IV

A perturbação de todos os que assistiam á ceremonia matrimonial foi

maior do que podiam esperar os inventores do estratagema. Alarmados pelo

subitaneo alarido de vozes de duendes, almas-penadas, diabos ou o que

quer que era, em furia e delirio; accrescentado o primeiro barulho com o

reboliço que se sentira no telhado da egreja, que parecia derruir-se;

levado ao auge o desconcerto com o rapido apparecimento da chama azulada

do incendio, com o cheiro da polvora e estrondo de bombas, acompanhados

do toque desesperado de sinos a rebate... produziu-se em todos os

cerebros um movimento de terror e assombro facil de comprehender. O povo

casual e os creados das lumieiras, que tinham deixado as cavalgaduras no

caminho para assistirem á festa, foram os primeiros a fugir e

encontraram-se desvairados no adro, cegos no meio da escuridade pelo

brilho que nos olhos traziam da farta illuminação das tochas. A sua

grita e clamor acabou de apavorar os proprios animaes, que, n'um tropel

desvairado, correram pelos caminhos e atravez dos campos, como fugidos

d'uma casa em chamas. Os convidados, apesar de numerosos, não eram

bastantes para acudir ás supplicas das senhoras, presas d'um

extraordinario medo e algumas desmaiadas. Os minutos que durou a

intensidade do perigo, pareceram annos de castigo e tormentos, a todos

que se encontraram no meio do horrivel drama. Os homens mais resolutos,

serenos, e affeitos a perigos julgaram que este era o seu ultimo

instante de vida terrena e já sob os proprios pés sentiam

abrirem-se-lhes escancaradas as verdadeiras gargantas do inferno. Ás

vozes rogativas das senhoras, acudiram alguns: o padre Pitança, caçador

e temerario, encontrou-se entre ellas de capa d'asperges, falando alto,

dizendo palavras incoherentes, mas que davam sentimento de realidade; os

do Corcovado correram em busca de Maria... D. Bento d'Osma, esse cahira

de joelhos no sitio em que estava na capella mór—tinha as mãos erguidas,

os olhos espantados, no semblante o esgar dos epilepticos, e murmurava

palavras de prece batendo os dentes. Estava inerte, não procurava evitar

a condemnação que o abatera, não pensava em resistir á divina vontade,

que o punia sem misericordia.

Porém os do Corcovado procurando sua irmã gritavam por ella na egreja,

no adro, na sacristia... por toda a parte. Não a encontrando vieram á

fala para cerzirem as suas idéas, e facil lhes foi concordarem no que

poderia ter sido aquella emboscada. Sentiram-se realmente apavorados e

grotescos.

—Nada! é lá possivel!—ainda teimou o mais velho—procuremol-a melhor, que

estará por ahi cahida sem sentidos...

Procuraram com vellas e tochas acesas, que arrancaram dos proprios

altares, e de momento a momento a suspeita d'uma cilada dos da Maceira

tomava maior vulto e lhes enchia o espirito d'uma colera crescente. A

elles se juntaram o velho pae e o D. Bento d'Osma, que os creados haviam

arrancado á sua paralisia, e todos chamavam por Maria e pronunciavam o

seu doce nome, com ancia e carinho, atirando-o para o ventre mysterioso

d'aquella negra e hostil noite de Março. Nem acordada, nem desmaiada,

nem viva, nem morta a encontravam, por mais que empregassem vozes

supplices ou de desespero. Agruparam-se com os parentes e o noivo de

Maria, os convidados e os proprios creados. Assim todos reunidos, de

tochas na mão, em volta da modesta egreja rural semelhavam multidão

imprecativa de povo e não gente na ancia d'um interesse terreno. A noiva

não respondera, nem ás primeiras vozes carinhosas do pae e do noivo, nem

ás palavras já cheias de ira de seus irmãos. Na egreja, na sachristia,

no adro não a descobriam... logo, Maria, ou voava para celesteaes

alturas com as suas azas de pomba virgem, ou fugira nos braços do seu

amado, o João da Cunha da Maceira.

—Com dez mil demonios, que sou capaz de trincar o coração a esse

malvado, como Pedro, o Crú, fez aos carrascos de sua mulher—rugiu o

velho do Corcovado, com a face incendiada em desespero.

—Rapazes!—berrou D. Bento d'Osma á multidão dos seus creados—mil

cruzados novos aquelle que os pilhar.

E os irmãos de Maria, concertados em identico pensamento de vindicta e

com a imagem sarcastica e victoriosa dos da Maceira deante dos olhos,

clamaram:

—Os nossos cavallos depressa que não os deixaremos descançar, nem nas

profundezas do inferno!

Não era muito facil encontrar os cavallos, pois quasi todos tinham

fugido espavoridos. Como se poderia ir ter com elles atravez da vaga

escuridão da noite, por caminhos e veredas incertas? Correram os

creados, que os conheciam e a cujo chamamento e vozes os animaes estavam

habituados. Partiram do adro, cada um com a sua lumieira erguida como um

tropheu, chamando e assobiando, em direcções diversas. Que coisa esta de

homens com vozes bradantes, armados de fogachos furando a espessa treva,

a saltarem muros, e a correr pelos campos, estradas e atalhos! Seria ás

arvores hirtas e silenciosas, ás estrellas sorridentes e alegres, aos

espaços mudos e infinitos que elles supplicavam? Lá iam com assobios e

palavras semeando a negrura torva. Ao fim d'algum tempo alguns voltaram

com os animaes que buscavam e lhes haviam obedecido, reconhecendo-lhes o

imperio a que estavam sujeitos. Já se tinha passado talvez mais de uma

hora, quando os parceaes de D. Bento e os rapazes do Corcovado poderam

montar os seus fieis cavallos, para irem no alcance dos

fugitivos—duração infinita para os apaixonados corações se distancearem

no goso d'uma felicidade tão rudemente conquistada.

Mas para que lado correriam os perseguidores, se os terrenos eram tão

vastos, as montanhas tão silvestres e asperas? Como nortear a marcha em

noite escura de breu, por veredas multiplas e perigosas? Reuniram

conselho para deliberar.

—Para a Maceira?—lembraram os rapazes do Corcovado.

—Não seriam tão asnos que em tal ratoeira cahissem—observou o prudente

José Pereira.

—Para o Cerdal, pois são amigos de Cesario.—opinou uma voz.

—Meu primo não me faria o aggravo de lá os receber—inteirou D. Bento

d'Osma.

—Sigam para os montes—ordenou o padre José Pitança, de estola sobre o

amplo peito, mas já sem pluvial, que largara para se desembaraçar em

qualquer lucta de braço a braço, se necessidade houvesse de a sustentar.

—E se elle a fosse depositar respeitosamente e intacta no Ramisco, para

depois seguir o processo judicial!?—aventou com a sua voz meliflua o

desembargador João Xavier.

Esta lembrança esdruxula, deixou perplexos e irritadas todas as vontades

e corações que desejavam uma acção violenta e immediata de assignalada

desforra. O sangue dos do Corcovado borbulhava em fremente cachoeira e

Thomaz, que era dos quatro o de animo mais ardente e vingativo, disse:

—Qual asneira! Vamos lá para cima que até me parece que já os estou

sentindo correr adeante.

E esporeou energicamente o seu cavallo, que lhe respondeu com um salto,

vencendo á desfillada a ladeira, onde as ferraduras feriam lume nas

lages. Manoel o mais velho ainda teve tempo para ordenar, gritando:

—Cada um pelo seu caminho e por edades. Eu á direita.

Abalaram encosta acima, acicatando com violencia os animaes. Alguns dos

amigos e convidados de D. Bento d'Osma seguiram-nos animados d'um

generoso espirito de desforra. No pavor da noite, este galope de

combate, amplificou-se primeiro, foi esmorecendo gradualmente, restando

por fim nos ouvidos dos que tinham ficado, uma ressonancia como de sons

repercutidos no fundo d'um poço. O padre José Pitança, de alva e estola,

no meio do adro, estendeu com vigor os braços, increpando no vago com os

punhos apontados ao céu:

—Grandissimo patife! Que o esborrachava...

—Uma costa d'Africa é que precisa—ameaçou o velho José Pereira.

—Uma costa d'Africa!—rugiu D. Bento d'Osma. Uma forca! mil forcas é que

merecia.

Porem quasi todos entenderam que deviam ir para o Corcovado, onde estava

a mesa preparada para o começo do festim da boda. Ali aguardariam os

acontecimentos. Muitos porfiavam em acreditar que os fugitivos seriam

alcançados. Porem a maioria das senhoras, cujos nervos tinham sido

desorientados com a commoção causada por tão estranho, quanto

inesperado, successo, preferiram as suas proprias casas, onde melhor se

aquietariam com rezas e com descanço ao seu conchego habitual.

V

Noite escura e triste; noite, cheia de negruras no céu e no coração!

Pouco depois de João da Cunha e Maria partirem a gallope para o seu

louco destino, entraram com elles pavorosos receios, tremendo um por

causa do outro. Durante muito tempo os acompanhou o alarme de vozes em

grita, que se produzira na egreja e no adro, e que se fôra estendendo

pela aldeia, tal onda de revolta popular. Como fossem subindo a céu

amplo sobre o valle, onde a agitação se alastrava, ouviram, até muito

longe, esse rumor sinistro, perseguidor e amaldiçoante; mas depois que

venceram o primeiro cabeço de monte, era antes um sussurro de mar a

bater em rochas escarpadas, isso que lhes chegava aos ouvidos. Mais

além, só conheciam a impressão arquejante que lhes ficara vibrando no

cerebro perturbado. De vez em quando sonhavam tropel de cavallos que

lhes viessem no encalce e paravam attonitos com o ouvido á escuta;

conhecido o erro continuavam animados pela doce esperança de viverem no

seu amor absoluto, reciproco e vehemente. Maria, apesar de animosa e a

tudo resolvida, não deixava de temer a vindicta de seus irmãos, e no

escuro da noite mysteriosa murmurou como n'uma prece: «Deus nos proteja!

Se nos apanham está tudo acabado!» Ao que o intrepido amante oppoz, com

voz decisiva: «Nada receies. O meu corpo será mais difficil de

trespassar, que um duro penedo!» Continuavam a rasgar a treva densa, por

caminhos perigosos e pouco calcados de gente. João conhecia todos

aquelles montes como os campos da sua aldeia; palmilhara-os, durante

annos, acompanhado do seu perdigueiro, em todos os carreiros e veredas.

Cego que elle se houvera tornado, determinaria a posição dos ribeiros e

rochedos e as nodoas das bouças. Por tanto, para se dirigir na selva

escura d'esta noite espessa, bastava-lhe o sorrir das estrellas do céu e

a ditosa ventura de ter a seu lado aquella a quem amava. Eram favoraveis

as circumstancias para não serem encontrados e para chegarem ao ponto

ditoso, onde descançariam longe da furia e perversidade humana. Trazia

esse quadro na menina dos olhos; era uma casinha alpestre, armada entre

fragoas. Porém, como estivesse ainda muito distante e os montes fossem

largos, só quando se annunciasse a luz solar poderia definitivamente

nortear-se, para chegar em direitura, ao paraiso onde podiam florir os

seus amores. Por agora só pensava em distanciar-se de onde estavam os

seus temiveis inimigos; queria apenas retirar-se do perigo, livrar a sua

felicidade da furia dos irmãos de Maria, que seria cruenta se se viessem

a encontrar, n'essa noite, face a face. Armara-se para chegar a todos os

extremos d'um combate sanguinoso: preso no arção trazeiro levava duas

clavinas carregadas com zagalotes, nos coldres duas magnificas pistolas

de cavallaria com balas, no bolso interior um acerado punhal de lamina

triangular. Preparara-se para uma rude empresa de morte e amor, venderia

muito cara a vida e a fortuna de viver. Mas distancear a hypothese

horrenda e desgraçada d'um encontro funesto com qualquer dos que o

perseguiriam, era o seu anhelo, o seu unico desejo. Por isso procurava

com ancia ganhar distancias, mettia por atalhos perigosos, evitava

quanto podia a proximidade de casas e povoados, onde se podesse dar

indicio da sua passagem. Nem sempre o pudéra conseguir e n'um logar que

atravessaram, o ruido dos cavallos devia ter sido percebido por um grupo

de mulheres, que enfornavam a broa da semana. Cresceram os pavores e

receios que enegreciam a imaginação de Maria; porém João aquietou-a

dizendo-lhe que, aquelle caminho era forçado para muitos logares

distantes, uns dos outros. Continuaram silenciosos e cheios d'esperança

na negrura cumplice da noite, porém o sussurro dos ribeiros que iam

grossos d'aguas, o acordar repentino d'algum animal bravio que fugisse

por entre carrascos e tojos, a propria voz do vento que passava nos

codeçaes e bouças se transformavam na mente de Maria em signaes de gente

amotinada que os perseguia, em prenuncios de embuscadas que seus crueis

irmãos tivessem armado contra o seu unico, verdadeiro e sentido amor. A

aldeia ficava-lhes de cada vez mais distante, lá em baixo, em fundo

valle. Demonstrava-o o passo mais lento das cavalgaduras que era já de

fadiga. Tambem agora tinham de caminhar com maior prudencia, pois João

confessava-se no limite dos montes seus conhecidos e familiares. Podiam

esbarrar com algum ribeiro que os obrigasse a retroceder, por isso

procurava sempre os pontos mais altos, onde essa contraria probabilidade

diminuia. Ás montanhas succediam outras montanhas, sempre n'um

levantamento gigante que parecia ter limite no céu, onde talvez fossem

cravar seus dentes de penedias asperas. Só as estrellas os acompanhavam

com riso carinhoso e só estas é que davam a luz tenue, que lhes deixava

distinguir os asperos carreiros, brancos sobre a terra negra. O ar

tambem era mais leve e mais cortante, a modo que a sombra da noite se ia

adelgaçando. Ao nascente, para onde levavam voltados os rostos, já viam

com antecedencia a promettedora chegada do sol, essa alegria sumptuosa

do mundo!... Eram menos inquietas e vibrateis as pestanas argenteas dos

astros, que se sentiam cançados da continuada vigilancia durante a longa

noite. Visto não terem podido combater victoriosamente a treva densa,

deixavam essa encantadora tarefa ao seu glorioso avô, que traria a

brilhante poeira de oiro fino, para enfeitar as cristas das montanhas,

enchendo de luz a profundeza dos valles e os recessos das penedias.

Maria anciosa por encontrar o limite no seu caminhar perguntou:

—Estamos ainda muito longe?

—Andaremos, com dia, talvez uma hora.

—E a gente que nos encontrar?...

—Só pastores e ovelhas poderemos encontrar.

—Santo Deus! Esses pastores não nos denunciarão?

—Os teus irmãos não nos fazem, decerto, para este lado, e daremos

informações erradas a quem falarmos.

—Em todo o caso fujamos sempre...—rematou inquieta.

Seguiam, já n'uma penumbra fofa, o carreiro aberto, ao longo da espinha

d'um monte amplo, pelos pés senhoris das ovelhas e cabras que ali

passavam diariamente. Um bufo, que levantou o seu vôo pesado, de entre

um massiço de penedos, gerou subito alarme no peito de Maria, denunciado

n'um grito de susto, que o seu amado acalmou com a explicação prompta do

facto. A luz do sol, ainda distante, provocava este e ainda outros

signaes de renascimento da vida terrestre. Já a massa espessa das

montanhas se definia em formas comprehensiveis á vista: agigantavam-se

os penedos com aspecto de homens associados em conversa; as arvores,

dispersas nos terrenos aridos, recortavam-se no céu que se ia

acinzentando; as aguas da chuva que se tinham accumulado em covas

naturaes, eram espelhentas. Com taes prenuncios de dia entrava nos

corações amantes, a fé e a esperança na felicidade do amor. Tão de breu

fôra essa noite, que só agora sentiam a posse completa das proprias

individualidades, até então amalgamadas com a espessura da treva.

A proxima chegada do sol aclarando o firmamento, que parecia de vidro

fosco, apagava gradualmente todos os luzeiros pendurados pelo ar.

Formara-se um nimbo lacteo sobre o horisonte. Pipillavam as timidas

calhandras erguendo-se do seu leito, entre carquejas, com as pennas

irriçadas pelo frio, o que lhes avultava o tamanho. Das bouças já sahiam

gaios, grasnando como patos selvagens; levantavam-se melros cortando o

crepusculo com o seu vôo rectilineo e silvo agudo; surgiam pêgas a

palrar como velhas dementes. Era a gloria da luz e da vida que renascia

e animava a solemne mudez das montanhas crespas. Um ligeiro sorrir dos

labios de Maria denunciou que o coração se lhe descomprimia, que a sua

alma ingenua e pura, aceitava de boamente os perigos do dia, em troca da

escuridade protectora da noite. Não assim João da Cunha, receioso dos

males que podiam agora nascer. Se os do Corcovado houvessem acertado na

perseguição, se os visse apparecer na volta d'um monte ou do meio d'um

matagal, seria tamanha a desgraça, que só a morte a podia definir.

Correria o seu sangue e o sangue dos de Maria. Todo o que se vertesse

havia de ser em desproveito da sua ventura, que não mais poderia brotar.

Mas com um movimento energico de cabeça afastou para longe ideias

tetricas; de novo no amplo e corajoso peito entrou a esperança risonha e

cariciosa. As montanhas eram largas, os caminhos muitos e intrincados,

só um grande infortunio o levaria ao encontro dos seus algozes.

Consumidos os dias de gozo, doces como o mel, que viessem as

perseguições e os flagellos crueis, pois o encontrariam resoluto e

altivo, como era natural do seu animo levantado e temerario.

Subiam, subiam ainda na encosta d'um monte, que tinha outros mais altos

para os lados do céu. Os já andados escorriam lá para o fundo, em

successão de valles, n'um dos quaes assentava a risonha aldeia d'onde

haviam partido. Ao vencerem um alto cabeço deram de frente com o olho

redondo do sol, que os fitava impavido e dominador.

—Ainda é muito longe?—perguntou Maria.

—Mais uma legua para andar.

Desciam na vertente d'além: n'esse alvorecer encontraram a primeira

pastagem de boa relva, mosqueada de malmequeres, goivos e junquilhos

nascidos no sopé d'uma penedia d'onde brotava agua, e o primeiro rebanho

guardado por um pequeno pastor. Era um rapaz franzino e sujo: ao ver

aquella formosa senhora, vestida de claro e com flores na cabeça como

qualquer santa, acompanhada por tão garboso cavalleiro, logo se levantou

da lage onde estava sentado, conservando-se com o grosso barrete na mão,

até que elles chegassem.

—Bom dia rapaz—saudou João da Cunha.

—Bô dia—respondeu em voz rouquenha. Agora não ha romaria: eh! voncês

p'ra onde vão?

—Levar uma promessa á Senhora Apparecida—respondeu João.

—Tão linda como a Senhora Apparecida é essa senhora. É sua?

—É minha, é Joaquim. Chamas-te Joaquim?

—Não senhor, sou Zé.

—Pois toma lá este dinheiro e dá-o á tua mãe para te mercar uma camisa.

Se por aqui vierem uns senhores a cavallo diz-lhes que não viste passar

ninguem.

—Se voncê quer, digo. Hei de rezar por vós, que não ides bem p'ra

Senhora Apparecida, mas p'ro Senhor Bô-Home.

—É que vamos primeiro ao Senhor Bom-Homem e depois á Senhora

Apparecida—explicou.

—Antão, havendes de tornar para traz.

—Pois tornamos.

—Isso é falar. Deus os acompanhe.

Ficaram receiosos d'este encontro, como já o vinham das mulheres que

enfornavam o pão. O convivio humano era-lhes n'este momento antipathico.

Da intelligencia alheia, só perigos lhes poderiam advir. Maria levava o

rosto palido e fatigado; desejava chegar breve ao ponto da terra, onde

pudesse repousar e esconder-se. O seu amado comprehendeu-lhe este

secreto pensamento tão legitimo e natural. Chegados a um sitio d'onde se

lhes desdobrava aos olhos um largo ondeado de montanhas, João apontou a

brancura d'uma ermida, que se destacava sobre a mancha negra d'uma matta

e disse:

—Acolá, vês?

—É uma capella!

—Para além da capella está a casa.

—Quanto tempo?

—Pouco tempo.

Metteram por uma esplanada coberta de penedias em cujas anfractuosidades

podiam esconder a sua marcha. A luz do sol já enchia os montes e até os

valles cobertos pelo nevoeiro matinal. O ar rescendia a aromas, que se

levantavam da terra, das flores e hervas alpestres. Passavam no céu,

azul palido, aves de grande corpulencia, abutres e aguias, que pousavam

nos pincaros mais levantados. Os negros corvos crocitavam perto, subindo

do chão para os penhascos. Apparecia aqui um coelho que rebolava pela

terra arenosa; rompia adeante um par de perdizes, já acasaladas no

começo d'amores; erguia-se uma lebre, veloz na carreira, corveteando de

orelha guicha. Maria, certa do limite da sua jornada, mostrava rosto

mais desanuveado; todo o seu desejo e ambição era, n'este momento,

esconder-se como timida corsa no denso matagal, que fazia mysteriosa

negrura, juncto da alva capella que João lhe apontara. Não tardou muito

que aportassem ao carinhoso abrigo. Bem mereciam este repouso, depois de

tão longas horas atormentadas pelo esforço corporeo e pelas preocupações

do espirito. As horas, muitas ou poucas, que ali permanecessem,

ignorados e tranquillos, enchel-os-hiam de amor ardente, para

entorpecerem a sensibilidade, emquanto não vinha o desenlace da arrojada

aventura.

—Ninguem nos supporá aqui, meu amor—suspirou João ao saltar do seu

cavallo.

—E de quem é esta casa?—perguntou Maria ao cahir-lhe nos braços, para

descer da egua.

—D'um amigo de longe, que só vem aqui, de anno a anno, fazer as suas

caçadas.

Depois de recolher as cavalgaduras, entraram na modesta cabana, coberta

de colmo. Logo fecharam a porta sobre os seus corpos cançados. João ao

apertar Maria nos braços nervosos exclamou desvairado.

—Até que emfim! Podem agora vir todos os tormentos da terra!...

A nossa Gente · 第 42 / 53 题