I
Passaram-se dias e passaram-se mezes. O soffrer longo e tormentoso
seguia lento. A physionomia de Margarida era toda uma postula. Porém de
informe nos primeiros tempos, foi adquirindo longes de vida e expressão
com os inicios cicatriciaes. Margarida queixava-se pouco; parecia que os
nervos se lhe tivessem insensibilisado, ou que na catastrophe houvesse
adquirido coragem heroica para supportar a dôr. Até os medicos se
admiravam de tanta paciencia nos curativos, pois lhe applicavam topicos
que a deviam mortificar. Notava-se-lhe fundamental mudança no caracter:
antes sempre inquieta e irascivel, agora conformada e paciente.
O padecer raro e profundo, poderá transformar a sensibilidade e o
pensamento? amollecel-os se eram duros, endurecel-os se eram ternos? Em
Margarida parecia realmente ter-se operado essa metamorphose grave: na
vida feliz e descuidosa de infancia mostrara-se sempre e sempre
insatisfeita, nunca se lhe encontrando fim ao querer e ao desejo;
chegada a desventura e martyrio excepcionaes, dormitava-lhe o espirito
em calma angelica, como se gosasse de paz e doçura celestiaes. Alguns
queixumes ainda se lhe ouviram de começo (murmureos de ave doente), em
que recorria aos nomes de seus paes e da ama que a creara, como
lenitivos e sacrarios de amor santo; porém, depois, entrou n'um periodo
de resignação e calma e os seus doze annos mostravam o juizo e a
conformidade das velhas experiencias. Em vez de confessar atroz
soffrimento, dizia palavras de consolação e esperança aos que muito lhe
queriam e eram ellas de tanto conceito e elevadas que nem pareciam da
sua juventude. Entrara, pois, n'aquelle corpo alma nova com o
infortunio: a tonalidade da voz mudara para submissa e melancolica, as
idéas appareciam como florinhas correndo leves em veio d'agua limpida.
Já não era a Margarida que sem motivo gritava, que sem razão chorava
lagrimas, que martyrisava com goso os animaes e as pessoas, que se
deliciava inventando collisões para atormentar os com quem vivia.
Accommodado o seu magro corpo no leito de doentinha, todos lhe apeteciam
o convivio pelo exemplo que dava de um existir sereno e venturoso no
meio de penas. Quando a enorme chaga, que lhe abrangia todo o rosto,
principiou a mostrar tendencias para cura, um phenomeno singular se
verificou—o ressurgimento da expressão humana, que ia apparecendo
lentamente como uma aurora. E o facto excepcional e maravilhoso dava-se,
quando tudo ainda era informe e cahotico n'aquelle rosto: nem a pelle
rosea e setinosa o purpureava, nem a bocca de gazella sorria, nem a
graciosa linha do nariz o equilibrava, nem a perfeita oval o fechava,
nem os formosos olhos... (não falemos agora dos antigos olhos de
Margarida). O que se ia vendo era a cicatrisação, que no seu progresso
confuso já mostrava larga costura com manchas lisas, enrugamentos
complexos, tecidos arrepanhados formando sombras. Assim estava a testa,
a face, o nariz, o mento, as mimosas orelhas, o airoso pescoço... Porém
de tudo isso que era sem fórma e sem graça, resaltava tal suavidade de
expressão, qualquer coisa de ethereo e sublime, de suprahumano e
bondoso, que só pelo transluzir d'uma alma candida e pura n'um rosto, se
póde comprehender. E ainda lhe faltava a belleza dos seus olhos, vivos
feixes de luz sempre em ardencia, e não tinha a pupilla nervosa e sempre
movediça na iris, tão variamente colorida; porque esses olhos, absolutos
senhores n'aquelle semblante expressivo, eram agora apenas dois globos
leitosos, rolando senilmente dentro das orbitas, por traz das palpebras
densas. Os medicos, para não desilludirem os atormentados paes e a ama
Antonia, que lhe queria tanto como se fôra mãe completa, ainda agora os
consolavam com mentirosas esperanças. As bellidas, simples pannos
brancos lançados deante da vista, poderiam desapparecer com o
tempo—diziam. Quando elles não podessem ultimar a cura, outros medicos
havia especialistas de taes molestias, que operavam maravilhas, que
pareciam milagres. D. Claudina escutava-os, porém muito mais se fiava do
alto poder divino, do que de homens grosseiros e barbaros, que se
limitariam a rasgar com ferros os olhos de sua filha! Por isso
comprehendendo como indispensavel a intervenção superior do ceu (a unica
forte e valiosa) continuou com mais fervor as promessas de romarias, de
festas, de offerendas a todos os afamados medianeiros celestes, que se
nomeavam perto e longe do logar onde viviam. Informações que aos ouvidos
lhes chegassem de curas de pequena ou grande monta por este meio
obtidas, serviam logo a D. Claudina e a Antonia de pretexto para
proporem mais resas e penitencias, jejuns e novenas, oblatas ao divino e
á Virgem sua mãe, que cumpririam verificado o beneficio. Isto não
obstava á assidua frequencia da capella da casa, onde se demoravam em
oração fervorosa ao orago, Santa Margarida, e a todos os santos da
celestial côrte. E tamanha e tanta era a fé, que em cada manhã lhes
renascia no peito a doce esperança e logo que sentiam a doentinha
acordada do seu longo repouso, vinha a interessada mãe perguntar-lhe:
—Sentes-te melhor, filha?
—Sinto, minha mãe.
—E já me vês?
—Vejo.
—Com a tua vista?
—Com a minha alma e... e tambem um pouquinho com a minha vista—rematava
sorrindo.
Era consolador ouvir-lhe isto, quando o sol raiava no ceu! Que affecto e
que amor taes palavras continham! Porém amargava-lhes no final o
desengano, ainda que suavisado pela ternura da voz. A dolorosa realidade
permanecia. Era triste ver Margarida, com os dois olhos baços e leitosos
como duas enormes perolas a moverem-se lentamente na busca de claridade
e sem deixarem passar a vista, que estava por tras da nevoa!
Compensava-os (bem insufficientemente) o reconhecerem que na larga
cicatriz da ascosa chaga, havia uma vida nova e uma luz nova de vida
superior. Quando a doentinha falava era de ver que as suas palavras
semelhavam lampejos de luar n'um abysmo de trevas. Habito ou
idealisação, certo era que esse rosto, sem feitio de rosto, tinha alguma
coisa de raro e sublimemente espiritual. D'esta fórma suave, lenta e
dôce, subtil como se fôra um sopro vital, em todos ia entrando a
convicção de que a mente de Margarida, após a cegueira se sublimara,
illuminando-se de divinos clarões, que a predestinavam para altissimos
fins. Denunciava-o os seus conceitos serem de sentimento e bondade
infinitas, e isto maravilhava pela precocidade. N'aquella voz
percebia-se musica de suavidade angelica, cheia de ternuras e modolações
aprasiveis. Encantava estar junto d'ella, escutal-a, conhecer como ella
recebia a inspiração divina, que vinha como pomba esvoaçar-lhe sobre a
cabeça. Não balbuciava uma queixa, nem uma saudade do mundo de que se
conhecia separada para sempre. Ao contrario: confessava-se mais feliz e
ditosa n'esta densa noite, do que o era na luz do tempo em que
irrequieta, nervosa, exigente rebentava em lagrimas de cólera, á menor
contrariedade. Agora nunca chorava!... Não saberão os cegos chorar? As
lagrimas são a belleza dos olhos, quando como diamantes deslisam pelas
faces dos que morrem d'amor; porém, as lagrimas tambem são signaes
d'infortunio, se, como pingos quentes de chumbo escaldam a pelle de
infelizes atormentados. Margarida não tinha nem edade para amar, nem
experiencia para os grandes infortunios; por isso não precisava de
lagrimas. Aquella mente, lago sereno em calma ventura, não tinha a
encrespal-a ventos que só entram por ambiciosas e prescrutadoras
pupillas.
Dulcificavam-se, pois, para a convivencia dos seus achegados e amigos
que a adoravam, aquella alma, o caracter, o temperamento. Lamentavel que
taes olhos tivessem perdido o seu raro poder de fascinação; doloroso que
a physionomia de Margarida, outr'ora tão harmonica das combinações que
dão a formosura, se houvesse transformado em cicatriz... Existia, porém,
pessoa que, por um lento labor, já conformada com o actual estado, a
preferia como era e não a desejava como fôra. Quem? Antonia, a querida
ama, para a qual esta fealdade era formosura, e que julgava a sua menina
muito mais venturosa depois de feia. Coisa estranha e de maravilhar, que
um rosto assim desfigurado, com manchas brancas n'um ponto, violaceas
n'outro, liso e espelhento aqui, enrugado e baço acolá—um todo
arrepanhado de linhas divergentes e crusadas—tivesse tamanha influencia
e poderio sobre as almas; que esses olhos brancos, com um ponto
cinzento, apenas, no sitio da pupilla, vissem coisas do ceu, que nenhuns
outros olhos descobriam!... A sincera Antonia, que mais que ninguem
permanecia junto de Margarida, soffrera mais que os outros do potencial
ascendente. Ouvia-lhe as confidencias do pequenino coração, seguia com a
mente todas as maravilhas que ella descrevia do interior da patria
celestial, onde domina a magestade do Grande Deus, no meio do explendor
e das harmonias dos anjos, archanjos e seraphins. Não podendo conter no
rude peito a emmoção causada por tantas bellezas, dizia-as e
commentava-as com pasmo deante de amigos e confidentes, exclamando com
toda a sua alma nos labios: «Não vedes n'isto—ó gentes!—uma santa que
ainda vos hade fazer milagres?»
Era realmente o que todos viam, com verdadeiro jubilo e devocção. Já na
mente collectiva, o alto problema da santidade de Margarida se resolvia
e fixava. Correu d'isso o clamor e a fama, com a velocidade dos ventos
que varrem nuvens do céu e não tardou que se referissem resultados
beneficos de supplicas que Antonia lhe levara. Ainda sua mãe procurava
no valimento celestial de patronos afamados meio de lhe restituir a
vista, e já Margarida era grande protectora de infortunios alheios,
juncto do Altissimo. Antonia que appresentava em segredo os pedidos de
suas comadres, recebia os agradecimentos e tambem se engrandecia aos
olhos do povo, com o seu nome envolvido em assumptos de tanta maravilha.
Não tardou que aos ouvidos de D. Claudina e de João da Costa chegassem
os côros dos favorecidos, já com novos pedidos e rogos instantes. Não
poderam obstar, tambem, a que pessoas gradas se viessem ajoelhar juncto
do leito da creança, fazendo-se directamente ouvir nas suas queixas e
tocando-a nos magros dedos com o melindre com que se devem tocar as
coisas divinas. Esses que de novo chegavam, ao verem-lhe transtornada a
formosura, não recebiam desagradavel impressão, não achavam aquillo
hediondez, antes para elles se confirmava a opinião de que Deus
escolhera Margarida, para entrar no seu côro celestial de Virgens, e que
para a separar do mundo sensual e peccador, se servira d'um meio que
para muitos pareceria infortunio, mas que fôra na realidade Grande
Ventura. Assim se consolavam os corações dos amargurados paes, que
n'estas palavras encontravam compensador lenitivo.
Haviam-se passado dois annos sobre o inolvidavel dia da catastrophe. A
casa de João Costa estava sempre cercada de gente devota, que vinha
abrigar-se sob a influencia benefica de sua filha; á capella concorriam
offerendas que depositavam aos pés da padroeira, com a ceguinha irmanada
no nome e no celestial prestigio. Até esta epocha raras pessoas haviam
sido admittidas á presença da piedosa creança; porém augmentando os
pedidos vehementes e não podendo ser contida a onda que se avolumava,
necessario se tornou adoptar o expediente de Margarida assistir,
domingos e dias santos, á missa da casa, onde os interessados podiam
concorrer a contemplal-a e impetrar directamente o seu valioso auxilio,
perante os altos julgamentos divinos. Para melhor ser vista collocaram a
cadeira em que a assentavam juncto do altar, do lado do evangelho,
voltada para o officiante.
Assim todas as pessoas, recolhidas na sua fé, lhe podiam dirigir
silenciosas preces, levantal-as fervorosas durante o santo sacrificio.
Para a não fatigarem, pois a sua fraquesa era ainda grande, só áquelles
que para isso tinham poderosos motivos, se consentia que no final da
missa lhe beijassem o longo rosario e as santas reliquias que trazia ao
pescoço. A esses dizia ella palavras consoladoras de promessa; e
maravilhava aquella memoria, que a cegueira tinha tornado mais firme e
vidente, pois aos antigos conhecidos mencionava circumstancias da vida e
os nomes dos filhos, especialisando cada coisa nas suas referencias.
Aquella voz encantava, era carinhosa e suavissima como as dos coros
sagrados, que se ouvem em sonhos. Melodia que vinha do alto, as palavras
que proferia eram recolhidas com avidez, uncção e respeito. A todos
promettia incluir nas suas orações ao Senhor, e com tal voto lhes lavava
o coração dos sentimentos maus e peccaminosos, que por desventura n'elle
tivessem medrado.