II

Já tinham caminhado meia hora, n'um silencio inconvivente, quando

chegaram ao ponto d'onde se descobria a Pedra-suspensa. Era o objecto da

lenda mais famosa e conhecida nas povoações em redor. Visto de certo

lado, aquelle granito, não se lhe encontrava o ponto de repouso, na lage

subjacente; parecia um destaque de nuvem, no céo azul. Contavam, sempre

em voz de medo, que logo no principio dos seculos, um mau genio e feio

gigante, ali a depositara, como eterna ameaça a peccadores; porque a sua

queda assignalaria o começo do fim do mundo. A instabilidade da

Pedra-suspensa, tão reconhecida era, que ninguem duvidava de que uma

creança de cinco annos a pudesse derrubar. Grande milagre, não a terem o

vento e os trovões arremessado pelos espaços fóra!... O respeito que

esse granito infundia, era o de um idolo vingador, ameaçando, dia e

noite, as aldeias e o mundo!... Todos os dez annos se formava grande

procissão de penitencia, com gente que partia de sitios mui distantes e

ali se reunia afim de implorar misericordia. Recebida da tradição essa

pratica, executavam-n'a com fervor d'alma religiosa e temente. Os homens

ciliciavam as carnes, as mulheres erguiam clamores, as creanças berravam

de amedrontadas, os bacamartes de bocca de sino troavam pelos caminhos e

por entre os penedos... tudo para distanciar o pavoroso castigo!...

Depois das preces, ficariam acalmadas as justas cóleras divinas? Ninguem

o assegurava. A intangivel crença em que a famosa pedra cahiria, para

assignalar enormes desgraças, conservava-se viva e forte. Poucos tinham

animo para a encarar tranquillos e serenos. Ninguem ousava

approximar-se-lhe, muito menos tocar-lhe, com medo da responsabilidade

n'um cataclysmo. Seria provocar inconsideradamente as cóleras do céo.

Uma penha que bastaria o roçar d'uma corça para a fazer cahir! Pairava

assim no ar, suspensa como uma aguia, por determinação da vontade

divina. A não ser isto já as bategas da chuva, o impulso dos vendavaes,

o degelo das neves a teriam arrastado. Pois não era um verdadeiro

milagre a sua estabilidade?!...

A idéa de a escorar, diminuindo-se as probabilidades da catastrophe,

fôra sempre repellida. Significaria desconfiança no alto poder que ali a

conservava. Melhor é deixar o destino trabalhar por si. Está lá em cima

quem tudo regula. O que tem de ser faz muita força... Pensavam d'este

modo em palavras; mas no fundo, n'esse intimo sentir que até parece

esconder-se á Providencia, se elles pudessem calçar a pedra para não

cahir!... Contra as imprudencias brutas dos gados já se tinham

prevenido, as gentes supersticiosas, sebando-a em volta com ramos e

tojos. Porém as aguias, que vinham de longe, no seu vôo arqueado e

solemne ali poisar? E os lobos famintos, que preferiam aquelle sitio

para comer as suas prêsas? Só milagre e grande milagre é que a sustinha

n'aquella direitura. Acreditavam-n'o camponezes e serranos, todos os que

se desbarretavam e persignavam murmurando qualquer reza, mal a viam. Foi

assim que procederam a Tonia e o Russo. Ambos quedos, ella com o fuso

parado, elle com o barrete na mão, ciciaram orações. Mas o pastor, logo

depois ameaçou a rapariga apontando:

—Vêl-a? Ha de cahir. O mundo acaba-se e tu não serás p'ra mim, nem p'r'ó

outro.

—A Senhora da Peneda não ha de deixar—disse confiada.

—Sou eu que a empurro. Verás.

—Cala-te, hereje, que t'abro a cabeça.

Irada, com os olhos em chamma, arremetteu-lhe com um pedregulho. Havia

ancia de raiva dentro do seu peito soberbo. O Russo não lhe pôde

supportar a vista de cólera e desprezo; curvou a fronte, os olhos

marejaram-se-lhe. O seu destino era peor que o dos condemnados do

Inferno.

—Perdôa, não olhes assim! Tu é que me fazes dizer todos estes peccados.

—Tenho culpa de não teres temor de Deus? Estás na caldeira de

Pedro-Botelho, vestido e calçado! E é bem feito!—accrescentou vingativa.

O cabreiro queria humildar-se até ao rasteiro das cobras e lagartos, só

para lhe merecer uma sombra de perdão. Affligia-o mortalmente a idéa de

que mais uma vez desagradara á Tonia. Como, logo adiante a rapariga

vendo umas cabras se principiou a affirmar, para descobrir o Chico, foi

elle que, no intento de se reconciliar com a pastora apontou:

—Está acolá, em cima do penedo...

—Assobia-lhe para vir p'r'áqui.

—Bem nos vê, se quizer...

Mas obedeceu, assobiou com os dedos na bocca. O outro não se importava,

apenas mexeu a cabeça conservando-se na mesma posição.

—Vae lá, que vamos p'r'ó Guidon,—disse-lhe a moça.

Foi, humildemente, como um perdigueiro. Sentiu gozo em ser mandado; mas

de raiva torcia nas mãos a grossa carapuça. Distante, a occultas para

esconder a sua fraqueza, limpou duas lagrimas ao canhão da vestia. O

outro não queria ir para o Guidon, estava ali muito bem. O Russo

pediu-lhe que obedecesse, para a Tonia se não zangar mais.

—Ora... se 'stou regalado!—respondeu o pastor. Vai tu mais ella.

—Vem, moço—exorou o cabreiro. Olha que ella hoje, sempre te está! Anda,

levo-te a rez.

Consentiu o Chico em deixar ir o rebanho; mas elle ficou. A Tonia não se

teve. Foi pressurosa tiral-o d'aquelle adormecimento. Com ligeiro

sorriso de meiguice, pediu ao Russo:

—Ó aquelle. Junta-me tamem as minhas, que eu vou trazel-o.

A nossa Gente · 第 27 / 53 题