fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura,
este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me
entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne,
e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da
conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia
antes que de todo me apartasse do mundo.
Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam
destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então
já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora
quizessem.
Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais
ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do
agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes
não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a
esposa futura de seu filho.
Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.
Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus
haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da
provincia.
Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro
placido e desassombrado de cuidados.
Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras
conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte
annos nas veias tremulas e agitadas.
Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura
infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não
tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração,
quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso
veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos
olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher
ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se
devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do
ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a
resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar
d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem
ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que
resistisse, nem coração que se não dobrasse.
Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que
professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de
espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no
inferno poderiam padecer assim.
Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu
irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me
não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu
irmão, que comigo não lastimasse.
Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia
estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não
via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo.
Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro
amor.
Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me
denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não
imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella
animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com
as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu,
transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que
lhe chammejava na alma.
Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por
aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para
descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os
olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que
fôra a propria vigilia.
Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu
irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca
esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava
a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em
tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.
Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e
porque era por uma irmã.
Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto
elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar,
presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas
duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.
Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada
dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações.
Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo
apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes
lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com
as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir,
em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços;
outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não
podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe
quanto a amava.
E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me
fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas
narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me
retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas
descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um
transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim
desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.
Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me
accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via
raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!
Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais
cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos
e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava
uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção,
cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades
sobre os esposos.
Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a
Christo: tambem sei o que é o Golgotha!
Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de
tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei
respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me
perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e
fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.
Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei
a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia
que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um
grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me
de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas,
fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi
passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de
todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e
comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.
Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em
sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim.
Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova
vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a
correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.
Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e
facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para
duvidar.
Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao
meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia,
tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que
não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:
—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua
infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era
impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela
desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão,
adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.
Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as
solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para
ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que
hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues
cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O
que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que
arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre
pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é
morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.
Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos
mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior
cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o
exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.
Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»
Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha
cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela
meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito
e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me
lembrei e não padeci.
IV
O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade,
que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre
todo o paiz.
Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as
povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo,
o incendio, o forçamento e o sacrilegio.
Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim
por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto
ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma
andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo
uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de
perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.
Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal
eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em
que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para
que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me
haviam feito padecer.
Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação
proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento.
Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia,
vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se
misturava e confundia.
Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante
alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu
á porta da cella aberta de par em par.
—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de
viajante e caminha!
Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me
effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de
Josaphat.
—Que quer de mim, meu pae?
—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta.
Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes
ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas,
nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o
padre perseguido se assim o encontrarem!
A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos
da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio
avançam cada vez mais.
Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe
o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as
suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha
parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que
estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu
espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o
gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do
que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras
affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros
abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na
esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor,
atravez das hostes dos infieis.
—Mas, meu pae, que aconteceu?
—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e
povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade
que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que
se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem,
assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as
muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em
motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos
expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra
em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não
cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude
a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem
percorrer o teu Getsemani.
Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os
gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos
frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por
tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e
irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que
impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo
pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto;
resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me
matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que
tinha tão grande horror.
Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se
de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e
bradou-me com voz terrivel:
—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo?
Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais
cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter
deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a
minha maldição comtigo.
E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me
porém, e respondi-lhe:
—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo,
como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria;
voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que
vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que
me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto
me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou.
Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não
apartarei do seu lado.
O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos:
—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja
esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e
infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo.
Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e
se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os
frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos,
espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os
pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares.
Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que
a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação
naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os
animos.
Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar
os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor
futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem.
As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria,
pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons
misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões
e redemoinhos como o vento da tempestade.
Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado,
a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da
vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto
os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo
annunciava a approximação dos guerrilhas.
Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos
quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos
tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças
e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade,
avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram,
erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo
dos agonisantes.
As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença;
ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e
apontaram as espingardas.
Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:
—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades
obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros
partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só
feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.
Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou
o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se,
de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.
Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira
descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.
V
Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a
devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus
movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos,
e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os
telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não
satisfazia.
A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca,
confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao
céo, accudiu-me ao pensamento.
—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos
surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação,
e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos
depois sobre o que temos que fazer.
—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.
Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha
vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha
cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida!
Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me
apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia
ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.
Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que
lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra
de exterminio.
Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de
annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se
tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não
poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo
que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do
insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos
que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.
Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me
preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo
caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.
Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre
pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...
As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por
momentos antes de poder proseguir.
—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha
indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me
contará o resto.
—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras
vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.
Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os
thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados
por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que
por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia
começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.
Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se
vingarem das suas negativas.
—E Margarida?
—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de
meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.
—Pois quê?...
—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que
se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam
furiosos.
Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da
patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.
—Pois o tio Joaquim?...
—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou
em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de
vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do
exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde
ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria
emquanto tivesse forças para uma espingarda.
Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam,
juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as
feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais
afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do
frade.—
Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças
se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um
mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de
descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.
Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem
descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para
aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos,
que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.
Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos
de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas
inauditas.
Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão
celebrados inimigos.
Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte,
até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos
nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma
bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia
horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular
algumas palavras.
Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado
insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...
VI