VI

O descanço sobre a pedra tosca; o sabor da agua com que o tinham

alliviado da sede do caminho; o banho de luz e tranquilidade em que todo

o seu ser se mergulhara durante longos minutos; e principalmente a

ventura que adivinhava na existencia sempre egual d'aquelles casados de

tantos annos, haviam transformado em pouco tempo o aspecto do infeliz.

Sorvia deleitado o ar que aqui se respirava, sorriam-lhe os olhos na

contemplação d'esta paizagem carinhosa e melancolica, desfaziam-se-lhe

as rugas da face ao renascer-lhe na alma a alegria que, por certo,

n'elle se finara havia muito. Como Miguel o visse mais tractavel e

familiar no aspecto, ponderou:

—Vocemecê estava tão moido, que decerto vem de muitissimo longe.

—Oh! de muitissimo longe!...—repetiu o forasteiro com accento de grande

amargura.

—Talvez d'essa Lisboa!...—entendeu o paralytico.

—Muito mais para lá!...

E fez um gesto largo, d'uma amplidão infinita, acompanhando-o com um

olhar que fôra até aos confins do mundo.

—Do Brazil?—indagou Luiza com ancia e soffreguidão no rosto inquieto.

Um simples aceno affirmativo de cabeça, deu resposta á pergunta. E logo

os rostos dos dois septuagenarios se alegraram, como se em crepusculo

matinal vissem surgir d'entre as penedias o sol nascente. Ao mesmo tempo

tiveram a mesma lembrança. «Quem sabe se este desconhecido nos poderá

dar noticias do nosso Luiz?!...»—pensaram. Porém, antes de o inquirirem,

sustiveram-se n'este pensamento triste: «Como se pode voltar do paiz do

oiro, da opulencia e da ventura, assim pobre, mal trajado e n'um aspecto

tão miseravel e desvalido!» E Luiza, compadecida, considerou com as

lagrimas a rebentarem-lhe:

—Então é que não foi feliz, por lá... Nem todos o podem ser...

—Nem todos... nem todos...—disse o estrangeiro, apparecendo-lhe no rosto

um fulgor de alegria velada por amargura.

—E conheceria por lá o nosso filho?...—perguntou a velha.

—O seu filho! Tem um filho no Brazil?—indagou, o mal trajado, n'uma voz

que se esforçava por ser corajosa e serena.

—Temos—esclareceu Miguel inclinando-se para o interlocutor. Chama-se

Luiz da Silva; mas lá puzeram-lhe o nome de Luiz da Tóca, por ser o nome

d'este logar em que nasceu. Foi e nunca mais voltou—concluiu o velho,

por sua vez, com os olhos rasos d'agua.

Um rubor de incendio subiu á face do desconhecido, que com fingido

esforço, como de quem se recorda disse:

—Luiz da Tóca... Luiz da Tóca... Lembro-me muito bem; vivi muito com

elle, e somos amigos.

No primeiro momento, os velhos quasi se julgaram ludibriados com esta

resposta: tão grande era a inverosimilhança do que escutavam! Pois não

haviam dado resultado as instantes e repetidas diligencias do cura

Carvalhosa, para descobrir o paradeiro de Luiz, e o acaso trazia-lhes ao

pé da porta uma testemunha, que em tudo os podia esclarecer! Porém, a

crença de seus corações n'uma Suprema Vontade, providencial e divina,

era forte, e não duvidaram de que Deus e os santos com quem se tinham

apegado, pudessem mais do que o virtuoso sacerdote. O accento de

sinceridade com que aquellas palavras foram ditas, a expressão de

bondade e espontanea satisfação do rosto do homem que tinham deante

d'elles, excluiam a possibilidade de qualquer ignobil mentira. O velho

Miguel, apesar de meio paralytico, logo se abordoou ao seu pau, para

erguer o corpo doente, com a energia dos antigos tempos; mas a commoção

tornava-lhe insufficiente o esforço. Mesmo sentado ainda poude dizer:

—Pois, o senhor, é que já não sae d'esta casa. Se conhece o Luiz, se é

seu amigo, fica aqui comnosco para nos ajudar a saber d'elle e a

encontral-o.

Luiza, apesar de a lingua se lhe recusar a exprimir tudo quanto lhe ia

na alma, attonita como estava, perguntou em voz tremula:

—E em que terra encontrou vocemecê o nosso filho? Sabe onde estará

agora?

O estranho não respondeu logo. A sua phisionomia denunciava excepcional

perturbação de contentamento, que os velhos não podiam apreciar por

causa da nevoa de lagrimas que tinham nos olhos. Approximando-se, porem,

dos dois, que uniu no mesmo abraço, disse soluçante:

—Seu filho está aqui, meus queridos paes!...

E passada que foi a primeira onda de alegria accrescentou:

—Mas venho muito pobre! Só possuo estes farrapos que me cobrem. Se

soubessem quanto tenho soffrido!

—Pobre!—bradou Miguel com a sua antiga energia, sahindo-lhe a voz do

peito, como o ronco d'um trovão do interior d'uma nuvem. Então de quem é

tudo quanto aqui temos? Não fostes tu que o ganhastes, homem!?

E n'um gesto do seu braço revigorado pelo acontecimento, mostrava a

riqueza que havia: a casa afidalgada, a horta abundante, os campos

relvados que se extendiam para além, as videiras em promessas de

rebentação, e o bello muro que circumdava a quinta todo caiado de novo.

Luiza, voltando os olhos ao céu, pronunciou com as lagrimas a

correrem-lhe em fio:

—Nossa Senhora do Amparo ouviu as minhas rezas. Já podemos morrer em

paz.

A nossa Gente · 第 36 / 53 题