VI

Dia venturoso, primeiro dia d'amor, em casa modesta e simples, cercados

do silencio dos ermos, bafejados pela brisa balsamica e leve, aquecidos

pela chama copiosa do bello sol de primavera. Da terra humilde dos

montes nasciam flores, abrindo no vasto azul o sorriso, que de noite

cubiçara o brilho das estrellas. As aves simples, que a floresta enchiam

de seus encantos, ignoravam a apotheose que estavam fazendo d'aquella

felicidade. Tudo que havia de rescendente nas duas almas, ditosas e

bellas como os lyrios brancos, subia em anhelos para as celestiaes

alturas, enchendo os espaços infinitos de sua fragancia.

O dedicado amigo de João da Cunha, que lhe cedera este sagrado abrigo,

havia-lh'o provisionado de modo que não fosse necessario, logo de

entrada, qualquer contacto com gente do povoado. Por isso n'este

primeiro dia, nem as janellas descerraram, vivendo os dois na escuridade

que mais os unia no seu amor immenso. Os serranos, que por acaso

passavam, não presumiriam viv'alma dentro d'aquella casa simples,

construida entre penhascos approveitados como tractos de paredes. As

duas unicas janellas eram aberturas naturais das fragas: por ali

entravam outr'ora as aves de presa, que nos reconcavos faziam seus

ninhos. As duas portas collocadas no afastamento mais largo dos penedos

aglomerados, davam entrada uma para a cosinha, outra para a casa de

jantar e dormitorio. As cavalgaduras arrumavam-se n'uma loja aberta na

espessura da terra no ponto inferior do fraguedo. O telhado de colmo era

preso, para resistir ás ventanias invernaes, com pedras e paus

atravessados. As aberturas desnecessarias tinham sido tapadas

grosseiramente com pedra avulsa, sem o esmero de rebouco de argamassa

exterior. Esta rustica morada assentava a mais de meia encosta, por cima

da afamada matta do Medronhal. As duas janellas abriam para o declive

dos montes e via-se, em corrida extensão, a severa e funda garganta, por

onde sussurravam as grandes aguas, que vinham de longe, formando o

ribeiro da Marnoca, celebre pelas suas trutas. O inverno tinha sido

aspero e copioso, o desgelo das neves altas, ainda em principio,

engrossava a corrente que n'um fragor de trovão se despenhava de rochedo

em rochedo, por entre togeiras virgens, onde não pousaria o pé rustico

do pegureiro, se para ali se lhe extraviasse a rez. Havia até sitios

perigosos, aos quaes é duvidoso que pudesse chegar, lobo esfomeado em

procura de presa. Eram brenhas selvaticas e dantescas onde, só no

torrido estio, entrava o sol para calcinar as pedras. O contemplal-a

apenas, enchia a alma de pavores e mysterio. Os dois amados, na

escuridade da sua cabana e cercados do silencio do ermo, que este aspero

ruido tornava mais completo, sentiam-se tão fóra do mundo e dos homens,

que os seus corações já palpitavam unisonos e sem receio. Era sua

aspiração e desejo, viverem, assim infinitamente, n'esta paz tranquilla

de sepultura, formando um ser de dois seres, com um unico sentir e uma

só vontade—louca aspiração de juvenil egoismo, de que só pode dar razão

a immensa felicidade que fruiam. Eram como essas aves que outr'ora ali

tinham formado seus ninhos toscos, na ignorancia de tudo que não fossem

montes e estrellas. Independencia absoluta da vida esquecida dos que se

persuadem que no amplo universo, nada mais existe do que o amor.

Veio-lhes a fadiga e o somno, que mais dilatada lhes tornou a ventura,

continuando-a pelo sonho em céus deslumbrantes. Quando acordaram já o

sol declinava no horisonte, arrastando a resplendente juba loira pelo

cume das montanhas. Abriram então uma das janellas para se despedirem do

astro que, fulgurando, deixava o mundo e levava comsigo a alegria da

terra.

N'uma d'essas toscas aberturas a poente, appareceram amarellecidos pela

ultima luz d'esse venturoso dia, as duas cabeças unidas, os dois corpos

enlaçados. Demorando-se na contemplação do formoso espectaculo, Maria,

tinha ainda o seu vestido de noiva e na cabeça as flores com que lh'a

haviam enfeitado. O crepusculo cobriu-a lentamente com o seu veu de gaze

fino, como a uma creança que dormisse, sombreando-lhe o rosto com tintas

de melancolia.

E para orchestrar este quadro de simplicidade antiga e paradisiaca,

subia do fundo da garganta escura da floresta o som magnifico e potente

das aguas, como um hymno religioso, que se amplificasse solemne nas

abobadas d'uma cathedral. Fechava-se assim este primeiro dia enebriante

e ditoso: viera a noite alargar o vasio de todas as existencias, afofar

com sombras os meandros da vida universal.

Accenderam lume, para se aquecerem.

Em frente um do outro, sentados em toscos escabellos de carvalho annoso,

estavam em silencio, enredando os seus pensamentos. Presas as suas

linguas nas circumstancias d'esta existencia anomala e feliz,

communicavam-se por meio de sorrisos e beijos. Maria, porém, rompeu o

encanto da sua mudez, considerando:

—Até quando durará isto?!

—Hade durar sempre—affirmou João.

—Talvez bem pouco dure...

—Teu pae perdoa-nos...

—Nunca nos perdoará—disse repassada d'angustia. Não o conheces.

—Seremos do mesmo modo felizes.

—Porém como!?...

João fez um gesto amplo e vago de quem acredita no céu clemente e

mysterioso, dentro do qual se conservam em amalgama todas as soluções

felizes da existencia humana. Apesar d'isto, continuaram tristes e

absorvidos na sua tristeza, deante do lume alegre e crepitante, com

chamas que se levantavam e diluiam como as esperanças. É assim toda a

ventura: ergue-se com impeto, flameja triumphal, desaparece como a

chama, como ella deixando a treva e o frio. Porém estes amores apenas

começados estariam, por certo, bem distantes do seu fim: no querido

ermo, protegidos pela treva densa, principiava a primeira noite fecunda

e bella. Fecunda e bella foi, mas tinha de acabar como o dia. E acabou:

já no ambiente se sentia o acordar de existencias chamadas pelo

reapparecimento do sol, o qual, os ditosos amantes, tambem de novo

vieram saudar.

Abriram a porta que dava para nascente, e abraçados como duas estatuas

em grupo, appareceram risonhos deante do sol:—Maria com o seu vestido de

noiva machucado, as flores da cabeça emmurchecidas; João o rosto mais

severo e palido do que ao findar o precedente dia.

Rompeu o grande astro por entre penedias: primeiro como uma gema d'ovo,

amarella e redonda; depois com a irradiação d'uma enorme fornalha que

estivesse no infinito. A todos a luz patentearia a realidade da Terra: a

Maria e a João mostrava-lhes a extensão aspera e vaga da montanha, um

chão arenoso e safaro, cheio de granitos e pobres plantas, sempre

açoitadas de ventanias e chuvas, crestadas pelas neves duradoras, roidas

do dente damninho das cabras. Contemplavam essa aridez impressionante e

forte das serranias, que educa as vontades para a victoria e para o

sacrificio, que prepara o cerebro para extremos de abnegação até á

morte. Sentiam essa grave austeridade contrastando com a terna ventura

dos seus corações, jovens e amantes, com o sentir mais delicado das suas

organisações creadas na tranquilidade e maciesa das veigas floridas, de

culturas abundantes que agudam a sensibilidade. O bello sol reunia-lhes

os dois corpos n'um feixe de luz, atando-os com os seus raios d'oiro; o

seu magnificente beijo matinal sellava a incomparavel ventura d'este

amor incomparavel. Tão descuidados e seguros se encontravam em momento

tão ditoso, que João não teve duvida em propor á sua amada o sahirem á

procura d'um rebanho, que lhes désse leite para o almoço.

Foram enlaçados, como dois ramos nascidos do mesmo tronco. Rostos

alegres e corações abertos á aventura iam pelo monte além, descendo para

sitios onde presumiam pastos. Amplificavam-se-lhes os pulmões para

n'elles entrar o ar fresco; dilatavam-se as narinas excitadas pelos

aromas da brisa silvestre. Andaram bastante para encontrar o primeiro

rebanho: quando voltavam, ao ninho d'amor, com a caneca a transbordar de

grosso leite, é que ouviram latidos d'uma matilha, que de longe vinha

batendo a serra para o Medronhal. Continuava a subir aparatosamente o

sol, no céu tranquillo e mudo, desdobrando pelas corcovas das montanhas,

pelo apertado das gargantas, e pelos ferteis valles o seu lençol de luz.

Os cães ladravam ainda longe, porém a revoada dos seus ganidos,

misturados a tiros de espingarda e a gritos de batedores, subia pela

encosta acima, como o fumo d'uma nevoa, que o vento sul levantasse. O

rosto de Maria alterou-se, parou com o ouvido á escuta e perguntou:

—Que será?

—Alguma batida ao bicho bravo. O fogo é lá p'ra baixo—explicou João.

—Vamos depressa para casa!...—pediu receiosa.

—Pois vamos—concordou abraçando-a pela cintura, para andarem mais

depressa.

Caminhavam diligentes e celeres, não reparando que se lhes vertia o

leite da infusa. Dominava-os apenas a idéa de não serem vistos de

viv'alma, de se esconderem na modesta choupana, com portas e janellas

fechadas, n'uma escuridade completa. Porém, os seus passos deseguaes e

nervosos foram sustidos n'um momento, pela apparição d'uma sombra...

d'um phantasma... d'um homem a cavallo, que apparecendo ao norte se

dirigia como elles, para o lado da ermida branca.

—Olha gente!—exclamou Maria. Se nos vê, santo Deus!...

Esconderam-se por traz d'um macisso do urzal virgem, que pegava com o

Medronhal. D'ali queriam observar o destino do cavalleiro. O silencio de

João, as linhas do seu rosto contrahido e pallido, o peito tão quieto

que nem respirava, denunciavam a negrura do seu coração. Comprehendeu o

perigo: ainda que aquelle homem fosse um estranho, que os não

conhecesse, havia de causar-lhe surpresa o encontral-os n'aquellas rudes

paragens, sósinhos, tão jovens, tão namorados e tão dignos um do outro.

Levaria a noticia do singular encontro e estariam logo descobertos. Pelo

menos seriam obrigados a mudar d'abrigo e a esgotar depressa o primeiro

calix da sua ventura.

—Talvez passe para deante—ciciou-lhe, quasi ao ouvido, o namorado de

Maria.

Mas o cavalleiro, caminhando devagar e cautelloso, como avançada na

observação de campo inimigo, estava ainda bastante longe para só se

distinguir o seu vulto com o chapeu desabado, a espingarda atravessada

nos joelhos, o grosso tronco, firme sobre a sella.

—Peor é—considerou João—se ha por aqui alguma porta de espera; porque

então fica.

—O que é uma porta de espera?—perguntou anciosa Maria.

—O ponto onde pode romper a caça—esclareceu.

Do lado esquerdo surgiu outro cavalleiro com o egual aspecto de

descanço, da mesma forma vestido e armado, convergindo tambem para o

sitio da ermida. Viam-no mais perto, sem que pudessem ainda definir

particularidades. Porém, quando chegou a um altinho, onde o recorte do

seu corpo e da cavalgadura se fez com maior precisão e nitidez, Maria

deu um grito, que pela intensidade da dôr que exprimia, seria capaz de

acordar lastimas nos reconcavos d'aquellas montanhas.

—É meu irmão Thomaz!

A João da Cunha cahiu-lhe da mão o tarro de leite, que se verteu pela

terra. Affirmando-se com acuidade de vista, levou a mão ao punhal que

tinha no bolso rugindo:

—Pois matto-o.

Em casa é que tinha as armas, com que poderia fazer frente aos seus

inimigos; mas a casa estava distante, e tinham de subir um pedaço de

encosta aspera. Chegariam a tempo se corressem; porém, as pernas de

Maria, recusavam-se a andar. Era mortal a pallidez do seu bello rosto,

tremula de commoção a sua voz melodica, pavorosa a angustia da sua alma;

o seu corpo sem energia, deixava-se desfallecer sobre o chão. João da

Cunha, o valente rapaz, principiou a tremer como um vidoeiro, açoitado

por ventos furiosos. Maria agarrando-se fortemente ao seu corpo

supplicava-lhe:

—Esconde-me, esconde-me. Que me não vejam!

Subia, magestoso e grave do fundo da matta, o sussurro do ribeiro da

Marnoca, cujas grandes aguas se despenhavam, avolumando-se-lhes o som,

com as ressonancias da montanha. Essa voz rouca e solemne attrahia os

dois corações amantes, que só poderiam encontrar refugio nas covas

fundas, onde a corrente uivava e onde o javali se escondia. N'essa

tetrica escuridade de noite haveria por ventura, abrigo e defesa contra

a furia e colera dos irmãos de Maria?

—Vamos, vamos para baixo e se lá ainda nos encontrarem, jura-me que me

has de mattar com esse punhal, antes que elles me toquem!—clamava a

amada, enleando-se ao tronco do seu amado.

A nossa Gente · 第 43 / 53 题