Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não

fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura,

este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me

entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne,

e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da

conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia

antes que de todo me apartasse do mundo.

Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam

destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então

já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora

quizessem.

Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais

ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do

agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes

não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a

esposa futura de seu filho.

Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.

Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus

haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da

provincia.

Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro

placido e desassombrado de cuidados.

Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras

conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte

annos nas veias tremulas e agitadas.

Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura

infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não

tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração,

quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso

veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos

olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher

ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se

devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do

ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a

resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar

d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem

ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que

resistisse, nem coração que se não dobrasse.

Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que

professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de

espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no

inferno poderiam padecer assim.

Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu

irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me

não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu

irmão, que comigo não lastimasse.

Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia

estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não

via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo.

Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro

amor.

Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me

denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não

imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella

animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com

as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu,

transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que

lhe chammejava na alma.

Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por

aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para

descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os

olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que

fôra a propria vigilia.

Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu

irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca

esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava

a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em

tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.

Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e

porque era por uma irmã.

Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto

elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar,

presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas

duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.

Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada

dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações.

Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo

apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes

lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com

as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir,

em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços;

outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não

podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe

quanto a amava.

E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me

fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas

narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me

retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas

descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um

transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim

desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.

Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me

accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via

raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!

Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais

cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos

e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava

uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção,

cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades

sobre os esposos.

Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a

Christo: tambem sei o que é o Golgotha!

Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de

tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei

respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me

perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e

fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.

Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei

a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia

que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um

grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me

de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas,

fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi

passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de

todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e

comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.

Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em

sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim.

Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova

vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a

correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.

Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e

facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para

duvidar.

Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao

meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia,

tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que

não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:

—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua

infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era

impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela

desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão,

adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.

Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as

solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para

ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que

hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues

cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O

que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que

arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre

pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é

morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.

Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos

mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior

cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o

exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.

Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»

Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha

cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela

meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito

e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me

lembrei e não padeci.

IV

O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade,

que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre

todo o paiz.

Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as

povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo,

o incendio, o forçamento e o sacrilegio.

Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim

por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto

ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma

andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo

uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de

perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.

Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal

eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em

que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para

que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me

haviam feito padecer.

Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação

proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento.

Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia,

vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se

misturava e confundia.

Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante

alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu

á porta da cella aberta de par em par.

—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de

viajante e caminha!

Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me

effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de

Josaphat.

—Que quer de mim, meu pae?

—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta.

Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes

ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas,

nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o

padre perseguido se assim o encontrarem!

A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos

da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio

avançam cada vez mais.

Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe

o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as

suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha

parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que

estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu

espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o

gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do

que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras

affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros

abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na

esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor,

atravez das hostes dos infieis.

—Mas, meu pae, que aconteceu?

—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e

povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade

que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que

se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem,

assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as

muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em

motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos

expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra

em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não

cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude

a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem

percorrer o teu Getsemani.

Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os

gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos

frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por

tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e

irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que

impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo

pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto;

resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me

matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que

tinha tão grande horror.

Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se

de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e

bradou-me com voz terrivel:

—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo?

Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais

cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter

deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a

minha maldição comtigo.

E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me

porém, e respondi-lhe:

—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo,

como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria;

voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que

vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que

me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto

me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou.

Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não

apartarei do seu lado.

O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos:

—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja

esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e

infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo.

Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e

se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os

frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos,

espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os

pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares.

Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que

a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação

naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os

animos.

Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar

os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor

futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem.

As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria,

pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons

misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões

e redemoinhos como o vento da tempestade.

Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado,

a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da

vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto

os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo

annunciava a approximação dos guerrilhas.

Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos

quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos

tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças

e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade,

avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram,

erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo

dos agonisantes.

As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença;

ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e

apontaram as espingardas.

Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:

—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades

obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros

partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só

feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.

Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou

o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se,

de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.

Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira

descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.

V

Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a

devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus

movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos,

e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os

telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não

satisfazia.

A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca,

confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao

céo, accudiu-me ao pensamento.

—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos

surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação,

e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos

depois sobre o que temos que fazer.

—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.

Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha

vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha

cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida!

Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me

apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia

ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.

Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que

lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra

de exterminio.

Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de

annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se

tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não

poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo

que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do

insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos

que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.

Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me

preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo

caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.

Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre

pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...

As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por

momentos antes de poder proseguir.

—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha

indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me

contará o resto.

—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras

vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.

Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os

thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados

por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que

por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia

começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.

Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se

vingarem das suas negativas.

—E Margarida?

—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de

meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.

—Pois quê?...

—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que

se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam

furiosos.

Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da

patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.

—Pois o tio Joaquim?...

—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou

em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de

vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do

exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde

ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria

emquanto tivesse forças para uma espingarda.

Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam,

juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as

feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais

afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do

frade.—

Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças

se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um

mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de

descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.

Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem

descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para

aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos,

que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.

Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos

de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas

inauditas.

Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão

celebrados inimigos.

Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte,

até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos

nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma

bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia

horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular

algumas palavras.

Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado

insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...

VI

Os contos do tio Joaquim · 第 13 / 14 段