Porém o estado melindroso da saude de Margarida aggravava-se de cada vez
mais. Os facultativos que a vigiavam com a sua experiencia, assignalavam
os progredimentos da molestia, cuja historia conheciam. Nunca
funccionara bem aquelle pequenino coração: nos primeiros annos de vida
fôra excitado pelos estovamentos dos brinquedos infantis e pela
insaciabilidade da creança mimosa, que dava azas á imaginação inquieta;
no terrivel dia da catastrophe quasi se quedara preste, talvez que no
proposito de nunca mais funccionar, mas recomeçou o seu labor; no longo
periodo de soffrimento, que se seguiu, teve alternativas de resignação e
desesperos, desalentos e esperanças vivas!... Os carinhos maternos e a
dedicação nunca desmentida de Antonia apasiguaram-no e fizeram abrir na
mente de Margarida os alvores d'uma aurora. O tempo trouxe o desengano,
a certeza e o habito da cegueira, e o pequenino coração adquiriu
definitivamente conformidade para o infortunio, n'uma submissão aos
ditames de Deus, propria dos eleitos tocados da divina graça. Abrira-se
para elle uma existencia nova, adornada de bellezas e de encantos: eram
explendores do ceu, não comparaveis aos terrenos, que são mesquinhos e
transitorios. Tudo á mente vinha do coração, d'esse coração combalido,
improprio para a vida commum, e no qual a morte se aninhara como em casa
propria. Mas no rosto cicatricial em que os olhos baços se moviam como
duas bolas de jaspe, despontava a luz que illuminaria a Margarida o
caminho de Bemaventurança e ella desejava e não temia o final dos seus
dias contingntes. No som da voz melodiosa, como será a dos anjos, e no
sentido das palavras que pronunciava, já se reconhecia essa levantada
aspiração, esse sentimento do divino, que linguas vulgares traduzem por
santidade. Caminhava esta pobre existencia corporea abordoada a um
coração doente e não podia prolongar muito a sua jornada. Margarida
acamou de vez e no aconchego do quarto concentrou-se na paixão dominante
das flores, d'esses aromas que lhe povoavam a mente de sublimes visões e
lhe faziam antegostar o ceu. Despertara-se-lhe, primeiro, este amor, nos
passeios aconselhados pelos medicos para se robustecer, agudara-se
depois, na existencia da sua mente recolhida em convivio de anjos. As
flores são bellas e assim como em vida lhe adornavam a paisagem da
morte, depois lhe enfeitariam a sepultura. Morte e sepultura, idéas
risonhas, que assignalariam o seu voar definitivo á patria celestial.
Não as chamava, estas escuras imagens, para não ulcerar os corações de
seus paes e de Antonia, a quem o momento da separação custaria, ainda
que a vissem erguer-se sobre nuvens á gloria de Deus. Porém os seus
ouvidos apurados já sentiam os passos magestosos da Morte, que vinha
n'uma comprida estrada enfeitada de todas as galas, juncada de palmas
victoriosas, acompanhada de musicas alegres. Festa superior á da entrada
da primavera, nos campos e nos montes cobertos de boninas, com o ar
empregnado de balsamos humados da terra, a omnipotencia da luz descendo
do sol para tudo engrandecer! O coração doente consolava-se com os
aspectos d'esta vida sonhada, alagava-se n'uma paz doce, larga e
consoladora, que era um vislumbre da que se gosaria na presença de
Deus!...
Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação
que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia
resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas
flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem
sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as flores campestres de
belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando
adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e
côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde
habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte,
risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado
cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O
bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz,
dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O
rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era
um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes
de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a
Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces
innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas,
amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do
mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados
a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava.
Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o
afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de
muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para
os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles,
escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos e como
branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara
o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas
sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe
viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas
palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais
cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É
que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe
abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas
choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores
rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de
conformidade e não de desespero.
* * * * *
Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser
alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual,
annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as
pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de
aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes,
Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco.
Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediu com palavras
confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se
comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com
os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor,
beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura,
sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:
—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...
Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que
não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no
largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma
serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda
respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda
procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella
imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao
espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu
Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.
—Está morta—disse com sentimento grave o medico pousando-lhe a mão na
testa.
—Está viva—pronunciou como em sonho, o padre Carvalhosa...
Lisboa, Abril de 1899.