Dia de finados, dia lugubre, dia triste!... Pelas oito horas da noute,
dos lados de Serpins, sentiu-se grande reboliço. Muita gente a correr.
Francisca, a criada do morgado, pedindo soccorro n'uma voz esganiçada.
Seriam ladrões? pegaria algum fogo? armar-se-hia qualquer desordem?
Ninguem o sabia. Para lá se dirigiam em tropel homens armados de
roçadoiras, espingardas velhas e varapaus—todos n'uma attitude
combatente, falando alto! O sacristão direito á torre para tocar a
rebate, mulheres e creanças alarmando a villa correndo e gritando, os
prudentes a fecharem as janellas para se não metterem em barulhos, nem
servirem de testemunhas... era o que se via.
Averiguou-se, por fim, que o morgado Gamarrão se encontrara
repentinamente mal com uma colica, resultado de uma copiosa ceia de
castanhas com geropiga. Homem sanguineo, rebolava-se pelo chão da
cosinha como uma pipa, dava urros que nem um touro, os olhos
esbogalhados rebentavam-lhe das orbitas. Dous valentes creados sopesaram
o moribundo como um sacco de trigo e atiraram-n'o sobre a cama. O
cirurgião Mendonça, seu velho inimigo, veio quando elle já nem respirava
e dirigindo-lhe a ponteira da bengala, desprezou-o:
—Resem-lhe por alma, se é que a tinha. Está prompto, não torna a dizer
asneiras.
O mulherio, em volta da Francisca, acompanhava-a na sua grande dôr,
chorando com ella, consolando-a com delicadeza. Não se comprehendia o
sentimento da rapariga por este mastodonte avaro e gordo, o mais
embirrento homem das redondezas; porém ella, recusando consolações,
explicou:
—Não que era muito meu amigo. Tinha-me promettido umas arrecadas para o
Natal. Ai! meu rico amo!
Porém todos estavam certos que o morgado lh'as não daria. Era uma alma
de presunto, como dizia o Mendonça, não tinha amor a vivente. Durante um
longo periodo, talvez de trinta annos, ninguem soube que o Gamarrão
escrevesse ou recebesse uma carta. Orphãos, viuvas e necessitados que á
sua riqueza fossem buscar amparo, em vez de beneficio, tinham como certo
o abraço selvagem d'este urso indomavel.
O seu unico herdeiro vinha a ser um sobrinho residente em Trancoso. O
administrador do concelho, o Menezes, promptificou-se a escrever ao
collega de lá, participando-lhe o occorrido. Não se fez esperar a
resposta telegraphica, dizendo que em breve chegaria a Serpins o dr.
João Gama, sobrinho do morgado.
Gente credula em demasia! Sem nenhuma especie de informações, logo se
deitaram a imaginar este homem differente do fallecido. Que seria
risonho e condescendente, esmoler e affavel.
Prepararam-se para o receber, affectuosamente nos braços, logo que elle
chegasse e resolveram consideral-o como o bemvindo.
A tarde em que elle appareceu era lamacenta e chuvosa; as pessoas, as
arvores e o ar mostravam-se fuscos e encebados. Quando viram o dr. Gama,
julgaram assistir á ressurreição do tio—anafado, soberbão e de tal
volume que lhe custou a sahir da diligencia. O cocheiro commentou:
—Devia pagar dous lugares. Já em Braga foi a mesma chalaça, para o
metter dentro.
Porém, elle, ao encontrar-se fóra d'aquella velha arca de Noé, sentiu a
ampla sensação da liberdade conquistada e mostrou-se sorridente,
benevolo e acariciador. A primeira impressão foi boa e não desmanchou o
que tinham presumido.
O administrador, ao voltar de Serpins, affirmou na botica:
—Temos homem. Talvez se faça alguma cousa.
Ao que o Mendonça retorquiu, chupando o cigarro:
—Elles são parentes, meu amigo!...
Increparam-n'o pela duvida.
—Então você não admitte...
—Admitto tudo... mas não me cheira.
Que deixassem a cousa por sua conta, pediu o Menezes, premeditando um
golpe de grande politico. A questão era de geito. Todos comem palha, o
caso é saber-lh'a dar. Má impressão não lhe fizera, e uma carta que
recebera do collega de Trancoso, avivara-lhe as esperanças. E logo no
dia seguinte de manhã apresentou-se em casa do _novo conterraneo_,
palavras estas que pronunciou de modo a imprimir-lhes a ideia de
naturalisação official, de uma especie de carta de cidadão, passada ali
mesmo por elle.
De tudo se fallou. O Menezes gostava de ostentar importancia—que tinha
relações, que recebia muitas cartas, que em Lisboa falava com ministros.
Sendo ferrenho regenerador, affirmava que o Lopo, o Barjona e o proprio
Fontes o tratavam affavelmente e o recebiam em cavaqueiras intimas.
Fazia gestos largos, conquistando, dirigindo, aconselhando.
—Seu tio—disse depois de conveniente preparação—era muito estimado entre
nós. Esmoler, chão no tracto, bondoso, o que se chama um coração aberto.
A sua piedade e religião eram proverbiaes.
O dr. Gama limpou duas lagrimas que lhe humedeceram as palpebras.
Conservou-se silencioso por momentos e em tom compungido respondeu:
—Agradeço-lhe as suas palavras, que sei verdadeiras. Conheci esse
coração magnanimo, esse homem antigo, esse tio admiravel! Era tal como
diz, um santo, um bom.
—Julguei que nunca vira seu tio...—balbuciou timidamente.
—Durante estes ultimos vinte annos carteamo-nos sobejamente. Os nossos
corações uniram-se em bellas paginas, como só elle as sabia escrever.
—Não o apreciei debaixo d'esse ponto de vista, mas sim na convivencia.
Era um homem altamente religioso e não d'esses modernos que chasqueiam
dos bons principios. Uma festa, aqui popularissima, á Senhora do Regaço,
e que elle todos os annos fazia á sua custa, com pompa e luzimento,
dera-lhe entre a nossa gente verdadeira nomeada de bom catholico. N'este
ponto julgo adivinhar que v. s.ª não quebrará a tradicção...
O dr. Gama concentrou-se. Tomou aspecto reflexivo, enguliu em sêcco duas
vezes.
—Se meu religioso tio—respondeu—a cuja memoria tanto devo, costumava
fazer a festa da Senhora do Regaço, com pompa e luzimento, não serei eu
que venha interromper essa piedosa pratica. Preciso, porém, consultar os
seus livros e papeis secretos, para conhecer os precisos termos em que
elle procedia, e da mesmissima fórma eu proceder tambem.
—Deixaria elle apontamento a tal respeito?— —observou o duvidoso
Menezes—Isso não offenderia a sua modestia?...
—Não, de certo não. Conheço a fundo a alma de meu tio, pela nossa
activissima correspondencia. Esses documentos e livros devem existir;
estou certo que existem.
Causou estranheza tal revelação. Teve, porém, o valor de alegrar e
alimpar a embirrenta e sordida memoria do avaro Gamarrão. Quantas
virtudes n'este mundo se mascaram de vicio, para não as offender a luz
crúa da publicidade!—consideravam philosophicamente alguns homens
meditativos d'aquella terra.
Affluiu muita gente a visitar o novo morgado de Serpins.
De aldeias proximas vieram, por caminhos pedregosos, varios
ecclesiasticos e proprietarios montados nas suas eguas lanzudas.
Falaram n'elle para deputado do circulo e d'ahi cada um tirava
esperanças de engrandecimento pessoal. O provedor da Misericordia,
animado pelo bom acolhimento que tivera o Menezes, procurou estar só com
o homem, para lhe recommendar á generosidade o hospital, cuja vigilancia
a seu cargo tinha.
—Seu caridoso tio, meu velho amigo, era o melhor protector da Santa
Casa. Nas festas do anno e no anniversario da morte da senhora morgada,
tinhamos sempre presentes de roupas, gallinhas e dinheiro. Sem um tal
auxilio não poderiamos viver, e ouso pensar que o seu continuador, o seu
herdeiro, não nos faltará igualmente com a sua protecção.
—Se meu caridoso tio—retorquiu solemne—cuja memoria tanto respeito,
auxiliava o hospital d'esta terra com roupas, gallinhas e dinheiro, não
serei eu que lhe desmereça a santa memoria, deixando de o fazer.
Preciso, porém, de consultar os seus livros e papeis secretos, para
conhecer os precisos termos em que essas dadivas eram feitas, para as
continuar.
—E haverá, porventura, esses documentos?
—Decerto! Oh! quasi que o posso jurar! Eu conhecia-lhe profundamente os
habitos.
Depois d'isto os cavalheiros mais grados reuniram-se na idéa grandiosa
de solemnes exequias por alma do morgado de Serpins. O presidente da
camara, homem circumspecto e idoso, foi encarregado de levar este
projecto ao regozijo funebre do dr. Gama, que se mostrou sensivel a taes
provas de affecto, confessando:
—É bem certo que a virtude sempre terá o condigno premio, digam o que
disserem scepticos e maldizentes!
O presidente ponderou:
—Muito esperavamos d'este querido conterraneo. Ainda ha bem pouco tinha
promettido auxiliar-me n'uma empreza difficil. Ha aqui uma rua que é a
grande arteria da nossa circulação. Estreita n'um ponto, para se alargar
é necessario demolir um pequeno predio, que pertencia ao senhor seu tio
e presentemente a v. s.ª pertence. Promettera me elle que essa
expropriação seria gratuita e a camara da minha presidencia, para
perpetuar tão valioso feito, tinha resolvido dar á arteria em questão,
que será no futuro uma especie de avenida, o nome do doador. A
Providencia mandou outra coisa e agora é o nome de v. s.ª que está na
nossa ideia...
—Isso não! o nome d'elle é que será perpetuado! Se meu generoso tio, a
cuja memoria tanto devo, havia decidido concorrer para essa obra pela
fórma que me diz, não serei eu que deixe de completar o seu pensamento.
Preciso, porém, lêr os seus livros e papeis secretos, para conhecer os
precisos termos em que esse tio patriota desejava fazer a cedencia. Todo
o meu empenho é cumprir á risca a sua vontade... para mim sagrada e para
todos saudosa!
—Modo de pensar e proceder verdadeiramente fidalgo! Receio, porém, que o
senhor morgado não tenha deixado escripto... que...
—Tudo escrevia. Durante mais de vinte annos eu conhecio-o no intimo. Era
um verdadeiro litterato, para a familia. Eu tenho quasi a certeza, ia-o
mesmo jurar sobre umas Horas, se necessario fosse, que meu chorado tio
deixou alguma cousa a esse respeito... Escrevia tudo, mesmo tudo, não
imagina! Ando em busca das suas memorias e vontades e hei de
encontral-as. Já mesmo alguma coisa encontrei—o rol das suas rendas em
divida. Escrevia tudo, creia...
* * * * *
O dr. Gama agradecera individualmente as homenagens prestadas ao nome do
seu antecessor. Exequias magnificas; concorrencia de todo o clero do
concelho; missa a tres padres; no côro rabecas, clarinetes e flauta; um
sermão do afamado padre Carapeta, exalçando por ahi além as virtudes do
fallecido!...
Um poeta de veia funebre escreveu uma elegia que foi impressa e
divulgada. Um tabellião e o escrevente da fazenda organisaram
correspondencias para os jornaes do Porto, avultando os factos. N'uma
terra pequena não se podia fazer mais e o juiz de direito, homem
entendido, affirmou que nas grandes se não faria melhor.
Todo o mundo julgava o dr. Gama contente e sazonado. Foi, porém,
justamente depois d'esta solemne demonstração que elle começou a
mostrar-se sibyllino e rijo. Não dava occasião a largas conversas, e as
que não podia evitar, guiava-as para um campo generico, pronunciando
sonoramente as palavras do alto do seu magnifico busto. Uma vez que
manhosamente o levaram, n'uma especie de visita, ao predio a demolir
para o alargamento da rua, elle deixou-se conduzir, achou magnifica a
idéa, mas evitou fazer qualquer promessa compromettedora.
Quereria este Gama faltar áquillo em que já concordara? Não podia ser...
julgavam-n'o incapaz... era talvez feitio... No emtanto tornava-se
urgente uma aclaração e para a obterem concertaram-se o Menezes, o
Provedor e o Presidente, fazendo-se acompanhar do Mendonça, que era
desembaraçado e não tinha papas na lingua. Vestiram se apparatosamente
de sobrecasaca, chapéu alto, luva... tudo como o caso requeria. Entraram
n'aquella sala humida e fria da casa de Serpins. As janellas davam sobre
um laranjal, cujo verde escuro entenebrecia o ambiente. O tecto
abahulava-se n'uma intenção de amplitude, concentrando a claridade. As
cadeiras dormitavam aos lados, quasi em abandono!
Palraram sobre todas as cousas—lavoura, demandas, politica,
melhoramentos... e n'um a proposito bem aproveitado, o presidente pôz
timidamente a questão:
—V. s.ª bem sabe... Temos os nossos orçamentos a mandar para cima...
Quereriamos alguma cousa de certo. As suas promessas...
—Promessas, promessas... Eu por mim ainda não tive tempo de pensar a
sério nos objectos das nossas ponderações...
—Mas os nossos compromissos... a festa da Senhora do Regaço á
porta...—insufflou o Menezes.
O provedor accrescentou:
—Os doentes necessitados não pódem esperar. V. s.ª comprehende...
—Comprehendo, porém são cousas difficeis. Immenso que fazer! Uma casa
grande e muito embrulhada na administração. Caseiros, rendas, generos,
gados, o diabo! Ainda não pude... realmente ainda não pude...
O Mendonça, que era azedo, esperto e embirrava com o morto, aproveitou o
momento para desbravar o terreno e ao mesmo tempo lançar grossa mancha
em todos os Gamarrões, pois fôra sempre seu parecer que este sobrinho
equivalia á besta do tio. N'um tom que, á primeira vista, se poderia
julgar inconveniente disse:
—Meu caro senhor, cartas na mesa. Estes cavalheiros tiveram de v. s.ª
solemnes promettimentos. Fundados n'elles fizeram declarações lá fóra e
com todo o direito vêem exigir que v. s.ª cumpra a sua palavra. Ora eis
ahi está o que é, sem mais refolhos.
—A memoria de seu tio tudo merece—insinuou o presidente, para avelludar
a dura arremetida do Mendonça.
O sobrinho do Gamarrão atirando solemnemente com o busto para diante,
ergueu a cabeça, e de palpebras meio cerradas, affirmou:
—Se meu nobre tio, cuja memoria eu venero e acato no mais alto grau,
costumasse fazer todas essas dadivas, que os senhores dizem, de tal
teria deixado apontamento ou lembrança que ainda não encontrei. Porém
que encontrasse ou que encontre, eu desde este momento solemne declaro
que acho abominavel, (abominavel é o termo!) este procedimento de
quererem influir no tribunal da minha consciencia! É cousa que se faça,
o perturbar uma consciencia, seja ella de quem fôr, de um rei ou de um
mendigo?! A um homem delicado e quasi timido, como eu, impôr-lhe um tal
onus e n'esses termos! Não se poderá taxar de indelicadeza, de violencia
e até de coacção!? Eu recuso e recuso terminantemente.
Foi terrivel o assombro!
Os quatro olharam-se sem comprehender! Depois das exequias, do sermão,
da poesia, das correspondencias, sahir-se com esta! O Mendonça, azedo e
ironico, atirando com a ponta do cigarro para o sophá, retorquiu em voz
levantada:
—Lérias, cantigas!... O que você não quer é dar nada, eis ahi está. Por
força havia de ser um avarento como o jumento de seu tio. Pela cara se
lhe tiram as obras. É um Gamarrão segundo.
E retirando-se após os outros, que já se dirigiam para a porta,
accrescentou:
—Um alarve d'estes só se ensinava com meia duzia de lambadas. É o que
elle merecia. Grandissimo pulha!
O dr. Gama ficou estarrecido e apopletico. Que procedimento inaudito!
Que formidavel canalha! Correu á varanda trasbordando de impetuosa raiva
e vendo-os ainda no quinteiro gritou lhes:
—Comedores! Nem vintem! Ouviram seus comedores!?
O Mendonça voltou-se e n'um gesto de punhos cerrados aggrediu-o:
—N'essas ventas, n'essa cara de cabaça é que devia ser! Grandissima
cavalgadura!
E todas as bellas esperanças e promessas foram poeira levada pelo vento
d'esta discordia, derivada d'uma velhacaria dupla.