade;

influencias sociaes, as instituições, os costumes, a familia, a

educação, a profissão.

Comprehende-se a commoção de surpreza que produziu este livro, ao

notar-se que a proposito da biographia de um padre em uma parochia da

provincia elle suscitava as mais graves e melindrosas questões

physiologicas e sociaes que podem envolver a igreja, o celibato, a

sentimentalidade e o mysticismo, isto é, todos os pontos de controversia

philosophica que o jornalismo exclue da discussão para se não pôr em

conflicto com o assignante. Confessamos que n'este caso o melhor que

tinha que fazer a critica jornalistica era effectivamente calar-se.

Pela nossa parte, como é precisamente o conflicto que constitue o nosso

programma, não temos rasão plausivel para abster-nos da apreciação

d'este livro.

A rasão da condemnação silenciosa, do escandalo branco, que envolveu a

apparição do _Crime do padre Amaro_ está no simples facto de que elle é

um _romance de caracter_. Esta simples designação explica tudo. O genero

é novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castello Branco são

romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence á litteratura de

_tricot_ cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas _miss_. Apesar

das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua

feminilidade ingenua e pittoresca, as novellas de Julio Diniz não teem

alcance social, são meras narrativas de salão.

O livro do sr. Eça de Queiroz offerece-nos o primeiro exemplo de uma

obra d'arte suggerida pela consideração de um problema social.

E todavia _O crime do padre Amaro_ não é de nenhum modo um livro de

critica, é um livro de pura arte na mais alta accepção d'esta palavra.

Nem na bocca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma

palavra declamativa ou didactica.

Em uma pequena cidade de provincia, na Extremadura portugueza, o velho

parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote ecclesiastico e o

seu bahu, apeia-se da diligencia de Chão de Maçãs, sobe aos quartos que

lhe estão preparados, calça uns chinellos de ourelo, veste o casaco

velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego,

caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um traço riscado

pela fatalidade atravez d'aquella estreita vida de provincia, com a sua

intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas

beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos,

compungidos, pretenciosos, miseraveis.

D'este fundo sombrio, espesso, pesado como o tedio, a acção destaca-se

luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos

vivos. É a vida mesma com toda a sua trivialidade real que n'essas

paginas perpassa aos nossos olhos como aquellas florestas que andam no

sonho de Machet.

Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execução.

O dialogo, trasbordante de verdade, é de um rigor psychologico, de um

colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros

stylistas francezes não conseguiram ainda egualar. A lingua portugueza,

pela incomparavel variedade das suas construcções grammaticaes, pela

inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu

arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodigios de execução

sempre que a não deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da

farragem e do euphemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidemica do

estylo erudito.

O dialogo do sr. Eça de Queiroz, não porque o trabalhasse a

preoccupação do purismo, mas em resultado do escrupulo com que foi

arrancado da indole e da natureza dos personagens, é de tal modo genuino

e tão accentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.

Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situações dramaticas

mais profundamente sentidas, mais commoventemente narradas, o auctor

compraz-se habitualmente em pintar, com frio cynismo, as ridentes

paizagens em que scintillam as frescuras da manhã, os suaves occasos do

outomno impregnados do rumor das aguas e do perfume dos prados, os

tepidos interiores aconchegados e pacificos, todos os aspectos da

natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais

profundamente real do que a impressão deduzida d'esse contraste entre a

inclemente immobilidade das coisas e a devastação tempestuosa das

supremas paixões no fundo da alma humana!

O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens

principaes sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia, é deduzido

com o mais scientifico rigor da diagnose n'um caso de pathologia

psychica.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02) · 第 3 / 4 段