III

Ia a cavalgada pelo tortuoso caminho que do Corcovado segue para a

egreja, onde a festa nupcial de Maria com D. Bento d'Osma se ia

realisar. Apesar das lumieiras (que só adeante, junto da noiva, faziam

grande illuminação) aquelle acompanhamento de tão longa enfiada de gente

de cavallo, atravez da noite escura, semelhava uma forte corrente de

ferro de muitos e grossos elos, obrigada a repetidas curvas n'um

subterraneo; ou, então, qualquer monstro de cobra-crotal curveteando em

numerosos accidentes de terreno, para escapar a um perigo que receasse,

ou attingir a presa que lhe fugisse. Os que cercavam a noiva tinham

entre si poucas falas, como se fôra avançada de numerosas forças que

temessem qualquer cilada. Intrigava-os o aspecto sereno e a alma

resignada de Maria, que sabiam coagida para aquelle acto. Jactanciosos,

como eram os do Corcovado, passou-lhes pela mente que o animo da irmã se

tivesse submettido á dura necessidade, logo que reconhecera o inane de

qualquer resistencia. Essa mudança no espirito da namorada poderia ter

desenganado os da Maceira, não sendo até impossivel que realmente João

estivesse já além dos mares. Maria apenas mostrara furtivas lagrimas ao

paramentar-se para a festa com o seu ultimo vestido de virgem, e antes

de sahir de casa esteve no oratorio resando ferverosamente a Nossa

Senhora dos Desamparados, de quem era devota. Conservara-se bastante

tempo estranha, absorvida, quasi extatica, com os olhos sofregos na

imagem querida, talvez pedindo-lhe fortaleza ou confessando-lhe os

ultimos peccados de pensamento. Tudo parecia natural e simples e

indicava que estivesse resignada. Porem, seus irmãos, por um resto de

precaução, aperceberam-se para o caminho até á egreja, pois era longo,

máu e iam de noite; ainda que este estado d'alma lhes parecesse logico,

pois sabiam o espirito de piedade religiosa, com que sua santa mãe

fallecida, a tinha educado. Em tão supremo lance da vida d'uma rapariga

de desoito annos, era natural profunda commoção, pelo quanto

apresentaria de desconhecido e nevoento o novo dia que se lhe ia abrir

na existencia. O seu silencio era o fructo de todos os sentimentos

desencontrados, que lhe moravam no peito, o fructo da curta e variada

historia da sua vida, com um amor precoce e violento, que vira

desfolhado no cumprimento do sagrado dever da obediencia ao pae, severo

mas bom. Assim o presumiam todos; por isso a desconfiança não era

absoluta e os meios de defesa eram incompletos.

Scintillavam as estrellas no firmamento, n'essa immensa aboboda negra

como o veludo, em que grandes e bellos diamantes estivessem collados

desde infinitos tempos, e tremelusissem por um movimento ondulatorio do

proprio céu. Fendiam as lumieiras, com alegres chammas, a sombra

compacta da noite. O estrepito da cavalgada, perturbava o silencio, tal

um caminhar de tropas. As sombras iam a grandes passos parecendo

espectros. A amplitude da treva absorvente tornava mesquinha a

existencia do homem. Os que se dirigiam na tortuosa estrada sentiam-se

oprimidos no peito, mas a vista alegrou-se-lhes quando, vencida uma

corcunda de caminho, descobriram a egreja rural, lá no fundo, com as

vidraças a jorrarem luz, como se fôra noite faustosa de romaria. Quadro

ao mesmo tempo phantastico e jubiloso, este apparecimento subito do

modesto templo, assim illuminado, surgindo do infinito ventre da

escuridade infinita. Era como um facho espetado n'uma grande caldeira de

breu. Em todos os corações houve sobresalto de gozo, até mesmo no de

Maria. D. Bento d'Osma descobrira o sacrario da sua felicidade; o velho

do Corcovado o remate das suas aspirações de grandeza; seus filhos,

julgaram afastados os receios de mau encontro dos da Maceira, que mesmo

que fossem vencidos lhe aguariam o prazer da festa. E Maria o que

descobrira para sorrir?...—Alguma esperança?... era aquelle luzeiro,

alegria na tristeza das suas amarguras?...

De todos os corações se levantara um peso; amplificara-se o sentir e o

desejo de cada um; etherisara-se-lhes a imaginação em hymnos triumphaes.

Os formosos olhos de Maria sorriram á profunda escuridade, talvez por á

sua mente ter chegado em recordação, qualquer promessa do seu amado.

Desciam para o valle onde brilhava a egreja, lentamente, no meio do fogo

das lumieiras. Ao chegarem á borda do adro, o leve corpo da noiva, para

ser tirado de cima da mula, ricamente ajaesada á hespanhola com teliz de

veludo encarnado lampejando oiros, cahiu nos braços de Manoel, seu irmão

mais velho. Repicaram faustosamente os sinos n'este instante,

annunciando o momentoso acontecimento, ás estrellas que luziam, aos

montes silenciosos, aos animaes bravios escondidos nas suas tocas. As

aves occultas na espessura das mattas e no interior dos silvedos, quando

ao romper da manhã viessem gorgear as suas impressões, decerto

relatariam o acontecimento singular que lhes fizera abrir os olhos para

a egreja illuminada, e os ouvidos para o jocundo repicar dos sinos. Que

necessidade de perturbar a escuridão infinita e solemne, o silencio

augusto e magestoso com signaes de festa humana?—perguntariam ao

recomeçarem os seus amores, ebrios de rosea alvorada.

Pela porta do templo, amplamente aberta, entraram os convidados. No

interior, grande perfusão de lumes em todos os altares, para se celebrar

a sumptuosa festa. Sorriam os santos, o rosto da Virgem era expressivo e

carinhoso, os anjos, os seraphins e cherubins, que nas columnas do altar

mór se suspendiam entre nuvens, brincavam alegremente.

A luz espancara a tetrica escuridade; o cheiro do incenso e da cera do

qual as paredes estavam impregnadas espiritualisara-se com o calor das

velas. Os numerosos convidados sentiam-se satisfeitos e communicativos,

tinham abundancia de palavras para encher a conversação. A modesta

egreja rural, mais uma vez era perturbada na sua tranquillidade: assim

cheia de movimento e sussurro de festa, deixava de escutar a musica do

ribeiro, agora crescido d'aguas, e de ligar o seu viver obscuro ao das

arvores amigas que lhe cresciam em volta, enfolhando-se todos os annos

na primavera para a festejar...

Maria subiu o corpo do templo, até ao altar mór, ao lado de seu pae, um

velho robusto, de barba em volta da cara sadia, altos collarinhos em

camisa de bofes, a casaca das suas bodas (quarenta annos antes)

tapando-lhe a nuca com a alta golla. Ao passar em frente da imagem de

Nossa Senhora, da qual era solicita devota, ajoelhou orando com fervor,

o que fez com que muitos assistentes entrassem em piedoso recolhimento

espiritual, imitando-a na mystica submissão. Pediria coragem para o

difficil transe?... confessar-se-hia humilde peccadora por ter tido idéa

de resistencia á vontade de seu pae?!... No alto da egreja, onde de novo

se curvou reverente para fazer as suas supplicas ao Altissimo,

cercavam-na as senhoras mais gradas da visinhança, amigas e parentas, as

de Refuinho, da Torre Velha, do Ramisco... que todas como ella resavam

com recolhimento e fervor. Davam assim tempo a que o padre Pitança se

revestisse na sacristia acompanhado d'outros padres. O cura Clemente

Carvalhosa, já velho, alquebrado e doente, não podia vir a estas festas

de noite, por causa do seu rheumatismo: substituia-o o corpolento

Pitança. Quando este reappareceu juncto do arco cruzeiro, coberto com a

longa capa d'asperges, a batina occulta sob a alva de celebrante, a

estola cahindo-lhe serenamente sobre o amplo peito de caçador e occulta

pelo solemne pluvial, o grande vulto do sacerdote assim paramentado,

tinha a magestade do d'um bispo da edade-média, guerreiro, soberbo e

forte. Um absoluto silencio se estabeleceu rapidamente, em respeito ao

acto momentoso que se ia celebrar. D. Bento d'Osma, radiante dentro

d'uma farda de fidalgo em que se não encontrava muito á vontade, sorria

d'um modo incaracteristico, trabalhado interiormente por grande confusão

de idéas e sentimentos. Maria estava pallida, mas o seu rosto mostrava

serenidade e o seu olhar firmeza. Quando os nubentes davam o primeiro

passo para o celebrante, no meio do silencio de tanta gente, attenta e

commovida, no meio da gloria de luzes que transformavam o ambito da

modesta egreja n'um templo de apotheose... é que um avejão, phantasma ou

demonio, ou muitos demonios juntos se lembraram de lançar pela egreja

fóra os seus gritos lamentosos, terriveis, amedrontadores, e tão

lamentosos, terriveis e amedrontadores, que rebentaram simultaneamente

no tecto e nas campas, por traz do altar mór e no côro! Não eram vozes

com semelhança de humanas, era um como fremito horrendo que se sentisse

ao mesmo tempo no céu e no cimo da terra, que surgisse da profundeza dos

abysmos infernaes e tivesse a mesma natureza e raiva das imprecações dos

condemnados. Todos ficaram transidos de mêdo, e se sentiram faltos do

sentimento da realidade: deante dos olhos desvairados dos assistentes,

assim colhidos de surpreza, e n'este primeiro momento, parecera-lhes que

os mortos haviam rompido o lagedo das sepulturas ao clangor da trombeta

final, ou que eram os santos que desciam espavoridos dos altares para

recolherem ao logar seguro da celeste morada. Viam o tecto do templo

vergar sob o peso da vontade divina, que procuraria assim castigar algum

grande peccado, ou impedir tremenda iniquidade. A confusão de todos os

cerebros foi completa quando no pulpito, no côro, e no recanto da pia

baptismal appareceram tres grandes fogueiras com fumo de polvora e

reboar de estoiros, como n'um incendio de magica. Da primeira

perturbação logo se passou ao terror fundado na evidencia de um fogo no

sanctuario. As vozes em grita, supplicantes e desvairadas, junctavam-se

ás das aventesmas e ao rebate dos sinos. A maioria procurou fugir pela

porta principal que estava aberta de par em par; os mais serenos, os que

poderiam formular raciocinio no meio d'esta grande confusão foram

levados na onda. Os rapazes do Corcovado, paraliticos na vontade,

tiveram um vislumbre da possibilidade d'um acto de vingança dos da

Maceira, mas não se poderam concertar para a defeza. Muitas senhoras

fugiram para a sacristia, e no meio d'ellas foi Maria. A sacristia

estava ás escuras e a porta para o adro viam-n'a aberta... Por ali

entrara um vulto humano que rapidamente tomou nos braços a noiva,

decerto para a salvar do pavoroso castigo que a todos ameaçava. O seu

corpo gentil, dentro do vestido de casamento, a cabeça enfeitada de

flores, os olhos bellos que tantas lagrimas amargas tinham chorado, o

peito ancioso que em silencio suspirara sentidas endeixas d'amor... tudo

levou esse salvador providencial e ambos se sumiram no negrume d'essa

noite fria de Março. Festejavam-na do céu as estrellas, acompanhava-a o

murmurio das fontes, cantava-lhe aos ouvidos a ligeira brisa, e a

escuridade amiga e silenciosa encobria estes amores deleitosos. João da

Cunha, celere como um gamo, saltou primeiro o muro do adro levando

comsigo a penna leve do corpo da sua amada, atravessou veloz um campo,

saltou outro muro e no caminho d'além, atirou Maria para sobre uma egua

valente, montando depois n'um cavallo fiel. E como se isto fôra um vôo

de lendas scandinavas, lá foram os dois vencendo encostas, galgando

ribeiros, entranhando-se de cada vez mais no seio protector e cumplice

da noite calada e escura. Escutavam de vez em quando para ver se outro

tropel de cavallos os seguiria; mas João confiava sereno na promessa de

seus irmãos, que lhe haviam offerecido as vidas para o livrar de

perseguidores.

A nossa Gente · 第 41 / 53 题