Ia a cavalgada pelo tortuoso caminho que do Corcovado segue para a
egreja, onde a festa nupcial de Maria com D. Bento d'Osma se ia
realisar. Apesar das lumieiras (que só adeante, junto da noiva, faziam
grande illuminação) aquelle acompanhamento de tão longa enfiada de gente
de cavallo, atravez da noite escura, semelhava uma forte corrente de
ferro de muitos e grossos elos, obrigada a repetidas curvas n'um
subterraneo; ou, então, qualquer monstro de cobra-crotal curveteando em
numerosos accidentes de terreno, para escapar a um perigo que receasse,
ou attingir a presa que lhe fugisse. Os que cercavam a noiva tinham
entre si poucas falas, como se fôra avançada de numerosas forças que
temessem qualquer cilada. Intrigava-os o aspecto sereno e a alma
resignada de Maria, que sabiam coagida para aquelle acto. Jactanciosos,
como eram os do Corcovado, passou-lhes pela mente que o animo da irmã se
tivesse submettido á dura necessidade, logo que reconhecera o inane de
qualquer resistencia. Essa mudança no espirito da namorada poderia ter
desenganado os da Maceira, não sendo até impossivel que realmente João
estivesse já além dos mares. Maria apenas mostrara furtivas lagrimas ao
paramentar-se para a festa com o seu ultimo vestido de virgem, e antes
de sahir de casa esteve no oratorio resando ferverosamente a Nossa
Senhora dos Desamparados, de quem era devota. Conservara-se bastante
tempo estranha, absorvida, quasi extatica, com os olhos sofregos na
imagem querida, talvez pedindo-lhe fortaleza ou confessando-lhe os
ultimos peccados de pensamento. Tudo parecia natural e simples e
indicava que estivesse resignada. Porem, seus irmãos, por um resto de
precaução, aperceberam-se para o caminho até á egreja, pois era longo,
máu e iam de noite; ainda que este estado d'alma lhes parecesse logico,
pois sabiam o espirito de piedade religiosa, com que sua santa mãe
fallecida, a tinha educado. Em tão supremo lance da vida d'uma rapariga
de desoito annos, era natural profunda commoção, pelo quanto
apresentaria de desconhecido e nevoento o novo dia que se lhe ia abrir
na existencia. O seu silencio era o fructo de todos os sentimentos
desencontrados, que lhe moravam no peito, o fructo da curta e variada
historia da sua vida, com um amor precoce e violento, que vira
desfolhado no cumprimento do sagrado dever da obediencia ao pae, severo
mas bom. Assim o presumiam todos; por isso a desconfiança não era
absoluta e os meios de defesa eram incompletos.
Scintillavam as estrellas no firmamento, n'essa immensa aboboda negra
como o veludo, em que grandes e bellos diamantes estivessem collados
desde infinitos tempos, e tremelusissem por um movimento ondulatorio do
proprio céu. Fendiam as lumieiras, com alegres chammas, a sombra
compacta da noite. O estrepito da cavalgada, perturbava o silencio, tal
um caminhar de tropas. As sombras iam a grandes passos parecendo
espectros. A amplitude da treva absorvente tornava mesquinha a
existencia do homem. Os que se dirigiam na tortuosa estrada sentiam-se
oprimidos no peito, mas a vista alegrou-se-lhes quando, vencida uma
corcunda de caminho, descobriram a egreja rural, lá no fundo, com as
vidraças a jorrarem luz, como se fôra noite faustosa de romaria. Quadro
ao mesmo tempo phantastico e jubiloso, este apparecimento subito do
modesto templo, assim illuminado, surgindo do infinito ventre da
escuridade infinita. Era como um facho espetado n'uma grande caldeira de
breu. Em todos os corações houve sobresalto de gozo, até mesmo no de
Maria. D. Bento d'Osma descobrira o sacrario da sua felicidade; o velho
do Corcovado o remate das suas aspirações de grandeza; seus filhos,
julgaram afastados os receios de mau encontro dos da Maceira, que mesmo
que fossem vencidos lhe aguariam o prazer da festa. E Maria o que
descobrira para sorrir?...—Alguma esperança?... era aquelle luzeiro,
alegria na tristeza das suas amarguras?...
De todos os corações se levantara um peso; amplificara-se o sentir e o
desejo de cada um; etherisara-se-lhes a imaginação em hymnos triumphaes.
Os formosos olhos de Maria sorriram á profunda escuridade, talvez por á
sua mente ter chegado em recordação, qualquer promessa do seu amado.
Desciam para o valle onde brilhava a egreja, lentamente, no meio do fogo
das lumieiras. Ao chegarem á borda do adro, o leve corpo da noiva, para
ser tirado de cima da mula, ricamente ajaesada á hespanhola com teliz de
veludo encarnado lampejando oiros, cahiu nos braços de Manoel, seu irmão
mais velho. Repicaram faustosamente os sinos n'este instante,
annunciando o momentoso acontecimento, ás estrellas que luziam, aos
montes silenciosos, aos animaes bravios escondidos nas suas tocas. As
aves occultas na espessura das mattas e no interior dos silvedos, quando
ao romper da manhã viessem gorgear as suas impressões, decerto
relatariam o acontecimento singular que lhes fizera abrir os olhos para
a egreja illuminada, e os ouvidos para o jocundo repicar dos sinos. Que
necessidade de perturbar a escuridão infinita e solemne, o silencio
augusto e magestoso com signaes de festa humana?—perguntariam ao
recomeçarem os seus amores, ebrios de rosea alvorada.
Pela porta do templo, amplamente aberta, entraram os convidados. No
interior, grande perfusão de lumes em todos os altares, para se celebrar
a sumptuosa festa. Sorriam os santos, o rosto da Virgem era expressivo e
carinhoso, os anjos, os seraphins e cherubins, que nas columnas do altar
mór se suspendiam entre nuvens, brincavam alegremente.
A luz espancara a tetrica escuridade; o cheiro do incenso e da cera do
qual as paredes estavam impregnadas espiritualisara-se com o calor das
velas. Os numerosos convidados sentiam-se satisfeitos e communicativos,
tinham abundancia de palavras para encher a conversação. A modesta
egreja rural, mais uma vez era perturbada na sua tranquillidade: assim
cheia de movimento e sussurro de festa, deixava de escutar a musica do
ribeiro, agora crescido d'aguas, e de ligar o seu viver obscuro ao das
arvores amigas que lhe cresciam em volta, enfolhando-se todos os annos
na primavera para a festejar...
Maria subiu o corpo do templo, até ao altar mór, ao lado de seu pae, um
velho robusto, de barba em volta da cara sadia, altos collarinhos em
camisa de bofes, a casaca das suas bodas (quarenta annos antes)
tapando-lhe a nuca com a alta golla. Ao passar em frente da imagem de
Nossa Senhora, da qual era solicita devota, ajoelhou orando com fervor,
o que fez com que muitos assistentes entrassem em piedoso recolhimento
espiritual, imitando-a na mystica submissão. Pediria coragem para o
difficil transe?... confessar-se-hia humilde peccadora por ter tido idéa
de resistencia á vontade de seu pae?!... No alto da egreja, onde de novo
se curvou reverente para fazer as suas supplicas ao Altissimo,
cercavam-na as senhoras mais gradas da visinhança, amigas e parentas, as
de Refuinho, da Torre Velha, do Ramisco... que todas como ella resavam
com recolhimento e fervor. Davam assim tempo a que o padre Pitança se
revestisse na sacristia acompanhado d'outros padres. O cura Clemente
Carvalhosa, já velho, alquebrado e doente, não podia vir a estas festas
de noite, por causa do seu rheumatismo: substituia-o o corpolento
Pitança. Quando este reappareceu juncto do arco cruzeiro, coberto com a
longa capa d'asperges, a batina occulta sob a alva de celebrante, a
estola cahindo-lhe serenamente sobre o amplo peito de caçador e occulta
pelo solemne pluvial, o grande vulto do sacerdote assim paramentado,
tinha a magestade do d'um bispo da edade-média, guerreiro, soberbo e
forte. Um absoluto silencio se estabeleceu rapidamente, em respeito ao
acto momentoso que se ia celebrar. D. Bento d'Osma, radiante dentro
d'uma farda de fidalgo em que se não encontrava muito á vontade, sorria
d'um modo incaracteristico, trabalhado interiormente por grande confusão
de idéas e sentimentos. Maria estava pallida, mas o seu rosto mostrava
serenidade e o seu olhar firmeza. Quando os nubentes davam o primeiro
passo para o celebrante, no meio do silencio de tanta gente, attenta e
commovida, no meio da gloria de luzes que transformavam o ambito da
modesta egreja n'um templo de apotheose... é que um avejão, phantasma ou
demonio, ou muitos demonios juntos se lembraram de lançar pela egreja
fóra os seus gritos lamentosos, terriveis, amedrontadores, e tão
lamentosos, terriveis e amedrontadores, que rebentaram simultaneamente
no tecto e nas campas, por traz do altar mór e no côro! Não eram vozes
com semelhança de humanas, era um como fremito horrendo que se sentisse
ao mesmo tempo no céu e no cimo da terra, que surgisse da profundeza dos
abysmos infernaes e tivesse a mesma natureza e raiva das imprecações dos
condemnados. Todos ficaram transidos de mêdo, e se sentiram faltos do
sentimento da realidade: deante dos olhos desvairados dos assistentes,
assim colhidos de surpreza, e n'este primeiro momento, parecera-lhes que
os mortos haviam rompido o lagedo das sepulturas ao clangor da trombeta
final, ou que eram os santos que desciam espavoridos dos altares para
recolherem ao logar seguro da celeste morada. Viam o tecto do templo
vergar sob o peso da vontade divina, que procuraria assim castigar algum
grande peccado, ou impedir tremenda iniquidade. A confusão de todos os
cerebros foi completa quando no pulpito, no côro, e no recanto da pia
baptismal appareceram tres grandes fogueiras com fumo de polvora e
reboar de estoiros, como n'um incendio de magica. Da primeira
perturbação logo se passou ao terror fundado na evidencia de um fogo no
sanctuario. As vozes em grita, supplicantes e desvairadas, junctavam-se
ás das aventesmas e ao rebate dos sinos. A maioria procurou fugir pela
porta principal que estava aberta de par em par; os mais serenos, os que
poderiam formular raciocinio no meio d'esta grande confusão foram
levados na onda. Os rapazes do Corcovado, paraliticos na vontade,
tiveram um vislumbre da possibilidade d'um acto de vingança dos da
Maceira, mas não se poderam concertar para a defeza. Muitas senhoras
fugiram para a sacristia, e no meio d'ellas foi Maria. A sacristia
estava ás escuras e a porta para o adro viam-n'a aberta... Por ali
entrara um vulto humano que rapidamente tomou nos braços a noiva,
decerto para a salvar do pavoroso castigo que a todos ameaçava. O seu
corpo gentil, dentro do vestido de casamento, a cabeça enfeitada de
flores, os olhos bellos que tantas lagrimas amargas tinham chorado, o
peito ancioso que em silencio suspirara sentidas endeixas d'amor... tudo
levou esse salvador providencial e ambos se sumiram no negrume d'essa
noite fria de Março. Festejavam-na do céu as estrellas, acompanhava-a o
murmurio das fontes, cantava-lhe aos ouvidos a ligeira brisa, e a
escuridade amiga e silenciosa encobria estes amores deleitosos. João da
Cunha, celere como um gamo, saltou primeiro o muro do adro levando
comsigo a penna leve do corpo da sua amada, atravessou veloz um campo,
saltou outro muro e no caminho d'além, atirou Maria para sobre uma egua
valente, montando depois n'um cavallo fiel. E como se isto fôra um vôo
de lendas scandinavas, lá foram os dois vencendo encostas, galgando
ribeiros, entranhando-se de cada vez mais no seio protector e cumplice
da noite calada e escura. Escutavam de vez em quando para ver se outro
tropel de cavallos os seguiria; mas João confiava sereno na promessa de
seus irmãos, que lhe haviam offerecido as vidas para o livrar de
perseguidores.