IV

Chorou longamente o seu infortunio, p'r'áli, a cara junto á terra. Do

fundo mysterioso vinham-lhe palavras infernaes, que o aconselhavam a ser

feroz e deshumano. Ergueu-se tendo o coração empedernido. Os seus olhos

enxutos, viram nitidamente ao longe a Tonia e o Chico enlaçados,

patenteando ás aves o seu amor. Era uma visão graciosa que sahia de

entre as lavaredas da colina em fogo! Á sombra da fraga, sobre a qual

estava a Pedra-suspensa, os loucos tinham-se ido deitar. Elle tocava

flauta, ella contemplava-o, com o fio da roca parado. Justiceira a mão,

que para lá os guiou!—pensou na sua rude mente o Russo.

Desencadearam-se-lhe diante da phantasia sanguinea todas as tempestades

dos seculos sem fim. Só a grande Dôr poderia burilar n'aquelle rude

cerebro taes florescencias tenebrosas. O seu corpo levantou-se n'um

desespero formidavel. Um violento fremito rugia no interior da montanha,

chegando até ás nuvens. Era a voz torva do seu peito, a soluçar pelos

reconcavos da Terra e do Céo!

Ia tombar a Pedra-suspensa—resolveu.

Os seus cabellos ruivos, atravessados pelo sol, faiscavam. Idéas de

impiedade e vingança, como lh'as ensinára a religião e o ciume,

fixaram-se-lhe na fronte d'um modo definitivo. A ventura e a bondade não

cabiam na sua alma desgraçada, pois em volta tudo era escuridão e

rancor. Nem a saudade da serra que estava a florir, nem a convivencia

amoravel do gado, nem o abandono da mãe cega e pobrissima o detiveram.

Não via os _outros_ abraçados n'um gozo sem limites? Palpitando d'amor á

face do sol, pensavam acaso nas ovelhas? Que viesse o lobo e elles não

seriam capazes de o perceber!... Aquelle embevecimento reciproco, era um

peccado mortal, e nem o temor do inferno os separava! O aniquilamento, a

morte rapida era o que mereciam! Clamava do céo vingança, uma tal falta

de vergonha.

Por isso ia elle empurrar a Pedra-suspensa!

Doido, perdido, correu como um cabrão, de penedo em penedo. N'aquelle

peito arquejante escondiam-se sentimentos de tigre. Era um demonio

bruto; porém o instincto e o desespero tornaram-n'o sagaz. Para ser mais

ligeiro e imperceptivel, abandonou os tamancos no caminho. Uma força de

vendaval levava-o pelo ar. Podiam merecer-lhe piedade a desgraça do

mundo e a eterna condemnação de todos os homens?! Algum vivente lhe

mostrara sympathia, ou pensara em lhe prodigalisar carinhos?! O seu odio

absoluto não distinguia a justiça da perversidade.

Já em cima dos penhascos, ao lado do rude instrumento de vingança, olhou

em volta. Um leve impulso de sua vontade bastaria para se produzir o

formidavel castigo. Conheceu a verdade da lenda:—simples sopro de gente

moveria aquelle penedo tamanho como elle! Um resto d'esperança, porém,

obrigou-o a reflectir. Deitou-se de bruços, arrastou-se para diante... A

cabelleira fulva e farta como uma juba, excedendo o rebordo da lage,

appareceu no espaço. Desvairaram-se-lhe subitamente os olhos:—viu com

todas as minudencias irrefutaveis, aquelle terno idyllio, que resumia

toda a sua desventura. O Chico tinha a cabeça no regaço da pastora. Ella

dava-lhe de beber agua fresca pela sua tigela de barro vermelho. Era o

quadro da Samaritana, dessedentando o tranquillo Nazareno, junto do poço

biblico, na velha Palestina. O rosto pallido do rapaz, emmoldurado em

cabellos pretos, tinha a sonhadora expressão de Jesus. Embebidos um no

outro, prolongavam a existencia, na intensidade do sentir!...

Porém elle tambem era homem, tinha direito á felicidade como todo o sêr

vivente. Se a Tonia lhe não havia de pertencer, melhor era acabar com a

propria vida, que lhe não prestava! Havia de elle aniquillar-se, e os

outros haviam de ficar n'aquellas serras queridas? Não lh'o acceitava a

mente perturbada!

* * * * *

Os miseros estavam mesmo por baixo da Pedra-suspensa! A vingança

n'aquelle cerebro, tomou fórma exacta o real, sem poeira de lendas.

Podia esmagal-os, como dois sapos nojentos!... D'esta maneira, acabariam

n'um instante duas vidas incompativeis com a sua felicidade. A morte

para todos tres era uma solução de suprema justiça. A fé supersticiosa

das montanhas tinha-o abandonado; o pobre ficara só, recolhido na sua

dôr infinita!

Mesmo de bruços, principiou a recuar. O seu olho calculador e vingativo

vira, que impellido o penedo, os dois morreriam, estreitamente unidos,

sem tempo para um ai! Havia de ser fulminante esse acabamento como o

causado por um raio de cólera divina! Poz-se em pé, sobre a lapa, a

parallelo do instrumento fatidico. Veiu de novo a visão sanguinea! O

panorama em frente appareceu-lhe envolvido em linguas de chammas! Era o

primeiro signal do tremendo castigo, ha seculos esperado! Um impulso de

cyclone dominava-lhe a vontade. Decerto era Deus que assim o mandava

castigar dois peccadores.

Com a força nervosa e a serenidade d'um illuminado, applicou ao granito

o largo e potente dorso. Demorou-se ainda alguns instantes!... Seria

indecisão?... Era o gozo de ouvir estranhas vozes de coragem e applauso,

bramindo-lhe dentro do craneo! Em volta, já começava claramente o

desmoronamento do universo! E o impavido cabreiro, soltando um ronco

selvagem—medonho grito de féra!—tombou a Pedra-maldita!

V

Não se descollaram do ultimo beijo os dois ternos amantes. A altura era

enorme. No espaço produziu-se um som abafado e largo, que foi de

quebrada em quebrada, pulsando até ao coração da Terra! O Russo

conservou-se em cima da lage, firme, contemplativo, como o Stylita.

Parecia tomado d'assombro! Os seus olhos de louco, viram pedaços de

carne e o sangue atirados para o céo! Aquillo teria sido malvadez?!...

Arrependeu-se de subito, ou quiz envolver-se no aniquilamento geral?!...

Não poderia sobreviver a tamanho crime, ou eram os demonios que o

reclamavam, como sua prêsa?!...

Approximou-se resoluto da borda da fraga! Em baixo o mundo cambaleante e

confuso, era um grande incendio, surgindo de trevas absolutas.

Diabolicas figuras cruzavam os abysmos, á procura de victimas e

sinistros. Gritos infernaes sahiam das boccas escancaradas dos pincaros,

como jactos de lava! Olhos vermelhos de demonios fixavam-no ironicos e

cubiçosos! Abriu os braços n'um gesto de supplica e perdão, atirou-se ao

espaço como um abutre de amplas azas e o seu grande vulto, rolando pelo

ar, parecia vir da eternidade, na primitiva condemnação! Sobre a mole

granitica impellida pelo seu desespero, esmagaram-se-lhe as carnes e os

ossos! O sangue espirrou, tingindo de vermelho a relva circumdante. Era

tudo quanto restava, d'uma paixão desesperada e selvagem!...

* * * * *

A manhã de primavera, tranquilla e sumptuosa de luz, alegrava montes e

campinas. Enfeitavam as encostas, o codeço e o tojo, rebentados d'entre

as penhas, cuja negrura avivavam d'amarello. As myriades de flôres dos

urzaes, formavam tufos d'aljofares e d'amethystas nas aridas córgas. O

feto novo era como uma extensão de relva, pelo verde claro. O modesto

trevo e o alegre malmequer, salpicavam a terra. Gottas d'orvalho como

lagrimas, rebrilhavam penduradas das flôres da giesta. As mattas

silenciosas iam acordando com o gorgeio dos passaros. Nos fundos abysmos

das montanhas, formavam lagos os pardacentos nevoeiros. Passado o

primeiro momento de susto, os rebanhos continuaram a retouçar nas

hervas, diante da gloria do sol deslumbrante. As aguias pairavam

magestosas, ao longe, sobre os mais altos cumes. Toda a natureza

palpitava e se engrandecia, sob a acção impulsiva do calor. Nas serras,

nas brandas, nos ribeiros, nos cabeços, nos valles... uma tranquillidade

pathetica de vida natural. Sobre os telhados das aldeias levantavam-se

os fumos domesticos, brandamente, como fumos de incenso sobre os

altares. Em volta a muda altivez da soberba e impassivel montanha!...

Só uma voz lamentosa se ouvia na socegada amplidão: era a do rafeiro, o

amoravel Rabicho, que em redor da Pedra, chorava a pobre Tonia.

E chorava a cortar a alma, como se fôra um christão, ganindo, uivando,

aos saltos em volta dos cadaveres!... Amoravel rafeiro, pobre Tonia,

desgraçados amantes!... Ah!...

Lisboa—Novembro de 1888.

A nossa Gente · 第 29 / 53 题