Este notavel successo trouxe á memoria dos do logar o bom rapasinho que
Luiz sempre fôra; como era geitoso no ajudar á missa, como, com
desinteresse sympathico, se prestava a servir toda a gente. Não podia
deixar de ser feliz, quem logo no começo da vida se mostrara tão
diligente e bondoso. Deus, que é justo, ajuda de preferencia aquelles
que o merecem, os que desde o principio se mostram attentos e
respeitosos pelas coisas da religião. Entendiam-no assim e mostravam
como exemplo d'isto a fortuna que acompanhara Luiz para poder alegrar a
existencia de seus paes, garantindo-lhes um magnifico bem-estar, e
proporcionando-lhes o goso de possuirem as terras que sempre haviam
trabalhado.
A proposito recordavam o bello dia de maio em que elle partira. Muitos
faziam o apparato de mencionarem meudas circumstancias, que agora
representavam como se as tivessem deante dos olhos. Repetiam palavras,
apontavam pessoas, e reproduziam detalhes. Que formoso sol o d'esse
tempo! como elle aquecia o corpo e alegrava o espirito! O padre Clemente
Carvalhosa, já então curava a freguezia e, por assim dizer, era o
parocho, pois que o verdadeiro estava frequentemente em Braga, junto do
senhor arcebispo de quem era amigo, e havia annos que por ali não
apparecia. Como Luiz não tivesse vocação para o estado ecclesiastico,
fôra o Carvalhosa quem influira para o mandarem para o Brazil, ver
mundo, fazer-se homem, ganhar a riqueza com que voltasse a engrandecer a
sua familia e a sua terra. Se o bom velho fosse egoista, forcejaria por
conserval-o para o ajudar á missa, tratar das coisas da egreja e
auxiliar o mestre escola. Mais tarde poderia mesmo conseguir-se que
ficasse substituindo José Fortunato, o que era alguma coisa de
representativo. Porém, reconhecendo que aquella intelligencia
naturalmente viva se acanharia na estreiteza d'uma aldeia, o bom cura é
que promoveu, entre a melhor gente da freguezia, uma colheita de
donativos para vestirem o Luiz do Miguel e pagarem-lhe a passagem para
esse Brazil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a
bondade dos fructos que alimentam o homem. Sentia no fundo do seu
generoso coração, que era uma boa obra a que emprehendia. Quem sabia se
não estava trabalhando para o esplendor das festas da sua egreja, para
reformar e accrescentar materialmente a riqueza do templo, attenta a
vocação que Luiz mostrava para as coisas santas? Não seria amesquinhar
as bellas promessas de caracter de rapaz tão bom, tão docil, tão
intelligente, o prendel-o entre aquellas montanhas de limitado
horisonte?
—Mas, senhor,—entendia a mãe—olhe que elle para conservar dinheiro não
lhe serve. Quanto ganhar, quanto dá!
—Cala-te, mulher,—contestou Miguel—deixa ir o rapaz que no mundo é que
elles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor
cura é que diz bem.
Aquelle que assim falara com desapego, é a quem mais custou o
desprender-se de Luiz, no assignalado dia da partida, n'esse bello maio
em que o sol aquecia o corpo e alegrava o espirito d'um modo differente
do actual. Luiz com o seu caracter submisso ia de vontade; mas não tinha
n'essa occasião, propriamente idéa de ambição ou opulencia, nenhum
proposito de no futuro deslumbrar os simples da sua aldeia. Commovido e
sem fala, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, como pingos de seiva
d'uma arvore quando chora. Se seu pae se não podia desagarrar d'elle,
tambem elle se não podia desagarrar de seu pae, nem de sua mãe, nem dos
rapazes que ficavam. No fundo da sua retina estampara-se indelevelmente
e para sempre, toda aquella paizagem da sua alma—a modesta egreja, com o
campanario exterior d'um só sino; o musgo das paredes dos caminhos
estreitos; a largura dos campos onde rebentava a herva; a sobranceria
dos montes altos, artilhados de penedias temerosas! Sentira que a alma,
n'esse dia de sol encantador, se lhe dividira em duas partes: uma ali
ficava pendurada dos galhos das arvores que se enfolhavam, dentro da
pobrissima casa onde nascera, e nas encostas a escutar o gemer das
fontes e dos regos d'agua; a outra, a mais dura e resistente levava-a
comsigo. O cura Clemente Carvalhosa, ainda no vigor da vida e saude,
abençoara-o no limitte da freguezia, até onde o acompanhara, e n'esse
momento, Luiz, supplicante e com as mãos erguidas pediu-lhe:
—Quando a Russa tiver a cria, senhor, peço-lhe que a deixe crescer e que
a não venda, que eu mando dinheiro para a pagar.
A Russa era a egua do cura. O rapasito tinha-lhe grande affecto,
adquirido no habito de a levar a beber, e de a acompanhar quando o
sacerdote ia para algum officio, no que substituira o creado Simão.
Na villa é que se apartou de sua mãe e de seu pae, pois d'ali em deante
seguia na companhia d'outros emigrantes que levavam identico destino. Na
volta, a excellente Luiza, veio considerando se aquella dôr que soffrera
no apartamento incluiria a redempção da sua pobresa. Valeria a pena
tental-a, para quem desde o nascimento fôra destinada á vida do trabalho
e das privações? Quando ella o dera á luz, bem como aos outros que lhe
tinham morrido de bexigas, já fôra na perspectiva de os prender á terra
negra, cavando-a com a enxada, para d'ella tirarem o pão duro de que se
alimentariam. Isto era a vida assente na pobreza e conformidade: o que
Luiz ia buscar longe, o que seria? Com os olhos razos d'agua, a pobre
mulher, só percebia o esbatido d'um mar ennevoado e sem fim, a negrura
d'um mysterio lugubre que formava esse porvir incerto...