Conservava-se silencioso João da Cunha, porem tinha o semblante
terrivelmente tetrico. Já se ouviam mais perto os tiros de espingarda e
os gritos d'alarme dos batedores, e com este novo perigo mais se
estreitavam os corpos dos dois namorados. Obedecendo ao chamamento da
voz em supplica e reconhecendo a inutilidade de quaesquer esforços para
se deffender, João deixava-se arrastar por Maria para o fundo abysmo da
garganta escura da montanha, onde se despenhavam as aguas em
precipicios. No ultimo relance em que viu, por entre o urzal virgem que
os occultava, os dois cavalleiros, reconheceu serem Thomaz e Vicente, os
dois mais temiveis dos do Corcovado. Aproximava-se portanto, o fim do
seu tragico amor. Com a robustez do seu corpo agil, ia amparando o corpo
delicioso de Maria, que já se entregava sem animo. A cada paragem
indispensavel para refazer forças ella solicitava de João, com
verdadeiras lagrimas, que a deixasse esconder-se mais na escuridade. Já
tinha os pés e os braços ensanguentados de roçarem nos silvedos e nas
arestas vivas do granito; o vestido rasgado pelos espinhos dos abrolhos
e das tojeiras! João, apesar de toda a solicitude, não conseguia afastar
com as suas mãos piedosas todos esses duros obstaculos. Tambem elle
tinha a carne dilacerada e dos olhos vermelhos e vehementes sahiam-lhe
expressões alternadas de colera e de pavor. Mas iam descendo sempre,
amparando-se para não rebolarem pelo ingreme declive, do fundo do qual
vinha o bravio ronco das aguas, que se precipitavam de penedo em penedo,
por entre nuvens de espuma branca. O espirito de Maria sentia consolação
em embrenhar-se n'esta sombra de noite, cada vez mais espessa; mas o
barulho dos batedores e dos cães chegava-lhe de muito perto. E quando se
encontrou á borda do ribeiro gemebundo, com a pelle rasgada em feridas,
o vestido de noiva em farrapos, os cabellos desgrenhados e sem flores,
disse com expressão de alivio e desafogo:
—Podemos morrer. Aqui não nos verão!
O seu amado estava silencioso e rigido no meio da desventura, que por
todos os lados o cercava. Em breve ali chegaria a sofrega matilha, que
podia denunciar a estada d'elles n'aquelle mattagal aspero, escondidos
no reconcavo d'um penedo, abraçados n'um ultimo alento d'amor. João que
já uma vez batera aquellas brenhas, em alegre e bulhenta companhia,
via-se agora como o timido veado, occulto por medronheiros, altas
giestas e urzes seculares, com o fim de se furtar á impertinencia de
miseros rafeiros!... Do peito sahiam-lhe impetos de coragem, tinha
subitaneos repellões de musculos que o animavam a mostrar-se aos seus
inimigos, tal como era, indomito e sem temôr. Poderia subir n'um
arranco, qual outro cabrito montez, aquellas rochas escarpadas; poderia
haver ás mãos as clavinas e as pistolas: depois em campo claro, peito a
peito, combater com denodo, matando e morrendo. O seu coração ousado era
uma cachoeira de sangue n'estes momentos; exaltava-se-lhe a mente n'uma
febre de lucta. Erguendo-se, alto como um gigante, exclamou com os
braços para o céu:
—Sem ao menos ter aqui as minhas armas com que te possa defender!...
Maria dedusindo d'estas palavras do seu amado, que elle tivesse o
pensamento de se ir aperceber para a lucta supplicou:
—Não me deixes só! Ninguem nos imaginará n'esta cova.
—Depois de darem busca á casa e encontrarem cavallos e mais coisas que
nos pertencem, como não adivinharão?...
—Falta-lhes ainda descobrir-nos.
—Bastam os cães para nos denunciarem, como se fossemos bicho medroso...
Humilhou-se, abatendo de novo o seu corpo sobre a terra humosa. Havia
gemer de raiva n'aquelle peito ancioso. Com aspecto torvo e fronte
livida, olhava com vista negra para a espessura da matta, onde o vivo
sol da manhã, apenas gerava uma penumbra. Zumbiam abelhas colhendo o
alimento do rosmaninho, da flôr do tojo e dos sargaços; os innocentes
piscos de peito vermelho volitavam de galho em galho; passara uma cobra
entre o folhedo, que tapetava o chão. A espessura do medronhal já se
enfeitava com rebentos novos; a vida universal, independente e
descuidosa, crescia, remoçava-se á vista d'aquelles corações
desfallecidos e sem esperança.
A grita dos batedores avultava em intensidade. A matilha em busca accesa
estava perto, subia e descia as penedias, entrava nas covas e na negrura
dos mattos. Os dois amantes, ouviam perto os latidos; sentiam o ganir e
o choro proprio da canzoada na ancia da procura. João da Cunha,
paralytico na sua vontade e remettido á impotencia do seu aspero
desespero, não falava: fechou os olhos para não ver, tapou os ouvidos
para não ouvir. Maria, com a sua alma candida cheia ainda de fé e
esperança, estava de joelhos, as mãos erguidas, orando fervorosa e
supplicante, o pallido rosto innundado de lagrimas. Deu um grito e
interrompeu a prece, ao ver por entre a espessura da velha urze que
tapava a bocca do antro onde se tinham escondido, o negro focinho d'um
valente cão do Crasto, que rosnava. João ergueu-se de repente, apurando
todos os seus sentidos, e ficou ameaçador com o punhal na mão. O animal
recuou, subindo para um penedo d'onde principiou a ladrar e a arremetter
com ferocidade. Era um animal medeano, mas de cabeça poderosa: tinha o
focinho agudo, a bocca rasgada como a dos lobos, as orelhas cortadas, em
volta do pescoço uma colleira de pregos. O corpo zebrado de negro, em
fundo pardacento, lembrava a pelle da hyena. O pello do dorso, mais
cerdoso, estava erriçado pela colera; os olhos sanguineos, em circulo
negro, olhavam com ferocidade; os dentes brancos, fortes, eguaes,
arreganhavam-se deixando ver a lingua comprida, como uma chamma. Ladrava
com desespero, resfolgando-lhe as narinas, pois via João da Cunha, com o
punhal na mão, em attitude aggressiva. Outros cães da matilha vieram
junctar as suas vozes ás do denunciante; os batedores, suppondo peça de
caça renitente, algum javalli encurralado entre penedos, animavam com
gritos os animaes, em quanto se iam approximando.
O lance era de extremos perigos. João da Cunha, palido como a morte,
estreitava ao seu valente corpo, o leve corpo de Maria, cujos irmãos, ao
suspeitarem do valor do signal dado pelos cães se tinham já reunido
juncto da ermida para conferenciarem.
—São elles—disse Thomaz, o de coração mais duro. Examinei aquella casa,
tem coisas que lhes pertencem. Ha um cavallo da Maceira.
—Não nos fugirão agora—disse rancorosamente Vicente.
N'estas palavras havia alegria e impiedade. Concertaram o seu plano, que
consistia em descerem, ao mesmo tempo, de quatro pontos differentes,
convergindo para o sitio onde o ladrido se accentuava mais vivo e feroz.
Porfiavam por chegar primeiro que os batedores, para só por si
liquidarem este pleito. Tinham calma no aspecto, mas levavam no coração,
muito mais goso e ferocidade, do que teriam para desalojar a mais
temivel das féras.
Tamanha era a perseguição que os mastins lhes faziam que João e Maria
tiveram de sahir do seu esconderijo, para ficarem em terreno aberto,
onde se pudessem defender. Os cães do Corcovado, ouvindo a voz carinhosa
da sua ama, tinham-se afastado da contenda; mas os restantes,
especialmente o que primeiro os descobrira, mostravam-se de cada vez
mais inimigos. Houve um instante em que o assedio se tornou tão violento
que João da Cunha pronunciou alto:
—Maus raios! Eu sem lhes poder chegar!...
N'este apertado lance é que Maria descobriu, n'uma clareira, cercada de
urzes e medronheiros, passar seu irmão mais velho, o Manuel, com a
espingarda ao hombro, dirigindo-se para o sitio onde os cães ladravam.
—Estamos descobertos!—disse apontando.
—Inferno!—bramou João da Cunha. Não ter comigo as clavinas!
Este apparecimento levou Maria para as visões da loucura. Pelo ramalhar
das arvores, em cujos braços as espingardas se prendiam, pelo ondear dos
mattos, percebia-se claramente que tambem os outros do Corcovado para o
mesmo ponto convergiam.
Maria pensou em encontrar sitio, ainda mais inaccessivel, lá para o
fundo do precipicio. João desvairado, acompanhava-a, amparando-a, para a
não deixar cahir. Nenhum d'elles sabia para onde era levado pelo
destino, pela força interior que os impellia, mas ambos comprehendiam
que mais para baixo era mais cavernoso o marulho da corrente, mais denso
o arvoredo. Havia ahi uma queda de muitos metros, onde a agua levantava
alegres nuvens de espuma, e depois se expraiava em larguesa de bahia
tranquilla. Sem conhecerem o risco, para ahi se dirigiram, attrahidos
pela escuridade e para se livrarem da perseguição crescente da matilha.
Entraram n'uma passagem estreita, onde o ribeiro corria precipitado. O
negrume do logar e o fragor da corrente cegava-os e ensurdecia-os.
Chegaram á fraga d'onde a catadupa se precipita no fundo barathro. Ahi
apareceram abraçados um ao outro, tão meigos e sorridentes, como no
primeiro momento d'amor, e n'esse supremo instante é que uma voz de
vingança se lhes levantou fronteira, ameaçando-os:
—Nem mais um passo, que os varo!...
Era o Thomaz, que os apontava com a arma aperrada.
Maria deu um grito de pavor desprendendo-se dos braços do seu amado.
Tapou os olhos para não ver e correndo pela lage fóra, precipitou-se na
cachoeira fremente. João com os dentes cerrados de desespero, os olhos
em chammas de loucura, ainda tentou agarral-a; porém acompanhou-a na
queda, sem poder tocar-lhe no vestido de noiva.
* * * * *
O cadaver de João da Cunha, foi encontrado, depois, entre as penedias,
com o craneo esmigalhado. Já os corvos crocitavam em volta da sua misera
podridão. O de Maria, colhido amorosamente pela massa das aguas ao cahir
appareceu boiando no remanso limpido, como o de Ophelia, retido por um
innocente ramo d'urze. Foi d'esta humilde planta, que o seu corpo gentil
recebeu o ultimo beijo de carinho.