SEGUNDA PARTE

I

Passaram-se dias e passaram-se mezes. O soffrer longo e tormentoso

seguia lento. A physionomia de Margarida era toda uma postula. Porém de

informe nos primeiros tempos, foi adquirindo longes de vida e expressão

com os inicios cicatriciaes. Margarida queixava-se pouco; parecia que os

nervos se lhe tivessem insensibilisado, ou que na catastrophe houvesse

adquirido coragem heroica para supportar a dôr. Até os medicos se

admiravam de tanta paciencia nos curativos, pois lhe applicavam topicos

que a deviam mortificar. Notava-se-lhe fundamental mudança no caracter:

antes sempre inquieta e irascivel, agora conformada e paciente.

O padecer raro e profundo, poderá transformar a sensibilidade e o

pensamento? amollecel-os se eram duros, endurecel-os se eram ternos? Em

Margarida parecia realmente ter-se operado essa metamorphose grave: na

vida feliz e descuidosa de infancia mostrara-se sempre e sempre

insatisfeita, nunca se lhe encontrando fim ao querer e ao desejo;

chegada a desventura e martyrio excepcionaes, dormitava-lhe o espirito

em calma angelica, como se gosasse de paz e doçura celestiaes. Alguns

queixumes ainda se lhe ouviram de começo (murmureos de ave doente), em

que recorria aos nomes de seus paes e da ama que a creara, como

lenitivos e sacrarios de amor santo; porém, depois, entrou n'um periodo

de resignação e calma e os seus doze annos mostravam o juizo e a

conformidade das velhas experiencias. Em vez de confessar atroz

soffrimento, dizia palavras de consolação e esperança aos que muito lhe

queriam e eram ellas de tanto conceito e elevadas que nem pareciam da

sua juventude. Entrara, pois, n'aquelle corpo alma nova com o

infortunio: a tonalidade da voz mudara para submissa e melancolica, as

idéas appareciam como florinhas correndo leves em veio d'agua limpida.

Já não era a Margarida que sem motivo gritava, que sem razão chorava

lagrimas, que martyrisava com goso os animaes e as pessoas, que se

deliciava inventando collisões para atormentar os com quem vivia.

Accommodado o seu magro corpo no leito de doentinha, todos lhe apeteciam

o convivio pelo exemplo que dava de um existir sereno e venturoso no

meio de penas. Quando a enorme chaga, que lhe abrangia todo o rosto,

principiou a mostrar tendencias para cura, um phenomeno singular se

verificou—o ressurgimento da expressão humana, que ia apparecendo

lentamente como uma aurora. E o facto excepcional e maravilhoso dava-se,

quando tudo ainda era informe e cahotico n'aquelle rosto: nem a pelle

rosea e setinosa o purpureava, nem a bocca de gazella sorria, nem a

graciosa linha do nariz o equilibrava, nem a perfeita oval o fechava,

nem os formosos olhos... (não falemos agora dos antigos olhos de

Margarida). O que se ia vendo era a cicatrisação, que no seu progresso

confuso já mostrava larga costura com manchas lisas, enrugamentos

complexos, tecidos arrepanhados formando sombras. Assim estava a testa,

a face, o nariz, o mento, as mimosas orelhas, o airoso pescoço... Porém

de tudo isso que era sem fórma e sem graça, resaltava tal suavidade de

expressão, qualquer coisa de ethereo e sublime, de suprahumano e

bondoso, que só pelo transluzir d'uma alma candida e pura n'um rosto, se

póde comprehender. E ainda lhe faltava a belleza dos seus olhos, vivos

feixes de luz sempre em ardencia, e não tinha a pupilla nervosa e sempre

movediça na iris, tão variamente colorida; porque esses olhos, absolutos

senhores n'aquelle semblante expressivo, eram agora apenas dois globos

leitosos, rolando senilmente dentro das orbitas, por traz das palpebras

densas. Os medicos, para não desilludirem os atormentados paes e a ama

Antonia, que lhe queria tanto como se fôra mãe completa, ainda agora os

consolavam com mentirosas esperanças. As bellidas, simples pannos

brancos lançados deante da vista, poderiam desapparecer com o

tempo—diziam. Quando elles não podessem ultimar a cura, outros medicos

havia especialistas de taes molestias, que operavam maravilhas, que

pareciam milagres. D. Claudina escutava-os, porém muito mais se fiava do

alto poder divino, do que de homens grosseiros e barbaros, que se

limitariam a rasgar com ferros os olhos de sua filha! Por isso

comprehendendo como indispensavel a intervenção superior do ceu (a unica

forte e valiosa) continuou com mais fervor as promessas de romarias, de

festas, de offerendas a todos os afamados medianeiros celestes, que se

nomeavam perto e longe do logar onde viviam. Informações que aos ouvidos

lhes chegassem de curas de pequena ou grande monta por este meio

obtidas, serviam logo a D. Claudina e a Antonia de pretexto para

proporem mais resas e penitencias, jejuns e novenas, oblatas ao divino e

á Virgem sua mãe, que cumpririam verificado o beneficio. Isto não

obstava á assidua frequencia da capella da casa, onde se demoravam em

oração fervorosa ao orago, Santa Margarida, e a todos os santos da

celestial côrte. E tamanha e tanta era a fé, que em cada manhã lhes

renascia no peito a doce esperança e logo que sentiam a doentinha

acordada do seu longo repouso, vinha a interessada mãe perguntar-lhe:

—Sentes-te melhor, filha?

—Sinto, minha mãe.

—E já me vês?

—Vejo.

—Com a tua vista?

—Com a minha alma e... e tambem um pouquinho com a minha vista—rematava

sorrindo.

Era consolador ouvir-lhe isto, quando o sol raiava no ceu! Que affecto e

que amor taes palavras continham! Porém amargava-lhes no final o

desengano, ainda que suavisado pela ternura da voz. A dolorosa realidade

permanecia. Era triste ver Margarida, com os dois olhos baços e leitosos

como duas enormes perolas a moverem-se lentamente na busca de claridade

e sem deixarem passar a vista, que estava por tras da nevoa!

Compensava-os (bem insufficientemente) o reconhecerem que na larga

cicatriz da ascosa chaga, havia uma vida nova e uma luz nova de vida

superior. Quando a doentinha falava era de ver que as suas palavras

semelhavam lampejos de luar n'um abysmo de trevas. Habito ou

idealisação, certo era que esse rosto, sem feitio de rosto, tinha alguma

coisa de raro e sublimemente espiritual. D'esta fórma suave, lenta e

dôce, subtil como se fôra um sopro vital, em todos ia entrando a

convicção de que a mente de Margarida, após a cegueira se sublimara,

illuminando-se de divinos clarões, que a predestinavam para altissimos

fins. Denunciava-o os seus conceitos serem de sentimento e bondade

infinitas, e isto maravilhava pela precocidade. N'aquella voz

percebia-se musica de suavidade angelica, cheia de ternuras e modolações

aprasiveis. Encantava estar junto d'ella, escutal-a, conhecer como ella

recebia a inspiração divina, que vinha como pomba esvoaçar-lhe sobre a

cabeça. Não balbuciava uma queixa, nem uma saudade do mundo de que se

conhecia separada para sempre. Ao contrario: confessava-se mais feliz e

ditosa n'esta densa noite, do que o era na luz do tempo em que

irrequieta, nervosa, exigente rebentava em lagrimas de cólera, á menor

contrariedade. Agora nunca chorava!... Não saberão os cegos chorar? As

lagrimas são a belleza dos olhos, quando como diamantes deslisam pelas

faces dos que morrem d'amor; porém, as lagrimas tambem são signaes

d'infortunio, se, como pingos quentes de chumbo escaldam a pelle de

infelizes atormentados. Margarida não tinha nem edade para amar, nem

experiencia para os grandes infortunios; por isso não precisava de

lagrimas. Aquella mente, lago sereno em calma ventura, não tinha a

encrespal-a ventos que só entram por ambiciosas e prescrutadoras

pupillas.

Dulcificavam-se, pois, para a convivencia dos seus achegados e amigos

que a adoravam, aquella alma, o caracter, o temperamento. Lamentavel que

taes olhos tivessem perdido o seu raro poder de fascinação; doloroso que

a physionomia de Margarida, outr'ora tão harmonica das combinações que

dão a formosura, se houvesse transformado em cicatriz... Existia, porém,

pessoa que, por um lento labor, já conformada com o actual estado, a

preferia como era e não a desejava como fôra. Quem? Antonia, a querida

ama, para a qual esta fealdade era formosura, e que julgava a sua menina

muito mais venturosa depois de feia. Coisa estranha e de maravilhar, que

um rosto assim desfigurado, com manchas brancas n'um ponto, violaceas

n'outro, liso e espelhento aqui, enrugado e baço acolá—um todo

arrepanhado de linhas divergentes e crusadas—tivesse tamanha influencia

e poderio sobre as almas; que esses olhos brancos, com um ponto

cinzento, apenas, no sitio da pupilla, vissem coisas do ceu, que nenhuns

outros olhos descobriam!... A sincera Antonia, que mais que ninguem

permanecia junto de Margarida, soffrera mais que os outros do potencial

ascendente. Ouvia-lhe as confidencias do pequenino coração, seguia com a

mente todas as maravilhas que ella descrevia do interior da patria

celestial, onde domina a magestade do Grande Deus, no meio do explendor

e das harmonias dos anjos, archanjos e seraphins. Não podendo conter no

rude peito a emmoção causada por tantas bellezas, dizia-as e

commentava-as com pasmo deante de amigos e confidentes, exclamando com

toda a sua alma nos labios: «Não vedes n'isto—ó gentes!—uma santa que

ainda vos hade fazer milagres?»

Era realmente o que todos viam, com verdadeiro jubilo e devocção. Já na

mente collectiva, o alto problema da santidade de Margarida se resolvia

e fixava. Correu d'isso o clamor e a fama, com a velocidade dos ventos

que varrem nuvens do céu e não tardou que se referissem resultados

beneficos de supplicas que Antonia lhe levara. Ainda sua mãe procurava

no valimento celestial de patronos afamados meio de lhe restituir a

vista, e já Margarida era grande protectora de infortunios alheios,

juncto do Altissimo. Antonia que appresentava em segredo os pedidos de

suas comadres, recebia os agradecimentos e tambem se engrandecia aos

olhos do povo, com o seu nome envolvido em assumptos de tanta maravilha.

Não tardou que aos ouvidos de D. Claudina e de João da Costa chegassem

os côros dos favorecidos, já com novos pedidos e rogos instantes. Não

poderam obstar, tambem, a que pessoas gradas se viessem ajoelhar juncto

do leito da creança, fazendo-se directamente ouvir nas suas queixas e

tocando-a nos magros dedos com o melindre com que se devem tocar as

coisas divinas. Esses que de novo chegavam, ao verem-lhe transtornada a

formosura, não recebiam desagradavel impressão, não achavam aquillo

hediondez, antes para elles se confirmava a opinião de que Deus

escolhera Margarida, para entrar no seu côro celestial de Virgens, e que

para a separar do mundo sensual e peccador, se servira d'um meio que

para muitos pareceria infortunio, mas que fôra na realidade Grande

Ventura. Assim se consolavam os corações dos amargurados paes, que

n'estas palavras encontravam compensador lenitivo.

Haviam-se passado dois annos sobre o inolvidavel dia da catastrophe. A

casa de João Costa estava sempre cercada de gente devota, que vinha

abrigar-se sob a influencia benefica de sua filha; á capella concorriam

offerendas que depositavam aos pés da padroeira, com a ceguinha irmanada

no nome e no celestial prestigio. Até esta epocha raras pessoas haviam

sido admittidas á presença da piedosa creança; porém augmentando os

pedidos vehementes e não podendo ser contida a onda que se avolumava,

necessario se tornou adoptar o expediente de Margarida assistir,

domingos e dias santos, á missa da casa, onde os interessados podiam

concorrer a contemplal-a e impetrar directamente o seu valioso auxilio,

perante os altos julgamentos divinos. Para melhor ser vista collocaram a

cadeira em que a assentavam juncto do altar, do lado do evangelho,

voltada para o officiante.

Assim todas as pessoas, recolhidas na sua fé, lhe podiam dirigir

silenciosas preces, levantal-as fervorosas durante o santo sacrificio.

Para a não fatigarem, pois a sua fraquesa era ainda grande, só áquelles

que para isso tinham poderosos motivos, se consentia que no final da

missa lhe beijassem o longo rosario e as santas reliquias que trazia ao

pescoço. A esses dizia ella palavras consoladoras de promessa; e

maravilhava aquella memoria, que a cegueira tinha tornado mais firme e

vidente, pois aos antigos conhecidos mencionava circumstancias da vida e

os nomes dos filhos, especialisando cada coisa nas suas referencias.

Aquella voz encantava, era carinhosa e suavissima como as dos coros

sagrados, que se ouvem em sonhos. Melodia que vinha do alto, as palavras

que proferia eram recolhidas com avidez, uncção e respeito. A todos

promettia incluir nas suas orações ao Senhor, e com tal voto lhes lavava

o coração dos sentimentos maus e peccaminosos, que por desventura n'elle

tivessem medrado.

A nossa Gente · 第 23 / 53 题