Os paes de Margarida já pareciam conformados e até orgulhosos de sua
filha. Seguiam o movimento geral das opiniões, admittiam-lhe a santidade
e o poder sobrenatural, que sobre ella tivesse vindo como emanação de
Deus, n'esse dia para sempre memorado da catastrophe. A Providencia
impõe os seus designios aos homens pelos modos mais contraditorios: com
uma penna d'ave mata, com um raio póde ressuscitar. Havia conformidade
na crença geral: a cegueira de Margarida era irremediavel por ser de
origem e vontade divinas. O não terem sido escutadas as supplicas
endereçadas por intermedio dos mais famosos santos conhecidos, era prova
e signal de que deviam submetter-se ao querer do Altissimo. E por
ultimo—opinavam os confessores—o dom de santidade em vida, não vale mais
do que a maior realeza da terra, ou do que todas as realezas da terra
junctas?
Concordavam e acreditavam-n'o os submissos paes, sentindo-se até
enternecidos por haverem dado o ser a Margarida, ainda que se
reconheciam differentes d'aquella carne, que depois que recebera o
divino sopro, era de razão que tivesse mudado de natureza. Notavam
tambem que Margarida vivia de cada vez mais encantada com os doirados
quadros da sua imaginação, que lhe antecipavam a Bemaventurança, á
morte. Tudo que dizia na sua voz dulcissima, encanto de todos os
ouvidos, era risonho e alegre: via-se que d'uma grande desgraça, sahira
a suprema ventura, a sublime pacificação da alma. Que encantadores
esmeros de sentimento Margarida tinha para seus paes! E elles, os
ditosos, escutavam-na, como se percebessem falas de anjos, ou sons de
harpas divinas a desferirem hymnos no espaço! Tudo correu santamente em
dois annos de vida gloriosa, que junctos aos dois primeiros de vida
atormentada, formavam os quatro annos de reclusão, tanto de Margarida
como de seus paes e de Antonia, que até os preceitos obrigatorios da
religião satisfaziam na capella da casa. D'isto resultou que uma funda
anemia, acompanhada de dôres craneanas e insomnias perturbadoras, se
apoderou d'aquelle pobre e implume corpo. Os medicos impozeram então a
necessidade de passeios ao ar livre, que a creança respirasse brisa
balsamica de montanhas e pinheiraes. Era egualmente indispensavel a luz
directa do sol para se não estiolar e morrer a mimosa e tenra planta. A
ella mais do que a todos custou esta ordem dos medicos, pois todos e
ella se tinham habituado a este existir sereno de vida santa, em
convivencia de imaginação com o Ceu, de que Margarida dizia coisas de
encantar. Antonia, tambem habituada á clausura da sua menina, vivendo
sempre na contemplação do ente raro, que era o maior louvor do seu leite
abençoado por Deus, arremetteu em palavras contra o mandado dos
facultativos. Temia dissipar-lhe o encanto divino, entregando-a á
convivencia de todos que lhe quizessem falar nos caminhos por onde
passasse. Comprehendia que assim já não a podia conservar tão intima,
nem tanto para si. Era o egoismo humano a rebentar no mimoso jardim de
sentimentos tão elevados...—a rude Antonia apavorava-se com a idéa de
que aquelle affecto, que ella creara com uma sugeição e uma dedicação de
tantos annos, podesse diminuir. Mas tanto ella como D. Claudina e João
da Costa, porque amavam incondicionalmente Margarida, era justo que se
opposessem ao parecer dos medicos e assim consentissem que se esgotasse
esse precioso e delgado fio de existencia, que em tamanho preço tinham?
Não, até o proprio egoismo, coisa diversa aconselhava, pois a separação
que a morte carnal viria definir, ser-lhes-hia milhões de vezes mais
custosa do que o era a cegueira, quando a julgavam uma fatalidade.
Acceitaram assim, o facto, tomando-o como todos os demais conselhos
attinentes á existencia de Margarida, pois os julgavam de inspiração
divina, por tenderem a não enfraquecer o tenue vigor d'aquelle fragil e
delicado corpo.
* * * * *
Estava-se na primavera: nos valados rebentavam as flores, os gommos
enfeitavam já as arvores despidas e tristes. Tempo alegre e soalheiro,
atmosphera odorifera e excitante. Iam pelos caminhos pedregosos da
aldeia, á procura de pontos altos, onde corresse viração. Margarida
desaprendera de andar, trocava os pés como quando d'um anno principiara
a correr na sala, queixava-se de que as pernas lhe não podessem com o
corpo. O vestuario, apesar de reduzido ao minimo de agasalho, era-lhe
d'um peso incomportavel. Fatigava-se e pedia frequentes repousos nas
bordas da estrada, em muros baixos e sobre as pedras avulsas que
encontrassem. Seus paes, ou Antonia, levavam-na pelo braço como uma
convalescente, sentindo-lhe o contacto do corpo, leve como uma penna. E
assim parecia pessoa vulgar que viesse trazer saudações á luz,
amando-lhe o explendor; que viesse visitar a paisagem que tencionava
gosar longamente. Cada dia seguiam destino differente; mas sempre para o
alto d'onde se descobrisse o fertil e carinhoso valle. Após os primeiros
passeios, sentindo-se mais vigorosa, pois tinha menos dôres e somnos
mais tranquillos, Margarida, n'um resurgimento de memoria, é que
mencionava os sitios que preferia visitar. Parecia este o caso trivial
d'um ausente de muitos annos, que tornasse a viver nas paisagens
queridas da infancia e procurasse confrontal-as com as sensações
d'outr'ora... Passava-se n'aquelle cerebro um trabalho lento de
rememoração, uma reviviscencia psychica. Nos pontos elevados, onde a
respiração é mais livre, larga e substancial, todo o corpo se lhe
aerificava, conhecia-se ligeira como qualquer ave voando.
Amplificava-se-lhe o peito; excitada pela fragancia da brisa fresca e
alpestre, vinham-lhe assomos de enthusiasmo, extasis de commoção perante
o renascimento das plantas, a côr afagadora da verdura, que não podia
apreciar com os olhos. «Como estão bonitos os campos!—exclamava. Para
ali o Ramisco, para acolá a Cerdosa, em frente Refuinho! Como estão
bellos estes campos já semeados, as arvores em flor, os bois a pastar
nas hervas!»
Parecia que tinham vista aquellas pupillas opacas, mas illuminante, como
dois brancos seixos no fundo de limpida corrente. Se ellas estavam sem
movimento, presas ao sol, o rosto de Margarida adquiria a inspiração do
dos santos nos extasis contemplativos da magestade divina. Esses globos
de leite coalhado, no meio das serziduras das feridas, eram duas
candidas cecens em terreno arenoso. O riso, meigo e attractivo, mais
bello do que o das rosas ao abrirem, illuminava-lhe os sentimentos. As
falas murmurantes, como agua correndo em regatos, passavam nos ouvidos e
eram gorgeios de ave: «Oh! que bom cheiro o das serras e dos campos,
como é suave o aroma das flores, minha mãe!» «Não sentes os passaros a
cantarem nos arvoredos, querida Antonia?!» «Quando iremos nós ao
Ramisco, meu pae?! Ainda voltará, o tio Frei Jeronymo, á sua casa de
Preste?»[1]
Falando assim quedava-se silenciosa, rosto erguido ao ceu, a expressão
vaga de cegueira suspensa sobre os campos da veiga, que se alastrava no
sopé da montanha. Este goso espiritual que se adivinhava dentro d'ella
ao contemplar o mundo material com a vista da memoria, enchia de prazer
os carinhosos paes, que tinham n'esta filha um thesouro celestial, um
tabernaculo de coisas puras e santas. Tão habituados já andavam a
consideral-a um ser superior á misera contingencia humana, a ver-lhe na
vida da alma uma vida transparente e etherea, que o doloroso
acontecimento que a cegara, de desventura se havia transformado em obra
de graça, pela santidade que lhe trouxera. Acreditavam piamente n'esse
divino dom que sublimara aquelle corpo enfesadinho e anémico, que
espiritualisara, com belleza nova, aquelle rosto transtornado pelas
manchas de cicatriz, que dera áquelles olhos a visão de coisas sublimes.
Enobrecia-os esta ligação carnal com quem já em vida pertencia ao Ceu.
Por isso cercavam Margarida de esmeros e delicadesas devidas ás
entidades superiores á rudesa commum; pois que essa parte material do
ser que nutriam, tocavam e aconchegavam era apenas condicção transitoria
de passagem no mundo d'uma alma immaterial, já moradora dos paramos sem
fim, em convivencia de Bemaventurados. Aquellas imaginações recreavam-se
em acompanhar Margarida a esses mundos d'Além, onde presumiam que ella
ia nos periodos de somno. Se ao acordar pronunciava palavras vagas de
sentido obscuro, n'isso encontravam o final das palestras que tivera com
os anjos, seus irmãos. E como vereficassem que o seu falar era mais
elevado e inaccessivel, quando rodeada de muitas e muitas flores,
traziam-lhe diariamente molhos das mais raras embellesando-lhe assim o
quarto, como se fôra uma egreja. Era apenas uma antecipação das
homenagens que de futuro lhes seriam rendidas, pelos numerosos crentes
que se acolheriam á sua protecção. Para todos era de saber conhecido,
que os santos apreciam muito os subtis aromas das plantas, que são
essencias evolando-se ao ceu e excitam a imaginação, para comprehender
melhor o sublime e o celestial. E nem os conselhos dos medicos tinham
auctoridade para impedir que Margarida vivesse constantemente respirando
os delicados venenos, que lhe proporcionavam noites deliciosas de
encanto em que a mente, ebria de goso, se lhe alargava em quadros
deslumbrantes. Accentuavam-se-lhe, por isso, as turbulencias do coração
e o depauperamento organico; porém o seu querer era terminante e
exigente, para que a não separassem das suas queridas flores.
Comprehendia bem que eram ellas que a ajudavam a levantar a alma em
preces fervorosas, e que lhe incendiavam a mente em extasis divinos.
Áquelles olhos que não viam, patenteava-se a celestial morada n'uma luz
luarenga sempre egual. Mais que isto, os seus ouvidos escutavam n'esses
instantes singulares, córos angelicos, em que a toada longa e plangente
era como um balsamo, em que a alegria tomava fórma serena e augusta. E
todos comprehendiam este viver de alma superior, esta sublimação dos
sentidos para definir coisas ethereas, a descoberta do mundo dos
encantos feita por uma creança em quem laborava a vontade de Deus. Esse
dom subtil para comprehender era decerto a parte mais bella de tão
gloriosa cegueira e para lh'o conservarem havia sempre abundancia de
flores em volta do pequeno leito de Margarida. De longe e de perto
chegavam offerendas copiosas—collocavam-nas em vasos, como nos altares,
em açafates como aos pés da Virgem, no oratorio, em cima da commoda e
juncavam-lhe com flores a propria coberta, que se lhe ajustava ao corpo
doentinho. Assim podia ella sentil-as, com os magros dedos apreciar a
maciesa das petalas, aspirar-lhes com mais avidez os energicos perfumes.
E que riso de expressão tão estranha, illuminava aquelle semblante
disforme, quando com o seu fino tacto, Margarida adivinhava as flores
que ali tinha e as combinava em ramos e capellas, que pessoas de olhos
sãos não saberiam entrançar com semelhante engenho! Se punha na sua
propria cabeça essas corôas que fazia, todos notavam, quanto se parecia
com as santas adoradas nas egrejas! Se dizia palavras de sentido
transcendente, todos julgavam escutar sons que sahiam de mysteriosas
nuvens. E ainda que fossem coisas que não comprehendessem, tal era a
suavidade encantadora d'aquella voz incomparavel, tal o encanto musical
da sua pronuncia maviosa, que os ouvidos profanos se sentiam
magnetisados e as imaginações dos que escutavam iam voando, voando
sempre, seguindo-a entre estrellas, n'uma região infinita e doirada pela
vista fulgurante dos seres perfeitos e bellos que a habitavam. Aqui era
o paiz encantado da visão e do mysterio, n'elle habitam entes
immaculados e perfeitos! Vivia-se d'este modo na habitação terrena,
fluctuando nas azas da maravilha, creada hora a hora. Uma continua
apotheose d'um sonho, que só a crença na vida eterna podia gerar!...
[1] _Amores, amores..._