Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha

estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus

paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão.

Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos

meus mais proximos parentes!

A guerra estava a acabar.

Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os

vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela

fuga, ou pelo homisio.

Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado

espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si

as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus

companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como

nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido

tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos.

Á noite entrei na povoação.

Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais

affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao vêr-me:

eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.

—E Filippe?

Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao

primeiro fratricida:

—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?

Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:

—Morto!

E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.

Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o

sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia

accusar-me pela bocca de Margarida.

A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido.

Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe

haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi

inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de

padecer.

Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado,

poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei

durante esses mezes.

Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos

pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados

e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de

noite e de dia para acudir á pobre enferma.

Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A

paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o

precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força

ao vêr aquella santa e boa rapariga.

Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto via

que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora,

porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque

horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que

os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um

nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle,

d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de

amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.

O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto,

esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos

meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos

os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a

unica mulher que havia amado.

Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por muito

tempo.

Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis

recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por ahi

abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não

poude esquecer ainda!...

VII

O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado

resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino depois de tangido,

e que por muito tempo vae abalando o espaço.

Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a

encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando

o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A

natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente

manifestação.

Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e

começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia

muito escuro.

O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma

creança. Não parecia d’este mundo.

Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada,

volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de

um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia

do velho.

Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do

velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e

varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.

Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas

horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio

Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.

Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço

chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.

Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.

FIM

NOTAS

[1] Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno conto apparecia

publicado, recebia o auctor uma carta do sr. A. F. de Castilho, em que

dizia: _amigo, pelos seus retratos de familia receba um bom abraço do

seu etc., etc._ Estas poucas palavras valeram para a pessoa a quem se

dirigiam, mais do que largos e empolados juizos criticos. Regista-as

aqui, não por vaidade, não por desvanecimento; mas só como um testemunho

da verdadeira estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta.

[2] S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26.

[3] S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34.

Os contos do tio Joaquim · 第 14 / 14 段