III

Este notavel successo trouxe á memoria dos do logar o bom rapasinho que

Luiz sempre fôra; como era geitoso no ajudar á missa, como, com

desinteresse sympathico, se prestava a servir toda a gente. Não podia

deixar de ser feliz, quem logo no começo da vida se mostrara tão

diligente e bondoso. Deus, que é justo, ajuda de preferencia aquelles

que o merecem, os que desde o principio se mostram attentos e

respeitosos pelas coisas da religião. Entendiam-no assim e mostravam

como exemplo d'isto a fortuna que acompanhara Luiz para poder alegrar a

existencia de seus paes, garantindo-lhes um magnifico bem-estar, e

proporcionando-lhes o goso de possuirem as terras que sempre haviam

trabalhado.

A proposito recordavam o bello dia de maio em que elle partira. Muitos

faziam o apparato de mencionarem meudas circumstancias, que agora

representavam como se as tivessem deante dos olhos. Repetiam palavras,

apontavam pessoas, e reproduziam detalhes. Que formoso sol o d'esse

tempo! como elle aquecia o corpo e alegrava o espirito! O padre Clemente

Carvalhosa, já então curava a freguezia e, por assim dizer, era o

parocho, pois que o verdadeiro estava frequentemente em Braga, junto do

senhor arcebispo de quem era amigo, e havia annos que por ali não

apparecia. Como Luiz não tivesse vocação para o estado ecclesiastico,

fôra o Carvalhosa quem influira para o mandarem para o Brazil, ver

mundo, fazer-se homem, ganhar a riqueza com que voltasse a engrandecer a

sua familia e a sua terra. Se o bom velho fosse egoista, forcejaria por

conserval-o para o ajudar á missa, tratar das coisas da egreja e

auxiliar o mestre escola. Mais tarde poderia mesmo conseguir-se que

ficasse substituindo José Fortunato, o que era alguma coisa de

representativo. Porém, reconhecendo que aquella intelligencia

naturalmente viva se acanharia na estreiteza d'uma aldeia, o bom cura é

que promoveu, entre a melhor gente da freguezia, uma colheita de

donativos para vestirem o Luiz do Miguel e pagarem-lhe a passagem para

esse Brazil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a

bondade dos fructos que alimentam o homem. Sentia no fundo do seu

generoso coração, que era uma boa obra a que emprehendia. Quem sabia se

não estava trabalhando para o esplendor das festas da sua egreja, para

reformar e accrescentar materialmente a riqueza do templo, attenta a

vocação que Luiz mostrava para as coisas santas? Não seria amesquinhar

as bellas promessas de caracter de rapaz tão bom, tão docil, tão

intelligente, o prendel-o entre aquellas montanhas de limitado

horisonte?

—Mas, senhor,—entendia a mãe—olhe que elle para conservar dinheiro não

lhe serve. Quanto ganhar, quanto dá!

—Cala-te, mulher,—contestou Miguel—deixa ir o rapaz que no mundo é que

elles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor

cura é que diz bem.

Aquelle que assim falara com desapego, é a quem mais custou o

desprender-se de Luiz, no assignalado dia da partida, n'esse bello maio

em que o sol aquecia o corpo e alegrava o espirito d'um modo differente

do actual. Luiz com o seu caracter submisso ia de vontade; mas não tinha

n'essa occasião, propriamente idéa de ambição ou opulencia, nenhum

proposito de no futuro deslumbrar os simples da sua aldeia. Commovido e

sem fala, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, como pingos de seiva

d'uma arvore quando chora. Se seu pae se não podia desagarrar d'elle,

tambem elle se não podia desagarrar de seu pae, nem de sua mãe, nem dos

rapazes que ficavam. No fundo da sua retina estampara-se indelevelmente

e para sempre, toda aquella paizagem da sua alma—a modesta egreja, com o

campanario exterior d'um só sino; o musgo das paredes dos caminhos

estreitos; a largura dos campos onde rebentava a herva; a sobranceria

dos montes altos, artilhados de penedias temerosas! Sentira que a alma,

n'esse dia de sol encantador, se lhe dividira em duas partes: uma ali

ficava pendurada dos galhos das arvores que se enfolhavam, dentro da

pobrissima casa onde nascera, e nas encostas a escutar o gemer das

fontes e dos regos d'agua; a outra, a mais dura e resistente levava-a

comsigo. O cura Clemente Carvalhosa, ainda no vigor da vida e saude,

abençoara-o no limitte da freguezia, até onde o acompanhara, e n'esse

momento, Luiz, supplicante e com as mãos erguidas pediu-lhe:

—Quando a Russa tiver a cria, senhor, peço-lhe que a deixe crescer e que

a não venda, que eu mando dinheiro para a pagar.

A Russa era a egua do cura. O rapasito tinha-lhe grande affecto,

adquirido no habito de a levar a beber, e de a acompanhar quando o

sacerdote ia para algum officio, no que substituira o creado Simão.

Na villa é que se apartou de sua mãe e de seu pae, pois d'ali em deante

seguia na companhia d'outros emigrantes que levavam identico destino. Na

volta, a excellente Luiza, veio considerando se aquella dôr que soffrera

no apartamento incluiria a redempção da sua pobresa. Valeria a pena

tental-a, para quem desde o nascimento fôra destinada á vida do trabalho

e das privações? Quando ella o dera á luz, bem como aos outros que lhe

tinham morrido de bexigas, já fôra na perspectiva de os prender á terra

negra, cavando-a com a enxada, para d'ella tirarem o pão duro de que se

alimentariam. Isto era a vida assente na pobreza e conformidade: o que

Luiz ia buscar longe, o que seria? Com os olhos razos d'agua, a pobre

mulher, só percebia o esbatido d'um mar ennevoado e sem fim, a negrura

d'um mysterio lugubre que formava esse porvir incerto...

A nossa Gente · 第 34 / 53 题