(a Antonio Candido).
Tarde calma e deleitosa! bella tarde de outono! Azul amortecido no ceu e
a briza leve como o pensamento a perpassar na superficie da areia e a
arripiar-se nas penedias que debruam a praia. Baixamar socegado!
Balançam-se nos ares as brancas azas das gaivotas, que vão para o norte;
e as velas dos barcos dos pescadores parecem ao longe outras gaivotas a
emergir das aguas. Está deserto o areal; principia a nascer o marulho do
vago infinito, que vem rolando á superficie como voz cariciosa e meiga.
Avoluma-se de momento para momento, uiva, no começo como um leão
pequeno, principia a dar côr ao silencio, que desce com a tarde lá do
infinito céu. O magestoso sol fulgura, inclinando o facho de luz sobre
as aguas; a poeira d'oiro que o cerca, forma-lhe a fofa cama, onde
repousará durante a noite.
Tarde calma e deleitosa! bella tarde de outono, que, gerando sensações
amoraveis em toda a natureza, attrahiu duas tenras creanças á admiração
do mar argentado, e do mysterio formado de tranquillidade e luz, que no
ar pairava. Eram dois irmãos, filhos de uma viuva, cujo marido o mar
escondera para não mais lh'o restituir, e que morava em frente das
ondas, na esperança de ainda ouvir a voz que a enamorara. O rapasito
teria sete annos, e a pequena talvez cinco... não mais de certo.
Enlevados na serena paz do universo, os leves corações palpitando de
satisfação intima, viviam juntos nas sublimes regiões do absoluto, os
innocentes, olhos pregados no reverbero prateado das aguas, os ouvidos
attentos ao marulho cantante que os chamava como se fôra a voz de seu
pae. Não era a primeira vez que na praia se encontravam escutando
aquella voz suave, d'um rythmo dominante pela dolencia; e até já em
muitas occasiões, a carinhosa mãe os prevenira contra as incontestaveis
maldades, que as ondas encerram. Porem todo esse pavor artificial se
tinha apagado na convivencia do mar, essas ondas que de longe vinham
crescendo em ameaças, desfaziam-se impotentes contra as penedias
dentadas da praia e a espuma branca e leve, como uma illusão, vinha-lhes
lamber a elles, humildemente, os pequeninos pés enterrados na areia.
N'essa tarde calma e deleitosa, emquanto a mãe se demorava na sua labuta
de camponeza, Tone e a Zefa, contemplavam o mar, o pavoroso mar que lhes
prendera o pae, e reconheciam n'aquella tranquillidade bondosa um amigo
que lhes sorria para os namorar. Mostrava-se carinhoso e terno, as aguas
claras deixavam vêr no fundo branco as mais bellas das suas joias:
seixos semelhantes a ovos de pomba; pequeninas conchas vazias e cavas,
como petalas de rosas; algas multicores e rendilhadas; molluscos boiando
agarrados ao musgo das penedias uns, outros presos á pedra formando com
ella um só corpo inabalavel e insensivel. O anteparo dos rochedos
negros, que elles costumavam respeitar nos dias de nevoeiro como
phantasmas que se erguessem do abysmo, e que nas noites tempestuosas ali
permaneciam afrontando impavidamente o perigo, n'este dia e n'esta tarde
calma e deleitosa, eram serenos e fortes arrimos que os defenderiam
contra as ciladas das ondas. As repetidas provas que tinham da sua
estabilidade e solidez afoutavam-nos a consideral-os como protectores
devotados. Pois não era instavel a luz que desapparecia, o céu que
desmaiava, as aguas que se remechiam, a movediça areia que cedia ao peso
dos seus pequeninos pés? Era. Só a rocha, a rocha escura e aspera, lhes
merecia confiança; só ella reconheciam como bastante forte para resistir
ao mar e á furia das tempestades. Para aquellas consciencias nascentes e
timidas as pedras feias eram arrimo unico e protecção contra os receios
escondidos nas palavras de sua mãe, que sempre procurara inimisal-os
contra o mar.
No areal extenso, branco como uma longa teia de linho, Tone levava Zefa
pela mão. Principiava o sol a avermelhar no horisonte. Mais uma vez os
seus inexperientes olhos soffreram o singular deslumbramento de vêrem no
meio da gloriosa chama, os anjos do paraiso com toda a sua bella
legenda; era para lá d'aquella entrada em fogo que existia o céu, o
logar escolhido para o Maravilhoso e Innarravel. Assim o indicou Tone
com a magnificencia do seu saber:
—Olha Zefa: é o céu onde estão os anjos de Nosso Senhor.
A pequenita ficou mais uma vez presa na contemplação da patria
celestial. O seu olhar azul prolongou-se para o infinito, n'uma visão
sublime de candura. O seu imaginar via todas as maravilhas na
athmosphera subtil e impalpavel, no doirado da luz, na angelical
brancura de figuras meigas como a sua alma innocente.
—Como é lindo!—exclamou Zefa.
Foram caminhando, pela branca areia, as mãos reciprocamente apertadas,
sentindo n'este contacto amoravel realidade de existencia e protecção
mutua. Dirigiram-se a um rochedo que se lhes offerecia em suave e branda
subida e d'onde podiam intemeratamente gozar tudo que os maravilhava.
No mais alto d'essa pedra escura, roida pelas ondas, a grata aragem
agitava as leves camisinhas de pobre linho com que cobriam a sua nudez.
Como o dia estivera calido, sentiam agradavelmente a benefica sensação
de frescura passar-lhe nos cabellos, a amaciar-lhes a pelle. Do alto da
enorme penedia, que lhes era pedestal, lançavam olhos ao largo e
aspiravam o cheiro acre e forte que vinha das aguas que sussurravam.
Impavidos e cheios de toda aquella grandeza que se lhes impunha,
reconheciam-se enlevados nas maravilhas, que os sentidos percebiam nas
ondas e no céu. E Tone disse com effusão:
—Olha o mar Zefa! É ali que está o pae!
Apontou vagamente para esse infinito d'Além, que o olhar azul da
pequenita abraçou n'uma sombra de tristeza e saudade. Havia na sua
expressão de limpidez seraphica, alguma coisa de dôr ou meiga ternura,
que se espalhou pelo ar fóra escurecendo-o. Era ali que estava o pae! E
o que seria _ali_?!...
O sol semelhava fogo voraz que incendiasse o céu. Parecia um instante de
perigo, tremendo para o universo, esse em que a immensa chamma irradiava
do horisonte. Só o grande poder de Deus, com um gesto formidavel e
omnipotente, poderia extinguir o brazido ameaçador! Se assim não fosse,
o que poderia acontecer á terra, ao mar e ás estrellas se essa cólera de
lume se estendesse a toda a amplidão infinita? Seria uma grande desgraça
reduzir a Nada tudo quanto era bello e grande e os maravilhava
enchendo-lhes a alma de grandiosas aspirações. A briza agitava-lhes as
camisinhas de grosso linho, os cabellos incultos fluctuavam e as duas
creancinhas viveram um momento em grande terror!
Porem a intervenção providencial manifestou-se: o que era incendio
foi-se apagando, a luz tornara-se d'um deslumbrante alaranjado primeiro,
depois d'um roxo terno que franjava o azul. Uma nuvem que ao longe
estava suspensa sorria-lhes do alto com o seu roseo carinho. Parecia um
resto de tunica d'anjo, que andasse perdida no ar.
Tamanho encanto sentiam as duas creanças, que nem davam pelo marulho das
ondas, que já se agitavam perto. E quando os seus bellos olhos sobre as
aguas desceram, entertiveram-se a contemplar o redomoinho variado que
ellas faziam, subindo lentamente até ao sopé do rochedo, para depois se
retirarem com humildade. Havia n'isto carinho e não cólera; a espuma,
tão bella e tão branca, vinha tremendo sobre o dorso da vaga até se
desfazer; as algas vermelhas, verdes e azuladas fluctuavam dormentes
como n'um berço; os lindos seixos que formavam mosaico no fundo
encrespavam-se, como se fossem de cera molle. Muito unidos, encontrando
no corpo um do outro mutuo apoio, observavam interessados aquelle
crescer do mar, posto que muitas vezes tivessem visto um tal phenomeno
que sempre os encantava. A onda é constantemente nova: nunca tem a mesma
força em dois momentos successivos, nem o seu enrolar é de forma egual,
em duas d'estas irmãs gemeas nascidas par a par; o facto de se fazer e
refazer perpetuamente dá a sensação d'um inicio de vida que surge. Por
isso Tone e Zefa, mudos e risonhos, vendo uma vaga avolumar-se sobre
outra vaga, consideravam quanto havia de carinhoso e amigo n'estes
beijos da espuma á penedia onde estavam. O marulho grosso que vinha lá
de longe inchando sempre, até rebentar na praia, entorpecia-os
deliciosamente, deixando-lhes nos ouvidos uma ressonancia plangente. Era
musica suave e rara, cuja melancolia se casava de modo admiravel com
esse gradual escurecimento do céu, da terra e do mar, que os envolvia
como n'um mysterio.
A tenue sombra que vinha do horisonte em redor, diluida em tenue
orvalho, cercava-os d'uma atmosphera de goso triste que lhes desmaiava a
expressão por sentirem muito.
Crescia o mar, a luz do sol apagava-se, já o pestanejar das estrellas no
céu apparecia. Perto, mui perto, conheciam o bater das ondas na base do
rochedo e o galgar das aguas pelo areal acima. Aquellas pequeninas almas
voavam na amplidão, como serenas e doiradas nuvens, que levassem todas
as celestiaes chimeras que haviam sonhado. O que os seus olhos ainda
viam, e o que os seus ouvidos percebiam eram coisas que lhes embalavam o
entendimento levando-o para mundos sidereos e encantadores. Esse gemer
da sombra que escurecia o mar immenso, o rebrilhar da abobada celeste na
grande festa da noite outomnal, faziam-lhes caricias no cerebro, sem
lhes causar pavor. Esquecidas as existencias terrenas, só viviam na
amplidão infinita, as pobres almas ingenuas!...
Os seus corpos sem peso, vagueavam suspensos no mundo ethereo; a
imaginação alargava-se-lhes como o fumo do incenso ao evolar-se dos
thuribulos sagrados na festa paschal. Iam intemeratamente por essa
amplidão do mar, fortalecidos pelas idéas de mysterio com que a noite
estrellada seduz as mentes infantis.
A sombra espessa cahira pesada e egual sobre a rugosa superficie das
aguas, dissolvendo os rochedos da praia, esfumando, em tenue esbatido, o
terreno onde estava a casa de moradia. Encantava-os a phosphorescencia
das ondas, enfeitiçava-os o lacrimar argenteo do ceu, sentiam os
corações subir em extasis... De todas as realidades só a brancura da
areia percebiam estendida como um lençol e o ruido do mar que regougava
a seus pés. Os ouvidos, porém, já de muito habituados a este som tantas
vezes ameaçador, quantas muitas carinhoso e meigo, não presentiram que
elle lhes rugia de todos os lados. Estavam cercados pelas aguas em
revolta e só d'isto tiveram a primeira suspeita, quando pelo rochedo
subiu uma onda, cuja espuma em flocos lhes voou para os cabellos
incultos que fluctuavam ao sabor da brisa. A pequenina Zefa soffreu um
rebate de susto, e agarrando-se mais fortemente a seu pequeno irmão,
gemeu receiosa:
—Tenho medo!...
Tone despertou do sonho de poeta em que vivera! Como tivesse mais dois
annos, sentiu o peso das suas responsabilidades. Era escuro e o bramido
erguia-se energico e temeroso. Lembrou se então de descer da rocha e
fugir ao perigo; mas, circumvagando o olhar inquieto, logo reconheceu o
bloqueio que o mar lhes estabelecera. Titubeante, mas querendo fingir
coragem, disse:
—Não tens medo Zefa. A gente vae-se já embora...
Que especie de soccorro esperaria Tone, sabendo que todos os dias
aquelles rochedos da praia se escondiam nas aguas, amedrontados pela
furia do protentoso mar?! Talvez o não soubesse dizer; porém o coração
esperançado, sempre ouvira que, para lá da abobada celeste, existia o
omnipotente Deus que valia aos desgraçados nas horas dos grandes
infortunios. Um acto simples do seu querer, manifestado sobre o mundo
n'um gesto formidavel, seria logo obedecido pelos mares e pelos montes,
pelas estrellas e pelo sol! Era só apegarem-se com elle, levantarem o
pensamento até junto do seu throno celestial, todo oiro e luz, e ali
supplicarem cheios de vehemencia e fé!
Precisavam fazer um grande esforço, pois tinham de ir para além de tudo
quanto se via no espaço infinito. E logo que o Pae-do-céu os ouvisse,
aquelle mar enfurecido se tornaria bonançoso, a sua voz horrenda seria
apenas um cantico, as aguas recuariam mansas até os confins do mundo, e
elles veriam desenrollar-se diante dos seus pequeninos pés uma estrada
singella e vulgar, que os conduziria ao seu casal. E o coração
amargurado e inquieto de Tone, tumefeito de consoladora esperança, voou
pelos espaços, em quanto cahia supplice sobre a rocha erguendo as mãos e
aconselhando:
—Resa muito, ao Senhor, Zefa!
A pequenita ajoelhou como elle ajoelhara; pôz as mãosinhas, fitou nas
estrellas os olhos cheios de lagrimas. Não sabia ainda resar, mas os
seus labios delgadinhos imitavam n'um anceio as palavras fervorosas que
seu irmão dizia alto: «Padre nosso, que estaes no ceu...»
O mar não se apiedava. Os seus bramidos eram violentos e colericos. De
onda a onda as aguas subiam mais. A todos os momentos os corpos lhes
eram salpicados de espuma e as pobres camisinhas de linho grosso já
estavam encharcadas. Zefa, d'um primeiro lamento timido e perigoso, foi
subindo a um pranto sentido. Chorava copiosamente em gritos, mas a
vontade energica de Tone ainda procurava sustental-a contra esta
fraqueza. Sem uma lagrima, sem uma ruga de pavor no rosto e com voz
clara animou-a:
—Cala Zefa, não chores. O pae está ali—(apontou o vasto oceano)—e vem
buscar a gente para irmos todos para a nossa mãe.
Acreditaria Tone, n'este providencial soccorro?! A furia do mar
augmentava de instante a instante, as vagas ameaçavam-no de mais perto,
elle continuava com a irmãsinha estreitada contra o seu corpo valoroso.
Ambos esperavam, com os cabellos empastados e as camisas colladas á
pelle, que da infinita bondade do céu viesse o soccorro que os
restituisse aos braços de sua mãe. Do mysterio insondavel da noite é que
viria a voz salvadora, ou fosse na vontade protentosa de Deus abrandando
a inclemencia do mar, ou na força amorosa de seu pae cuja sombra tantas
vezes conheceram a vaguear sobre os rochedos e sobre as aguas!...
E sua mãe? aquella boa alma consoladora que os aconchegava ao seio nas
crises das doenças?! Zefa entregava-se á protecção de Tone; este, de
animo varonil, alguma coisa via surgir ou do ceu omnipotente, ou do mar
mysterioso, ou da terra sempre querida.
Da terra querida chegou-lhes realmente o primeiro som d'uma voz
fortalecedora e meiga, quando estavam no maior desespero.
«Tone!»...«Zefa!»...—dizia um grito sahido do medonho seio da noite.
Havia n'esse grito mais desespero e mais lagrimas do que furia no
bramido do mar, e gottas d'agua nos seus abysmos insondaveis. Era a voz
da Mãe que procurava seus filhos na praia e que no meio d'angustias os
pedia á immensa escuridão. Aquelle som carinhoso e desesperado chegou
aos ouvidos dos apavorados innocentes, quando os seus pequeninos pés já
se mergulhavam na agua, que recuando mais uma vez pareceria arrependida
da propria crueldade.
«Mãe!... Mãe!»...—clamaram tranzidos de medo, com o ultimo vislumbre de
esperança posto na voz imprecativa e meiga, que atravessara o medonho
falar das ondas. Ouvil-os-hia a desventurada? Parece que sim, por certo
guiada pelo coração, pois que n'um fugaz momento de calmaria clamou com
mais força ainda:
—Onde estaes filhos!...
Elles responderam em desfalecido choro, mas vehementes com a energia do
desespero:
—Aqui mãe!...
Sem duvida aquelles olhos d'amor adivinharam o lugar; e o perigo, que
era eminente. Para os filhos se dirigiu, como uma loba, como uma leôa,
energica, impetuosa, inconsiderada, guiando-se apenas pelo instincto que
vinha do fundo das suas entranhas. Do rochedo onde os filhos estavam
estreitados n'um supremo abraço, separava-a o mar que se balouçava
dolentemente, crescendo a cada nova onda, ameaçando-a com dentes e
garras sanhozas de tigre. Na limpidez do céu estrellado via os dois
pequeninos corpos muito unidos, fortalecendo-se cada um na fraqueza do
outro.
A mãe, impellida pela energia da sua amoravel loucura, entrou
resolutamente na agua animando as creanças com a palavra clara,
encorajando-as com o denodado exemplo.
—Esperae, esperae! Não vos atireis por ora, filhos!
Suppunha ter ainda tempo de se approximar do rochedo e recebel-os nos
braços para com elles fugir para o humilde tegurio. A frialdade da agua
não lhe diminuia o calor do sangue em fervura, o impeto das ondas não
lhe quebrava a força dos musculos, o terror do abysmo não a cançava.
Ia avançando com prudencia, já immerso o corpo até aos hombros, os
braços levantados para animar os filhos, com a sua approximação. Fazia
todos os esforços de valor moral, para que elles acreditassem na
efficacia d'aquelle auxilio. As criancinhas, silenciosas, com o terror
vago nos olhos, percebiam o lento chegar d'aquella mulher fragil,
sublimada por uma coragem indomita. Mas a valentia do mar augmentava de
instante para instante. Quando a mãe sentiu que se ia afundar, atirou-se
n'um arranco sublime contra as encapelladas ondas. Os filhos, por
instincto, logo a imitaram para serem recolhidos n'aquelles braços de
caricias. Estreitaram-se fortemente, uniram-se n'um supremo esforço;
porem, a furia impiedosa do mar separou-os logo. Os corpos fluctuaram
até que uma vaga soberba e altaneira os cobriu, envolvendo-os n'um
sudario de espuma, levando-os para o negro abysmo, onde iam encontrar a
sombra querida do pae que por lá vagueava.