E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza

varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado.

Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os

aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se

emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma

aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que

estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um

d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico

sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar

com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas.

Agueda desconhecia-o e pasmava.

—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal,

exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração.

Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente:

—Todos me têem julgado como eu não merecia. A solidão tem-me feito

amadurecer muito, e se não fallo, penso. Dizem que o mocho é prudente

e assisado, e entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como

a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o pintasilgo.

Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto folgam e brincam á luz do

sol mergulha-se no escuro e recata-se no seu souto. As horas de solidão

valem mezes de viver em companhia, e os dias de abandono ensinam mais do

que os annos de carinhos e meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre

desamparado, só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse palavras,

como tenho idéas; mas vou a fallar, não sei, e fico-me...

—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo.

—Que queres, os fructos quando veem ao chão, ou pedram-se e fazem-se

ruins; ou amadurecem mais depressa. Não tinha queda para ruim,

deitaram-me por terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas?

—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos defuntos. O João da Josefa

do tio Domingos, foi lá ter atraz de uma ovelha e viu uma aventesma

surdir-lhe de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?...

—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados para mim. Procurei saber o

que era. Entrei, e vi uma cousa que não esperava.

Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas até ao chão e

formavam columnas, como as do altar-mór da egreja; mas quanto bem mais

formosas! Pareciam feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava

pela bocca da cova e a que eu levava do archote, saltavam de columna para

columna, brincavam n’aquellas laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas,

revira-voltas, como se fossem um cardume de lusilumes. E eram luzes de

todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr de rosa; como n’aquelle

fogo de vista que deitaram os homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar,

andava a cabeça á roda.

—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para que foste lá?—E

appareceu-te algum phantasma?

—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o que eram aquellas

columnas, e como estavam alli em pilha tantas pedras preciosas, sem que

tomassem conta d’ellas?

—E elle o que te disse?

—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada

mais.

—Ora!

—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra,

como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de

caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha

outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam

devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo.

Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava

a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e

parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe

as fórmas...

—Pois isso póde ser!

—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem

escondida do mundo.

A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos

secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas,

a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso

perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e

escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se

em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de

tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo.

Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas

advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia

seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que

renovou o dialogo.

—Pois sempre queres partir?

—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho

esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão

restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e

somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu

anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados,

quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e

n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te

quanto passei por amôr de ti.

Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como

o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em

qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse,

havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia.

Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar.

Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola

para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia

cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia

porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura,

que se lhe representava em suas allucinações.

Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o

alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil,

deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma

que trouxera sempre. Acceitou.

Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono

havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças,

nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o

desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a

sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão.

Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda

recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta

ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das

correntes e das tempestades.

Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para

Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar

fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de

novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde

conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a

vêr a sua Agueda.

—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração,

ainda está á espera d’elle?

—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado

do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar.

—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida?

—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos

pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda.

—O tio Joaquim não lhe disse nada?

—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem, fugiu-lhe a noiva,

morreu-lhe a mãe, está só!

Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára esta historia, a tarde

estava muito amena, e o descair do dia ganhava os doces encantos da

tristeza.

O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo: e a melancholia

começou a tomar conta de mim. Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao

logar para espairecer. Saimos.

Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação; grande novidade

ia pela botica. As velhas entravam, saiam, segredavam umas com as outras,

levantavam os braços ao ar e voltavam para saber e contar novas coisas.

Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as attenções. O pobre

Thomaz jazia banhado em sangue. Fôra encontrado cahido no fundo de uma

trincheira, que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára

a cabeça e os braços de encontro ás pedras que estavam em baixo.

Restava-lhe pouco tempo de vida.

O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o logo e

sorriu-lhe tristemente.

—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho narrador.

—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda; em pouco vou ser muito

rico.

Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim, disse-lhe que

socegasse.

—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre a lida. Agueda, tinha-se

cançado de esperar, nem todos têem paciencia como eu tive... Corri á

minha arvore, já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os campos

estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas pelo pisar dos

trabalhadores do caminho, as aves tinham fugido espavoridas com os tiros

das minas na pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo...

De repente, poude vêr, com os olhos arrasados de lagrimas o meu anjo no

mesmo logar a olhar para mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas

mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle, fitando-o sempre...

Faltaram me os pés... Cahi... Mas sei que me hei de levantar em breve, e

d’esta vez hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar... Até que

em fim... comprehendi-o... Dizia-me que estava longe... bem longe...

E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade... a riqueza... debalde

as procurei na terra;... mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu.

Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz dos passarinhos, como

por alli lhe chamavam, era cadaver.

XII

A historia do narrador

I

Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim.

Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia

mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára

interrogal o; mas debalde sempre.

Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.

Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante

nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava

horas sem dar palavra.

Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões

parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas

indiscretas, ou observações futeis.

Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava

tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava

sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me

sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.

O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e

encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um

observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém

espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos

encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros,

trasgos, almas penadas e cemiterios.

Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.

Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que

empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos

triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.

—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas

onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca

d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia

que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe

podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A

amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se

da polpa e não queira saber do caroço.

E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.

Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia

escolhiamos por ser mais recatado e só.

Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado,

eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque

receava experimentar e sentir tambem.

Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas

da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que

ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára

ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava

conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos

a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos

podiam inquietar os conhecidos.

A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o

recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que,

mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a

costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.

Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos

limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou

avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só,

parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia

com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela

agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento.

Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de

Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia

de navios e de animação.

Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a

meditação.

Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas

vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras

caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de

todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos

olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle

retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos,

qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte

facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.

A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura

das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como

esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia

feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos

cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua,

offereciam um bom poiso para descançar.

Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós,

o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a

perder-se no espaço.

Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo

surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu,

aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a

indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de

nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com

essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me

levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que

poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e

agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande

amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não

estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro

que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente

destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha

imaginação apaixonada.

Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se

traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão

limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e

onde deve ir um dia.

Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era

feliz soffrendo assim.

O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das

pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava

a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão

parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo

apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.

Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos,

o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade

e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um

grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso

bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa

da malta e do canto da lareira.

Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir

ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára

de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua

companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto

da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado,

que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como

costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para

elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.

—Chora, tio Joaquim?...

—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como

envergonhado, eu tambem não reparava.

—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario

fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!

—Muito! Mas não tem duvida.

—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das

suas tristezas?

—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as

alheias.

—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?

—Bem sei que não é, mas...

—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que

desejo saber a sua vida!

—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?

—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e

para o poder consolar.

—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde.

Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem

sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo

na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse

vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras

e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.

E o tio Joaquim deu começo á sua historia.

II

Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos

tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois

unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era

o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo,

estava destinado para frade.

Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos

conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens

sacras o filho segundo em quasi todas as familias.

Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da

Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe

de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob

sua protecção.

Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me

tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades

gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e

davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria

pois com outra gente.

Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa mãe, que a mais não

alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada

vocação.

Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a

aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito

melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia

seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á

regra conventual.

Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que

dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos.

Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que

encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos

para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr.

João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de

todo ao recolhimento claustral.

Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus

paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de

ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo.

N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso

a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a

guerra da Russia.

Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras

particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a

cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos.

Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não

tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.

Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este

mesmo facto.

Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava

mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo

gellado.

Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte,

queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida

com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.

A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte.

Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe

devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a

alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um

desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.

Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem

transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os

frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e

conventos.

Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o

mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela

leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real,

que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos

accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda,

se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.

Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos,

indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia,

mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão

e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir

sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.

Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos

meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim

embevecido.

Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do

estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades

lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que

nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa.

Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo,

posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando

em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em

convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu

convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o

peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João

fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio

commum com os outros educandos e noviços.

Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!

Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado

na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de

tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado.

N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou o suor que lhe

corria a fio da testa, curvou-se para a lapasinha proxima, tomou uma

pouca d’agua nas mãos, bebeu soffregamente; renovou a respiração umas

poucas de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo, accendeu-o e

passado algum tempo proseguiu na sua narração.

III

Os contos do tio Joaquim · 第 12 / 14 段