O descanço sobre a pedra tosca; o sabor da agua com que o tinham
alliviado da sede do caminho; o banho de luz e tranquilidade em que todo
o seu ser se mergulhara durante longos minutos; e principalmente a
ventura que adivinhava na existencia sempre egual d'aquelles casados de
tantos annos, haviam transformado em pouco tempo o aspecto do infeliz.
Sorvia deleitado o ar que aqui se respirava, sorriam-lhe os olhos na
contemplação d'esta paizagem carinhosa e melancolica, desfaziam-se-lhe
as rugas da face ao renascer-lhe na alma a alegria que, por certo,
n'elle se finara havia muito. Como Miguel o visse mais tractavel e
familiar no aspecto, ponderou:
—Vocemecê estava tão moido, que decerto vem de muitissimo longe.
—Oh! de muitissimo longe!...—repetiu o forasteiro com accento de grande
amargura.
—Talvez d'essa Lisboa!...—entendeu o paralytico.
—Muito mais para lá!...
E fez um gesto largo, d'uma amplidão infinita, acompanhando-o com um
olhar que fôra até aos confins do mundo.
—Do Brazil?—indagou Luiza com ancia e soffreguidão no rosto inquieto.
Um simples aceno affirmativo de cabeça, deu resposta á pergunta. E logo
os rostos dos dois septuagenarios se alegraram, como se em crepusculo
matinal vissem surgir d'entre as penedias o sol nascente. Ao mesmo tempo
tiveram a mesma lembrança. «Quem sabe se este desconhecido nos poderá
dar noticias do nosso Luiz?!...»—pensaram. Porém, antes de o inquirirem,
sustiveram-se n'este pensamento triste: «Como se pode voltar do paiz do
oiro, da opulencia e da ventura, assim pobre, mal trajado e n'um aspecto
tão miseravel e desvalido!» E Luiza, compadecida, considerou com as
lagrimas a rebentarem-lhe:
—Então é que não foi feliz, por lá... Nem todos o podem ser...
—Nem todos... nem todos...—disse o estrangeiro, apparecendo-lhe no rosto
um fulgor de alegria velada por amargura.
—E conheceria por lá o nosso filho?...—perguntou a velha.
—O seu filho! Tem um filho no Brazil?—indagou, o mal trajado, n'uma voz
que se esforçava por ser corajosa e serena.
—Temos—esclareceu Miguel inclinando-se para o interlocutor. Chama-se
Luiz da Silva; mas lá puzeram-lhe o nome de Luiz da Tóca, por ser o nome
d'este logar em que nasceu. Foi e nunca mais voltou—concluiu o velho,
por sua vez, com os olhos rasos d'agua.
Um rubor de incendio subiu á face do desconhecido, que com fingido
esforço, como de quem se recorda disse:
—Luiz da Tóca... Luiz da Tóca... Lembro-me muito bem; vivi muito com
elle, e somos amigos.
No primeiro momento, os velhos quasi se julgaram ludibriados com esta
resposta: tão grande era a inverosimilhança do que escutavam! Pois não
haviam dado resultado as instantes e repetidas diligencias do cura
Carvalhosa, para descobrir o paradeiro de Luiz, e o acaso trazia-lhes ao
pé da porta uma testemunha, que em tudo os podia esclarecer! Porém, a
crença de seus corações n'uma Suprema Vontade, providencial e divina,
era forte, e não duvidaram de que Deus e os santos com quem se tinham
apegado, pudessem mais do que o virtuoso sacerdote. O accento de
sinceridade com que aquellas palavras foram ditas, a expressão de
bondade e espontanea satisfação do rosto do homem que tinham deante
d'elles, excluiam a possibilidade de qualquer ignobil mentira. O velho
Miguel, apesar de meio paralytico, logo se abordoou ao seu pau, para
erguer o corpo doente, com a energia dos antigos tempos; mas a commoção
tornava-lhe insufficiente o esforço. Mesmo sentado ainda poude dizer:
—Pois, o senhor, é que já não sae d'esta casa. Se conhece o Luiz, se é
seu amigo, fica aqui comnosco para nos ajudar a saber d'elle e a
encontral-o.
Luiza, apesar de a lingua se lhe recusar a exprimir tudo quanto lhe ia
na alma, attonita como estava, perguntou em voz tremula:
—E em que terra encontrou vocemecê o nosso filho? Sabe onde estará
agora?
O estranho não respondeu logo. A sua phisionomia denunciava excepcional
perturbação de contentamento, que os velhos não podiam apreciar por
causa da nevoa de lagrimas que tinham nos olhos. Approximando-se, porem,
dos dois, que uniu no mesmo abraço, disse soluçante:
—Seu filho está aqui, meus queridos paes!...
E passada que foi a primeira onda de alegria accrescentou:
—Mas venho muito pobre! Só possuo estes farrapos que me cobrem. Se
soubessem quanto tenho soffrido!
—Pobre!—bradou Miguel com a sua antiga energia, sahindo-lhe a voz do
peito, como o ronco d'um trovão do interior d'uma nuvem. Então de quem é
tudo quanto aqui temos? Não fostes tu que o ganhastes, homem!?
E n'um gesto do seu braço revigorado pelo acontecimento, mostrava a
riqueza que havia: a casa afidalgada, a horta abundante, os campos
relvados que se extendiam para além, as videiras em promessas de
rebentação, e o bello muro que circumdava a quinta todo caiado de novo.
Luiza, voltando os olhos ao céu, pronunciou com as lagrimas a
correrem-lhe em fio:
—Nossa Senhora do Amparo ouviu as minhas rezas. Já podemos morrer em
paz.