(_a Sousa Martins._)
I
A meia encosta da montanha subia a estrada de macadam, qual longa facha
branca collada em fundo escuro. Tarde nevoenta, atmosphera pesada e
electrica! As pessoas nervosas sentiam-se impacientes, com desejos
fulgurantes e insaciaveis de imaginações inquietas. A necessidade de
movimento, a agitação do corpo tornava-se imperiosa. Cada um procurava o
esgoto rapido da sensibilidade que o affligia, o aniquilamento do
proprio ser, com o fim de se encontrar no remanso bonançoso de uma vida
serena e repousada, como as aguas de uma lagoa. Mary logo de manhã se
levantara mal disposta, a carne em sobresaltos, uma intensa vontade de
chorar. Pediu de tarde a seu pae que a acompanhasse n'um largo passeio a
cavallo, galopando para longe, á descoberta de novas sensações, em
horisontes infinitos, onde a vista se perdesse.
O velho cedeu apesar da ameaça de chuva. Mary precisava do rosto
açoitado pelo ar fresco, sentir o arripio do vento nos cabellos, escutar
o ribombo da trovoada desenvolvendo-se a distancia.
Lá iam os dous, pela estrada de macadam, a par como namorados: elle com
a sua barba branca collada ao peito, Mary olho febril, o rosto em
desafogo, o véu azul fluctuando como flammula. Os cavallos ás upas,
garbosos, correndo ao desafio: _Joe_, o de D. Francisco, calmo e
magestoso; _Luck_, o de Mary, franzino, mais audaz, resfolegando
impaciente.
—Mary. Quando vier a chuva?!...—disse o receioso velho.
Que importava! Não lhes tinha succedido isso d'outras vezes? Era um
episodio, uma diversão da monotonia ordinaria da vetusta casa, entre
carvalheiras, com o som plangente do orgão espraiando-se sobre os campos
desertos. Os nervos imperiosos exigiam-lhe commoções, fortes balanços de
galope, sacudidellas nos musculos entorpecidos, uma boa molhadela
emfim...
Continuavam intrepidamente para o cimo da montanha, distanciando-se do
povoado. O horisonte de cada vez mais largo, a paisagem variando em
cambiantes de luz; na ribeira os terrenos, ermos de cearas, ás arvores
tristonhas e outomnaes, os fumos domesticos erguendo-se lentamente no
ar, como louvor religioso.
Era no mez de novembro: as folhas sêccas accumulavam-se nos recantos dos
caminhos—despresadas depois de ephemera vida, e de terem com o seu viço
de rebentos novos alegrado a encosta. Á maneira que os cavalleiros
subiam para o alto, as montanhas desenrolavam-se-lhes n'um aspecto mais
uniforme e esbatido, pela distancia de muitas leguas, como se fôra
ondulado de mar subitamente solidificado n'um instante mais calmo. Os
bosquesinhos de carvalhos, nascidos das aguas a rebentar nas quebradas,
eram nodoas attestando a sensibilidade da vida, a circulação da seiva
n'aquella aridez arrogante de terrenos ingratos, cobertos de tojo e de
alcantiladas penedias. Os campanarios destacavam-se pela brancura da
cal, tristes e solitarios, os sinos mudos. De cada vez se encastellavam
mais nuvens no horisonte, tomando aspecto torvo de ameaça. O ribombo do
trovão ennovelava por cima das cristas dos grandes outeiros. Havia no ar
um sentimento de anciedade, uma como paralysação de vida, um spasmo em
toda a natureza! Respirava-se mal, a accumulação electrica opprimia o
peito:
—Mary; seria melhor voltar!...
—Só até lá cima, meu pae!...
Os cavallos excitados pela corrida, de cada vez consumiam maiores
distancias. Luck, delgado e nervoso, parecia o hippogriffo lendario,
voando por sobre geleiras, levando a vaporosa fada n'um sonho
scandinavo. Sentia a febre da mão que sustinha a redea; ao seu dorso
arqueado communicavam-se as correntes nervosas do gracil corpo de Mary.
Joe, o do fidalgo, apesar de mais pausado era valente, e acompanhava-o
garboso.
Caminhavam subindo sempre, no parecer ao desafio com as nuvens grossas e
plumbeas, gravidas de trovões e raios, que passavam no espaço, n'uma
jornada apocalyptica.
Para onde iriam essas nuvens de tempestade? Onde pararia Mary, loira, o
rosto animado, impetuosa, franzina, a imaginação ardente a pedir largas
paisagens, o coração oppresso a desejar atmosphera mais leve, que os
pulmões respirassem desafogadamente?!...
Chegaram ao vertice da estrada. Para a esquerda havia montanhas sombrias
e estereis; porém era completa a solidão e o desamparo!
Descobriam aldeias e casas, a muita distancia, n'um ajuntamento de
defeza contra os perigos dos ermos. Haviam caminhado em largo galope
além de uma hora, distanciando-se sempre do povoado. A antiga morada
d'onde tinham partido, só pelo tino acertariam onde ficava! Mary
quedára-se a olhar com ousadia, para o céu e para a terra, o corpo mais
livre, o querer amplo, a imaginação em maior tranquilidade. Esta
uniforme paisagem de serranias que se pegavam umas nas outras, com um
tom azulado e vesperal era de immensa pacificação. Porém as nuvens
caliginosas condensavam-se já perto, o regougar do trovão aproximava-se
a olhos vistos, a propria natureza parecia preoccupada, emquanto Mary
sorria deliciosamente ao céu plumbeo, ás montanhas ondeantes, ao valle
cheio de arvores amarellentas, que levantavam para o ar braços em
supplica.
Dous pequenos pastores, de certo irmãos, desciam apressados dos
pincaros, trazendo o seu rebanho. Receiavam chuva grossa e trovoada,
eram muito pequenos e supersticiosos, vinham com ancia de se recolherem
á protecção de Santa Barbara bemdita, e de lhe resarem junto da lareira,
onde arderia o canhoto do natal, amuleto contra as iras do céu. Irmão e
irmã, teriam dez a doze annos, rotos e pobrissimos, aspecto triste e
desconfiado. Os cabellos em desalinho, descalços, as pernas arroixadas
do vento cortante dos montes! Desciam espavoridos, correndo pela encosta
abaixo, acompanhados do cão e do rebanho, tudo juncto em grande
confusão. A sua pobre choupana coberta de colmo estava no sopé da
montanha. Conheciam o tempo, não havia que esperar, a trovoada
aproximava-se, não tinham valor para a aguentar sósinhos lá em cima.
Mary, com os olhos pregados n'elles, vendo-os a rebolar aos saltos pelo
monte, encarecia, na sua boa alma, a conformidade, que adivinhava
n'aquella vida humilde:
—Meu pae, aquelles pastores, aqui sósinhos!...
Já saltara do cavallo, esperava-os para lhes fallar, interrogal-os
ácerca da sua pobreza que devia ser incommensuravel, dar-lhes alguma
cousa para o agasalho do corpo.
Cahiam ruidosamente as primeiras gottas de chuva. Grossas como landes
varejadas de carvalheiras por ventania aspera, espapavam-se no pó da
estrada. Havia forte ruido no ar; ao parecer, mão herculea impellia de
grande distancia punhados de areia: era o bater secco do granizo sobre
os terrenos, sobre as penedias e nas folhas amarellentas dos raros
carvalhos. A turbação atmospherica augmentara subitamente, escurecera
tudo em redor. Os trovões roncavam perto, semelhando o unissono cavo e
amedrontador de milhares de carroças rodando juntas.
—Onde nos havemos de recolher, Mary?—disse D. Francisco.
Em qualquer parte. Sob aquelle frondoso castanheiro, que ali perto
nascera isolado n'um tenue veio de agua que resumbrava na base de um
penedo. Os cavallos tinham na pelle tremuras de susto; levavam-nos pela
redea para o designado abrigo. Os miseros pastores chegavam n'esse
momento á estrada, inquietos, receiosos de que as ovelhas se lhes
trasmalhassem e como a chuva engrossasse rapida e subitamente,
recolheram-se com o gado n'uma grande cova, de proposito aberta no
flanco do monte, para estes casos, ali frequentes. Mary e seu pae,
protegidos pelo velho castanheiro olhavam silenciosos e contristados
para aquelles rotinhos e humildes, em monte com as ovelhas, cheios de
inquietação com medo que o trovão apavorasse os animaes. E do interior
da cova consideravam cheios de admiração aquelles senhores de aspecto
tão rico e maravilhoso, mais bello do que o dos santos da igreja.
As bategas de agua cresciam em força, o ribombo troava com arrogancia
por cima dos pincaros eminentes. O fidalgo observava o ar com serenidade
receiosa, a solemne barba branca de patriarcha biblico cobrindo-lhe o
largo peito. O vento soprava com violencia, os movimentos ondulatorios
da atmosphera formavam vagas, como n'um mar aereo. Tinham desapparecido
as povoações, os campanarios, os cimos das montanhas por traz da
densidade da chuva. Restringira-se-lhes a muito pouco a área visual,
tudo estava coalhado n'uma densa nevoa, o aspecto das cousas era
indefinido e vago.
—Durará muito?—disse Mary apprehensiva.
Estava a vêr que sim.
Fizera mal em não ter cedido ao aviso de seu pae. N'aquella vasta
solidão principiava a sentir-se n'um desamparo tenebroso. Ennegrecia-lhe
o espirito com a apparencia lugubre das penedias suprajacentes. D.
Francisco vendo-a pallida e contrariada, apparentava agora conformidade
e riso, para a fortalecer. Tinha medo de algum desanimo, de qualquer
crise de nervos. Era esta a querida filha da sua alma, o seu unico
enlevo, a alegria, o conforto no despovoado da viuvez e da velhice. Mary
sentia na alma a amargura de ter contrariado a previdencia do bom velho,
de quem era a luz dos olhos. O aspecto do céu de cada vez mais orgulhoso
e ameaçador.
Os sons medonhos reforçados nas quebradas dos montes, rolavam como
grandes e implacaveis penedias, que viessem lá do alto para tudo
aniquilar. Já os trovões concorriam de todos os lados, arrogantes e
magestosos, rebentando perto em estalidos breves e seccos, como milhões
de taboas a baterem umas contra as outras. Laminas de fogo de coriscos
rasgavam o ventre das nuvens e esta luz luarenga cobria a paisagem de um
tom funereo. Havia no ar uma escuridão de caverna sem que a noite já
começasse a abraçar o mundo no seu amplexo triste. A natureza em combate
tinha olhar terrificante. Nem o conjunto de toda a artilheria do mundo,
cem vezes augmentada, vomitando ao mesmo tempo granadas e materias
inflamaveis pela bocca redonda dos seus canhões, daria ideia d'esta
formidavel batalha, ferida nos paramos sombrios do ar.
—Meu pae!... tenho medo!...—confessou a corajosa Mary.
As ovelhas conservaram-se junto dos pastores mettidos na sua cova, como
timidas creanças perto de sua mãe. Os pequenos de joelhos, as mãos
erguidas, em lagrimas de receio pediam misericordia em altos gritos
dirigidos a Deus clemente. Desejava D. Francisco animal-os,
soccorrel-os, trazendo-os para juncto de si; porém não lh'o consentiam
as catadupas de agua, que já vinham pelas gargantas dos montes sahir ali
perto, em formidaveis ribeiros. Elle ainda conservava Joe pela redea;
porém Mary já havia abandonado Luck, que de olho allucinado, e tremendo
em todo o corpo, resfolegava com estrondo pelas narinas largas. O pavor
crescia, o formidavel estalido do trovão rebentava quasi sobre o
castanheiro, innumeros relampagos fuzilavam ao mesmo tempo pondo-lhes o
espirito em confusão.
—Tenho muito medo, meu pae!—confessou Mary, tremula e agitada.
Como poderiam sahir d'ali? Impossivel!—ponderou o coração amargurado do
velho. Esperava que a furia da tempestade diminuisse, que o horror do
trovão abrandasse, que o fogo dos relampagos lhes não tirasse a vista,
que a chuva fosse menos copiosa... A pobre Mary já o não ouvia, pallida
e assustada, sentiam-se-lhe ranger os dentes, a ella que sempre fôra a
ousadia, o denodo, o vigor moral de seu pae.
Os dous corações batiam n'um ambiente de terrores, os ares incendiados
por chammas infernaes, os ouvidos surdos por causa dos pavorosos sons
que desciam do céu, ou resurgiam das corcovas da montanha. De toda a
parte o mundo parecia ameaçado por castigos e invectivas de morte. No
bojo largo e mysterioso das nuvens parecia esconder-se, ainda
silenciosa, a suprema voz da infinita maldição! Vencendo espaços com o
desespero dos demonios escorraçados do céu na noite biblica, essas
nuvens pareciam que accarretavam do começo dos tempos a punição de
crimes accumulados por seculos de perversidade!...
Os aterrados pastores continuavam de joelhos, as mãos supplicantes,
pedindo misericordia em agudos gritos. A convulsão do franzino e esbelto
corpo de Mary communicava-se ao tronco do castanheiro frondoso e para
ella todo o mundo se sentia abalado e tremente. D. Francisco
abandonou-a, por um momento, emquanto procurava colher as redeas de
Luck, que se ia separando encolhido e agitado.
A confusão de todas as cousas attingira n'este instante imponencia
d'assombrar! Um forte e vibrante estampido, acompanhado de illuminação
subita de raio, rebentou sobre a arvore protectora. Luck então fugiu
espavorido; Joe repuchou fortemente o braço do fidalgo, que se sentiu
cahir, as pernas sem vigor. Instinctivamente, D. Francisco, lança os
olhos para o castanheiro, e vê no rosto funereo de Mary extinguir-se a
vista, o tronco flexivel como um vime inclinar-se, todo o corpo, qual
estatua de alabastro, cahir sobre a terra n'uma compostura
sepulchral!!...