Havia muitas pessoas na freguezia que se lembravam da partida do filho
do Miguel. Era um rapasinho carinhoso, serviçal e bem comportado.
Delgado de corpo, tez morena, sorriso sempre conformado, fazia gosto
vel-o ajudar á missa; porque procedia com grande promptidão e esmero. No
caracter era a mãe, sempre boa e humilde; no desembaraço o pae, sempre
agil e resolvido. De quatorze annos não havia, por ali, outro para
mandar á villa n'uma pressa de chamar o medico ou buscar um remedio.
Quer fosse de dia ou de noite, quer os caminhos estivessem cheios de
neve ou de lama, o Luiz nunca se escusava, nunca procurou uma desculpa.
Nem o medo do lobo, nem o das trovoadas o impedia de ser prestimoso.
Miguel todo se ufanava com este brio do rapaz, e com a atmosphera de
sympathia de que o via cercado. E quanto a estudo? Isso dizia o mestre
que nenhum lhe levava a melhor nos desafios á taboada, e na doutrina.
Até era uma pena não ser possivel ordenal-o em Braga, para um dia vir
ali dizer uma missa nova, e verem-no do pulpito lançar a voz da
religião. Porém, o Luiz, ainda que o podesse conseguir com esmolas, lá
para essa vida de padre não o chamava a inclinação e toda a sua idéa era
embarcar, para tirar seus paes da pobreza em que viviam e da labuta
constante em que se amofinavam. Apesar do Brazil ser a commum ambição da
gente d'aquella provincia, isto não tinha prognostico favoravel das
pessoas que lhe conheciam o genio perdulario, o gosto que fazia, já em
creança, em dar tudo que possuisse. Um pedaço de pão e presigo com que
lhe pagassem qualquer serviço prestado, logo o repartia com os rapazes
da sua egualha, ou com algum pobre que encontrasse, ou mesmo com
qualquer cão esfomeado que estivesse a olhar para elle quando comia. E
não era porque em casa lhe sobrasse, pois Miguel, n'esse tempo, tinha
mais tres filhos vivos e era elle só a trabalhar, moirejando nas terras
que são ingratas para compensar o esforço rude do homem, que só tem a
sua enxada para as servir. Estava na indole de Luiz dar tudo, repartir
com quem quer que fosse. O coração não lhe soffria o possuir coisa de
que os outros não compartilhassem. Os unicos motivos de zanga de sua mãe
para com elle, vinham de conhecer que lhe roubava pão para os pobres que
passavam, quando ella não tinha bastante para si.
—Tu és tolo, rapaz!—reprehendia-o. Vês que esta fornada me não chega até
á outra, e tiras-me a brôa da masseira! Olha que ainda podes andar como
esses mandriões de pedintes, que só tem por seu mal, não se quererem
achegar ao trabalho.
Luiz ficava triste, por, a santa creatura que era sua mãe, não
comprehender o intimo goso que elle sentia em fazer bem. Amargurava-o
esta idéa, pois não admittia maior consolação do que a de dar, mesmo aos
que não tivessem necessidade. O rosto de agradecimento que os
beneficiados faziam ao receber, era o premio unico a que aspirava. Mas
havia mais alguma coisa n'este animo dadivoso: era o pouco geito de
possuir em proprio, o que quer que fosse. Angustiava-o a preoccupação de
guardar. Viver sempre na abstracção, na inconsciencia do que valem as
coisas materiaes, era a caracteristica do seu coração. O prestar
serviços sem idéa de interesse ou recompensa completava-lhe a indole
bondosa. Sua mãe estava sempre a prégar-lhe:
—Nunca hasde juntar coisa que se veja. Como é que tu queres ir para o
negocio com esse genio?
E porque assim o entendiam todos na freguezia e os proprios paes, é que
muito os maravilhou o receberem, na pobre casita onde os dois velhos
moravam e viviam sós, a visita d'um amigo de Luiz, que lhes trazia uma
ordem para receberem no Porto uma grande somma de dinheiro—uma somma,
para elles tamanha, que os lançava repentinamente na opulencia. Porém,
Luiza, ao apparecimento d'esse senhor todo aceiado, já homem grisalho e
enegrecido na pelle da face pelas soalheiras dos sertões brazilicos, não
se importou nada com a riqueza que elle annunciava e tomando-o como o
precursor de seu filho, logo inquiriu:
—E o senhor conhece-o, o meu Luiz? Está um homem assim alto como é o
pae? E quando é que o temos a consoar com a gente?
A todas as perguntas o mensageiro respondeu de maneira a arrancar-lhe
lagrimas de contentamento. Miguel que, chamado, viera offegante da
labuta dos campos, perguntou, primeiro que tudo, em voz meia
reprehensiva, mas cheia de coração:
—E elle não tem idéa de vêr a gente antes que nos levem para a cova? A
riqueza estimamol-a muito; mas antes queremos a companhia.
O amigo de Luiz enterneceu-se com esta insistencia e consolou os paes
fazendo-lhes graciosamente promessas para que não estava auctorisado. O
dinheiro enviado era o melhor signal de que o filho os visitaria em
breve—disse. Trazia tambem recommendação de lhes lembrar que
transformassem a casa de moradia para o receberem condignamente, e de
que empregassem o restante na compra de algumas terras, que lhes
garantissem uma mediania repousada e sem cuidados.
—Isso—confessou Miguel—até vem a calhar, porque andam em bocca de venda
estes bens aqui em redor.
Para designar a grandeza das terras estendeu pela encosta que descia
brandamente até ao ribeiro, um olhar commovido, acompanhado d'um gesto
de opulencia. Fôra esta a ambição de toda a sua vida. Muitas vezes, só
com Luiza, quando junto da lareira comiam o magro caldo da ceia, elle
reprimia o prazer que o filho lhes daria se enviasse dinheiro para
comprarem aquelles campos, que toda a vida haviam cultivado como
caseiros. Era o seu suor d'elles accumulado sobre a terra, que os fazia
fructificar e lh'os tornava queridos, como uma parte viva e nobre da
propria existencia. Possuir a bella quinta que em volta do seu pequeno
eido se estendia, abrir a agua das poças com a arrogancia de
proprietario, levantar as videiras com a certeza de que eram seus
aquelles braços flexiveis, e ao enterrar a enxada na terra negra e
humosa sentir a convicção de que remexia no que ninguem lhe podia
disputar, de que preparava o solo para resultados que não partilharia
com outrem, era o maior goso que a boa fortuna podia trazer a Miguel. E
tamanha commoção os dois manifestaram, na sua mudez, deante do hospede,
quando designaram com o olhar essas terras, que o recemchegado
perguntou:
—São estes os bens que vocemecês trazem de casa?
—Sim, senhor, aquelles mesmos em que Luiz trabalhou comnosco, indo á
soga dos bois, quando lavravamos. Elle falou-lhe n'isto?
A um signal affirmativo, os consortes, choraram copiosamente. Até
parecia mal ver um homem sadio e forte, como era então Miguel, limpar os
olhos á grosseira estopa das mangas da sua camisa e soluçar com a cara
escondida. Porém aquelle contentamento era mais forte do que elle; em
coração humano não presumia outro egual. Para se desculpar, perante o
amigo de Luiz, ia dizendo por entre lagrimas:
—O senhor não pode comprehender o que isto é. Se soubesse o que me vae
cá por dentro... Estou capaz de estoirar de alegria.
O feliz mensageiro sentia-se transitoriamente envolvido na mesma
atmosphera de felicidade que respiravam os dois casados. Ligando-os a si
n'um só abraço disse:
—O que desejo é que por muitos e largos annos gosem o que tanto amam, e
que isto seja na companhia de seu filho, que estou certo se não demorará
muito.
Depois combinou com elles a maneira de receberem o dinheiro que estava
no Porto, á ordem de Miguel. Para lhes facilitar a empresa já tinha
tractado da transferencia da quantia para a villa proxima, onde da mão
de negociante honrado podiam recebel-a toda d'uma vez, ou parcelada,
conforme melhor conviesse. N'esse mesmo dia, Miguel acompanhou o amigo
de seu filho para pessoalmente ajustarem com o tal negociante o
recebimento em questão.