Nos primeiros tempos d'ausencia, receberam frequentes cartas repassadas
de affecto e saudade, ás vezes com signaes de lagrimas que ennodoavam o
papel a ponto de se tornarem inintelligiveis algumas palavras. Porém,
passados tres annos, a correspondencia cessou quasi de repente e
espalhou-se o boato de que Luiz morrera, sendo depois isto desmentido
por outros dizeres, egualmente sem base. N'estas alternativas, de luto e
contentamento, passaram-se os dias longos e as noites infinitas,
limitando-se os dois paes a reverem-se no seu passado, modesto e feliz,
acreditando Miguel na eterna formosura de Luiza e esta no garbo e
valentia perpetua de Miguel. Até que um dia chegou esse bom mensageiro,
que lhes trouxe os meios para reformarem a moradia e comprarem as
terras, e com este facto lhes voltou a esperança, sempre risonha e
carinhosa, de que seu filho havia de chegar em breve. Além das palavras
de bom agouro, que o desconhecido deante d'elles pronunciara, receberam,
logo após, carta de Luiz, em que lhes falava com ternura do possivel
regresso e insistia especialmente na velhice tranquilla e abastada que
procurava garantir-lhes. Porém, depois d'este promettedor acontecimento,
que lhes deu annos de prazer emquanto reedificaram a casa,
levantando-lhe um andar, emquanto plantaram videiras e enfeitaram a
quinta, com arvores novas e um bello muro em volta; Luiz nunca mais
escreveu, estabelecendo-se completo silencio, similhante ao primeiro que
parecera de morte definitiva. Fartou-se o padre Clemente Carvalhosa de
lhe escrever sentidas cartas, falando de tudo quanto podia haver de mais
amoravel e terno no coração: a velhice dos paes, que não poderiam
aguentar-se por muitos annos; a commodidade da habitação, que elles
tinham arranjado ostentosamente para o receberem; a belleza e
transformação dos campos em que elle labutara e brincara quando creança.
Até lembrava a recommendação, que Luiz fizera no dia da partida, para
não vender a cria da Russa: a esse proposito notificava-lhe que, tanto
esse animal como a mãe, haviam morrido de velhos, em grande
tranquillidade e ventura; mas que na mesma côrte da residencia havia
outra egua descendente da segunda, que era a estampa viva das saudosas
extinctas. Nenhuma d'estas amoraveis e longas dissertações teve
resposta, o coração de Luiz tinha-se de certo ressequido, pois já não
vivia para tão commoventes memorias. Receberia elle as cartas? Não lhe
seriam entregues por ter mudado de terra?!... É no que assentavam,
afastando sempre a hypothese da morte, como castigo cruel e immerecido.
Mas ao fim d'um crescido periodo de annos, sem noticias de nenhuma
especie, experimentados por muitos e successivos desenganos,
atormentados pelos pensamentos negros que traz a velhice, Miguel disse,
um dia, em voz sumida, para não assustar a companheira:
—Talvez elle morresse... talvez....
Quem sabe?! Ha diversas maneiras de morrer. O corpo póde andar, no
mundo, aos solavancos e encontrões, e ter desapparecido a vida com a
alegria da alma. N'este domingo de março soalheiro, os dois velhos
estavam á porta de sua casa, serenos e meditativos, mas conformados; foi
o bom cura que lhes veiu incautamente turvar o coração, recordando-lhes
o filho morto, ou eternamente desapparecido, o que para elles valia o
mesmo. E quando ambos retomavam a tranquillidade em que estavam antes da
chegada do sacerdote, ficando mudos, com os pés extendidos ao sol e a
cabeça resguardada para que o calor os não adoecesse, sentiram passos no
caminho que bordeja a quinta e viram que um estrangeiro se encaminhava
para elles. Quem seria? Era um homem andrajoso, qualquer viajante pobre
em caminhada para longe. O seu aspecto de miseria commovia... Trazia as
botas cambadas, a camisa suja, as calças roidas; n'um saquito enfiado
n'um pau, levava ás costas, toda a sua riqueza. Que ar esmorecido e
doente! que longa barba mal tratada! como vinha dorido dos pés! Ao
approximar-se da cancella, que dava ingresso no quinteiro, parou
saudando com o chapeu esburacado. Miguel, com vista mais fraca do que
Luiza, perguntou a esta:
—O que é?
O recemchegado é que respondeu em voz de cançado:
—Um pobre viandante que pede uma sede de agua. Dão-m'a senhores?
A velha disse com expressão de carinho:
—Entre, faz favor?... Quanta agua quizer!...
Não mostrou medo, nem repellencia, nem suspeitas d'aquelle homem roto,
que podia ser um ladrão assassino. Foi ella mesma que veiu levantar a
caravelha da cancella, para que elle entrasse, pois que o via sem forças
para tão pouco... Conhecia-se que estava enfraquecido pela fome e pela
longa jornada. Quem seria este misero de aspecto tão soffredor? Algum
d'esses infelizes que vivem afastados durante muitos annos de todas as
affeições e carinhos, e voltam ao seu lar depois de longa e dolorosa
penitencia. O recem-vindo sentou-se n'uma tosca pedra que estava perto
de Miguel, pousando ao lado o pobre saquito, que era a sua riqueza. O
penoso suspiro que do peito lhe sahiu ao descançar, condensava, de
certo, uma vida aspera de soffrimento e exprimia talvez o desejo d'um
periodo de socego, ainda que fosse na sepultura. Quando Luiza veiu de
dentro de casa, com a malga, branca de jaspe, cheia d'agua limpida e
fresca, elle tomou-a nas duas mãos, emborcou-a com satisfação, tendo no
fim de beber um respirar de saciedade. Os seus olhos amortecidos pela
desgraça, tiveram brilho carinhoso e contente ao restituir a malga.
Agradeceu este favor com um sentimento que lhe veiu do fundo d'alma:
—Deus-lh'o pague!—disse.
Conservou-se silencioso durante muito tempo, a cabeça curvada para o
peito, como um vagabundo que na alma procurasse o seu destino. Os dois
velhos contemplavam-no compadecidos: nos seus corações amoraveis e bons
apparecera um sentimento de infinda piedade. Não tinham elles tambem um
filho, que assim andava perdido no mundo, vagueando por longes terras? O
bem que elles, a este desconhecido, podessem fazer, outrem, no ponto
distante onde estivesse Luiz, o retribuiria, soccorrendo-o se elle
necessitasse. Com o instincto dos que são captivos do infortunio alheio,
advinhavam que junto d'elles estava um infeliz precocemente avelhentado.
Não procuravam, com perguntas desnecessarias, perturbar-lhe a paz que
elle parecia ter encontrado sentando-se n'aquella pedra, a olhar
meditativamente o chão do quinteiro. Adivinhavam-lhe, pelo aspecto,
soffrimento que na sua vida obscura e modesta, elles nunca tinham
sentido. Por esse mundo fóra, as desgraças engrossam, ás vezes, tão
rapidamente, como o ribeiro que passa no fundo da aldeia, quando recebe
as torrentes pluviaes, vindas a roncar pelas encostas e pelos caminhos.
Que significaria o silencio dolorido d'este desgraçado, que nos restos
do seu vestuario deixava perceber signaes de que no mundo tinha sido
alguma coisa mais do que aquillo que ora apparentava?!...
O viandante levantou lentamente a cabeça. Primeiro fixou a vista
agradecida, amoravel e sem reservas nos que lhe tinham morto a sêde.
Apesar da estranheza d'aquelle semblante, não causou aos dois velhos
impressão, de que fosse o de algum doido que andasse desgarrado pelos
caminhos da aldeia. O seu olhar era absorto, mas tranquillo e bondoso.
Ainda que estranho ali, não lhes causava receio, nem pavor. Ao
contrario: do imo da sua sensibilidade subia-lhes, a favor do misero, um
formoso grito de benevolencia e compaixão. Aquella testa sulcada pela
desventura, o rosto macerado pela desgraça, dizia alguma coisa de
pacifico e sublime, como a luz sahindo de entre nuvens caliginosas no
meio de rude tempestade. Os dois septuagenarios reconheciam que a
apparição de tal infortunio estava tomando sympathico logar na sua
pacifica existencia... «Este desconhecido —pensavam—ainda que em
qualquer tempo de sua vida, tenha sido mau e perverso, agora só parece
ser desventurado!» Isto originara-lhes no seio a mesma piedade que
sentiriam se áquella casa se viesse recolher um lobo ferido, ou mesmo,
se um abutre lhes cahisse exanime junto da capoeira de que fôra o
flagello. Esses animaes, tantas vezes escorraçados com alaridos de
colera, teriam elles animo de os acabar, quando os reconhecessem
indefezos e supplicantes nas vascas da morte?! Não: o findar da vida
merece sempre compaixão; a desgraça redime de todas as culpas perante os
corações bons e sensiveis.
V
Mas este pobresinho não era perigoso e não poderia nunca ter sido
perverso: tamanha era a uncção maguada e soffredora que exprimia o seu
rosto retalhado pelas rugas, o seu olhar extincto pela longa miseria!
Havia n'elle tanta meiguice e affecto que só lhes provocava misericordia
e caridade. Se o pedisse não lhe recusariam agasalho em sua casa. Que
valia um logar junto da lareira, uma manta para cobrir os lassos membros
sobre um pouco de colmo, uma tigella de caldo para aconchegar e
fortalecer o estomago? De mais tinham elles, sem pessoa a quem o
legassem. Uma obra de misericordia, offerecida por intenção d'aquelle
que lhes dera o bem-estar de que gosavam, era acto meritorio que lhes
consolaria o espirito e teria certo apreço perante Deus. Uma voz
interior affirmava-lhes que ali estava um infeliz digno de piedade: e
sem muito saberem porque, ia-lhes dispertando sympathia o sorriso lento
que na sua expressão se abria, á maneira que contemplava os dois velhos,
que examinava a casa toda caiada de fresco, a latada que cobria o
quinteiro, e o saudavel aspecto dos campos da propriedade em redor. A
horta, ali mesmo ao lado, estava opulenta de couves e grellos; as
borbulhas das videiras principiavam a engrossar; a temperatura era
tepida e carinhosa; o misero parecia respirar, n'este ar, felicidade
nova e paradisiaca. Similhava um cego, desde muito privado do goso da
vista, que readquirindo-a de surpreza, entrasse gradualmente n'um
periodo de enthusiasmo lento; ou então, o homem que recolhido, por
longos annos, em lugubre masmorra, fosse restituido á liberdade e á luz
durante um somno, achando-se incredulo pela ventura reconquistada.
Este silencio demorado, e o demorado exame que o estranho estava fazendo
de tudo quanto em volta se via, principiava a enredar em pensamentos
vagos Luiza e Miguel. Primeiro passeara em volta com os olhos do corpo;
mas depois, uma alegria crescente, lhe fôra desabrochando no rosto
escalavrado, a custo, como rebenta a bonina em terreno duro. Os velhos,
apesar de suggestionados por aquelle todo de bondade e infortunio, houve
um instante em que na mente lhes passaram receios, julgando-se agora na
presença d'um louco. Pois que podia significar esta mudez, quasi
familiar, da parte de quem ali era estranho e entrara sob pretexto de
pedir uma sêde d'agua? Não se atreviam a interrogal-o, pois grande é a
timidez da decrepitude. Annos antes já tudo estaria aclarado: pois que
Miguel sempre fôra homem de grande desembaraço e não teria papas na
lingua para perguntar quem era e o que queria do mais. Agora, porem, a
edade e o corpo paralytico influiam no acanhamento do animo. Os
septuagenarios entreolharam-se, volvendo ambos, depois, a vista para o
peregrino ao qual Luiza disse:
—Parece gostar muito d'este sitio...
—Oh! muito!—exclamou. Tudo isto lhes pertence?
Circumdou de novo o olhar pelo eido e pelos campos, extendendo-o até ao
pinhal que se erguia n'uma ligeira collina.
—Em quanto Deus quizer—respondeu Miguel. E vocemecê d'onde é? para onde
vae?
O desconhecido teve no rosto uma expressão de infinita paz e
tranquilidade, que não deu idéa clara do seu pensar e destino. Sorria
ligeiramente, com a incomparavel doçura d'uma creança a sonhar. Olhou os
dois como se olham amigos e, Miguel, animado por esta expressão
confortativa, ponderou:
—Sim; porque vocemecê ha de ter por força uma terra...
—Tenho, tenho uma terra...
E ficou attento para o chão inculto do quinteiro, como se sentisse
difficuldade em designar o ponto do globo, onde essa terra se talhava.
Recahiu no silencio carinhoso que até ali conservara, mas com rosto tão
aberto em bondade que, de todo, deixou de causar receios. Examinou a
limpeza da casa em que os velhos moravam, e pensou na conformidade de
existencia que dentro d'ella se passaria. Reinava, decerto, n'aquelles
entes, a feliz paz da consciencia; desconheciam as perturbações agitadas
da vida das cidades. Não pensavam em alardes, nem tinham ambições:
talvez durante todos os seus annos, nem uma só noite tivessem abandonado
aquella ditosa morada. Quem sabe o que o estrangeiro estaria calculando
na sua mente, que pensamentos de felicidade o estariam a encantar!?...
Talvez, depois de vida desventurosa, viesse encontrar n'aquelle quadro
simples o primeiro refrigerio para as suas dores, a primeira idéa clara
do que é a ventura. Os pacificos septuagenarios, pareciam comprehender,
que o seu viver ditoso estava reconfortando a alma do misero que tinham
na sua presença. Além de não ser rasoavel negarem-lhe um tal balsamo,
encantava-os que assim fosse. Por isso, orgulhosos da sua modestia,
deixavam que o homem andrajoso tudo apreciasse, sorridente e sem inveja.
A casa juncto da qual se encontravam tinha aspecto de nova, as janellas
com vidraças viam sobre a latada do quinteiro, o alpendre, debaixo da
varanda deitava para o lado do caminho, uma escada exterior mostrava
ingresso ao andar de cima—accrescente feito para a chegada de Luiz, se a
Deus prouvera, guial-o um dia para ali. Como fossem inimigos de
grandezas, apesar da casa assim reformada, nunca abandonaram a parte
terrea conservando ahi a sua moradia. A cosinha, á porta da qual
estavam, era a mesma em que viveram com os filhos; ao lado havia o
quarto soalhado em que dormiam agora, como sempre. As transformações
n'este pavimento consistiam em que o que d'antes fôra côrte de gado
servia agora para adega, salgadeira e casa de recolher a lenha no
inverno. Ao fundo d'um telheiro, armado cá fóra, é que guardavam as duas
juntas de nedios bois, os mais bellos do logar. O chiqueiro do porco e a
capoeira das gallinhas ficavam encostados ao muro, rente com a casa.
Tudo designava certo bem estar, conforto, e até opulencia, dentro da
modestia de camponezes.
Para onde iria o infeliz, que tinham deante dos olhos não o sabiam,
visto que elle o não quizera dizer; mas o que sentiam, com a intuição
das almas simples, pouco habituadas a luctas, é que sendo a sua figura,
quando o viram entrar a cancella, a d'um infeliz retorcido pela miseria,
agora, ao fim de pouco tempo, e depois de reconfortado na contemplação
de todas aquellas coisas bem arranjadas, parecia mais alliviado do
soffrimento que lhe alquebrava o corpo e a alma. Era outro, tinha-lhe
feito bem o repouso sobre a tosca pedra, refrigerara-o a malga de agua
limpida, consolara-o o aspecto feliz dos velhos que estavam ao sol,
esperando, n'este santo domingo, a hora do jantar parcimonioso, apesar
de na panella haver carne e salpicão que elles ambos comeriam regalados,
agradecendo a Deus tamanho beneficio na velhice. Ao quinteiro chegava o
suave odor do caldo gordo e fumegante, e não tardaria que Luiza se
levantasse para ir á adega buscar o excellente vinho, para o beber de
parceria com o seu homem e pela mesma infusa. Como elles seriam felizes,
se n'esse bello e glorioso dia podessem compartilhar com o seu Luiz, que
uma voz intima lhes dizia ainda viver, este bom jantar! Se tal
felicidade lhes fosse dado poderem gozar morreriam contentes, não
duvidando de que iriam direitinhos para o céu!