Já tinham caminhado meia hora, n'um silencio inconvivente, quando
chegaram ao ponto d'onde se descobria a Pedra-suspensa. Era o objecto da
lenda mais famosa e conhecida nas povoações em redor. Visto de certo
lado, aquelle granito, não se lhe encontrava o ponto de repouso, na lage
subjacente; parecia um destaque de nuvem, no céo azul. Contavam, sempre
em voz de medo, que logo no principio dos seculos, um mau genio e feio
gigante, ali a depositara, como eterna ameaça a peccadores; porque a sua
queda assignalaria o começo do fim do mundo. A instabilidade da
Pedra-suspensa, tão reconhecida era, que ninguem duvidava de que uma
creança de cinco annos a pudesse derrubar. Grande milagre, não a terem o
vento e os trovões arremessado pelos espaços fóra!... O respeito que
esse granito infundia, era o de um idolo vingador, ameaçando, dia e
noite, as aldeias e o mundo!... Todos os dez annos se formava grande
procissão de penitencia, com gente que partia de sitios mui distantes e
ali se reunia afim de implorar misericordia. Recebida da tradição essa
pratica, executavam-n'a com fervor d'alma religiosa e temente. Os homens
ciliciavam as carnes, as mulheres erguiam clamores, as creanças berravam
de amedrontadas, os bacamartes de bocca de sino troavam pelos caminhos e
por entre os penedos... tudo para distanciar o pavoroso castigo!...
Depois das preces, ficariam acalmadas as justas cóleras divinas? Ninguem
o assegurava. A intangivel crença em que a famosa pedra cahiria, para
assignalar enormes desgraças, conservava-se viva e forte. Poucos tinham
animo para a encarar tranquillos e serenos. Ninguem ousava
approximar-se-lhe, muito menos tocar-lhe, com medo da responsabilidade
n'um cataclysmo. Seria provocar inconsideradamente as cóleras do céo.
Uma penha que bastaria o roçar d'uma corça para a fazer cahir! Pairava
assim no ar, suspensa como uma aguia, por determinação da vontade
divina. A não ser isto já as bategas da chuva, o impulso dos vendavaes,
o degelo das neves a teriam arrastado. Pois não era um verdadeiro
milagre a sua estabilidade?!...
A idéa de a escorar, diminuindo-se as probabilidades da catastrophe,
fôra sempre repellida. Significaria desconfiança no alto poder que ali a
conservava. Melhor é deixar o destino trabalhar por si. Está lá em cima
quem tudo regula. O que tem de ser faz muita força... Pensavam d'este
modo em palavras; mas no fundo, n'esse intimo sentir que até parece
esconder-se á Providencia, se elles pudessem calçar a pedra para não
cahir!... Contra as imprudencias brutas dos gados já se tinham
prevenido, as gentes supersticiosas, sebando-a em volta com ramos e
tojos. Porém as aguias, que vinham de longe, no seu vôo arqueado e
solemne ali poisar? E os lobos famintos, que preferiam aquelle sitio
para comer as suas prêsas? Só milagre e grande milagre é que a sustinha
n'aquella direitura. Acreditavam-n'o camponezes e serranos, todos os que
se desbarretavam e persignavam murmurando qualquer reza, mal a viam. Foi
assim que procederam a Tonia e o Russo. Ambos quedos, ella com o fuso
parado, elle com o barrete na mão, ciciaram orações. Mas o pastor, logo
depois ameaçou a rapariga apontando:
—Vêl-a? Ha de cahir. O mundo acaba-se e tu não serás p'ra mim, nem p'r'ó
outro.
—A Senhora da Peneda não ha de deixar—disse confiada.
—Sou eu que a empurro. Verás.
—Cala-te, hereje, que t'abro a cabeça.
Irada, com os olhos em chamma, arremetteu-lhe com um pedregulho. Havia
ancia de raiva dentro do seu peito soberbo. O Russo não lhe pôde
supportar a vista de cólera e desprezo; curvou a fronte, os olhos
marejaram-se-lhe. O seu destino era peor que o dos condemnados do
Inferno.
—Perdôa, não olhes assim! Tu é que me fazes dizer todos estes peccados.
—Tenho culpa de não teres temor de Deus? Estás na caldeira de
Pedro-Botelho, vestido e calçado! E é bem feito!—accrescentou vingativa.
O cabreiro queria humildar-se até ao rasteiro das cobras e lagartos, só
para lhe merecer uma sombra de perdão. Affligia-o mortalmente a idéa de
que mais uma vez desagradara á Tonia. Como, logo adiante a rapariga
vendo umas cabras se principiou a affirmar, para descobrir o Chico, foi
elle que, no intento de se reconciliar com a pastora apontou:
—Está acolá, em cima do penedo...
—Assobia-lhe para vir p'r'áqui.
—Bem nos vê, se quizer...
Mas obedeceu, assobiou com os dedos na bocca. O outro não se importava,
apenas mexeu a cabeça conservando-se na mesma posição.
—Vae lá, que vamos p'r'ó Guidon,—disse-lhe a moça.
Foi, humildemente, como um perdigueiro. Sentiu gozo em ser mandado; mas
de raiva torcia nas mãos a grossa carapuça. Distante, a occultas para
esconder a sua fraqueza, limpou duas lagrimas ao canhão da vestia. O
outro não queria ir para o Guidon, estava ali muito bem. O Russo
pediu-lhe que obedecesse, para a Tonia se não zangar mais.
—Ora... se 'stou regalado!—respondeu o pastor. Vai tu mais ella.
—Vem, moço—exorou o cabreiro. Olha que ella hoje, sempre te está! Anda,
levo-te a rez.
Consentiu o Chico em deixar ir o rebanho; mas elle ficou. A Tonia não se
teve. Foi pressurosa tiral-o d'aquelle adormecimento. Com ligeiro
sorriso de meiguice, pediu ao Russo:
—Ó aquelle. Junta-me tamem as minhas, que eu vou trazel-o.