I
Bons velhinhos os que moram n'aquella casa! N'este domingo sereno de
março, lá se veem sentados á porta, com o sorriso dos modestos e felizes
a florir-lhes no rosto; tem as cabeças protegidas contra o mal da
soalheira e os pés, fóra dos tamancos, para os aquecerem. A veiga, onde
pastam bois, é tranquilla; a subida da encosta, onde rebentam urzes e
codeçaes, está vistosa. Aquelles bons companheiros, casados ha cerca de
cincoenta annos, tem um para o outro o mesmo olhar confortativo e
amoroso do tempo de moços. Miguel conserva impressa na retina a imagem
de quando Luiza era nova: não lhe percebera o nascer das rugas; nem o
desmaiar da pelle; nem a queda dos dentes, que no riso ainda lhe
appareciam como uma fiada branca e egual de rosario de pinhões. Os
cabellos (talvez pela vista enfraquecida) eram as mesmas longas tranças,
negras e colleantes, como lampreias no fundo de rio arenoso. O corpo de
sua mulher mantivera para elle, sempre, a mesma puresa de
linhas—consolidara-se na graça e gentilesa da juventude, não o tinham
abandonado os elementos de frescura e mocidade.
De egual modo, Luiza, via seu marido. Quem estava ali, a seu lado, com
os joelhos ao sol e o lenço de Alcobaça na cabeça, era o mesmo rapaz
valente, trabalhador e sadio, ligeiro como um lobo, que a namorara
quando ella tinha vinte annos. Nem as molhadellas lhe tinham engrossado
as articulações com o rheumatismo, nem as barbas e cabellos eram da
brancura de linho sedoso, mas acastanhados e lustrosos como outr'ora.
Não tivera a edade poder para lhe diminuir a vista: logo que o
emperramento das pernas passasse, vel-o-hiam como o primeiro malho nas
eiras, a primeira enxada no morder da terra, a melhor roçadoura para
derrubar silvedos. Ella que o amparava da cama até a lareira e da
lareira até ao sol, vivia na fé de que o seu Miguel tornaria a ser o
mais celere e desembaraçado homem de todas as redondesas para atracar um
touro que fugisse em descampado, para vencer, d'um pulo, o ribeiro da
freguezia, para pôr em debandada uma feira de troquilhas bulhentos. Não
o vira ella ludibriar magotes de adversarios, ora afastando-os para
longe com um talho de varrer, ora safando-se-lhes com um salto, para
fóra da muralha da gente com que o cercavam? Assim mesmo, meio
entrevado, ainda se não poderiam chegar a elle, nem tres, nem quatro
pimpões, se Miguel tivesse nas unhas o seu pau de carvalho e estivesse
bem encostado a uma parede para só poderem atacal-o de frente.
Experimentassem, querendo, e ver-se-hia se ella não dizia a verdade.
* * * * *
Á porta da casa estavam ambos silenciosos, n'esse secreto e intimo goso
d'uma perpetua conformidade moral, imaginando-se na força do sentir e
sem recearem a morte que podia separal-os, levando um e deixando o outro
a vaguear no mundo, n'uma existencia de lamentos e saudades. Não
pensavam n'este horror, visto que no céu havia um Deus, justo e bom, que
não permittiria tal iniquidade. D'aquella somnolencia feliz,
despertou-os o padre Clemente Carvalhosa, que ora vinha pelo estreito
caminho rente á casa de Miguel.
—É o senhor cura—disse Luiza, falando como se só comsigo falasse.
—Ah! hoje demorou-se mais. É que os rapazes não sabiam a doutrina.
Calaceiros!...—pronunciou o velho, sem levantar os olhos dos joelhos.
O sacerdote adeantava-se com o seu habitual ar benevolente. A batina
ecclesiastica dava-lhe solemnidade ao parecer, e só o passo energico era
signal de que não vinha em boa disposição de espirito. Luiza, logo que o
viu á voz, levantou-se para o saudar; Miguel que tinha, ao lado o pau a
que se amparava, ia a fazer o primeiro esforço para se erguer, quando o
cura, já com a mão na cancella para entrar, disse alto:
—Eh! lá! Para doentes não ha ceremonias!...
—Muito bom dia, senhor. Hoje mais tardinho. Os rapazes não a sabiam,
está de vêr...
—É verdade—informou o Carvalhosa com voz irritada. Talvez peior que no
domingo passado e estamos no fim da quaresma.
—Uma palmatoria senhor! Olhe que isso não vae sem lhes doer.
—E é que o faço!—asseverou com energia o ecclesiastico. Se me obrigarem
a sahir de mim, irá o diabo n'aquella sachristia.
—Vossa Senhoria não é capaz d'isso...—opinou ironicamente Luiza.
—Não sou capaz!? Estás enganadissima! É que vocês nunca me viram pelo
lado do forro. Se me volto do avêsso, vae ahi o dia de juizo.
Miguel offerecendo-lhe o bordão de paralytico aconselhou:
—Com este é que elles se ensinavam. Já lá andam taludos, dos que não vão
a palmatoria.
—É o que elles mereciam, é—applaudiu Luiza.
—Isso tambem não, mulher!—entendeu o cura. Um pau molesta de mais, pode
fazer sangue ou quebrar algum osso. É bastante uma palmatoria puchada
com valentia, como eu o sei fazer. Mando logo chamar o Corcunda para
lh'a encommendar. Deixa que se elles virem, pendurada na sachristia, a
santa Luzia de cinco olhos, não tornam a apparecer sem trazerem o recado
na ponta da lingua.
—Vossa Senhoria—commentou o Miguel—para essas coisas de bater... O
senhor abbade, quando por ahi vinha, sabia-os tosar melhor, se os
garotaços faltavam á obrigação...
O Carvalhosa retomou a sua energia:
—Estás parvo, homem! A questão é fazerem-me chegar a mostarda ao nariz.
Mas vamos ao que serve—disse mudando de tom.—Do vosso Luiz, não tem
havido noticia nenhuma... nenhuma?...
—Nenhuma... nenhuma...—responderam os dois n'um unisono triste.
—E tendes perguntado?
—Se temos!—disse Miguel. Sempre que sei de alguem que chega do Brazil,
se as dores das juntas me dão licença, lá vou ter com essa pessoa... Mas
até agora nada, nada!...
Luiza commentou chorosa:
—São terras onde ha animaes que comem gente!... Quem sabe se alguma
serpente me deu cabo d'elle...
—É celebre!—entendeu o cura. Eu tambem tenho feito esforços para saber
noticias, mas tudo em vão!... É celebre! Pois ainda ha dez annos vos
mandou o dinheiro com que arranjastes esta casa e comprastes os bens por
ahi abaixo e não torna a dar accordo de si! É celebre! muito celebre!
Quem será o ladrão que disfruta, a esta hora, o que elle tanto lhe
custaria a ganhar! Sim, porque elle fortuna havia de ter ganho!
—Isso é o que menos importa—interferiu Luiza. Aqui ha que farte para
elle e para nós. O que queriamos era vel-o vivo e são.
—Pois apega-te com Nossa Senhora da Boa Viagem, que ella t'o trará. Eu
vou-me até casa que são horas de minha irmã ter o caldo na tigella.
Adeus e devoção, Luiza.
—Ah! isso tenho eu, senhor! Promessas e resas olhe que as faço todos os
dias.