E lá foi, doida, feliz, correndo de fraga em fraga. O Russo assobiou ao
Rabicho, reuniu todo o gado e partiu... Chorava lagrimas como punhos, e
voltava-se para vêr de relance a Tonia, que chamava o Chico, com acenos
e gritos. Bem se importava o preguiçoso com aquelle louco amor da
rapariga!...
—Eh! moço! vem-te d'ahi p'r'ó Guidon.
Elle respondeu-lhe:
—Eh! que 'stou' qui mui bem.
Tirou do seio a flauta e sentando-se no penedo, principiou a tocar. O
sol illuminava-o de frente, prateando-lhe os cabellos negros. O destaque
da sua figura magra e enfezada sobre o escuro penedo, fazia-se como o
d'uma miniatura em fundo esmaltado. A Tonia chamou-o:
—Já lá vão as tuas cabras, maluco.
Não se importava, encolheu os hombros. A musica absorvia-o
completamente, era o seu destino. A pastora, dominada por esse respeito
instinctivo e sagrado, que se deve ás coisas elevadas, parou a
distancia, para o não interromper. O Russo, que já ia longe, tambem
subiu a uma rocha com o fim de ouvir melhor. Escutava triste e
absorvido. O seu grande corpo, esbatendo-se no verde escuro do monte,
ainda ensombrado n'aquella parte, percebia-se mal, como as figuras dos
baixo-relevos, e tinha a mesma immobilidade captiva. Era moda triste a
que o rapaz tocava. Finda ella, a Tonia approximou-se quasi respeitosa.
Para subir ao penedo onde estava o tocador e arrancal-o d'ali, teve
difficuldades. A pedra era lisa e as tacholas dos sócos estavam gastas.
Mas agarrou-se a um ramo de carvalho, inclinou-se para diante... Os
magnificos e potentes quadris arquearam-se n'uma curva de mulher
completa e fecunda, creada nos caminhos pedregosos. O Chico, vendo-a no
empenho de subir, largou a flauta, tomou-a pelos braços roliços,
attrahiu-a para o seu corpo e por momentos ambos ficaram unidos!... O
Russo presenceava de longe tudo isto. Sahiu-lhe do peito um rugido de
cólera e ciume que fez estremecer as montanhas. Os seus olhos, vermelhos
de desespero, viram uma successão de calamidades sem fim, como as
descrevem os missionarios para o dia de juizo. A Pedra-suspensa
oscillara, já cahia pelos fortes declives d'um mundo em ruinas.
Ennegrecera subitamente o céo azul, reuniram-se n'um instante nuvens
prenhes de tempestades, os trovões abriram medonhas gargantas no céo de
fogo, as pupillas dos raios rutilavam, as trombetas apocalypticas
enchiam de pavor os reconcavos da terra, onde se escondiam
desgraçados!... Tudo se ia acabar para todos!... O seu corpo miseravel,
junto ao de outros reprobos, rolava pelos abysmos. A grita dos homens
era pavorosa, formando um unisono infernal.
Isto o que viu e ouviu n'um instante aquella imaginação turbulenta. Mas
o Chico e a Tonia já tinham descido do penedo. Elles lá vinham a
caminhar, amorosamente unidos, ella apoiando-se-lhe no hombro. Riam e
folgavam, como um casal de pintasilgos em março, resumindo em si todas
as venturas pelos homens sonhadas. Ella offereceu-lhe do seu presigo uma
racha de bacalhau, que o rapaz acceitou para offerecer ao outro, que era
muito pobre, não tendo mesmo, ás vezes, a brôa sufficiente. Logo que se
juntaram deu-lh'a.
—Toma—disse.
—Não tenho fome—rejeitou.
—É a Tonia que t'a dá.
Arrancou-lh'a da mão. Estracinhou-a raivosamente com os dentes, como
faria á carne d'aquelles corpos felizes, se os pudesse trincar.
Excandecido seguiu com os rebanhos, separado dos dois. O semblante
sombrio e transtornado, impressionaria quem lh'o encarasse. Os olhos
gazeos expelliam chispas metallicas e tinham escurecido de cólera. Os
beiços tremiam-lhe como signal da sua loucura. A pastora no momento em
que se juntaram escarneceu-o:
—Que feia carranca... Santo Nome!...
O cabreiro voltou-se rapidamente para a aniquilar, com todo o poder da
sua força herculea. Porém ao vêr aquelle rosto sereno e risonho, só
disse:
—Hoje ha de ser falado!...
N'um relance pensou na famosa Pedra, symbolo de desventuras. Sahia-lhe
do semblante uma expressão feroz: no craneo aninhou-se-lhe a idéa d'um
aniquilamento geral de todas as felicidades terrenas.
Mas a rapariga é que não estava de geito para o aturar. Conhecia-lhe a
maluqueira de bode raivoso e ciumento. Tinha meio de o curar, sem pau
nem pedra: era deixal-o ir só. Um porco bravo assim, um bruto cujo
aspecto causava medo, não servia para viver entre christãos. Fosse lá
p'r'ós lobos, que eram seus iguaes.
Quão differente o outro, o seu querido! Timido e meigo como o cabrito
d'um mez, assobiava e cantava modas mais bonitas que as dos melros e
rouxinoes das mattas. Viver a vida com elle pelos montes, era o mesmo
que passar os dias n'um céo. Ensinava tantas coisas, que não
aprendera!... As cantigas da sua invenção produziam sempre tristeza
branda e carinhosa. Descobria nas estrellas sitios de felicidade e
apontava-os, convidando-a a voarem para lá. Podiam-se comparar os
dois?... O Russo era escambroeiro aspero que rasgava as carnes; o Chico,
ramo de giesta, bello, cheiroso, e flexivel. Por isso ella despediu o
rude cabreiro, retorquindo-lhe á ameaça:
—Elle é isso?! Pois vae-te sósinho com Deus. Nós levamos hoje o gado
p'r'á Ralada.
Chamaram o Rabicho e trataram de separar as suas cabras e ovelhas. O
Russo, sob o castigo tremendo, mostrava-se submisso em todo o seu corpo.
Pedia perdão, não dissera nada mau!... Se alguma palavra feia, se alguma
ameaça ou jura a sua bocca cuspira, estava arrependido. Fossem com elle
que tomaria conta dos rebanhos todo o dia. A comida para ali era a
melhor dos sitios. Encontrava-se tojo tenro, como bicas de manteiga. A
herva, apenas nascida, era a unica do appetite do gado. Havia agua
corrente para os animaes e até uma fonte para a gente... Aquelle grande
corpo, espadaúdo e alto, fazia-se pequeno com a humildade. Uma criança
mostraria mais imponencia. As lagrimas cahiam-lhe em cachos e todo elle
era uma supplica, de curvado e abatido.
A Tonia foi cruel e inflexivel. Abandonou-o, desprezou-o como um trapo.
Disse que os não acompanhasse para a Ralada, que isso os obrigaria a
mudar. Fez-se imperiosa. O seu corpo d'ave, esbelto e franzino, teve
coleamentos de panthera. O rosto de santa transformou-se pela cólera. A
chamma do olhar e os cabellos mal juntos davam-lhe o aspecto d'uma leôa.
O cabreiro tremia de medo, a cabeça sobre o peito, os braços pendentes.
Separaram-se. Os dois lá foram, acintosamente abraçados. O Russo,
desmoronada toda a sua existencia, dirigiu-se em passo tropego, adiante
do gado, para o destino da sua má sorte!...