Chorou longamente o seu infortunio, p'r'áli, a cara junto á terra. Do
fundo mysterioso vinham-lhe palavras infernaes, que o aconselhavam a ser
feroz e deshumano. Ergueu-se tendo o coração empedernido. Os seus olhos
enxutos, viram nitidamente ao longe a Tonia e o Chico enlaçados,
patenteando ás aves o seu amor. Era uma visão graciosa que sahia de
entre as lavaredas da colina em fogo! Á sombra da fraga, sobre a qual
estava a Pedra-suspensa, os loucos tinham-se ido deitar. Elle tocava
flauta, ella contemplava-o, com o fio da roca parado. Justiceira a mão,
que para lá os guiou!—pensou na sua rude mente o Russo.
Desencadearam-se-lhe diante da phantasia sanguinea todas as tempestades
dos seculos sem fim. Só a grande Dôr poderia burilar n'aquelle rude
cerebro taes florescencias tenebrosas. O seu corpo levantou-se n'um
desespero formidavel. Um violento fremito rugia no interior da montanha,
chegando até ás nuvens. Era a voz torva do seu peito, a soluçar pelos
reconcavos da Terra e do Céo!
Ia tombar a Pedra-suspensa—resolveu.
Os seus cabellos ruivos, atravessados pelo sol, faiscavam. Idéas de
impiedade e vingança, como lh'as ensinára a religião e o ciume,
fixaram-se-lhe na fronte d'um modo definitivo. A ventura e a bondade não
cabiam na sua alma desgraçada, pois em volta tudo era escuridão e
rancor. Nem a saudade da serra que estava a florir, nem a convivencia
amoravel do gado, nem o abandono da mãe cega e pobrissima o detiveram.
Não via os _outros_ abraçados n'um gozo sem limites? Palpitando d'amor á
face do sol, pensavam acaso nas ovelhas? Que viesse o lobo e elles não
seriam capazes de o perceber!... Aquelle embevecimento reciproco, era um
peccado mortal, e nem o temor do inferno os separava! O aniquilamento, a
morte rapida era o que mereciam! Clamava do céo vingança, uma tal falta
de vergonha.
Por isso ia elle empurrar a Pedra-suspensa!
Doido, perdido, correu como um cabrão, de penedo em penedo. N'aquelle
peito arquejante escondiam-se sentimentos de tigre. Era um demonio
bruto; porém o instincto e o desespero tornaram-n'o sagaz. Para ser mais
ligeiro e imperceptivel, abandonou os tamancos no caminho. Uma força de
vendaval levava-o pelo ar. Podiam merecer-lhe piedade a desgraça do
mundo e a eterna condemnação de todos os homens?! Algum vivente lhe
mostrara sympathia, ou pensara em lhe prodigalisar carinhos?! O seu odio
absoluto não distinguia a justiça da perversidade.
Já em cima dos penhascos, ao lado do rude instrumento de vingança, olhou
em volta. Um leve impulso de sua vontade bastaria para se produzir o
formidavel castigo. Conheceu a verdade da lenda:—simples sopro de gente
moveria aquelle penedo tamanho como elle! Um resto d'esperança, porém,
obrigou-o a reflectir. Deitou-se de bruços, arrastou-se para diante... A
cabelleira fulva e farta como uma juba, excedendo o rebordo da lage,
appareceu no espaço. Desvairaram-se-lhe subitamente os olhos:—viu com
todas as minudencias irrefutaveis, aquelle terno idyllio, que resumia
toda a sua desventura. O Chico tinha a cabeça no regaço da pastora. Ella
dava-lhe de beber agua fresca pela sua tigela de barro vermelho. Era o
quadro da Samaritana, dessedentando o tranquillo Nazareno, junto do poço
biblico, na velha Palestina. O rosto pallido do rapaz, emmoldurado em
cabellos pretos, tinha a sonhadora expressão de Jesus. Embebidos um no
outro, prolongavam a existencia, na intensidade do sentir!...
Porém elle tambem era homem, tinha direito á felicidade como todo o sêr
vivente. Se a Tonia lhe não havia de pertencer, melhor era acabar com a
propria vida, que lhe não prestava! Havia de elle aniquillar-se, e os
outros haviam de ficar n'aquellas serras queridas? Não lh'o acceitava a
mente perturbada!
* * * * *
Os miseros estavam mesmo por baixo da Pedra-suspensa! A vingança
n'aquelle cerebro, tomou fórma exacta o real, sem poeira de lendas.
Podia esmagal-os, como dois sapos nojentos!... D'esta maneira, acabariam
n'um instante duas vidas incompativeis com a sua felicidade. A morte
para todos tres era uma solução de suprema justiça. A fé supersticiosa
das montanhas tinha-o abandonado; o pobre ficara só, recolhido na sua
dôr infinita!
Mesmo de bruços, principiou a recuar. O seu olho calculador e vingativo
vira, que impellido o penedo, os dois morreriam, estreitamente unidos,
sem tempo para um ai! Havia de ser fulminante esse acabamento como o
causado por um raio de cólera divina! Poz-se em pé, sobre a lapa, a
parallelo do instrumento fatidico. Veiu de novo a visão sanguinea! O
panorama em frente appareceu-lhe envolvido em linguas de chammas! Era o
primeiro signal do tremendo castigo, ha seculos esperado! Um impulso de
cyclone dominava-lhe a vontade. Decerto era Deus que assim o mandava
castigar dois peccadores.
Com a força nervosa e a serenidade d'um illuminado, applicou ao granito
o largo e potente dorso. Demorou-se ainda alguns instantes!... Seria
indecisão?... Era o gozo de ouvir estranhas vozes de coragem e applauso,
bramindo-lhe dentro do craneo! Em volta, já começava claramente o
desmoronamento do universo! E o impavido cabreiro, soltando um ronco
selvagem—medonho grito de féra!—tombou a Pedra-maldita!
V
Não se descollaram do ultimo beijo os dois ternos amantes. A altura era
enorme. No espaço produziu-se um som abafado e largo, que foi de
quebrada em quebrada, pulsando até ao coração da Terra! O Russo
conservou-se em cima da lage, firme, contemplativo, como o Stylita.
Parecia tomado d'assombro! Os seus olhos de louco, viram pedaços de
carne e o sangue atirados para o céo! Aquillo teria sido malvadez?!...
Arrependeu-se de subito, ou quiz envolver-se no aniquilamento geral?!...
Não poderia sobreviver a tamanho crime, ou eram os demonios que o
reclamavam, como sua prêsa?!...
Approximou-se resoluto da borda da fraga! Em baixo o mundo cambaleante e
confuso, era um grande incendio, surgindo de trevas absolutas.
Diabolicas figuras cruzavam os abysmos, á procura de victimas e
sinistros. Gritos infernaes sahiam das boccas escancaradas dos pincaros,
como jactos de lava! Olhos vermelhos de demonios fixavam-no ironicos e
cubiçosos! Abriu os braços n'um gesto de supplica e perdão, atirou-se ao
espaço como um abutre de amplas azas e o seu grande vulto, rolando pelo
ar, parecia vir da eternidade, na primitiva condemnação! Sobre a mole
granitica impellida pelo seu desespero, esmagaram-se-lhe as carnes e os
ossos! O sangue espirrou, tingindo de vermelho a relva circumdante. Era
tudo quanto restava, d'uma paixão desesperada e selvagem!...
* * * * *
A manhã de primavera, tranquilla e sumptuosa de luz, alegrava montes e
campinas. Enfeitavam as encostas, o codeço e o tojo, rebentados d'entre
as penhas, cuja negrura avivavam d'amarello. As myriades de flôres dos
urzaes, formavam tufos d'aljofares e d'amethystas nas aridas córgas. O
feto novo era como uma extensão de relva, pelo verde claro. O modesto
trevo e o alegre malmequer, salpicavam a terra. Gottas d'orvalho como
lagrimas, rebrilhavam penduradas das flôres da giesta. As mattas
silenciosas iam acordando com o gorgeio dos passaros. Nos fundos abysmos
das montanhas, formavam lagos os pardacentos nevoeiros. Passado o
primeiro momento de susto, os rebanhos continuaram a retouçar nas
hervas, diante da gloria do sol deslumbrante. As aguias pairavam
magestosas, ao longe, sobre os mais altos cumes. Toda a natureza
palpitava e se engrandecia, sob a acção impulsiva do calor. Nas serras,
nas brandas, nos ribeiros, nos cabeços, nos valles... uma tranquillidade
pathetica de vida natural. Sobre os telhados das aldeias levantavam-se
os fumos domesticos, brandamente, como fumos de incenso sobre os
altares. Em volta a muda altivez da soberba e impassivel montanha!...
Só uma voz lamentosa se ouvia na socegada amplidão: era a do rafeiro, o
amoravel Rabicho, que em redor da Pedra, chorava a pobre Tonia.
E chorava a cortar a alma, como se fôra um christão, ganindo, uivando,
aos saltos em volta dos cadaveres!... Amoravel rafeiro, pobre Tonia,
desgraçados amantes!... Ah!...
Lisboa—Novembro de 1888.